O trecho paulista da Bacia Hidrográfica do Paraíba do Sul

Rio Paraíba do Sul, quando cruza o município de Cruzeiro (SP), com a Serra da Mantiqueira ao fundo. Fonte: Wikipédia. Data: 2014.

A porção paulista do rio Paraíba do Sul (também chamada de Alto Paraíba do Sul) ocupa uma área de drenagem de 14.444 Km², onde vivem 2,1 milhões de pessoas, abrangendo 34 municípios de nossa região. A bacia de drenagem de um rio, segundo Teixeira et al. (2009, p. 308), inclui todos os afluentes que deságuam na drenagem principal e eventuais lagos associados a esse sistema, ela é separada das bacias de drenagem vizinhas por divisores de água (elevações topográficas), como as serras do Mar, da Bocaina, Mantiqueira e Quebra-Cangalha, por exemplo

Dentro dessa região hidrográfica há 16 unidades de conservação, com destaque para os núcleos do Parque Estadual da Serra do Mar (PESM) e o Parque Nacional da Serra da Bocaina (PNSB), recentemente tombado como Patrimônio da Humanidade. Ambas as unidades são de proteção integral. Todas essas unidades de conservação visam preservar as seguintes vegetações: Floresta Ombrófila Densa, Floresta Estacional Semidecidual, Floresta Ombrófila Mista Alto Montana, Campos de Altitude e Floresta Ombrófila Mista. A área ocupada com vegetação natural remanescente corresponde a 3.846 Km², o que equivale a 26,5% da área de drenagem da bacia.

Mapa mostrando o trecho paulista da Bacia Hidrográfica do Paraíba do Sul. Fonte: Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos. Data: 2015.

O rio Paraíba do Sul é formado pela confluência dos rios do Paraibuna, que nasce no município de Cunha (SP), no bairro da Aparição; e do Paraitinga, que nasce no topo da Serra da Bocaina, no município de Areias (SP). A junção dos cursos d’água ocorre onde hoje é a área alagada da Usina Hidrelétrica de Paraibuna, pertencente à Companhia Energética de São Paulo (CESP), localizada entre os municípios paulistas de Natividade da Serra, Paraibuna e Redenção da Serra. Da nascente na Serra da Bocaina até a foz em Atafona, município de São João da Barra, no norte do estado do Rio de Janeiro, o Paraíba do Sul realiza um percurso de 1.137 km de extensão, até alcançar o Oceano Atlântico. Seus principais afluentes no trecho paulista são: Paraibuna, Paraitinga e Jacuí (formadores); Jaguari, Uma, Buquira, Ferrão, Embaú, Piquete, Bocaina, Pitangueiras e Itagaçaba (tributários).

Imagem de satélite da foz do Paraíba do Sul, mostrando o seu delta assimétrico dominado por ondas, formado pelo acúmulo de sedimentos ao longo de milhares de anos. Imagem: Divisão de Sensoriamento Remoto – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Data: 2019. Fonte: Flickr.

As principais atividades econômicas desenvolvidas são a agropecuária (rizicultura, pecuária leiteira e de corte, milho etc.), indústria e pesquisa tecnológica (automobilística e aeroespacial), química e alimentícia (laticínios, principalmente), o turismo (religioso, ecológico, de montanha, cultural etc.), comércio e serviços e mineração de areia. A maioria dos municípios que estão inseridos dentro da bacia hidrográfica é pobre e vulnerável socioeconomicamente, com a exceção de São José dos Campos, Guararema, Jacareí e Aparecida (SEADE, 2018), que foram classificados e. Índice Paulista de Responsabilidade Social (IPRS) como dinâmicos, isto é, municípios com índice elevado de riqueza e bons níveis nos indicadores sociais (longevidade e escolaridade médio /alto). Os municípios que são cortados pela Serra do Mar e da Bocaina apresentam os piores indicadores sociais da região, como é o caso de Cunha.

Outros indicadores ambientais: 99,7% dos resíduos sólidos são destinados a aterros sanitários adequados; 91,1% do esgoto urbano é coletado, porém, apenas 63,9% é tratado; a redução da carga orgânica poluidora do esgoto doméstico foi de apenas 40,2%; a demanda total (superficial e subterrânea) corresponde a apenas 10,7% da vazão do rio Paraíba do Sul, no trecho paulista, o que mostra uma baixa pressão sobre os recursos hídricos disponíveis; dos 21 pontos de coleta de água de rios da bacia para análise, 4 foram qualificados como ótimos, 18 como bons e apenas 1 como regular, o que favorece a proteção da vida aquática.

Rio Paraíba do Sul na proximidade de sua nascente, na Serra da Bocaina. Imagem: Marco Cruz. Data: 2011. Fonte: YouTube.

Por estar localizado entre as duas maiores metrópoles do país, o rio Paraíba do Sul sofre com a poluição de suas águas, seja pelo esgoto doméstico ou pelo industrial. Além disso, boa parte de suas cabeceiras, onde estão as nascentes, estão desmatadas e degradadas. Todavia, trata-se de um rio de suma importância social: abastece mais de 14,2 milhões de pessoas, pois parte de suas águas são desviadas para a bacia hidrográfica do rio Guandu, com a finalidade de gerar energia e abastecer a população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Outros usos de suas águas são para irrigação (na rizicultura no Vale do Paraíba paulista, principalmente), geração de energia hidrelétrica e diluição de esgotos, este é uma das principais fontes de poluição do rio Paraíba do Sul, sobretudo nos trechos que cruzam as áreas urbanas. A vazão média do rio Paraíba do Sul, na divisa com o estado do Rio de Janeiro, é de 217 m³/s e a vazão mínima é de 72 m³/s, ou seja, cerca de um terço da vazão média. A situação é preocupante, pois só neste século o rio Paraíba do Sul já passou por duas crises hídricas, a primeira em 2004 e a última entre 2014 e 2016, atingindo sua fase de maior escassez em 2015. Nessas crises, as vazões diminuem muito, devido à baixa precipitação, causando impactos nos níveis de armazenamento dos reservatórios e, consequentemente, na irrigação, na geração de energia e no abastecimento de água para a população. A precipitação média no trecho paulista da bacia é de 1.385 mm ao ano. Devido à escassez hídrica e alta demanda das regiões metropolitanas do entorno, a água do Paraíba tem sido alvo de disputa entre as unidades federativas. Por isso e pela sua relevância ambiental, projetos que objetivem recuperar o rio – da nascente até a foz – são para ontem.

Vídeo com imagens de drone da foz do rio Paraíba do Sul, no norte fluminense. Fonte: YouTube / Canal Macaé Drone. Data: 2021.

Referências:

AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO (ANA). Paraíba do Sul. Disponível em: < https://www.gov.br/ana/pt-br/sala-de-situacao/paraiba-do-sul/paraiba-do-sul-saiba-mais >. Acesso em: 19 out. 2021.
FUNDAÇÃO SEADE. Índice Paulista de Responsabilidade Social. São Paulo: Fundação Seade, 2018. Disponível em: < http://www.iprs.seade.gov.br/ >. Aceso em 19 out. 2021.
RIO PARAÍBA DO SUL. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2021. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Rio_Para%C3%ADba_do_Sul&oldid=62208470 >. Acesso em: 19 out. 2021.
SÃO PAULO (ESTADO). Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE). Comitê de Bacias Hidrográficas do Rio Paraíba do Sul (CBH-PS). Capacitação de agentes no processo de gestão de recursos hídricos em atividades de educação ambiental. Taubaté (SP): CBH-PS, 2009.
SÃO PAULO (Estado). Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos. Guia do Sistema Paulista de Recursos Hídricos. 3. ed. São Paulo: SSRH, 2015.
TEIXEIRA, W. et al. (org.). Decifrando a Terra. 2. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2009

Mata Atlântica está se regenerando no município de Cunha

Rio Paraibuna cortando o Parque Estadual da Serra Mar – Núcleo de Cunha. Foto: Instituto Florestal.

Segundo os levantamentos feitos pelo Instituto Florestal do estado de São Paulo, as áreas nativas de Mata Atlântica no município de Cunha vêm aumentando nas últimas décadas. Em 2005, Cunha contava com 35.048 hectares de vegetação nativa, ou seja, 26,3% do seu território (IF, 2005). Atualmente (IF, 2020), Cunha conta com 48.598 hectares de cobertura vegetal nativa, o que corresponde a 34,5% do seu território. Um aumento de quase 10% nos últimos 15 anos, com 13,5 mil hectares regenerados, o que corresponde a cerca de 19 mil campos de futebol. Um aumento significativo, já que não houve nesse período nenhum programa municipal, estadual ou federal que incentivasse o reflorestamento com mata nativa. Muito mais poderia ter sido feito e recuperado, se houvesse. Já passou da hora do município ter uma unidade de conservação própria. Quem sabe na nascente do rio Jacuí ou mesmo na do rio Paraibuna…

Evolução do uso e ocupação do solo no município de Cunha ao longo de 20 anos.

Nas imagens observadas, o fato mais visível é o avanço das plantações de eucalipto (silvicultura), sobretudo no bairro da Várzea do Tanque. Mas isso é uma análise superficial. Análises espaciais a partir de sensoriamento remoto, utilizando softwares e métodos científicos, indicam que a cobertura vegetal do bioma original está em franca recuperação.

Situação do uso e ocupação do solo no município de Cunha nos últimos anos.

O município de Cunha possui mais um terço de seu território coberto por matas nativas é um valor bastante significativo no contexto estadual, sobretudo pelo fato do município já ter mais de 300 anos de colonização. Ainda mais porque desde a década de 1940 desenvolveu uma pecuária (leiteira e de corte) extensiva, rudimentar, muito danosa aos solos e à biodiversidade, com o plantio em larga escala de uma praga biológica chamada braquiária.

O motivo do aumento está relacionado muito mais às mudanças econômicas vivenciadas por Cunha nas últimas quatro décadas do que uma suposta tomada de “consciência ambiental” por parte de seus habitantes. Pode-se apontar alguns fatores que contribuíram para o aumento das áreas de mata nativas:

  • A criação de duas unidades de conservação abrangendo parte do território do município na década de 1970;
  • O aumento da fiscalização por parte da Polícia Militar Ambiental e dos demais órgãos controladores e fiscalizadores;
  • Êxodo rural e diminuição progressiva da população rural cunhense ao longo do século XX e início do século XXI;
  • Avanço no desenvolvimento turístico do município e valorização da paisagem como objeto de consumo, fomentando o turismo rural e ecoturismo, atividades em que as coberturas florestais apreciadas e objetos de atração;
  • Aumento dos sítios de veraneios, condomínios rurais e pousadas, cujo proprietários são pessoas de “fora”, que não dependem da agropecuária (setor primário) para custeio e sobrevivência, portanto podem deixar as pastagens se regenerar em matagais. Há uma refuncionalização, convertendo áreas agrícolas em áreas de lazer e turismo (setor terciário).

Entre outras coisas, vale ressaltar que: “Entre as décadas de 1960 e 1980, a atividade agropecuária no Vale do Paraíba diminuiu 13%, o que contribuiu para a estagnação dos índices de desmatamento na região. Desde então, a Mata Atlântica iniciou um processo espontâneo de regeneração. Muitas terras abandonadas se converteram em pequenos bosques de vegetação secundária, resultando em um aumento da cobertura florestal” (ANDRADE, 2017, p. 38). Entretanto, segundo estudos de SILVA (2016), não é uma regeneração zonal, mas por capões de matas, em áreas onde a pastagem e a lavoura foram abandonadas pelos proprietários. Esse tipo de regeneração aponta para a necessidade de se criar um corredor ecológico para que possa conectar essas manchas de matas secundárias, para que a recuperação possa ser mais efetiva, sobretudo para a fauna originária, sempre ameaçada por caçadores, pela destruição do seu habitat e pela falta de alimentos.

Vale lembrar que Cunha possui 2 unidades de conservação com áreas dentro do seu território: o Parque Estadual da Serra do Mar (Núcleos: Cunha e Santa Virgínia) e o Parque Nacional da Serra da Bocaina. Essas duas unidades de conservação são responsáveis por garantir a preservação de 8% do território municipal. Cunha é também onde nasce o rio Paraibuna e onde se forma o rio Paraitinga, formadores do rio Paraíba do Sul, maior curso d’água localizado entre as duas maiores regiões metropolitanas do país: São Paulo e Rio de Janeiro.

Referências:

ANDRADE, R. de O. Floresta revigorada. Pesquisa FAPESP, São Paulo, n. 259, p. 36-39, set. 2017.

SÃO PAULO (Estado). Secretaria do Meio Ambiente. Instituto Florestal (IF). Inventário florestal da vegetação natural do Estado de São Paulo. São Paulo: Imprensa Oficial, 2005.

SÃO PAULO (Estado). Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente. Instituto Florestal (IF). Resultados do Mapeamento Temático da Cobertura Vegetal Nativa do Estado de São Paulo: Inventário Florestal do Estado de São Paulo – 2020. Disponível em: < https://smastr16.blob.core.windows.net/home/2020/07/tabela-municipio-inventario-florestal-if-2020.pdf >. Acesso em 5 jun. 2021.

SILVA, R. F. B. et al. Land changes fostering Atlantic Forest transition in Brazil: Evidence from the Paraíba Valley. The Professional Geographer. 2016.

Animação com as imagens de satélite do município de Cunha: https://www.facebook.com/Jacuhy/videos/276074534204469

Fonte das imagens de satélite: Google Earth.