Inauguração do Monumento a Paulo Virgínio

Era um domingo, 20 de abril de 1958, dia em que se comemorou o “Centenário de Cunha”. Celebração que tomou por base a data de 20 de abril de 1858, quando Cunha foi elevada à categoria de cidade. Como já discutimos aqui e em outros lugares, essa data não teve relevância histórica. Voltemos ao assunto do post.

Em Cunha temos apenas um monumento referente à Revolução Constitucionalista de 1932. É o dedicado a Paulo do Virgínio (alcunha de Paulo Gonçalves dos Santos). Um trabalhador rural do bairro do Taboão, que durante a guerra civil foi torturado e fuzilado por um grupo de soldados da Marinha, a saber: o 1º tenente Ayrton Teixeira Ribeiro, o sargento Roque Eugênio de Oliveira e os soldados Juvenal Bezerra Monteiro, Ascendino Gomes da Silva Dantas e Raymundo Jeronymo da Costa, integrantes do corpo de fuzileiros navais da Marinha do Brasil. Todos foram absolvidos Supremo Tribunal Militar. Mataram um civil e foram julgados por um tribunal militar. Era possível esperar justiça?

Os restos mortais de Paulo Virgínio foram transladados de Cunha no dia 7 de julho de 1955, após celebração de missa na Igreja Matriz. Daqui partiu para ser sepultado, de forma definitiva, no Mausoléu dos Heróis de 32, no Parque do Ibirapuera, na capital. O cortejo do “herói de Cunha” foi acompanhado durante todo o trajeto pelos batedores da Força Pública (Polícia Militar).

O Monumento, entretanto, foi erguido em 1958. Assim informou o Estadão (22 abr. 1958):

Vídeo da inauguração do Monumento a Paulo Virgínio, em 20 abr. 1958. Filme feito pelo Dr. Lescar Ferreira Mendes, advogado e jornalista cunhense. Evento filmado em 16 mm preto e branco, com câmera Bell & Howell Filmo 70 ou Bolex H16, a 18 quadros por segundo, utilizando filme pancromático Kodak Plus-X. Digitalização feita na década atual. Acervo: Família Mendes.

“Cunha prestou domingo último, por ocasião dos festejos comemorativos do seu centenário de fundação, tocante homenagem aos heróis de 32. A nove quilômetros da cidade, em cerimônia que reuniu mais de cem veteranos de 32, sob o comando do general Valdemiro Meirelles Maia, foi entregue ao povo um monumento a Paulo Virginio, herói de Cunha, no mesmo local onde tombou, metralhado pelas tropas da Ditadura.

Apesar das dificuldades de transporte, agravadas pelo mau tempo, o povo participou quase em sua totalidade das comemorações do centenário. Às 12 horas e 30, estudantes, autoridades, veteranos de 32 dirigiram-se em caminhões lotados, para o local da cerimônia de inauguração do monumento a Paulo Virginio. Lá chegando, depois do toque de marcha batida, o general Valdemiro Meirelles foi solicitado a assumir o comando do pelotão de veteranos de 32. Estes se apresentavam com capacetes, e eram chamados por ordem hierárquica. À frente deles, senhoras paulistas de 32, todas de preto, postavam-se em fila. Entre as presentes anotamos as seguintes sras.: Julieta Nunes Pereira, representando, também, o Clube Piratininga; Adelaide Correia Ribeiro; Rosa Lanza de Castro; Edith Pereira da Silva.

Antes do descerramento do monumento, o gen. Valdemiro Meirelles pronunciou algumas palavras de improviso, iniciando por dizer que se encontrava ali para suavizar saudades. Ali, naquele mesmo local, lutara por São Paulo, lutara pelo Brasil. Considerando as causas da Revolução Constitucionalista, declarou que São Paulo sofrera uma injustiça, na época, ao se lhe atribuir ideais separatistas. “Nada mais falso pois só é fundamentalmente brasileiro quem é fundamentalmente paulista. O povo queria apenas a Constituição, o direito de votar, de escolher”. Referindo-se, depois, ao nível de politização do povo, o gen. Meirelles declarou que se “naquela época eu comandei paulistas desarmados, hoje comando paulistas armados de civismo. A cruz é, antes de tudo, uma escola de civismo”, terminou o orador, apontando para o monumento a Paulo Virginio, que tem a forma de uma cruz. Referiu-se, também, o orador, à personalidade de Paulo Virginio, o caboclo que preferiu morrer a revelar às tropas invasoras o local da defesa paulista.

Página do jornal O Estado de São Paulo, em 22 de abril de 1958, noticiando a inauguração do Monumento e o “Centenário de Cunha”. Fonte: Acervo Estadão.

Foi prestada, depois, continência à bandeira brasileira, que foi içada pelo prefeito local, sr. Antonio Acacio Cursino. Na ocasião, além do próprio prefeito, falaram vários veteranos de 32, entre eles o sr. Mercio Prudente Correia, Cesar Salgado, o juiz de Direito da Comarca, dr. Paulo de Campos Azevedo, que agradeceu em nome de Cunha, o monumento a Paulo Virginio, dona Julieta Pereira Nunes, representando a mulher paulista, que foi convidada a descerrar o monumento, coberto com a bandeira de São Paulo. Precedeu o ato o toque de silencio, realizado por um veterano de 32. Em seguida, foi realizada a cerimônia da benção do monumento pelo padre Rodolfo Ignácio que oficiou, depois, missa campal. Em vista da chuva que caia abundante, após a missa rumaram todos para Cunha, a fim de participarem de um banquete, no Hotel Paulista.

O monumento a Paulo Virginio está situado numa elevação, no bairro do Rio Abaixo, no município de Cunha. É antes um túmulo, todo de granito sobre o qual uma grande cruz se ergue. Na lápide, numa placa de bronze, lê-se o seguinte epitáfio: ‘Aqui, aos 28 de julho de 1932 morreu Paulo filho de Cunha, herói e mártir fuzilado pela Ditadura. Homenagem da Sociedade Veteranos de 32 – MMDC, no seu 25ª aniversario’.”

Obviamente, tal monumento só pode ser inaugurado após o fim da ditadura do Estado Novo (1937-1945), que censurava qualquer manifestação de orgulho paulista, sobretudo aquelas que se fundamentavam na Revolução de 1932. Em 1958, o Brasil gozava de um regime democrático e expressar o orgulho de ser paulista estava na moda, consequência das celebrações exaltadas de 1954, ano em que a cidade de São Paulo celebrou, com pompa e ufanismo, seu IV Centenário de fundação.

Paulo Virgínio foi o herói caipira que a Revolução precisava. Torturado e morto por fuzileiros navais, que foram absurdamente absolvidos, sua morte foi um prenúncio dos tempos sombrios que viriam 32 anos depois.

Localização do Monumento a Paulo Virgínio (SP 171 – Rodovia Vice-Prefeito Salvador Pacetti):

A cidade dos palácios abandonados 

Por Miguel Ângelo Barros Ferreira *

O que impressiona desde logo o visitante é uma espécie de majestade ao abandono. Tem-se a impressão de que o tempo ali parou tudo deixando como antes. A enormidade da matriz expressa uma grandeza remota. Não bastava apenas muita fé. Era preciso muita riqueza para custear um templo de tais proporções. Não há em todo o estado de São Paulo, da mesma época, nada que se lhe compare. Um pormenor marcante é a existência do primitivo pelourinho, ainda na praça central, defronte da matriz. Deram-lhe função moderna. Fizeram dele lampião. Em volta, há uma espécie de ciranda de casas térreas, de paredes de taipa, denunciando, pelo aspecto venerável, que fizeram mais de cem anos. E há sobrados imponentes, com sacadas providas de grades ricas, proclamando uma riqueza que passou. Nas ruas relativamente largas, que conheceram o alarido das tropas, assenta agora a quietude de uma velha cidade afastada das rotas do comércio. Cunha, atualmente, recorda. É como velha que se senta junto da janela, de olhar perdido no horizonte, e conta o rosário e lembra a juventude. Lá distante, está Parati, que era a sua porta ao mar. É outro rescaldo de grandeza, onde existem telhados com telhas de porcelana vinda do reino e provavelmente importadas da China. Era no tempo dos galeões, do intercâmbio com o remoto Oriente, em que os navios, na volta do mar, vinham tocar e reabastecer-se nestes fartos Brasis. 

Imagem colorizada da rua Eduardo Querido, centro de Cunha, com as igrejas do Rosário e da Matriz ao fundo. Data: 1947. Autor: Alceu Maynard de Araújo.

Do outro lado, alonga-se o vale do Paraíba, por onde correu também a prosperidade nos tempos dessa baga sagrada que se tornou o café. Antes, já por ali escorrera o ouro que descia das Minas e ia fecundando de povoações as terras férteis que marginavam o Paraíba, transformado em roteiro da aventura e, depois, centro de fé, ao dar ao Brasil a imagem venerada da Aparecida. 

Entre esplendores que se apagaram ficou Cunha esquecida, quase isolada, no centro de serras de encostas hostis e bons caminhos. 

Fausto passado 

Como acontece com famílias em declínio que encontram no passado estímulo para a modéstia presente, em Cunha a tradição tem grande importância. O passado vive, palpita nas conversações. Serve de compensação, é motivo de orgulho. O majestoso sobrado em que o duque de Caxias esteve hospedado quando uma vez subiu de Parati e se destinava ao interior de São Paulo merece citação especial. Mas no prédio os anos estão marcados. As largas tábuas do soalho apresentam múltiplas frinchas pelas quais se vê perfeitamente o andar térreo. A escada está com os degraus gastos e range aflitivamente. Porque a tradição tem desses inconvenientes. Assume por vezes o aspecto de paupérrima velhice. Devia ter sido imponente a recepção ao ilustre Caxias. A sociedade próspera daquele tempo compareceu, as damas com seus vestidos mais ricos, as joias mais caras. Parece ainda escutar-se o riso alegre das mocinhas de então, jubilosas por exibirem suas graças e sua opulência. De todo esse encanto juvenil restam punhados de ossos no cemitério local. Mas naqueles tempos… Sim naqueles tempos, tudo era grandioso. Ouro em barra, pedras preciosas em grande número. Há lendas de terem escondido fortunas nas pareces de taipa dos velhos sobrados. 

Dizem que gente encontrou tesouros na demolição de casas antigas. Contam a história do governador das Setes Vilas, homem poderoso, que arrecadava o dízimo da região, cheia de ouro vindo das Minas e em cuja rota Cunha estava. Sua fortuna era imensa. Em 1850, ascendia a oitocentos e cinquenta contos de réis, quantia fabulosa porque tinha apreciável valor aquisitivo a pataca de cobre, que valia 40 réis. E então na casa daquele poderoso senhor, o ouro era medido aos litros como se faz com o feijão, e amontoado em prateleiras. Lá está a casa soberba para atestar tamanho fausto. Defronte dela juntava-se, ao anoitecer, a numerosa escravatura de velas acesas na mão para rezar o terço diante do nicho, em plena rua. O altivo senhor queria obediência e religião. E a escravaria, ao voltar do serviço, ia rezar antes de entrar na senzala. Como seres humanos oravam para, em seguida, como animais serem juntados no ergástulo.  

Tradições e superstições 

Terra antiga que ficou isolada, conservou bem vivo o patrimônio mental, sem grandes alterações. Na ocasião do parto ainda é preconizado soprar numa garrafa com força a fim de acelerar o desfecho feliz. Aliás era recurso primitivo, aconselhado às índias, que, em vez de garrafas inexistentes, usavam bambus. Tinha lógica. O esforço provocava contração dos músculos abdominais constituindo assim um apreciável concurso, como o espirro. 

Muitas das práticas e superstições observadas tiveram origem nos tempos recuados da colonização e ainda são observados nas províncias do norte de Portugal, como o lobisomem que é um ser humano que se metamorfoseia, em certas noites, em lobo e sai a morder o semelhante. As pessoas mordidas transformam-se também em lobisomem. A cura só pode ser conseguida em noite de lua cheia, ferindo o monstro atrás da orelha, com um garfo tridente. Em Cunha, quando o lobisomem é preto dizem tratar-se de um indivíduo negro. Se o cachorro é branco, então o infeliz é branco também. O animal toma a cor da epiderme do ser humano. Colocar teia de aranha e açúcar sobre feridas, considerar a laranja como alimento frio que se deve evitar no inverno, que carne de porco é quente, que só devem comer certos alimentos em meses que não têm “r”, que frutas misturadas com leite fazem mal e envenenam, por uma faca sobre mordida de abelha ou aranha, feiticeiras malévolas, alecrim e arruda contra mau olhado, são crendice que vieram nos galeões, por lá ficaram e ainda hoje se encontram também nas populações rurais peninsulares. 

Conjunto arquitetônico do centro de Cunha, visto da Praça do Rosário. Foto: Robert W. Shirley. Data: 1965.

A Festa do Divino 

A festa do Divino se celebra nas velhas cidades, constitui em Cunha a mais importante das manifestações religiosas e representa o ponto mais alto da vida da comunidade. Não tem data fixa. Varia de acordo com os recursos que o festeiro reúne. Tem que ser grandiosa, pois determina afluência maciça dos moradores da zona rural. Pode-se avaliar o interesse pelo fato de uma população dispersa de vinte e sete mil almas já se ter reunido na cidade num total de cerca de dez mil pessoas. Em importância só se lhe aproxima a festa de S. José, que reúne multidões. Além das cerimônias religiosas, há fogueiras, fogos, “companhias de moçambique” que executam danças próprias, que dizem não ser congada. Cada “companhia” tem um general que carrega o bastão, um capitão e um mestre com funções de dirigente da dança. Vinte dançarinos e doze tocadores de instrumentos formam uma grande companhia de moçambiqueiros. Violas, violão, cavaquinhos, caixas e pandeiros e até violinos integram o grupo de tocadores. O conjunto é constituído geralmente por pessoas aparentadas. Há ainda uma patente superior, o chefe supremo, o “rei”. É quem tudo manda. Poder supremo sem possibilidade de contestação. É uma espécie de patriarca, pois os elementos mais afastados em parentesco são seus afilhados. Irmãos, filhos, sobrinhos e netos desse rei constituem o moçambique, que usa uma espécie de uniforme, constituído por barrete branco, camisa e calças brancas. A camisa e os barretes são enfeitados com lãs de cores. O rei usa uma espécie de coroa. Só ele tem o direito de conduzir a bandeira de S. Benedito. Nas pernas, como se fossem ligas, usam todos uma tira de couro com guizos. Dançam empunhando bastões lisos, com pouco mais de um metro e que esgrimem enquanto volteiam. 

Organizar a festa do Divino é uma honra e um empreitada, pois exige coleta de donativos durante longos meses que são recolhidos em casa do festeiro. Há até um empreiteiro da “folia do Divino”, com sucesso garantido por duas dezenas de anos de prática, conhecedor do meio, amigo de toda a gente e bom tocador de violão e improvisador de modinhas. Daí o seu êxito. 

Contrastes 

Ambiente propenso não apenas à crença, mas também a credulidade e à crendice, ali se verificaram fatos e cenas bem curiosas. Em 1932, quando chegaram forças ditatoriais para ocupar a cidade, tomaram medidas estranhas. Começaram por implantar a desordem, abrindo as portas da cadeia e soltando os criminosos ali detidos. Entre esses figurava um moço loiro, que por não ter maior ocupação folheara uma das Bíblias distribuídas por uma missão protestante. Ao ver-se livre e sem ter recursos resolveu apresentar-se como o “Cristo que voltou”. Arranjou uma espécie de túnica branca, mostrava-se no alto de cupins, com os cabelos compridos, a barba loira crescida. Mandava fazer penitência. Impunha castigos e reparações, que consistiam em boa comida. Levava vida fácil e regalada. Até que um dia escolheu uma caipira jeitosa para companheira. Apresentou-a aos crentes como Virgem Maria. Acreditaram. Até que um dia o viram deitado com ela. Logo esmoreceu a fé. Aquela gente era crédula, mas não imbecil. Levaram o caso ao conhecimento do delegado que interveio com louvável presteza e reconduziu o “Cristo que voltou” à cadeia donde tinha sido libertado indevidamente para cumprir a pena que faltava. 

Sem a mesma gravidade e até cheio de pitoresco, foi o caso de João Camilo, espécie de capelão ambulante da roça. Era um velho preto de alma simples e confusas noções da religião. Influenciado pelo que vira na igreja amarrava um grande jacá em grosso tronco de arvore, à semelhança de um púlpito. E dali falava com confusa eloquência aos seus ouvintes intercalando na oratória deformações de frases latinas, dando a impressão de que rezava como padre… Retivera algumas palavras que ia soltando, repetindo: “oremus, oremus, repcicione Cristu, amem. Ora pronobis Santa Degenis, espeto da justiça, aleluia. O Senhor me ajude que eu também lhe ajudarei”. 

Evolução e estagnação 

Fac-símile da crônica sociológica de Barros Ferreira, publicada no Estadão, em 25 set. 1965.

Depois do período áureo, Cunha ainda cresceu até entrar em estagnação por falta de estímulos econômicos. No entanto, oferece condições magníficas para estância de repouso e cura, com seu clima seco e frio. Poderiam seus campos, a mil metros de altitude, produzir variadas frutas europeias, iguais às que se recebem da Argentina. Uvas de mesa podiam ali ser colhidas em larga escala. A oliveira devia ali produzir bem. É região de grandes frios que “torram” os pastos, segundo a expressão usada e impedem a volta integral à pastorícia, que é um estágio primitivo, um regresso, quando já foi atingida a fase agrícola. Com 2.472 habitantes em 1799, já contava 7.873 em 1872. Em 1886 somava 10.856 o povo do município. Seguiu-se o período da emigração do café do vale do Paraíba, o abandono da rota de Parati. Em 1920, tinha 20.171 almas. 24.818 revelou o censo de 1940. Não houve, portanto, o mesmo impulso no seu crescimento demográfico. A cidade de Cunha que começou opulenta não atingiu o desenvolvimento de outros, de Araraquara, por exemplo, que é muito mais recente e começou infinitamente mais pobre. Ficou segregada e esquecida, a ponto tal que, no movimento de 1932, muita gente orgulhosa de seus conhecimentos geográficos indagou onde ficava e foi procurar sua posição no mapa do Estado, de tal forma fora o declínio de uma das mais opulentas cidades paulistas do século passado. 

Fonte: Crônica extraída do jornal O Estado de S. Paulo, em 25 de setembro de 1955.

* Miguel Ângelo Barros Ferreira (1906-1997) foi um jornalista, historiador e escritor português, que passou boa parte da sua vida no Brasil, na cidade de São Paulo, onde veio a falecer.

Inauguração do prédio da Santa Casa de Cunha – 22 de agosto de 1.954

Arte da página do Jacuhy para a série “Hoje na História de Cunha”. Ilustração de: Felipe Zuñiga.

Há 70 anos, em 22 de agosto de 1.954, era inaugurado o atual prédio da Santa Casa de Misericórdia Nossa Senhora da Conceição de Cunha.

Por ser uma benfeitoria da Igreja Católica, no dia da festa de Pentecostes de 1.943, é criada a “Associação Beneficente Nossa Senhora da Conceição”, que ficaria encarregada de edificar uma “casa hospitalar que será intitulada Santa Casa de Misericórdia Nossa Senhora da Conceição”. Funcionou, provisoriamente, na rua Dom Lino, nº 13, até a construção da atual unidade hospitalar. Liderou os católicos locais nessa empreitada o enérgico padre Séptimo Ramos Arantes. A reunião que decidiu a construção do hospital ocorreu em 13 de junho de 1.943.

Vista do Alto do Cruzeiro, em 1966. Santa Casa se destacando na paisagem. Foto: Robert W. Shirley. Fonte: Museu Francisco Veloso.

Os preparativos para a construção se iniciaram em 1.947, com a aquisição do terreno no Alto do Cruzeiro, através de permuta.

Estiveram liderando a comissão de construção o padre Rodolfo Ignácio Schebesta, provedor da Santa Casa e pároco local, e o Sr. José Rodrigues de Andrade (Zequinha Almada), prefeito de Cunha e tesoureiro da administração da Santa Casa, que se destacou nessa empreitada pelo seu empenho em construir um hospital para nossa cidade. A cerimônia de benção do novo prédio foi concorrida, contando com a presença de autoridades, benfeitores e cunhenses de todos os bairros.

Vale lembrar que não foi o primeiro hospital de Cunha. Antes dela existiu a “Santa Casa de Misericórdia Sagrado Coração de Jesus”, inaugurada em 1.911, no tempo do Dr. Casemiro da Rocha, médico renomado e político influente. Esse primeiro hospital foi obra do ex-prefeito de Cunha Coronel João Olympio Rodrigues de Andrade, do Partido Republicano Paulista. A primeira Santa Casa ficava na Rua Direita (atual Rua Dr. Casemiro da Rocha), onde hoje é o Restaurante Jeca Grill. Sem recursos e estrutura adequada, não durou muito; mas serviu à população cunhense enquanto funcionou, principalmente durante a pandemia da chamada Gripe Espanhola, em 1.918, e até vítimas de acidentes aéreos. Pilotos da fase pioneira da avião nacional, que buscavam, arriscando-se, inaugurar a ponte aérea Rio – São Paulo.

Funcionários e funcionárias da Santa Casa de Cunha reunidos na porta de entrada. Data: década de 1980. Foto: Paulo Henrique de Campos Reis.

Nesses setenta anos, o prédio atual da Santa Casa, no bairro do Alto do Cruzeiro, foi ampliado e reformado várias vezes e continua a ser o único espaço hospitalar de Cunha, atendendo diariamente a população da roça e da cidade e até de outros lugares.

Por ser o único hospital público de Cunha, acaba, muitas vezes, recebendo uma demanda superior à sua estrutura. Referência regional no quesito higiene e limpeza, nossa Santa Casa precisa receber mais recursos das autoridades constituídas, para aprimorar e melhorar seu atendimento.

A Santa Casa de Cunha, em foto mais atual, cuidando da saúde dos cunhenses há 50 anos. Foto: Victor Amato dos Santos.

Fonte: João José de Oliveira Veloso, “A História de Cunha”, pp. 357-358.
Ilustração: Atelier Adamas – Felipe Zuñiga.

PARA SABER MAIS:
Publicação original (22/08/2019): https://www.facebook.com/Jacuhy/posts/pfbid02S1DbmuFvnjghaAQAzYk2JM46cT5brUYdpNNSHCBXALpSb18LkSshdwFVGLVGH77Gl
História da Santa Casa de Cunha: https://santacasacunha.org.br/wp-content/uploads/2021/10/A-Histo%CC%81ria-de-Miserico%CC%81rdia-das-Santas-Casas.pdf
Página da Santa Casa de Misericórdia e Maternidade de Cunha: https://santacasacunha.org.br/institucional/#historico