A queda de um avião da Marinha em Cunha

Imagem ilustrativa gerada por IA (Copilot).

O contexto da viagem

1922, ano emblemático da vida nacional. O Brasil vivia um período muito agitado política e culturalmente. Celebrava os 100 anos da Independência. No Rio de Janeiro, então capital federal, estava em funcionamento a grandiosa Exposição Internacional do Centenário da Independência, inaugurada em setembro. No campo político, o país estava encerrando o governo de Epitácio Pessoa e se preparava para a posse de Artur Bernardes, marcada para 15 de novembro daquele ano. A eleição presidencial havia sido cercada por polêmicas, contestação política e tensão com setores militares. No campo cultural, havia muitos debates sobre modernização e identidade nacional. A histórica Semana de Arte Moderna, realizada em fevereiro em São Paulo, colocou a discussão sobre a identidade cultural brasileira na ordem do dia.

Tudo começou quando o 1º Tenente Engenheiro Maquinista e Piloto Aviador Epaminondas Gomes dos Santos viajou do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, para Santos (SP), integrando a esquadrilha aérea da Armada. O objetivo da viagem era participar das solenidades de assentamento da pedra fundamental do novo Centro de Aviação e da inauguração do posto de Defesa Aérea do litoral paulista.

Tenente Djalma Fontes Cordovil Petit, Tenente Fábio de Sá Earp, tenente Epaminondas Gomes dos Santos, ao fundo, um hidroavião MACCHI M.7, matrícula 35, 1919/1923.
Foto: Marinha do Brasil.

No entanto, a viagem de retorno ao Rio de Janeiro ganhou contornos de urgência e desespero. Epaminondas recebeu a notícia de que seu pai Domingos Gomes dos Santos estava gravemente enfermo em sua residência em Botafogo. Na tentativa de vê-lo com vida, o tenente partiu de Santos, às 13 horas, do dia 28 de outubro de 1922, pilotando o hidroavião Macchi 7, de número 34, com destino direto ao Rio. Era um sábado.

O desaparecimento e as buscas

Hidroavião MACCHI M.7, matrícula 34, nas águas da Baía da Guanabara, 1919. Foto: Marinha do Brasil.

A viagem foi interrompida de forma abrupta. Durante o trajeto, enfrentando intensa cerração (neblina), o hidroavião desapareceu. A ocorrência desse fenômeno orográfico é bastante comum nas partes mais altas da Serra do Mar, no período da tarde.

O primeiro indício do desastre surgiu no litoral do Estado do Rio. Moradores e fazendeiros próximos a Paraty ouviram um ruído estranho e forte de motor voando a baixa altitude, que logo cessou. Acreditando que o aparelho havia caído nas matas de Paraty, uma grande operação de resgate foi montada. O prefeito de Paraty acionou delegados, telegrafistas, instrutores de tiro e experientes caçadores locais. Formaram-se patrulhas que entraram na mata virgem de madrugada, munidas de cornetas e carabinas para emitir sinais. Durante a tarde, o avistamento de uma coluna de fumaça na região da Pedra Branca deu esperanças de que o piloto estivesse pedindo socorro. Paralelamente, a Marinha enviou de Santos outros dois hidroaviões (o nº 11 e o nº 15) para vasculhar a costa em busca do colega desaparecido.

A queda em Cunha

Apesar de toda a mobilização em Paraty, descobriu-se após sete horas de intensas buscas que o avião havia caído no estado de São Paulo. O hidroavião nº 34 sofreu uma queda no Sítio da Barra (Barra do Chico do Lau), localizado a cerca de 17 Km da cidade de Cunha, por trás da Serra do Parati, próximo à divisa interestadual.

Hidroavião MACCHI M.7, matrícula 34, 1919, da Marinha do Brasil.

Segundo os relatos, o Tenente Epaminondas desceu com “rara habilidade”, e a aeronave acabou caindo sobre uma grande árvore, o que foi fundamental para salvar a vida do piloto e evitar consequências piores, embora o aparelho tenha ficado “inteiramente despedaçado”. O acidente não foi atribuído a imperícia, visto que ele era um profundo conhecedor da aviação, mas possivelmente a uma fatalidade climática ou mecânica.

O resgate e o desfecho

Assim que soube do desastre, o prefeito de Guaratinguetá enviou um médico e uma ambulância, que levaram duas horas para chegar em Cunha e prestar atendimento ao piloto. Os primeiros socorros já haviam sido feitos pelos cunhenses.

Houve certa divergência inicial na imprensa sobre o estado de saúde do aviador. Alguns telegramas afirmavam que ele sofrera apenas ferimentos sem gravidade (pequenas escoriações e a perna machucada). Outras notas, porém, informavam que ele não pôde seguir viagem de imediato por estar “seriamente contundido”, com a perna ferida, várias escoriações e um braço luxado, sendo necessário interná-lo no hospital da cidade de Cunha para tratamento. Esse hospital era a antiga Santa Casa de Misericórdia de Cunha, que funcionou em uma casa da Rua Dr. Casemiro da Rocha, n.º 43, nas primeiras décadas do século XX.

Notícia de “O Paiz”, de 30 out. 1922. Fonte: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

O Estado-Maior da Armada enviou o tenente-aviador Paulino Soares até Cunha para acompanhar o colega ferido e providenciar o transporte dos destroços da aeronave.

O desfecho da história, além do susto da queda, foi marcado pela tragédia pessoal. Após receber atendimento médico, Epaminondas seguiu de trem a partir de Guaratinguetá rumo ao Rio de Janeiro. Ao chegar à capital, o tenente aviador recebeu a dolorosa notícia de que seu pai já havia falecido no dia anterior, enquanto ele estava perdido nas matas entre São Paulo e o Rio de Janeiro.

Quem foi Epaminondas?

Epaminondas Gomes dos Santos (1891-1978) construiu uma sólida carreira militar na aviação brasileira, ingressando na Marinha em 1911 e, mais tarde, transferindo-se para o recém-criado Ministério da Aeronáutica, em 1941. Tornou-se aviador naval em 1920, após formar-se pela Real Escola da Marinha Italiana, em Taranto. Após o acidente em Cunha, tornou-se, em 1923, instrutor da Escola de Aviação Naval, assumindo, um ano depois, o comando da Esquadrilha de Aviões de Caça.

Ao longo de décadas, atuou como instrutor, adido no Chile e comandante de bases e zonas aéreas pelo país. Paralelamente à vida nas Forças Armadas, teve ativo envolvimento político: liderou o Clube 3 de Outubro (movimento tenentista ligado à Revolução de 1930) e manteve um firme alinhamento aos ideais de Getúlio Vargas ao longo de sua trajetória.

Notícia de “A Noite”, de 30 out. 1922. Fonte: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

Seu momento de maior evidência pública ocorreu no auge da crise política de agosto de 1954, quando foi nomeado Ministro da Aeronáutica por Vargas logo após o atentado da rua Toneleros. Com o suicídio do presidente dias depois, Epaminondas deixou o ministério (tendo permanecido no cargo por apenas sete dias) e passou para a reserva militar. Anos mais tarde, filiou-se ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e chegou a assumir como deputado federal em abril de 1964, mas teve seu mandato rapidamente cassado pelo regime militar por proferir um discurso em defesa do trabalhismo e do legado varguista.

Fontes:
– Acervo Arquivístico da Marinha do Brasil.
– Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001.
Jornais: O Paiz (RJ), Jornal do Commercio (RJ) e A Noite (RJ). Todos de 1922. Exemplares consultados na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.