A vida imita o cinema

Três estrelas decadentes da sétima arte.

Por Mário Ferreira dos Santos

O cinema tem ido buscar na vida o tema para os seus mais eloqüentes dramas. E muitos olhos humanos têm chorado as dores e as tragédias das heroínas da tela e os corações têm pulsado ante a emoção da vitória dos seus heróis. O cinema tem imitado a vida. Muitas vezes tem-na enobrecido, ornamentando-a com histórias fugidas da realidade, e que povoam os sonhos, de ilusões, terminando, quase sempre com o clássico “happy end”, tão a gosto das platéias vulgares.

Há pouco tempo, o cinema projetou, na tela da tela da vida, esse final de filme: É outono e o vento varre as ruas de Nova Iorque. Num tribunal, uma mulher comparece. A voz é apagada e as roupas envelhecidas não escondem um certo porte aristocrático. No rosto descuidado, perduram ainda os traços de uma beleza apagada:

— Sr. Juiz, meu pedido é o mais justo. Tenho uma filha e o meu ex-marido, pai dessa menina, é rico. Ele bem poderia dar uma pensão que permitisse continuar a educação de minha e de sua filha, que está num colégio, onde trabalha para poder se educar.  Como não tenho nada e vivo miseravelmente e sem trabalho, sou forçada a tirá-la do colégio, e ela terá que seguir os azares da vida, sem ter recebida a educação necessária que lhe garanta o seu futuro. Estou com muitas mensalidades atrasadas e, ultimamente, tudo me tem corrido mal. Não tenho a quem apelar, senão ao pai de minha filha. Ele é o príncipe M’Divani, e nega-se a atender-me. Por isso recorro, hoje, à justiça.

O juiz franze a testa e carrega o sobrolho. Põe sobre a mulher o seu olhar profissional, admira aqueles cabelos louros desalinhados, e observa atentamente em silêncio o vestido velho que cobre o seu corpo. Por sua imaginação, talvez passem reminiscências de emoções que já experimentara. Talvez recorde ainda trechos de músicas que não se apagaram de sua memória, e tenho nos olhos uma imagem quase desfeita de cenas que já vivera. Fecha levemente os olhos como para fitar melhor, e diz lentamente:

— Não está você em condições de sustentar a sua filha?

— Não, sr. juiz…

— Não ganhou você milhares de “dólares” no cinema e no teatro?

— Sim, ganhei… – responde ela abaixando a cabeça – ganhei… mas hoje estou na miséria. Não tenho casa, nem sempre tenho o que comer…

— Isso é incrível!!! Onde mora você, Mae Murray?

— No Parque Central, sr. juiz. É ali, num banco, que eu tenho passado estas três últimas noites…”

Mae Murray, a estrela que dominou o céu cinematográfico até 1929, a intérprete de “Viúva Alegre”, “Saxofonomania”, “Fascinação”, e tantos outros que foram os grandes êxitos do passado, não tem casa, não tem roupa, não tem com quem possa educar a sua filha.

Dirão: por que não foi providente e não juntou o necessário para garantir o seu futuro? Mas é o triste destino das cigarras humanas, esse. Aqueles que levam a vida dando o seu trabalho inteligente para divertir as multidões, que pararam à luz da ribalta para receber os aplausos das platéias emocionadas, nem sempre possuem o espírito utilitário e providente dos seres “normais” e comuns. Vivem a glória do momento que os embriaga, e o dia de amanhã é sempre algo longínquo que os olhos não vêem como uma fatalidade. São anormais ante a normalidade corriqueira da vida. E a miséria é, às vezes, o epílogo de suas glórias.

John Gilbert, outro grande astro do passado, galã de celulóide que arrebatou os corações femininos, morreu na mais extrema miséria.

O grande David Griffith, o diretor máximo da tela dos tempos do cinema mudo, viveu implorando, de estúdio em estúdio, que lhe dessem um pouco de trabalho, e lhe concedessem mais uma oportunidade, pois sabia que ainda tinha talento para criar algo de belo e imenso.

Não é de admirar que hoje os artistas sejam utilitários, porque hoje vivemos num mundo apenas utilitário, até que o homem, faminto de idéias, vá procurá-los outra vez.

Texto extraído do livro “Páginas Várias”, 2. ed., 1963, pág. 170 – 172, do filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos.