A exposição permanente do Museu Municipal Francisco Veloso, inaugurada recentemente, convida os visitantes a adentrar o universo caipira, não através de discursos acadêmicos distantes, mas pela porta de entrada mais genuína possível: a casa de um caipira de verdade, a roça onde trabalhou, o terreiro onde rezou e festejou, e a praça onde encontrou seus iguais. Intitulada “Pisa Terra, Pisa Chão: Histórias e Memórias da Cultura Caipira em Cunha”, a mostra é mais que uma coleção de artefatos históricos. É um ato de reparação contra certos preconceitos, uma celebração da riqueza cultural que brota das camadas populares e uma amostra de que a história do Brasil é escrita também por aqueles que têm as mãos cheias de calo e os dedos cheios de terra: aquelas pessoas que plantam a roça, lavram a gleba, cuidam do ninho, do gado e da tulha.
Além do Jeca Tatu: resgatar a dignidade do caipira O termo “caipira” carrega uma herança pesada. Durante décadas, a literatura brasileira, particularmente através de Monteiro Lobato e seu icônico Jeca Tatu, cristalizou a imagem do homem caipira como símbolo de atraso, indolência e ignorância. Essa caricatura marcou profundamente o imaginário urbano, reforçando estereótipos que ainda ecoam nos dias de hoje, um estigma que pesa sobre os cunhenses. A exposição do Museu Francisco Veloso oferece um antídoto a esse preconceito. Apoiada nas pesquisas do sociólogo Antônio Cândido e dos antropólogos que elegeram Cunha como campo privilegiado de estudo (Emilio Willems, Alceu Maynard Araújo e Robert Shirley), a mostra revela o caipira não como um tipo social atrasado, mas como portador de uma matriz cultural própria, rica e organizada, que se estrutura em três pilares fundamentais: o trabalho familiar na terra, a ajuda mútua dos mutirões e a devoção aos santos, celebrada em festas que garantiam a coesão comunitária e momentos de lazer. Não era atraso. Era sabedoria acumulada, resiliência e uma forma de estar no mundo profundamente enraizada na natureza e na solidariedade, uma convivência amena entre o dever (trabalho) e o lazer. Sobre essa alternância, Darcy Ribeiro, em O povo brasileiro, escreve que ela exprime a integração do caipira “numa economia mais autárquica do que mercantil que, além de garantir sua independência, atende à sua mentalidade, valorizando mais as alternâncias de trabalho intenso e de lazer, na forma tradicional, do que um padrão de vida mais alto através do engajamento em sistemas de trabalho rigidamente disciplinado”. É, sem dúvida, uma herança indígena.
Entrada na exposição “Pisa terra, pisa chão”, que retrata a vida caipira em Cunha entre as décadas de 1940 e 1960. Data: 15 jul. 2026.
A imersão curatorial: por dentro da casa De início, um espelho e uma pergunta: “Você é gente de quem?”. Assim se iniciam as conversas em Cunha. E assim é na exposição. Em frente a um espelho, o visitante pode se situar enquanto pessoa, evocando sua ancestralidade, suas circunstâncias e sua identidade. Depois desse credenciamento pessoal, pode adentrar a casa e mergulhar na alma caipira. O que torna essa exposição singular é sua estratégia curatorial: o visitante não observa a história de fora. Ele é convidado a adentrar, literalmente, o universo caipira. A experiência começa na sala que simula uma casa de pau a pique, construída em dia de mutirão. Dali, o percurso segue para o terreiro, aquele chão de terra batida onde o trabalho, a festa e a religiosidade se entrelaçavam, e depois para a roça, onde a vida se media pelo calendário da natureza. Cada objeto exposto foi escolhido com intencionalidade. Uma gamela de madeira, um jacá trançado, uma cabaça para água, um ferro de passar à brasa. Mas esses artefatos não estão ali apenas como curiosidades históricas. Cada um deles é uma ponte entre dois mundos: o mundo que foi vivido e o mundo presente do visitante. São objetos que ativam nossas memórias. Passear pelas salas da exposição é visitar uma casa caipira. Os objetos não estão deslocados de seu ambiente tradicional. Cada tralha está em seu lugar, os objetos em seu contexto. É um passeio por dentro.
Foto de uma das paredes da Sala 1 “Vozes da Roça”, com retratos do povo de Cunha e um espelho onde o visitante pode responder a si mesmo a famosa pergunta “Você é gente de quem?”, própria de lugares onde os vínculos interpessoais sustentam o pertencimento e a confiança. Data: 15 jul. 2026.
A vida cotidiana: poesia na labuta A exposição reconstrói, com precisão antropológica e sensibilidade literária, a rotina de uma família caipira cunhense, comum até os anos 1960. Cada gesto é documentado, cada momento do dia é narrado. O caipira acorda com as galinhas, antes do sol nascer. A mulher reza diante do oratório e acende o fogo. O café com açúcar e farinha de milho desperta a família. Os homens partem para a roça, lendo nos sinais da natureza (na chuva da noite anterior, na mudança para lua cheia) as promessas de uma boa colheita. Enquanto isso, a mulher não descansa. Varre o terreiro, cuida das galinhas, escolhe o feijão na esteira, confere a farinha de milho na tulha. À tarde, bate a roupa na bica, passa com ferro à brasa as roupas de missa. A solidão é preenchida pela visita da vizinhança, regada a café e muita prosa. Quando o sol se põe, todos se reúnem ao redor do fogão para a última refeição, antes de se recolherem ao descanso merecido. Há uma poesia nessa descrição. Não é a poesia dos românticos, mas a poesia real da vida vivida com dignidade, onde cada objeto tem sua função, onde o tempo é medido não pelo relógio, mas pelas estações, onde a família e a comunidade são redes de apoio mútuo e sustento.
Os mutirões: comida e comunidade Um dos conceitos mais belos capturados pela exposição é o do mutirão, aquela forma de cooperação onde vizinhos e parentes se reúnem para realizar tarefas que nenhuma família conseguiria fazer sozinha. Colher feijão, preparar o terreno para plantio, roçar o pasto, fazer o barreamento de casas, até velórios: tudo dependia dessa rede de solidariedade. O mutirão obedecia a regras de reciprocidade. Você ajudava sabendo que, quando chegasse sua vez, receberia igual solicitude. Enquanto os homens trabalhavam, as mulheres preparavam comida em quantidade generosa. Como dizia o ditado: “Minguado o café, minguado o prestígio”. E ao cair da noite, o trabalho se transformava em festa: modas de viola, catira, danças que confirmavam a vitalidade daquela comunidade. Nesse sistema está a chave para entender o caipira: não era um homem isolado, mas um ser profundamente comunitário, cuja liberdade e independência se realizavam através da interdependência. Uma lição que nossa época de individualismo exacerbado deveria considerar com mais atenção. A exposição foi feliz ao evidenciar esse momento, que está no âmago da vida caipira.
Foto da Sala 6, “A Praça: Onde a cidade se encontra“, onde o visitante é conduzido ao espaço público, a Praça Matriz, palco dos grandes acontecimentos. Retrata, nas paredes, os movimentos da cidade com a chegada dos tropeiros, os dias turbulentos da Revolução de 32, os rumores das feiras e festas. Data: 15 jul. 2026.
Fé, festa e identidade: a dimensão mística da cultura A exposição dedica espaço significativo às manifestações religiosas que estruturavam a vida caipira. A Festa do Divino, as Congadas, a Folia de Reis, as rezas cotidianas. Todas essas coisas isso não são encaradas como superstição ou folclore, mas como a expressão mais profunda da identidade e da coesão comunitária. As Companhias de Congada, em particular, são destacadas. Vestidos com fardas brancas adornadas por fitas coloridas, os congadeiros dançam para festejar, agradecer e pagar promessas em louvor ao Espírito Santo e a São Benedito. Representantes da matriz afro-brasileira, essas companhias mantêm viva uma tradição que é parte indissociável da identidade religiosa de Cunha: a devoção a São Benedito, o “santo preto” e cozinheiro. A Festa do Divino segue um ciclo de dádiva: a bandeira percorre as casas da comunidade, as famílias oferecem o que podem (dinheiro, alimentos, animais), e no encerramento, a comunidade inteira se reúne para preparar um grande almoço compartilhado igualmente com todos. É economia solidária, é religiosidade popular, é festa. Tudo junto. Por isso, ela está ali no cantinho da casa, marcando a presença divina.
Ainda na Sala 6, temos as esculturas dos integrantes da Companhia de Moçambique de São Benedito de Cunha, restauradas recentemente. Data: 15 jul. 2026.
A praça como ponto de encontro A exposição termina convidando o visitante a sentar no “banco da árvore da mentira”, um banco que existe de verdade na Praça Matriz de Cunha, lugar de encontro diário de antigos moradores. Ali, você ouve as vozes daqueles que viveram o que viu representado nas paredes: os tropeiros que transportavam cargas pelas serras, os causos da Revolução de 1932, os que dançaram nas festas, os que rezaram nos terreiros, o povo que trabalhou e ainda trabalha na roça, pois em Cunha a população rural ainda representa 40% da população municipal. A praça é a ágora cunhense, o espaço público onde a história se faz viva. E o museu reconhece isso: não encerra a narrativa nas paredes, mas a abre para o espaço urbano, para as vozes reais, para a memória viva da comunidade. Entre um causo e outro, as memórias são transmitidas às novas gerações.
O papel do Museu Um dos meus maiores medos era que, após o falecimento do professor João Veloso, o Museu Francisco Veloso virasse um museu apenas no papel – o que não é raro em nosso país, tão alheio às suas instituições culturais. O que houve, entretanto, foi que, nesses últimos anos, o Museu assumiu seu papel. Felizmente. Ser o guardião e propagador da história de Cunha dá trabalho. Mas foi possível graças a uma equipe comprometida com a pesquisa e restauração, empenhada em dialogar com a comunidade. Por isso, a Dina, o Andreas, a Maiara, a Izabel e todos os que colaboram com o Museu estão de parabéns. Essa exposição aproximou a história de Cunha de seu povo, evidenciando o cotidiano daqueles que raramente aparecem nos livros oficiais. Houve a combinação de eficiência com sensibilidade. Mais do que ter uma história para contar (e a tricentenária Cunha tem muitas!), é preciso saber contar uma história. A exposição fez isso com maestria. “Pisa Terra, Pisa Chão” é, portanto, um ponto de virada. O Museu reafirma, de forma definitiva, seu compromisso de que a história das pessoas simples – a história do trabalho, da solidariedade, da fé e das festas – é a história que merece ser preservada, estudada, debatida e celebrada. Recusa, assim, aceitar que o caipira seja apenas o Jeca Tatu de Monteiro Lobato. Recusa em ficar relembrando somente a guerra perdida, a ferrovia que não veio, aquilo que Cunha poderia ter sido e não foi. Os cunhenses, embora raramente se nomeiem como caipiras, têm orgulho de sua tradição. Uma herança que ainda resiste, unindo moradores nas festas lúdico-religiosas, nas cavalgadas, nas congadas e, sobretudo, em uma história comum. Essa exposição permanente é um convite para que todos nós – visitantes de fora ou filhos da terra – reconheçamos que a verdadeira identidade de Cunha, e talvez do Brasil, está no Sertão, nas vozes e nas vidas daqueles que pisam terra e pisam chão.
“[…] a paisagem é sempre uma herança. Na verdade, ela é uma herança em todo o sentido da palavra: herança de processos fisiográficos e biológicos, e patrimônio coletivo dos povos que historicamente as herdaram como território de atuação de suas comunidades […] Mais do que simples espaços territoriais, os povos herdaram paisagens e ecologias, pelas quais certamente são responsáveis, ou deveriam ser responsáveis”.
(Aziz Ab’Sáber, in “Domínios de natureza no Brasil: potencialidadesPaisagísticas”, 2003)
Os nomes dos lugares constituem um importante patrimônio cultural e histórico, pois revelam aspectos da paisagem, da ocupação humana e das formas de vida que moldaram um território ao longo do tempo. No município de Cunha, a análise da toponímia dos bairros rurais permite compreender elementos fundamentais de sua formação histórica e geográfica, que remonta ao século XVII, quando as primeiras sesmarias foram doadas na região. Mais do que simples denominações, esses nomes registram a relação entre os habitantes e o espaço, funcionando como verdadeiros documentos da memória coletiva.
Uma das características mais marcantes da toponímia cunhense é sua estreita ligação com o meio natural. Diversos bairros receberam nomes inspirados na vegetação local, como Pinhal, Cedro, Figueira, Guabirobas, Pessegueiro e Angico. Outros fazem referência direta aos recursos hídricos, como Rio Acima, Rio Abaixo, Córrego Fundo, Cachoeirinha e Paraibuna. O relevo também aparece frequentemente nas denominações, como em Serra do Indaiá, Alto da Bocaininha, Pedra Branca, Mato Dentro, Cume e Várzea. Esses nomes evidenciam que a identificação dos lugares ocorreu a partir da observação direta da paisagem. Em uma sociedade rural, onde rios, montanhas e matas serviam como referências para deslocamento e sobrevivência, a natureza tornou-se a principal fonte de orientação geográfica.
Croqui esquemático de bairro rural, gerado por IA. Fonte: Chat GPT.
A presença de numerosos topônimos relacionados às atividades agrícolas e pecuárias demonstra a forte origem rural do município. Nomes como Curral, Curralinho, Cocho, Paiol, Sítio, Fazenda, Retiro, Campo e Vargem remetem diretamente ao cotidiano das propriedades rurais e ao universo da produção agropecuária. A ocupação histórica de Cunha ocorreu de forma dispersa, baseada em sítios e fazendas distribuídos pelo território montanhoso. Dessa forma, a paisagem rural deixou marcas permanentes na nomenclatura local, refletindo a importância econômica e cultural da agricultura e da criação de animais para as comunidades cunhenses.
Entre os nomes mais recorrentes, destacam-se aqueles relacionados aos paióis. As denominações Paiol, Paiol Queimado, Paiol Velho e Paiolzinho aparecem em diferentes regiões do município, totalizando aproximadamente nove ocorrências. Essa frequência sugere a relevância dessas construções para a vida rural, já que os paióis eram fundamentais para o armazenamento de grãos, como o milho. A repetição do termo reforça o papel histórico da agricultura como base da economia local. O milho foi o sustentáculo econômico do município durante os séculos XVIII e XIX. Seu cultivo era voltado para alimentação local, cujo prato principal era quirera com feijão, e para a suinocultura. Cunha foi o maior produtor de toicinho da Província de S. Paulo. Sua produção agropecuária alimentou as fazendas de café do Vale do Paraíba. Outros nomes bastante comuns são Boa Vista e Mato Dentro. O primeiro aparece associado a diferentes localidades e geralmente indica áreas elevadas com ampla visibilidade da paisagem, típicas dos Mares de Morros. Já Mato Dentro remete à ocupação de áreas originalmente cobertas por vegetação densa, evidenciando o avanço gradual do povoamento sobre a Mata Atlântica da região.
Núcleo do bairro do Sertão do Pinhá, com sua capela e escola rural, na região leste do município de Cunha, próximo ao limite com Paraty (RJ). Foto: Paulo Cesar. Data: 2023.
A influência da religião católica também se manifesta de maneira significativa na toponímia do município. Bairros como Santa Rita, Santa Cruz, Divino Mestre, Ribeirão das Almas e São Roque revelam a importância da Igreja na organização social e territorial durante os períodos colonial e imperial. Em muitas áreas rurais brasileiras, as capelas constituíam o principal núcleo de convivência comunitária, reunindo moradores em celebrações religiosas, festividades e atividades coletivas. Assim, a presença desses nomes reflete não apenas a religiosidade dos habitantes, mas também o papel das instituições religiosas na formação das comunidades locais.
Outro aspecto relevante é a presença de topônimos derivados de nomes de pessoas e famílias, fenômeno conhecido como antroponímia. Exemplos como Antônio José, Sertão dos Marianos, Paraitinga dos Motas, Várzea do Joaquim Rosa, Galvão e Barra do Chico do Lau e do J. Alves indicam a influência de antigos moradores ou grupos familiares que desempenharam papel importante na ocupação dessas localidades. Essa característica revela um processo de colonização baseado em núcleos familiares dispersos e reforça a importância da tradição familiar patriarcal na preservação da memória local. Em muitos casos, o nome do lugar torna-se uma forma de perpetuar a lembrança daqueles que contribuíram para a construção da história da comunidade ou dos antigos fazendeiros que deram origem ao povoamento do bairro.
Aspecto da antiga fazenda dos Fagundes, no bairro Capetinga dos Fagundes, região nordeste de Cunha, próximo ao limite com Silveiras. Foto: Adilson Nunes.
A herança indígena também permanece viva na paisagem linguística de Cunha. Nomes como Paraibuna, Jaguarão, Jacuí e Paraitinga possuem origem tupi e remetem, em geral, a rios, animais ou elementos da natureza. Esses topônimos são vestígios da ocupação paulista na região, gente falante da Língua Geral, simbiose da Língua Tupi, “o grego da terra”, com a “última flor do Lácio”, a Língua Portuguesa. Indicam que muitos dos referenciais espaciais utilizados pelos povos indígenas foram incorporados pelos colonizadores. A permanência desses nomes evidencia a profundidade histórica da ocupação humana na região e a contribuição dos povos originários para a construção da identidade territorial local.
Além dos nomes ligados à natureza, à religião ou à memória familiar, há também uma grande quantidade de topônimos de caráter funcional. Localidades como Três Pontes, Encruzilhada, Barra, Ponte, Várzea do Tanque, Mato Dentro e Alto do Sapé possuem nomes essencialmente descritivos, criados para indicar localização, acesso ou características específicas do terreno. Esses topônimos funcionavam como instrumentos práticos de orientação em uma época em que os deslocamentos dependiam de trilhas, caminhos rurais e referências naturais. Cunha, um elo entre o Sertão e o Litoral, sempre foi recortada por inúmeros caminhos e tem forte herança tropeira. Esses topônimos refletem essa influência.
De modo geral, a toponímia de Cunha revela um município profundamente ligado à cultura caipira, em que a natureza, à vida rural e às formas tradicionais de ocupação do território estão intimamente ligadas. O caipira não existe sem seu torrão. Os nomes dos bairros preservam marcas da vegetação original, dos rios, das montanhas, das atividades agropecuárias, da religiosidade popular, da presença indígena e da memória das famílias pioneiras da Paulistânia. Diferentemente de áreas fortemente urbanizadas, onde predominam denominações planejadas ou homenagens oficiais, os topônimos cunhenses surgiram de maneira espontânea, diretamente relacionados à experiência cotidiana dos moradores. Por isso, constituem uma valiosa fonte para compreender a história da ocupação humana e a construção da paisagem cultural do município, resultado da interação entre sociedade e natureza ao longo do tempo.
Aspecto do bairro do Monjolo, região sudeste do município de Cunha.
Falar de bairro rural é falar de um pedaço do mundo que não cabe apenas no mapa. É a vizinhança que se reconhece pelo nome, pela capela, pelo campo de futebol, pelo bar de “fulano de tal”, pela estrada de terra, pela festa do padroeiro, pelo mutirão e pelo jeito como as famílias se ajudam quando a lida aperta. Antonio Candido, em Os Parceiros do Rio Bonito (1964), mostrou que a vida caipira não pode ser entendida só pela economia. Ela se organiza também pela sociabilidade, pelos vínculos de vizinhança e pelo ajuste entre grupo humano e meio; em outras palavras, a cultura nasce no território vivido. Após o icônico “Ocê é gente di queim?”, sempre vem “Ocês são di ondi?”. O lugar importa, e importa muito, sim, senhor.
Em Cunha, esse tema ganha um peso ainda maior. O município, que não é populoso (população estimada em 2025, pelo IBGE, em 22.460 habitantes), tem sua população bem distribuída pelo seu amplo território, com mais de 1.407 km², o maior do Vale do Paraíba, apresentando uma densidade demográfica baixa, de 15,71 habitantes por km². Essa dispersão populacional ocasionou a existência, em seu território, de 2.287 estabelecimentos de produção agropecuária, número bastante elevado para o contexto estadual. Desse total, 74% são unidades classificadas como de agricultura familiar. É o município paulista com maior número de unidades de produção agrícola, superando, inclusive, Mirante do Paranapanema, município que é símbolo da reforma agrária e da luta contra a concentração fundiária no Brasil.
A paisagem cunhense, caprichosamente adornada por morros, vales, pastos, roças, capões de mata e caminhos que sobem e descem a serra, ajuda a entender por que os bairros rurais seguem tão importantes: eles são uma forma prática e afetiva de organizar a vida no campo. Não é por acaso que, de acordo com o Censo 2022, Cunha contava com 9.060 moradores rurais, o que significa cerca de 41% da população estava vivendo na roça. Um percentual muito alto para os padrões paulistas, estado em que a população rural corresponde a cerca de 2,6%. A distribuição dessa população pelo espaço rural possibilita a formação dos bairros rurais, pois, de acordo com Antonio Candido, o bairro é o “agrupamento de algumas ou muitas famílias, mais ou menos vinculadas pelo sentimento de localidade, pela convivência, pelas práticas de auxílio mútuo e pelas atividades lúdico-religiosas. As habitações podem estar próximas umas das outras, sugerindo por vezes um esboço de povoado ralo; e podem estar de tal modo afastadas que o observador muitas vezes não discerne, nas casas isoladas que topa a certos intervalos, a unidade que as congrega”.
Na geografia cultural e na geografia agrária, o bairro rural pode ser visto como um espaço de enraizamento. Ele não é apenas uma localização; é um lugar carregado de memória, uso e pertencimento. Por isso, quando se observa Cunha, não se vê apenas produção agropecuária: vê-se uma malha de relações que mistura família, trabalho, religião e tradição. E há um fundo poético nisso tudo. Quando se ouve uma moda de viola ou se lê um verso que fala da terra como companhia de vida, entende-se melhor o que a geografia às vezes tenta dizer em palavras mais formais: a paisagem rural não é cenário, é experiência. Em Cunha, isso ainda salta aos olhos. Bairro não é um simples espaço; é lugar. Lugar de pertencimento, de memórias, de afeto, de extensão imediata do lar, de elo com a terra, torrão sagrado onde o caipira teve seu “umbigo enterrado”. Tal como na moda de viola “Rio Pequeno”, um dos grandes sucessos da dupla Tonico e Tinoco, lançada em abril de 1952, sair do bairro onde foi criado é abandonar parte de sua vida, de sua identidade: “O zóio dela encheu d’água, despediu co’a voz tremeno / Adeus, casa dos meus pais! Adeus, chão do Rio Pequeno!”
Bairro, o chão da cultura caipira
Aspecto do bairro da Cachoeira dos Rodrigues, região oeste do município de Cunha. Foto: Edson Luiz de Oliveira. Data: abr. 2022.
“O que é bairro? – perguntei certa vez a um velho caipira, cuja resposta pronta exime numa frase o que se vem expondo aqui: ‘Bairro é uma naçãozinha!’ – Entenda-se: a porção de terra a que os moradores têm consciência de pertencer formando uma certa unidade diferente das outras.”
Antonio Candido, in Os parceiros do Rio Bonito
Os bairros rurais têm importância porque são, antes de tudo, lugares de convivência. Neles se cruzam a reza do terço, a folia, a festa do santo, o café coado no fogão, a visita sem cerimônia e o trabalho repartido entre família, vizinhos e compadres. A cultura caipira não vive solta no ar; ela precisa de chão, de rotina e de repetição. É no bairro rural que os saberes passam de uma geração para outra: o jeito de plantar, de criar, de cozinhar, de falar, de celebrar e de cuidar da terra. Candido, autor do excerto acima, mostrou que a vida caipira se estrutura em unidades mínimas de sociabilidade e cooperação, ligadas ao modo de viver e ao meio em que se assentam. Em Cunha, conforme estudo realizado na década de 1980 pela antropóloga Rosane M. Prado, os bairros rurais ocasionam diferenciações de valor que marcam as atividades humanas, bens, relações e símbolos no contexto local, levando em conta fatores como “maior ou menor distância da cidade, o que está associado à ideia de isolamento e dificuldade de acesso, e pelo aspecto de certas associações a propósito da ‘fama’ de determinados bairros. Assim, por exemplo, o Monjolo é associado a ‘gente brava’, ‘de briga’; a Capivara é lugar ‘mais caipira’, no sentido de ‘mais atrasado’; o Jericó é ‘dos metodistas’, lugar de gente ‘mais munheca’, ‘pão dura’. Também alguns bairros rurais são associados às próprias famílias que lhes dão nome, como o Sertão dos Marianos”. Ou seja, ser de determinado bairro já lhe garante certa identidade, característica inata e herdada da coletividade local, que precede a individualidade.
Por isso, o bairro rural é mais do que uma referência espacial. Ele é um território vivido. É ali que a paisagem ganha rosto humano e a cultura ganha matéria concreta. Uma estrada pode parecer apenas uma via de circulação, mas, no bairro rural, ela também é caminho de procissão, trajeto de escola, rota do leite, caminho antigo de tropeiro, passagem de cavaleiro e linha de contato entre casas dispersas. O lugar não existe só por sua forma, mas pelo uso e pelo sentido que as pessoas lhe dão. Em Cunha, onde a paisagem montanhosa fragmenta as ocupações e aproxima os moradores por núcleos de vizinhança, os bairros rurais seguem sendo uma base da identidade local.
Êxodo rural, esvaziamento e mudanças da paisagem
Aspecto do bairro do Jericó, região sudoeste do município de Cunha. Foto: Iverson Leite.
Mas essa paisagem vem mudando. O êxodo rural, que marcou boa parte do interior paulista ao longo do século XX e segue produzindo efeitos no século XXI, retirou moradores do campo, envelheceu comunidades e enfraqueceu laços tradicionais. No Brasil, o Censo 2022 registrou 25,6 milhões de pessoas em áreas rurais, contra 177,5 milhões em áreas urbanas, confirmando a continuidade histórica da urbanização. Em Cunha, mesmo com taxa de natalidade elevada, a população ficou estagnada durante todo o século XX. No estado de São Paulo, onde a presença rural é proporcionalmente muito pequena, esse processo foi ainda mais forte. Vivemos com toda intensidade a ideologia do progresso a todo custo, do “São Paulo não pode parar”, que esvaziou roças e memórias.
Nos bairros rurais, o resultado disso aparece no que os olhos logo percebem: casas vazias, antigas áreas de cultivo em descanso, festas menores, escolas fechadas, menos jovens permanecendo na roça. Está tudo virando tapera. A paisagem muda quando a população muda. E a cultura também sente o golpe. Quando uma comunidade perde moradores, ela não perde apenas número; perde memória compartilhada, perde prática social, perde voz coletiva. Municípios do interior paulista, antes marcados por forte presença caipira, passam a ter uma vida rural mais rarefeita, às vezes mantida por poucos idosos ou por propriedades voltadas a usos novos, menos ligados ao cotidiano tradicional do campo. O processo de terceirização do campo avança.
Essa mudança também altera a demografia local. Com menos jovens no meio rural e maior concentração de serviços e empregos nas sedes urbanas, o campo deixa de ser visto como lugar de futuro por muitas famílias. O problema é que, quando isso acontece, não desaparece só uma forma de morar. Some também uma maneira de organizar o território, de cultivar a terra e de reconhecer o município como herdeiro de uma cultura própria.
Cunha e a força da agricultura familiar
Aspecto do bairro da Pedra Branca, região leste do município de Cunha. Foto: Pedro Ribeiro. Data: 2002.
Em Cunha, o campo ainda é parte central da vida municipal. Isso se traduz na força da agricultura familiar cunhense no contexto estadual, com o município liderando ou ficando entre os primeiros em vários setores de produção agrícola. Mesmo com o esvaziamento do campo, muitos pequenos agricultores e pecuaristas permanecem na lida rural produzindo alimentos. E são essas pequenas propriedades familiares que fazem de Cunha a maior produtora paulista de leite e uma das maiores produtoras de hortaliças, milho, feijão e porcos da região. A base produtiva rural local está estruturada na pequena e média unidade tocada por famílias. E essa é uma das razões do seu sucesso.
Os levantamentos realizados pelo Censo Agro 2017 e do LUPA 2016/17 apontam justamente nessa direção: o município aparece como uma área fortemente marcada pela agricultura familiar e pela diversidade produtiva, a ponto de ser descrito como uma “potência da agricultura familiar”. Foram identificadas 3.452 unidades de produção agropecuária, com mais de 102 mil hectares de área ocupada com alguma cultura, pastagem ou reflorestamento. A maioria das propriedades está compreendida na faixa entre 5 e 50 hectares, ou seja, a estrutura fundiária é composta por minifúndios. O município se destaca na produção de milho, feijão, mel, cana, pinhão, café e frutas e hortaliças diversas; e na criação de bovinos para leite e corte, frango caipira, trutas, cavalos e mulas e porcos. Geograficamente, isso significa que o território de Cunha continua sendo sustentado por uma trama de pequenas propriedades, produção diversificada e forte vínculo entre moradia e trabalho, arranjo bem diferente daquele das áreas onde a modernização agrícola concentrou terra, mecanizou tudo e expulsou moradores.
Bairros rurais identificados
Aspecto do bairro da Aparição, região sudeste de Cunha.
Diante desse contexto geográfico disperso, ruralizado e fundamentado no trabalho familiar, o IBGE identificou 270 bairros rurais no município de Cunha, durante a realização do Censo Demográfico de 2022. Eis a lista:
– Abóboras
– Água Fria
– Água Fria (Bangu)
– Água Limpa
– Águas de Santa Rosa
– Alto da Bocaininha
– Alto do Sapé
– Amorim
– Angico
– Antônio José
– Aparição
– Araçaeiro
– Araruna
– Assunção
– Atibaia
– Balaieiro
– Bananal
– Bangu
– Barra do Chico do Lau
– Barra do J. Alves
– Barrinha
– Barreira (Campos Novos)
– Barreiro (Abóboras)
– Barreiro (Bangu)
– Barro Vermelho
– Bichinho
– Boa Esperança
– Boa Vista (Campos Novos)
– Boa Vista (Igreja de São José)
– Boa Vista (Jaguarão)
– Boa Vista (Pedra Branca)
– Bocaina de São Roque
– Bocaininha da Boa Esperança
– Bom Retiro
– Borda do Campo
– Brejaúva
– Brejinho (Guabirobas)
– Brejinho (Monjolo)
– Bugio
– Buracão
– Cachoeira (Cedro)
– Cachoeira dos Rodrigues
– Cachoeirinha (dos Gatos)
– Cachoeirinha (Monjolo)
– Cachoeirão (Barra J. Alves)
– Caçador Novo
– Campo
– Campo Alegre (Aparição)
– Campo Alegre (Bocaina)
– Campo Belo
– Campo da Bocaina
– Campinho (Bocaina)
– Campista
– Camundá
– Cana do Reino
– Canjara
– Caneleira
– Cantagalo
– Capetinga dos Fagundes
– Capetinga dos Motas
– Capinzal
– Capivara
– Capoeira do Fundo
– Capoeirinha
– Carneiros
– Carrapatal
– Carrasquinho
– Castelo
– Catioca
– Catioquinha
– Cedro
– Charquinho
– Cocho
– Comprida
– Condomínio Santana (Paraitinga)
– Conselho
– Córrego da Onça
– Córrego Fundo (Barra J. Alves)
– Córrego Fundo (Jaguarão)
– Córrego Seco
– Cume
– Curral
– Curralinho
– Desterro
– Divino Mestre
– Encruzilhada
– Engenho
– Entrecosto
– Escurinho
– Estiva
– Fazenda Ibipeba
– Fazenda Santana
– Fazenda São Tomé
– Fazendinha
– Felicidade
– Ferraz
– Figueira (Paraitinga)
– Figueira (Taboão)
– Figueira (Várzea do Tanque)
– Galvão
– Gândara
– Gaviroveira
– Gorozol
– Gramas
– Grota do Buraco
– Grotão
– Guanabara
– Guabirobas
– Guandu
– Guaranjanga
– Guaricanga (Barra J. Alves)
– Guaricanga (Juveva)
– Ingá
– Itacuruçá
– Itaquatuba
– Jacinto
– Jacuí
– Jacuí-Mirim
– Jacuizinho
– Jaguarão
– Jardim
– Jericó
– Juveva
– Lageado
– Lagoa (Barra J. Alves)
– Lagoa (Capivara)
– Lagoa (Pedra Branca)
– Laje
– Lajinha
– Limão
– Limoeiro
– Macuco
– Mandinga
– Maninha
– Mantiquira
– Marmeleiro (Campos Novos)
– Marmeleiro (Engenho)
– Martim
– Mato Dentro (Campos Novos)
– Mato Dentro (Catioca)
– Mato Dentro (Cedro)
– Mato Escuro
– Mato Limpo
– Milho Branco
– Milho Vermelho
– Mineiro
– Mogango
– Monjolinho (Campos Novos)
– Monjolo
– Mundéu
– Onça
– Oriente
– Paineira (Vargem do Tanque)
– Paineira de Cima
– Paineiras (Jaguarão)
– Paiol
– Paiol Queimado
– Paiol Velho (Campos Novos)
– Paiol Velho (Catioca)
– Paiol Velho (Cedro)
– Paiol Velho (Vargem do Tanque)
– Paiolzinho (Capivara)
– Paiolzinho (Córrego da Onça)
– Paiolzinho (Serra do Indaiá)
– Paiolzinho (Taboão)
– Palha Grande
– Palmeiras
– Palmital (Barra J. Alves)
– Palmital (Parque Estadual)
– Paraibuna
– Paraitinga (Campos Novos)
– Paraitinga de Baixo
– Paraitinga dos Cubas
– Paraitinga dos Gonçalves
– Paraitinga dos Motas
– Paraitinga dos Verreschi
– Parque Estadual (da Serra do Mar)
– Parreiral
– Pasto do Gado
– Pedra Branca
– Pedra Preta
– Pedras (Bocaina)
– Pedreira
– Peros
– Pessegueiro
– Pico Agudo
– Pinhal (Barro Vermelho)
– Pinhal (Campos Novos)
– Pinhalzinho
– Pinheiral
– Pinheirinho (Bangu)
– Pinheirinho (Barra J. Alves)
– Pinheiro
– Piri
– Poço Fundo
– Pontinha
– Ponte
– Ponte Alta
– Ponte Furada
– Ponte Nova
– Praia
– Quilombinho
– Quilombo
– Retiro (Cedro)
– Retiro (Sapé)
– Retiro das Palmeiras
– Ribeirão
– Rio Abaixo (Paraibuna)
– Rio Abaixo (Ribeirão)
– Rio Abaixo (Várzea do Tanque)
– Rio Acima
– Rio das Pedras (Capinzal)
– Rio do Peixe
– Rio Manso
– Roça Grande
– Rocinha
– Rodeio (Paraibuna)
– Roseira
– Samambaia
– Santa Cruz
– Santa Rita
– Sapé
– Sapezal
– São Roque
– Serra do Indaiá
– Serraria (Capivara)
– Sertão da Santa Bárbara
– Sertão do Itambé
– Sertão do Pinhal (Pinhá)
– Sertão dos Marianos
– Sertãozinho (Jaguarão)
– Sertãozinho (Jericó)
– Sertãozinho (Várzea do Tanque)
– Sete Voltas
– Sítio
– Sítio de Cima
– Sítio Velho (Jardim)
– Sítio Velho (Várzea do Tanque)
– Soledade
– Sororoca
– Taboão
– Tamancas
– Tanque
– Tanquinho
– Tapera (Capinzal)
– Tapera (Serra do Indaiá)
– Taperinha (Campos Novos)
– Taperinha (Catioca)
– Taquaral
– Tijuco Preto (Barra do J. Alves)
– Tijuco Preto (Campos Novos)
– Três Pontes
– Três Pontes (Várzea do Gonzaga)
– Usina (Cedro)
– Vargem da Cachoeira
– Vargem do Germano
– Vargem do Joaquim Rosa
– Vargem do Tanque
– Vargem dos Pinheiros
– Vargem Grande
– Varginha (Macuco)
– Varginha (Vargem do Tanque)
– Varginha (Vargem Grande)
– Várzea da Santa Cruz
– Várzea do Cedro
– Várzea do Gonzaga
– Vassouras
– Verde
– Vidro
– Vista Alegre
– Zaranha
Para diferenciar os topônimos iterados, que foram vários, acrescentou-se, entre parênteses e à frente, o nome de um bairro próximo espacialmente, facilitando, assim, a distinção. Por exemplo, há 3 bairros denominados “Varginha” em nosso município; daí, para distingui-los, colocou-se “Varginha (Macuco)”, isto é, trata-se do bairro da Varginha próximo ao bairro do Macuco.
Limitações do Censo 2022 para identificar bairros rurais
Aspecto do bairro da Bocaina de São Roque, região nordeste do município de Cunha. Foto: Adilson Nunes.
Talvez algum bairro que você conheça não apareceu na lista supra. Isso não quer dizer que ele não exista. Por isso, é importante olhar com cautela para os dados do Censo Demográfico 2022 quando o assunto é nomear e delimitar bairros rurais. O IBGE deixa claro que o setor censitário é a principal unidade territorial de coleta e divulgação de dados do Censo. Também informa que a malha de bairros do Censo 2022 foi construída por meio do ajuste de setores censitários, sempre que isso foi viável, e que, em várias situações, os limites dos bairros precisaram ser aproximados graficamente por razões operacionais. Em alguns casos, sequer foram considerados os bairros, como aconteceu com os setores censitários de Cunha, porque nosso município ainda não tem uma lei delimitando seus bairros e não há um mapa municipal oficial com os seus bairros rurais. Resumindo: o levantamento do IBGE é um retrato útil, mas não se trata de uma cartografia fina da toponímia rural.
Isso ajuda a entender por que surgem problemas como nomes de estradas sendo tomados como se fossem bairros, ausências de bairros efetivamente conhecidos pelos moradores e denominações pouco precisas com os dados do Censo 2022. Quando a base de referência é setorial e operacional, e não um levantamento específico da memória territorial local, essas distorções aparecem com facilidade. O próprio IBGE ressalta que a representação dos bairros adotou generalizações para evitar fragmentação excessiva da malha e problemas de coleta.
Por isso, os bairros rurais identificados pelo Censo 2022 devem ser lidos como aproximações da realidade territorial, e não como lista definitiva. É um ponto de partida, mas precisa ser confrontado com conhecimento local, cartografia de campo, memória dos moradores e leitura crítica do território. Um levantamento completo, dada a extensão do município, é um processo custoso e trabalhoso e exigiria uma pesquisa com essa única finalidade.
Nesse sentido, com o intuito de dirimir os equívocos e evitar confusões com a localização e toponímia dos bairros, foi utilizada a metodologia DBSCAN, que consiste em analisar coordenadas geográficas agrupando automaticamente os pontos que estão próximos entre si com base em um raio definido (por exemplo, 2 km) e um número mínimo de vizinhos (minPts), utilizando distância real na superfície da Terra (Haversine); o processo começa identificando, para cada ponto, quais outros estão dentro desse raio, classificando-os como pontos centrais (com muitos vizinhos), pontos de borda (ligados a centrais) ou outliers (isolados), e então formando clusters ao conectar todos os pontos acessíveis entre si (inclusive aqueles ligados indiretamente por uma “cadeia” de proximidade) até que se obtenham grupos naturais de alta densidade, sem impor forma ou quantidade prévia, permitindo identificar regiões reais de concentração espacial e separar automaticamente áreas isoladas, o que torna o método mais adequado para análise territorial.
No mais, o autor valeu-se do seu conhecimento empírico, que é limitado, para realizar correções e adequações que se fizeram necessárias, em virtude de equívocos cometidos pelos recenseadores durante a coleta e transcritos para o CNEFE (Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos), que é a base de dados do IBGE com todos os endereços do país. O CNEFE mapeia e georreferencia residências, estabelecimentos e obras em todo o território nacional. O arquivo digital do CNEFE do Censo 2022 do município de Cunha foi a base para realizar este levantamento toponímico.
E o futuro?
Aspecto do bairro do Sertão do Rio Manso, região sudeste do município de Cunha. Foto: Trip Rural. Data: 2020.
Cunha ainda guarda uma riqueza rara no interior paulista: muitos bairros rurais, uma população do campo numerosa e uma paisagem em que a cultura caipira ainda respira. Mas isso não significa estabilidade. Muitos desses bairros vêm perdendo moradores, envelhecendo e correndo o risco de desaparecer como comunidades vivas. E, quando um bairro rural se apaga, não se perde apenas uma referência geográfica; perde-se uma maneira de morar, trabalhar, festejar e lembrar.
Esse processo ameaça a continuidade da cultura caipira e atinge o coração da identidade municipal. A chegada de novos moradores vindos de fora pode trazer dinamismo e novas experiências, mas também pode enfraquecer vínculos antigos quando não há relação com os costumes, a memória e as práticas do lugar. O risco está em transformar o campo apenas em paisagem de contemplação e consumo, esvaziando-o de sua vida social mais funda.
Diante disso, pode-se perguntar: o campo ainda é viável? É um questionamento que não tem uma única resposta. Há os novos rurais, o êxodo urbano e uma demanda crescente por alimentos mais saudáveis. Todos esses fatores apontam que há, sim, uma saída para roça. Mas é preciso fortalecer o camponês. Valorizar os bairros é defender uma forma de futuro em que o campo continue sendo produtor de alimentos, de cultura e de pertencimento. Em uma época em que tantas paisagens do interior se tornam homogêneas, Cunha ainda pode afirmar sua diferença: a de um município paulista que segue sendo, em muitos sentidos, genuinamente caipira. E talvez seja justamente aí que esteja uma de suas maiores forças.
“O futuro a Deus pertence”, responderia um bom cunhense. Assim seja.
Referências: Antonio Candido. Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida. 1964. Ester, M.; Kriegel, H.-P.; Sander, J.; Xu, X. A Density-Based Algorithm for Discovering Clusters in Large Spatial Databases with Noise. Proceedings of the 2nd International Conference on Knowledge Discovery and Data Mining (KDD). 1996. IBGE. Censo Demográfico 2022: Agregados por Setores Censitários – Resultados do universo. 2025. ______. Censo Demográfico 2022: Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos – CNEFE. 2022. SECRETARIA DE AGRICULTURA E ABASTECIMENTO. COORDENADORIA DE ASSISTÊNCIA TÉCNICA INTEGRAL. INSTITUTO DE ECONOMIA AGRÍCOLA. Levantamento censitário das unidades de produção agropecuária do Estado de São Paulo – Projeto LUPA 2016/17. 2019.
Em 1924, Cornélio Pires lançou o livro “Conversas do Pé do Fogo”. O livro reuniu causos, reflexões, ditados populares, anedotas e sabedoria popular, coletânea obtida das conversas simples, ao redor do fogo, nas rodas de violeiros e nos encontros típicos do meio rural paulista. Era um hábito muito caipira e comum conversar ao redor do fogão a lenha.
Mas qual era a pauta dessas prosas noturnas? Assuntos vários: vagueando entre causos de assombração, fofocas, picuinhas, bafafás, negócios e negociatas… e as infindáveis genealogias, levantadas desde priscas eras, com a devida resenha e desfecho, tal qual o poema “Quadrilha”, de Drummond. Em um mundo em que o jornal, o rádio ou a TV não “pegavam”, eram essas conversas uma eficaz forma informação e entretenimento. “Jogando conversa fora, até o sono chegar”, como diziam. Iluminadas pelas chamas do fogão, incutia-se nas gerações mais novas o modo de falar e de contar uma história, a sabedoria e as crendices populares, tão necessárias para sobrevivência de uma cultura, mantendo viva as tradições caipiras. Como um ritual, uma iniciação.
Com a morte dos bairros rurais, vitimados pelo êxodo rural, as conversas ao pé do fogo foram se apagando. Mas não só. Fogão a lenha é coisa do passado ou virou enfeite. Famílias numerosas foram se encurtando. Reunião de vizinhos para prosear, em um mundo cada vez mais individualista, é considerada “perda de tempo”. Vínculos de sociabilidade viraram cinzas. O último sopro foi o advento da internet e a sua popularização, com os “smartphones”, que transladou as conversas ao pé do fogo para as páginas da história, para o baú de coisas antigas. Os círculos materiais deram lugar aos virtuais, aos grupos no “Zap”.
Cada vez mais rara, essa maneira de conversar, prazerosa, demorada, desinteressada, assistida pelos braseiros, foi imortalizada nos versos de Cora Coralina, no poema “Fazenda Paraíso”:
“(…) De lado, bancos pesados, a mesa das refeições. Meu avô puxava o tamborete da cabeceira, tomava assento. Tio Jacinto vinha e se ajeitava, nós, gente menor, rodeávamos o fogo sentadas em pedaços de couro de boi, pelo chão. Gente grande nos bancos em fileira. Ricarda, acocorada, alimentava o fogo. Ficávamos ali em adoração naquele ritual sagrado, que vem de milênios, de quando o primeiro fogo se acendeu na terra. Contavam-se causos. Conversas infindáveis de outros tempos e pessoas mortas (…)”
Sobre Cornélio Pires, foi um jornalista, folclorista e escritor brasileiro, pioneiro na valorização da cultura caipira, sendo um dos primeiros a gravar discos com músicas sertanejas e causos do interior. Sua obra tem grande valor etnográfico, linguístico e histórico, preservando um Brasil que, aos poucos, se transformava com o avanço da urbanização. E que, neste dias, remetem a um tempo que já se foi…
Foto: Fernando Cobbos. Local: Casa que pertenceu à Sá Mariinha, bairro das Três Pontes, município de Cunha (SP).
Não havia pedreiros. Todo mundo “dava uma mão”. A obra era erguida em mutirão. Juntava o bairro, avisava a vizinhança, o povo vinha e cada um fazia uma parte.
Em geral, esse evento construtivo antecedia os preparativos para o casório. Em pouco tempo, lá estava: toda branquinha, uma casinha coberta de telha ou sapé, aguardando para ser a sede de um novo lar. Casa de pau a pique, de taipa de mão, de taipa de sopapo, de taipa de sebe, barreada.
Nossos avós e pais, muito certamente, aprenderam a andar em seu chão batido e dormiram em seus quartos. Apertados, porque as famílias eram numerosas. Amontoados, porque faltavam esteiras e camas. O dinheiro era curto. A mobília, pouca e funcional. O chão da sala, espaço destinado às visitas, era coberto de tapete de tiras de trapos. Enfeite caipira, um terror para quem tinha alergia. Na cozinha, o fogão a lenha, soltando fumaça, escurecendo e preservando a madeira. Na chapa, bule com café quente. Café torrado em casa. Meu Deus, eu ainda sou capaz de sentir o cheiro que recendia pelo terreiro! As memórias olfativas são estranhas e íntimas demais. Evocam pessoas queridas que já se foram…
Em cada canto dos vales de Cunha havia dúzias delas. Como contas de um rosário, acompanhando as estreitas linhas do relevo mais plano, margeando os “corguinhos”. Tempo em que a maioria das pessoas morava na roça. Gente de fibra, forjada no sol da limpa de milho e feijão. Gente criadeira. Couve no canteiro, galinha no terreiro, porco no chiqueiro, vaca no mangueiro.
Seus materiais eram sustentáveis antes disso virar moda. Madeira, água, argila, taguatinga, cipó, bambu, sapé, terra e pedra. Textura irregular, revelando rusticidade, simplicidade. O bambu, como as veias, sobressaindo do barro. Taquara e madeira entrelaçadas com cipó. Barro batido e moldado a muitas mãos. União difícil de destruir. Janelas: disformes, assimétricas, contidas… para defesa? Verdadeira fortaleza.
Depois de feitas e arrumadinhas, eram relicários níveos em meio ao verde das hortas e milharais. Já foram parte da paisagem rural cunhense. Por isso, tantos bairros cunhenses chamados “Tapera”, “Taperinha”… Hoje, são raras.
Casinha de pau a pique. Quando todos se vão, quando tudo se acaba… vira tapera. Mas, barreada e caiada, habitada, cabia de tudo: uma família inteira e todas as coisas boas do mundo.
“Jorginho do Sertão” foi a primeira moda de viola gravada no Brasil. Isso em 1.929. Jorginho do Sertão faz parte do folclore paulista e foi adaptada por Cornélio Pires, grande incentivador da cultura caipira e folclorista, e interpretada por Caçula e Mariano, com gravação em disco de 78 rotações (ou rpm). Como sempre, as modas de viola contam uma história. Nesse “causo” tudo se passa em uma carpa de café, provavelmente no velho Oeste Paulista. O Jorginho lá do Sertão, rapazinho inteligente, queria casar-se com as filhas do patrão. E um dos meios de se conseguir isso era provar que conseguia sustentar uma família no “cabo da enxada”. Era preciso conquistar o pai da pretendente primeiro, demonstrando que era trabalhador. O patrão gostou do serviço do moço e resolveu oferecer suas filhas em casamento. As três filhas se apresentaram, cada uma com suas qualidades, mas o Jorginho, esperto como só, queria casar-se com as três de uma vez. Impedido de tal intento, o Jorginho montou no seu cavalo e foi-se embora: “Não posso casá cum as treis, eu num caso cum nenhuma”.
A cultura paulista é riquíssima e ajuda a contar a história e costumes de nossa gente.
Letra: cantiga popular do folclore paulista Adaptação: Cornélio Pires Interpretação: Caçula & Mariano Data: 1929 Gravadora: Columbia Acervo: Discoteca Pública Municipal – Oneyda Alvarenga – Centro Cultural São Paulo
JORGINHO DO SERTÃO
O Jorginho do Sertão
Rapazinho de talento
Numa carpa de café
Enjeitô treis casamento
Logo veio o seu patrão
Cheio de contentamento
(tenho treis filhas "sorteira que
Ofereço em casamento)
Logo veio a mais nova
Vestidinho cheio de fita
Jorginho case comigo
Que das treis
Sô a mais bonita
Logo veio a do meio
Vestidinho cor de prata
Jorginho case comigo
Ou então você me mata
Logo veio a mais véia
Por ser mais interesseira
Jorginho case comigo
Sou a mais trabaiadeira
Jorginho pegou o cavalo
Ensilhô na mesma hora
Foi dizê pra morenada
Adeus que eu já vou me embora
Na hora da despedida,
Ai, ai, ai
É que a morenada chora
Ai, ai, ai
O Jorginho arresorveu
É melhor que eu mesmo suma
Não posso casá cum as treis, ai
Eu num caso cum nenhuma.