Cunha é a segunda cidade menos arborizada da região

A Praça do Rosário, no centro de Cunha, apesar da bela vista para a Serra do Mar, é pouco arborizada e cuidada. Foto: Paulo Pontes. Data: 2019.

A cidade de Cunha é a segunda menos arborizada da Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte (RMVPLN), de acordo com dados do Censo 2022, divulgados no dia 17 de abril, quinta-feira, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo a pesquisa Características Urbanísticas do Entorno dos Domicílios, nossa cidade apresenta apenas 16,87% de seus domicílios com uma ou mais árvores no entorno. A cidade menos arborizada é Arapeí, com 8,57%. Piquete, outra cidade turística da nossa região, também apresenta um índice baixo, com 25,36%. Vale lembrar que nossa região conta com 39 municípios, cuja população ultrapassa 2,5 milhões de habitantes e é altamente urbanizada, com 94,7% desse contingente vivendo em áreas urbanas.

É interessante perceber as mudanças pelas quais a paisagem urbana de Cunha passou ao longo do tempo. Por exemplo, quando observamos fotos das décadas de 1930 e 1940 (vide na galeria acima), percebemos que era uma cidade muito menor, porém muito mais arborizada do que é hoje. Lembrava aquelas charmosas vilas europeias. As ruas centrais e a Praça da Matriz eram adornadas e ladeadas por árvores. Cunha, naquele tempo, ainda não era uma cidade turística, como é atualmente.

O último grande projeto de arborização da cidade ocorreu na década de 1970, durante o mandato do ex-prefeito José Elias Abdalla (Zelão), que tinha como objetivo embelezar a cidade, na esperança de promover o despertar turístico de Cunha. Muitas das árvores então plantadas, já envelhecidas e malcuidadas, foram, ao longo do tempo, sendo cortadas pela gestão municipal para ampliar ou remodelar as vias públicas — ou pela Defesa Civil, devido aos riscos que apresentavam aos moradores e transeuntes.

Desse projeto urbanístico — um dos muitos idealizados por esse visionário prefeito — restou apenas a arborização da Avenida Padre Rodolfo, no bairro do Alto do Cruzeiro. Por isso, é a avenida mais verde e bonita da cidade. Aquelas sibipirunas são um presente à Santa Casa, aos seus convalescentes e aos moradores do entorno. Esperamos que essa avenida nunca venha a ser descaracterizada, como infelizmente ocorreu com tantas outras.

Praça Cônego Siqueira descaracterizada. Dos bancos em “S”, nos anos 1980/1990, para um arremedo de centro de eventos e festas, uma verdadeira gambiarra. Foto: Paulo Pontes. Data: 2019.

Até a década de 1990, a Praça da Matriz e a Praça Cônego Siqueira — sempre locais de encontro dos cunhenses de todas as gerações — ainda contavam com mais de uma dúzia de árvores. Até mesmo uma vetusta e frondosa araucária, símbolo de Cunha, localizada ao lado, no terreno da Prefeitura (onde atualmente funciona a Secretaria Municipal de Educação), veio a morrer misteriosamente nos últimos anos. Depois que decidiram transformar a praça em um centro de eventos, o verde foi cedendo espaço a estruturas metálicas e plásticas, de gosto estético bastante duvidoso. A arborização, sempre prometida, foi sendo deixada “para depois” — um “depois” com prazo indeterminado, ao que tudo indica. A cada reforma ou remodelação, mais concreto e pedra. E mais árvores sacrificadas. Um contrassenso em um lugar que promove o ecoturismo e outras características naturais como atrativos turísticos.

Vista de drone da Igreja de Nossa Senhora da Conceição – construção de 1731 no estilo barroco paulista, na Praça Cônego Siqueira e da Matriz. Nota-se poucas árvores na praça central. Data: maio de 2018. Autor: Rubens Chaves/Pulsar Imagens.

Em entrevista concedida ao Jacuhy, há alguns anos, o engenheiro agrônomo Glênio Wilson de Campos, da CATI (Coordenadoria de Assistência Técnica Integral), que esteve à frente da Casa da Agricultura de Cunha entre as décadas de 1970 e 1980, apontou que a falta de arborização é um dos problemas da cidade, não apenas por uma questão ambiental, mas também estética, considerando o enorme potencial turístico do município. À época, o engenheiro Glênio sugeriu o plantio de pereiras como solução, pois, além de serem árvores frutíferas, adaptam-se bem a ambientes urbanos. Cunha, no passado, chegou a realizar a “Festa da Pera” e era a maior produtora paulista dessa fruta, graças aos inúmeros pomares mantidos por seus pequenos produtores. Obviamente, não podemos deixar de mencionar que a Mata Atlântica — bioma no qual nosso município está inserido — possui uma flora riquíssima, com diversas espécies que se adaptam muito bem aos espaços urbanos.

Embora o Brasil seja o maior país tropical e abrigue a maior floresta do mundo, seus espaços urbanos ainda carecem de árvores. Segundo o IBGE, 66% dos brasileiros vivem em ruas arborizadas, mas um terço mora em vias sem qualquer árvore. “O fato de 66% dos brasileiros viverem em trechos de ruas com pelo menos uma árvore é um número significativo”, afirmou o geógrafo Jaison Cervi, da Coordenação de Geografia do IBGE. “O problema é que as porcentagens variam muito de acordo com a região do país.” Curiosamente, a Região Norte é a menos arborizada. Também não deixa de ser curioso que Cunha, município que abriga duas unidades de conservação em seu território, esteja entre os menos arborizados do Vale. Na verdade, é inaceitável.

A arborização é crucial para melhorar a qualidade de vida nas cidades e combater o aquecimento global. As árvores purificam o ar, reduzem a temperatura, previnem enchentes e diminuem a contaminação dos lençóis freáticos. Em resumo, são essenciais para qualquer ambiente. Mesmo que, em Cunha, elas não estejam “na moda”, sua importância se reafirmará cada vez mais. E voltarão a ser plantadas, seja pelo poder público local ou pela própria população, pois a tomada de consciência é inevitável — e diversos projetos ambientais vêm surgindo em nosso município. O aquecimento global está aí. Todos vão precisar de uma sombra para se proteger.

Referências:
ESTADÃO. Quais são as cidades mais arborizadas do Brasil; veja ranking e mapa interativo. O Estado de S. Paulo, 17 abr. 2025. Disponível em: https://www.estadao.com.br/brasil/quais-sao-as-cidades-mais-arborizadas-do-brasil-veja-ranking-e-mapa-interativo/. Acesso em: 18 abr. 2025.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Panorama do Censo 2022: Cunha (SP). Rio de Janeiro: IBGE, 2023. Disponível em: https://censo2022.ibge.gov.br/panorama/. Acesso em: 18 abr. 2025.
______. Censo 2022: dois em cada três brasileiros moram em vias sem rampa para cadeirantes. Agência de Notícias do IBGE, 17 abr. 2025. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/43166-censo-2022-dois-em-cada-tres-brasileiros-moram-em-vias-sem-rampa-para-cadeirantes. Acesso em: 18 abr. 2025.

29 de dezembro de 1.933 – O falecimento do Dr. Casemiro da Rocha

Após a derrota de S. Paulo, na Revolução de 1932, o isolamento político de Alfredo Casemiro da Rocha, perrepista histórico, foi completo. Era o ocaso do velho político, líder inconteste em nossa região e grande benfeitor de Cunha. Até toma ciência das agitações políticas de maio de 1933, na eleição para a Assembleia Nacional Constituinte no Brasil, porém, assiste de longe e acabrunhado. Seus amigos e correligionários estavam exilados e apeados do poder.

Convite para a Missa de Sétimo Dia do Dr. Casemiro da Rocha, publicado no jornal O ESTADO DE S. PAULO, em 06 jan. de 1934, p. 10.

Em 16 de dezembro de 1933, o interventor federal em S. Paulo Armando de Sales Oliveira o nomeia prefeito de Cunha. E este foi o seu último cargo público. Termina onde começou. Desde a vitória da Revolução de 1930, Cunha tivera três alcaides. Nenhum deles durou. Aceita a missão o velho comandante, como forma de gratidão ao povo de Cunha.

Igreja de Santo Antônio, na Praça do Patriarca, em São Paulo, onde foi celebrada a Missa de Sétimo Dia do Dr. Casemiro da Rocha. Foto: Museu Paulista. Data: circa. 1927.

Noite do dia 26 de dezembro. Ressaca de Natal. No Clube Recreativo Cunhense, Alfredo joga baralho com seus amigos. A certa altura, Alfredo tem um mal súbito e cai no chão junto com suas cartas. Ali mesmo o acode o dr. Carlos Borges Âncora da Luz, médico e amigo. Diagnóstico: broncopneumonia. É carregado até a sua casa. Os remédios ministrados não surtem efeito. Falece no dia 29 de dezembro de 1933, sendo o seu velório e cortejo um dos maiores que Cunha já presenciou. Por ironia do destino, faleceu da doença em que era mestre em tratar e que tanta gente ajudou a sarar.

Esse foi o obituário publicado no jornal “A Gazeta”:

“DR. ALFREDO CASIMIRO DA ROCHA
Deu-se hontem, em Cunha, o fallecimento do dr. Alfredo Casimiro da Rocha, prefeito municipal daquella localidade.
O velho e estimado político, que gozava de grande prestígio em Cunha e em todas as localidades do antigo 3º districto eleitoral, contava 76 annos de edade, tendo nascido em São Salvador da Bahia, a 4 de março de 1856.
Aos seis annos de edade, iniciou seus estudos no antigo Collegio Abilio, ahi fazendo os preparatorios.
Matriculou-se na Faculdade de Medicina de sua terra natal, em 1870, frequentando primeiramente o curso de pharmacia e depois o curso medico, e diplomando-se em 15 de dezembro de 1877.
Um anno depois de formado, veiu para o Estado de São Paulo, fixando residencia na cidade de Cunha.
Foi eleito presidente da Camara Municipal dessa cidade em 1883, pelo Partido Republicano, que alli organizou, começando, então, a sua carreira politica, que foi sempre agitada. Concorreu a diversas eleições como candidato do Partido Republicano, conseguindo representar o seu Partido, em varias occasiões, quer na Assembléa Provincial, que na Assembléa Geral.
Voltou para a Camara Estadual na legislatura de 1907-1909. De 1913 a 1924 foi sempre reeleito pelo seu districto, onde era, tambem, acatado chefe politico.
Foi eleito senador a 25 de abril de 1925, por 111.870 votos, na vaga aberta com a renuncia do dr. Oscar de Almeida, e reeleito por 71.462 votos, na renovação do terço do Senado, a 24 de fevereiro de 1928.
Fez parte da Commissão de Instrucção Publica e Hygiene do Senado, onde exerceu o seu mandato até á victoria da revolução de outubro de 1930.
***
O dr. Casimiro da Rocha deixa viuva d. Maria do Carmo Rodrigues Rocha e os seguintes filhos: dr. Alfredo Casemiro Rocha Filho, 2º escripturario da Secretaria de Educação; Augusto Casemiro da Rocha, estudante; Evangelina Adelia da Rocha, residente em Cunha, e os enteados sr. Carivaldo Pinto, agente do imposto de consumo em Poços de Caldas; Juarez Pinto, guarda-livros nesta Capital e d. Adalgiza Pinto, professora em Cunha.”


Fonte: “A Gazeta”, São Paulo, 30 dez. 1933.
Foto: Alfredo Casemiro da Rocha com o seu filho Augusto, então com 17 anos. Foto tirada em 1933, em Cunha, no quintal da casa do dr. Casemiro, que ficava no Largo da Matriz. Sobre essa fotografia, legendou Oracy Nogueira, biógrafo do médico e político: “Note-se o semblante angustiado de Alfredo, que passava por uma das fases mais difíceis de sua vida”.
Publicação original: https://www.facebook.com/Jacuhy/posts/pfbid0vx7Fi9Y35q72aic5J3WxqZspG5VMZdGgYcHyAKLXsK4SMjqNPAg1MfGh28uYDHVil