
Desde o século XVIII, o tropeirismo foi uma atividade econômica e um ofício. Eram eles que interconectavam as distantes vilas e freguesias do sertão com os portos de abastecimento e escoamento da produção no litoral. Era um serviço essencial. Antes deles, usavam-se escravizados, eram os lombos negros e indígenas que levavam mercadorias de um lugar para outro. Mas a limitação do peso da carga e o cansaço frequente dos transportadores, submetidos a uma atividade desumana, se constituíam em um embaraço logístico. Assim, as tropas de muares surgem como solução inevitável para essas questões, tornando a expansão espacial da colonização portuguesa, cada vez mais longe dos seguros portos, possível e sustentável. É a resposta do colonizador às dificuldades que o meio físico impunha à empresa metropolitana, que vai se dando lentamente, “com a consistência do couro, não a do ferro ou do bronze, dobrando-se, ajustando-se, amoldando-se a todas as asperezas do meio.”, nos dizeres do brilhante Sérgio Buarque de Holanda. A tropa é parte dessa resposta.
A origem das tropas de muares se relaciona com a necessidade premente de abastecimento, à medida em que o povoamento se interiorizava no Brasil colônia. Assim, pode-se traçar um paralelismo com o tropeirismo e as atividades ligadas a mineração. Mas não só isso. Tanto é que vão permanecer atuantes e como profissão de prestígio, mesmo após o declínio da atividade mineradora. Em um universo marcado pelas lonjuras, pelas estradas péssimas, a comunicação entre os sítios, fazendas, povoados, freguesias, vilas e cidades dependia desse meio de transporte fundamentado na tração animal, nas trocas comerciais e na relação entre produção, escoamento e reposição. Por isso, até meados do século XX, com a expansão das rodovias, permanece como um ofício de extremo prestígio e rentável. Vai se constituindo em tradição passada de pai para filho, garantindo assim a formação de gerações familiares inteiras que tiveram a sua existência ligadas ao tropeirismo.
O tropeiro é uma sucessão social, uma evolução do bandeirante de outrora, conforme aponta HOLANDA (1994, p. 132-133): “Com as feiras de animais de Sorocaba, assinala-se, distintamente, uma significativa etapa na evolução da economia e também da sociedade paulista. Os grossos cabedais que nela se apuram, tendem a suscitar uma nova mentalidade na população. O tropeiro é o sucessor direto do sertanista e o precursor, em muitos, do grande fazendeiro. A transição faz-se assim sem violência. O espírito de aventura, que admite e quase exige a agressividade ou mesmo a fraude, encaminha-se, aos poucos, para uma ação mais disciplinadora. À fascinação dos riscos da ousadia turbulenta substitui-se o amor às iniciativas corajosas, mas que nem sempre dão imediato proveito. O amor da pecúnia sucede ao gosto da rapina […]”.
Era mais que só atividade econômica ou profissão, tal como conhecemos hoje, mas um modo de vida. E havia um jeito de ser. Eram “homens de palavra”. Se eles falassem, empenhavam-se ao máximo para cumprir. O valor moral de um homem se media pelo cumprimento das suas promessas. E foi assim que fizeram sua fama entre as mais distintas classes sociais e venceram o esquecimento imposto pelo tempo. Era gente rústica, mas nunca rude. Impressionaram o viajante e naturalista francês SAINT HILAIRE (1974, p. 27) com o fino trato que dispensavam aos demais: “As tropas passavam incessantemente pelo rancho. Em França, traria isto gritos, injúrias, disputas. Aqui, tudo se passa em paz. Todos trabalham sem o menor barulho. O mais sujo tocador de porcos fala com doçura e polidez. Trocam-se entre desconhecidos pequenos obséquios necessários, e todos vivem na melhor harmonia. Nos encontros das estradas, ninguém jamais deixa de saudar um viandante. Quando se vai tomar lugar num rancho, cumprimentam-se os primeiros ocupantes, e logo se trava a conversação.”
A necessidade de descanso das tropas de muares e de abrigo, levaram os tropeiros a fazer ranchos e estabelecer pousos ao longo dos trajetos. Habitações rústicas e coletivas, marcadas pelo contato, das trocas de ideias, saberes, costumes e informações. Ambiente de trocas e fermento de novos arranjos culturais. Diz SAINT HILAIRE (1974, p. 49): “quando chegam os tropeiros, arrumam as bagagens em ordem e de modo a ocupar menor lugar possível. Cada tropa acende fogo, à parte do rancho e faz cozinha própria. Antes e depois das refeições, conversam os tropeiros sobre a região que percorreram e falam de aventuras amorosas. Cantam, tocam violão ou dormem envoltos em cobertas estriadas ao chão sobre couros”. A permanência transitória dos hóspedes não permitia melhoramentos outros. Tudo ali é funcional e sob medida. De muitos pousos se fizeram freguesias, vilas e cidades. Um exemplo é a vizinha Lagoinha. Devido à centralidade que exerciam nos tempos colonial e imperial, posição advinda da força econômica e da capacidade que tinham de integrar e suprir. Os ranchos e pousos eram os conectivos que davam ligamento à imensa rede de estradas e caminhos, em franca expansão, do continente.
Os pousos, os ranchos faziam parte desse maravilhoso universo, que vem lentamente desaparecendo… Ficam as memórias, o exemplo da saga, o saudosismo dos descendentes e tradicionalistas. Mas tudo o que podem fazer agora é rememorar. Jamais terá como reproduzir o que foi o tropeirismo. O contexto, o cenário, a sociedade, a economia, as múltiplas relações que moldaram esse jeito de ser, esse ofício, ficaram para trás. É página virada. Mas a força da memória, a necessidade de encontrar identidade em um mundo cada vez mais perdido, a busca de significado e ressignificações (com fins turísticos) ficará e poderá até se ampliar.
Referências:
DUTRA, M. Pouzo em Agoa Preta huã legoa adiante de Pindamoinhangaba. [184-]. Aquarela sobre papel, 41,9 x 26,7 cm.
HOLANDA, S. B. de. Monções. Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1945.
______. Caminhos e fronteiras. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
SAINT-HILAIRE, A. de. Segunda viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo. Belo Horizonte: Itatiaia, 1974.
Imagem disponível no acervo digital da Brasiliana Iconográfica: https://www.brasilianaiconografica.art.br/obras/19486/pouzo-em-agoa-preta-hua-legoa-adiante-de-pindamoinhangaba