
“O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E, por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.”
(CAEIRO, Alberto. Poesia (O Guardador de Rebanhos). Ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, pp. 53-54)
E se completam os primeiros 10 anos do Jacuhy, o seu primeiro decênio. Em 21 de junho de 2016, resolvi criar uma página para expor tudo o que eu havia lido e pesquisado sobre Cunha. Boas intenções, poucas pretensões.
O Jacuhy é um blog pessoal. E um blog bairrista: é sobre Cunha, por Cunha e para Cunha. Cunha é o rio da minha aldeia. Nunca quis ser apenas um blog de história, cultura ou geografia. Porque há tantos, e “toda a gente sabe isso. Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia”.
Sempre gostei de curiosidades históricas; as grandes questões da História nunca me cativaram, porque são chatas e insolúveis. O que é pequeno, conhecido em toda a sua extensão, palpável, me dá segurança. Diz-se: “mar calmo nunca fez bom marinheiro”. Eu não sou marinheiro. Sou “cunheiro”. Opto sempre pela bonança.
Essa ânsia pelo completo me motiva. Fechar um assunto, esgotá-lo em suas causas e consequências é um deleite. Tanta subjetividade não pode atender aos ditames da micro-história; ainda assim, não me preocupo com o rigor científico. A narrativa é igualmente importante. Quem se põe a escrever tem no leitor a sua finalidade última.
O Jacuhy nunca foi o único a divulgar a história de Cunha. O querido professor João Veloso, um ícone, ainda era vivo quando fiz minha primeira postagem. O professor Victor Amato estava em plena atividade. O grupo virtual “Memória Cunhense”, no Facebook, estava com a audiência lá em cima. O Jacuhy veio para somar: ser mais um canal cultural, propagando notícias históricas e geográficas de Cunha.
Na época (2016/2017), fazia-se, no “Memória Cunhense”, o debate sobre a correção da data de aniversário de Cunha, propondo sua mudança para a data de fundação do município: 19 de março. Engajei-me nessa questão, mas quis ir além. No grupo, escrevia-se muito sobre o assunto. Os que apoiavam a mudança — a maioria — fundamentavam-se no livro do professor João Veloso (A História de Cunha); já os que eram contra, por diversas razões, apoiavam-se na banalidade da ação ou em outras fontes. Foi um período interessante: uma comunidade debatendo sua história e buscando alterar a história oficial.
A vitória do “19 de março” foi a vitória das ideias do professor João Veloso, levadas adiante pelo professor Victor Amato. Foi a municipalidade, por meio de uma lei, reconhecendo publicamente os 40 anos de pesquisa sobre Cunha de João Veloso: fundador do Museu Francisco Veloso, do Centro de Cultura e Tradição e pioneiro em tantas outras ações em prol da comunidade. Um reconhecimento merecido — e ainda pequeno diante de tudo o que ele foi.
Neste tempo de modernidade líquida, 10 anos é muito tempo. As mudanças já não esperam gerações: acontecem a todo momento e alteram o curso dos acontecimentos. Por isso, qualquer prognóstico sobre o Jacuhy é incerto. Se este fosse meu último post, ficaria feliz por tudo o que já publiquei na internet.
Não sou pesquisador, nem tenho nisso o meu trabalho. Sou real. Também estou sujeito às intempéries da vida — e tenho passado por algumas delas. Peço desculpas pelas ausências dos últimos meses. Tento contorná-las, mas não é fácil. Tudo requer tempo, este recurso escasso. Há coisas que o Jacuhy tem deixado pela metade: o mapa hidrográfico, a Proclamação da República em Cunha, os arquivos da escravidão, a política na década de 1930, uma biografia sobre o Molinari, o livro que quero escrever…
Lido com a ansiedade de não poder explorar todos os meandros do tempo ainda não visitados. E são muitas as curvas desconhecidas nesse rio tricentenário da história de Cunha.
Entre um café e um livro velho — que ataca minha rinite — vou prosseguindo. É muito difícil definir prioridades e sacrificar hobbies. Saudades de 2016! Não precisava me preocupar com tantas coisas… As intempéries da vida são forças morfoesculturais que moldam nossa existência e são alheias à nossa vontade. Devo aprender diariamente que, como disse o poeta Fernando Pessoa, “viver é não conseguir”.



