
Em 12 de abril de 1878 chegava a Cunha, com o intuito de fixar residência, o médico baiano Dr. Alfredo Casemiro da Rocha, proveniente de São Paulo, em companhia do jornalista e bacharel cunhense Benedicto Velloso d’Oliveira e Silva. Acometido de afecção pulmonar, foi convencido por Benedicto Velloso a vir para Cunha, para que o clima salubre das montanhas exercesse sobre sua moléstia efeito terapêutico. Quando chegou, logo percebeu ser o único médico residente em Cunha, razão que o leva a abrir um consultório imediatamente na cidade. No último quartel do século XIX, Cunha já estava entrando em fase de decadência econômica, devido ao esgotamento da pujança cafeeira do Vale e à Estrada de Ferro Central do Brasil, que tornou impraticável o caminho Guaratinguetá-Paraty. Por isso, desde logo anunciou: “consulta grátis aos pobres”. Sua benevolência o tornaria notório e em pouco tempo ganhou a simpatia e amizade dos cunhenses. Um ano após a sua chegada, foi eleito vereador pelo Partido Liberal. Como médico, fazia mais caridade que para as contas. Na política defendeu a causa republicana, fundando o Clube Republicano de Cunha, e a causa abolicionista, atuando na libertação de muitos escravos da cidade.
Em 1883, já filiado ao Partido Republicano Paulista (PRP), chegou à presidência da Câmara Municipal. Mesmo sofrendo preconceito por ser negro (no início), não se abateu e se impôs (pela sua formação e benevolência) ante a elite local, a qual ele passou a integrar e liderar. Em 1911 foi um dos precursores, junto com prefeito Coronel João Olympio, na criação do primeiro hospital de Cunha, a Santa Casa de Misericórdia Sagrado Coração de Jesus, que funcionou onde é hoje o restaurante Jeca Grill, na rua que se chamava Direita e hoje leva o seu nome. Republicano de primeira hora, com o advento do novo regime, logo estaria ocupando postos políticos e se tornando em um dos líderes do Partido Republicano Paulista (PRP), o principal partido da Primeira República. Em 1913 liderou a construção do Grupo Escolar. Em 1918 estava nos leitos improvisados de Cunha combatendo a gripe espanhola.
Em 1933 foi nomeado prefeito de Cunha, uma cidade arrasada economicamente pela Revolução do ano anterior. Mas ocupou o cargo por poucos dias, falecendo em 29 de dezembro do mesmo ano, para tristeza de todos. Sua ascensão política e seu amor Cunha, terra que adotou como sua e ajudou como pôde, fez dele uma figura marcante na História de Cunha e querido por todos. Além de ser um ótimo político, sempre foi alguém preocupado com o bem comum e em ajudar a cidade que o acolheu.
Fontes:
NOGUEIRA, Oracy. Negro político, político negro: a vida do doutor Alfredo Casemiro da Rocha, parlamentar da “República Velha”. São Paulo: Edusp, 1992.
VELOSO, João J. de O. A História de Cunha – Freguesia do Facão – A rota de exploração das Minas e abastecimento das tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010, pp. 353-354.
Foto: Alfredo Casemiro da Rocha, aos 22 anos de idade, posando com sua tese de doutoramento, intitulada: “Do diagnóstico e tratamento do beribéri”, na Faculdade de Medicina da Bahia, em Salvador (BA), no começo do ano de 1.878. Foto extraída do livro do “Negro político, político negro”, de Oracy Nogueira, p. 43. Foto provavelmente cedida pela família ao autor.
Publicação original: https://www.facebook.com/Jacuhy/posts/pfbid02WpUHembMWL3f1jTxy2rqdx8xvXGq3UxPuCija3RBot4GtPnrRiNiKZtfq5cppd9Tl
