Theodoro, o tropeiro escravizado

Anúncio publicado no jornal Radical Paulistano. Data: 17 jun. 1869.

“Escravo fugido
Da fazenda do tenente-coronel José Prudente de Toledo, em Cunha, fugiu no dia 19 do corrente, o seu escravo Theodoro, com os seguintes signaes: côr parda, alto, pouca barba no queixo, dentes ponteagudos, quasi cariados, delgado de corpo, falla macia e agradavel, tem signal de um golpe num dos braços ácima da juncta da mão, proveniente de um córte de puxavante; é bom cavalleiro e dado a domador: leva um sacco com muita roupa, e um ponche de panno forrado de baeta azul, ainda novo, tem a edade presumida de 34 annos. Quem o apprehender e der aviso a seu senhor, será generosamente gratificado. Protesta-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutar.
Cidade de Cunha, 23 de Janeiro de 1869.”

Este anúncio de jornal, publicado em 1869, revela muito sobre a estrutura social e a mentalidade do Brasil no Segundo Reinado, apenas 19 anos antes da abolição formal da escravidão (1888). O texto exemplifica como a imprensa era utilizada como uma ferramenta de controle social. Mesmo o “Radical Paulistano“, que era um jornal liberal e que propugnava pelo fim da escravidão, se submetia a anunciar para os escravagistas. O “escravo fugido” era tratado como uma propriedade extraviada. A descrição detalhada (“dentes ponteagudos“, “delgado de corpo“, “falla macia“) não visava humanizar Theodoro, mas sim fornecer um “guia de identificação” para que qualquer cidadão pudesse atuar como um agente de captura.

Cunha, no século XIX, era um ponto importante de passagem e produção ligada ao Vale do Paraíba, região que enriqueceu com o café e foi um dos últimos redutos do escravismo no Brasil. O tenente-coronel (da Guarda Nacional) José Prudente de Toledo era um dos principais fazendeiros do município, com terras entre os bairros do Engenho e do Cume, descendente dos fundadores de Cunha.

A cicatriz acima do pulso, causada por um “puxavante” (uma ferramenta usada para aparar cascos de cavalos ou em trabalhos de ferraria), é um registro físico da vida de trabalho manual exaustivo a que ele era submetido. Marcas físicas eram comuns em anúncios de fuga, servindo como “RG” numa época sem documentos fotográficos populares. Também demonstra a importância que o tropeirismo ocupava em nossa economia. Mesmo fazendas produtoras de milho e toucinho necessitavam de escravizados que soubessem os ofícios tropeiros.

O trecho final do anúncio, “protesta-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutar”, é um aviso jurídico. O “acoitar” (esconder ou ajudar um fugitivo) era crime previsto no Código Criminal do Império. Isso demonstra como o Estado brasileiro protegia o direito de propriedade sobre seres humanos e punia qualquer um que tentasse ajudar os escravizados em busca de liberdade. A solidariedade era criminalizada. E punida. Todos deviam colaborar com o sistema escravista.

Destaca-se, ainda, sinais de resistência e identidade no escravizado em questão. A fuga é um ato político: Theodoro fugiu levando consigo um saco de roupas e um “ponche de pano forrado de baeta azul” (traje típico dos tropeiros paulistas), o que indica que a fuga foi planejada. Ele não apenas fugiu do trabalho forçado, mas buscou levar itens de proteção e subsistência. Suas habilidades laborais o acompanham. Menciona-se, p. ex., que Theodoro era “bom cavalleiro e dado a domador” , habilidades técnicas valiosas naquele período histórico, o que muitas vezes dava ao escravizado uma maior mobilidade, mas também o tornava um “prejuízo” financeiro maior para o senhor.

Tropeiro com poncho de baeta azul. Derivado do antigo bernéu usado pelos bandeirantes, consolidou-se como a principal indumentária de viagem. Ilustração: Troperos or Muleteers“. Data: 1822. Desenhista: Henry Chamberlain. Gravador: H. Alken.

Este documento é uma prova material de que a liberdade no Brasil foi conquistada com muita resistência individual e coletiva, através de atos corajosos como o de Theodoro, que desafiou o sistema de sua época. A fuga, talvez para um quilombo, era a resistência possível em um sistema opressor, em que a escravidão era tão institucionalizada, que era tratada como algo natural.

A chegada do Dr. Casemiro da Rocha a Cunha – 12 de abril de 1.878

Arte do Jacuhy para a série #HojeNaHistóriaDeCunha, da nossa página no Facebook.

Em 12 de abril de 1878 chegava a Cunha, com o intuito de fixar residência, o médico baiano Dr. Alfredo Casemiro da Rocha, proveniente de São Paulo, em companhia do jornalista e bacharel cunhense Benedicto Velloso d’Oliveira e Silva. Acometido de afecção pulmonar, foi convencido por Benedicto Velloso a vir para Cunha, para que o clima salubre das montanhas exercesse sobre sua moléstia efeito terapêutico. Quando chegou, logo percebeu ser o único médico residente em Cunha, razão que o leva a abrir um consultório imediatamente na cidade. No último quartel do século XIX, Cunha já estava entrando em fase de decadência econômica, devido ao esgotamento da pujança cafeeira do Vale e à Estrada de Ferro Central do Brasil, que tornou impraticável o caminho Guaratinguetá-Paraty. Por isso, desde logo anunciou: “consulta grátis aos pobres”. Sua benevolência o tornaria notório e em pouco tempo ganhou a simpatia e amizade dos cunhenses. Um ano após a sua chegada, foi eleito vereador pelo Partido Liberal. Como médico, fazia mais caridade que para as contas. Na política defendeu a causa republicana, fundando o Clube Republicano de Cunha, e a causa abolicionista, atuando na libertação de muitos escravos da cidade.
Em 1883, já filiado ao Partido Republicano Paulista (PRP), chegou à presidência da Câmara Municipal. Mesmo sofrendo preconceito por ser negro (no início), não se abateu e se impôs (pela sua formação e benevolência) ante a elite local, a qual ele passou a integrar e liderar. Em 1911 foi um dos precursores, junto com prefeito Coronel João Olympio, na criação do primeiro hospital de Cunha, a Santa Casa de Misericórdia Sagrado Coração de Jesus, que funcionou onde é hoje o restaurante Jeca Grill, na rua que se chamava Direita e hoje leva o seu nome. Republicano de primeira hora, com o advento do novo regime, logo estaria ocupando postos políticos e se tornando em um dos líderes do Partido Republicano Paulista (PRP), o principal partido da Primeira República. Em 1913 liderou a construção do Grupo Escolar. Em 1918 estava nos leitos improvisados de Cunha combatendo a gripe espanhola.
Em 1933 foi nomeado prefeito de Cunha, uma cidade arrasada economicamente pela Revolução do ano anterior. Mas ocupou o cargo por poucos dias, falecendo em 29 de dezembro do mesmo ano, para tristeza de todos. Sua ascensão política e seu amor Cunha, terra que adotou como sua e ajudou como pôde, fez dele uma figura marcante na História de Cunha e querido por todos. Além de ser um ótimo político, sempre foi alguém preocupado com o bem comum e em ajudar a cidade que o acolheu.

Fontes:
NOGUEIRA, Oracy. Negro político, político negro: a vida do doutor Alfredo Casemiro da Rocha, parlamentar da “República Velha”. São Paulo: Edusp, 1992.
VELOSO, João J. de O. A História de Cunha – Freguesia do Facão – A rota de exploração das Minas e abastecimento das tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010, pp. 353-354.

Foto: Alfredo Casemiro da Rocha, aos 22 anos de idade, posando com sua tese de doutoramento, intitulada: “Do diagnóstico e tratamento do beribéri”, na Faculdade de Medicina da Bahia, em Salvador (BA), no começo do ano de 1.878. Foto extraída do livro do “Negro político, político negro”, de Oracy Nogueira, p. 43. Foto provavelmente cedida pela família ao autor.

Publicação original: https://www.facebook.com/Jacuhy/posts/pfbid02WpUHembMWL3f1jTxy2rqdx8xvXGq3UxPuCija3RBot4GtPnrRiNiKZtfq5cppd9Tl

População de Cunha em 1.793

Fonte: Maços de População da Villa de N. S. da Conceição de Cunha, Arquivo Público do Estado de S. Paulo.

Em um dos primeiros recenseamentos realizados em Cunha após a emancipação política, em 1785, a vila aparecia com 2.742 habitantes.

Chama a atenção a quantidade de escravos: 46,6% da população. Quase metade! Grande produtora de cereais, as fazendas de Cunha também se fundamentavam na mão-de-obra cativa, como todos os demais lugares da colônia. O trabalho familiar, baseado em minifúndios, vem bem depois, com as sucessivas divisões das propriedades de terra após as partilhas entres os herdeiros. O professor João Veloso sempre dizia que nem todos esses escravos eram de origem africana. Pelo menos nesse período, século XVIII, ainda havia muitos escravizados indígenas, os “bugres”.

Esses recenseamentos – documentos valiosos para os estudos demográficos, econômicos e históricos do estado e das cidades – encontram-se no Arquivo Público do Estado de São Paulo e estão digitalizados, disponíveis inclusive para consulta on-line. Para lê-los, principalmente os mais antigos, é preciso ter algum conhecimento em paleografia.

Cerca de 100 anos depois, em 1890, a população de Cunha era de 12.880 habitantes. Um aumento populacional de 370%. Já em 1991, a população de Cunha chegava a 23.462 habitantes. Um acréscimo populacional de 82%, porém bem menor do que houve no século anterior. Isso sem comparar com o crescimento populacional de São Paulo e do Brasil no mesmo período. Fica evidente que no século XIX Cunha atingiu o seu apogeu econômico, juntamente com o Vale do Paraíba, enriquecendo nos tempos áureos do café. O século XX foi marcado pela estagnação econômica, com uma agricultura de subsistência e uma pecuária extensiva de baixo rendimento, e, consequentemente, perda populacional devido ao êxodo rural.