
“Escravo fugido
Da fazenda do tenente-coronel José Prudente de Toledo, em Cunha, fugiu no dia 19 do corrente, o seu escravo Theodoro, com os seguintes signaes: côr parda, alto, pouca barba no queixo, dentes ponteagudos, quasi cariados, delgado de corpo, falla macia e agradavel, tem signal de um golpe num dos braços ácima da juncta da mão, proveniente de um córte de puxavante; é bom cavalleiro e dado a domador: leva um sacco com muita roupa, e um ponche de panno forrado de baeta azul, ainda novo, tem a edade presumida de 34 annos. Quem o apprehender e der aviso a seu senhor, será generosamente gratificado. Protesta-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutar.
Cidade de Cunha, 23 de Janeiro de 1869.”
Este anúncio de jornal, publicado em 1869, revela muito sobre a estrutura social e a mentalidade do Brasil no Segundo Reinado, apenas 19 anos antes da abolição formal da escravidão (1888). O texto exemplifica como a imprensa era utilizada como uma ferramenta de controle social. Mesmo o “Radical Paulistano“, que era um jornal liberal e que propugnava pelo fim da escravidão, se submetia a anunciar para os escravagistas. O “escravo fugido” era tratado como uma propriedade extraviada. A descrição detalhada (“dentes ponteagudos“, “delgado de corpo“, “falla macia“) não visava humanizar Theodoro, mas sim fornecer um “guia de identificação” para que qualquer cidadão pudesse atuar como um agente de captura.
Cunha, no século XIX, era um ponto importante de passagem e produção ligada ao Vale do Paraíba, região que enriqueceu com o café e foi um dos últimos redutos do escravismo no Brasil. O tenente-coronel (da Guarda Nacional) José Prudente de Toledo era um dos principais fazendeiros do município, com terras entre os bairros do Engenho e do Cume, descendente dos fundadores de Cunha.
A cicatriz acima do pulso, causada por um “puxavante” (uma ferramenta usada para aparar cascos de cavalos ou em trabalhos de ferraria), é um registro físico da vida de trabalho manual exaustivo a que ele era submetido. Marcas físicas eram comuns em anúncios de fuga, servindo como “RG” numa época sem documentos fotográficos populares. Também demonstra a importância que o tropeirismo ocupava em nossa economia. Mesmo fazendas produtoras de milho e toucinho necessitavam de escravizados que soubessem os ofícios tropeiros.
O trecho final do anúncio, “protesta-se com todo o rigor da lei contra quem o acoutar”, é um aviso jurídico. O “acoitar” (esconder ou ajudar um fugitivo) era crime previsto no Código Criminal do Império. Isso demonstra como o Estado brasileiro protegia o direito de propriedade sobre seres humanos e punia qualquer um que tentasse ajudar os escravizados em busca de liberdade. A solidariedade era criminalizada. E punida. Todos deviam colaborar com o sistema escravista.
Destaca-se, ainda, sinais de resistência e identidade no escravizado em questão. A fuga é um ato político: Theodoro fugiu levando consigo um saco de roupas e um “ponche de pano forrado de baeta azul” (traje típico dos tropeiros paulistas), o que indica que a fuga foi planejada. Ele não apenas fugiu do trabalho forçado, mas buscou levar itens de proteção e subsistência. Suas habilidades laborais o acompanham. Menciona-se, p. ex., que Theodoro era “bom cavalleiro e dado a domador” , habilidades técnicas valiosas naquele período histórico, o que muitas vezes dava ao escravizado uma maior mobilidade, mas também o tornava um “prejuízo” financeiro maior para o senhor.

Este documento é uma prova material de que a liberdade no Brasil foi conquistada com muita resistência individual e coletiva, através de atos corajosos como o de Theodoro, que desafiou o sistema de sua época. A fuga, talvez para um quilombo, era a resistência possível em um sistema opressor, em que a escravidão era tão institucionalizada, que era tratada como algo natural.

