Cada feriado chuvoso (como este) só atesta e alardeia que o turismo, enquanto alternativa econômica para Cunha, não é, por enquanto, viável.
Pelo menos não nos moldes desse turismo que foi imposto aqui. Imposto porque não foi um modelo que partiu da coletividade, mas de grupos restritos e poucos criativos.
Queriam criar uma “nova Campos do Jordão”, mas o plano falhou. Não é porque ambas as cidades são estâncias climáticas que são do mesmo jeito, com as mesmas características.
Não deu certo porque as atividades econômicas estão atreladas a processos históricos. E cada cidade tem a sua própria história. A de Campos do Jordão, por exemplo, em grande parte foi construída pelas benesses do Governo Estadual; já em Cunha foi na base do improviso, isto é, ficou a cargo da Prefeitura Municipal. Ente omisso muitas vezes, diga-se. Um exemplo é a realização do primeiro Festival de Inverno, em 1993, iniciativa dos ceramistas e comerciantes. A Prefeitura foi coadjuvante. O turismo em Cunha começou na base do empurrão, pegando na base do tranco.
De 1948, quando Cunha se tornou (a muito custo) uma Estância Climática, até meados dos anos 1970, quando a Prefeitura começou a pensar que o turismo poderia ser uma alternativa econômica para a decadente agricultura cunhense, foram quase trinta anos perdidos. Tempo demais. Campos do Jordão já era conhecida nacionalmente e já era o destino de montanha preferido dos paulistanos. Enquanto plantávamos o milho, Campos do Jordão já estava comendo o bolão de fubá.
E o pior de tudo não foi ter saído atrás. É essa insistência em copiar o modelo de desenvolvimento turístico jordanense. Estamos condenados a correr sempre atrás do concorrente, sem poder alcançá-lo. Afinal, não apresentamos nada de diferente, apenas mais do mesmo. E em termos de qualidade, as atrações de Campos do Jordão são maiores e de melhor qualidade do que as nossas.
Uns podem argumentar que as atividades turísticas geram emprego e renda em Cunha, que há inúmeras pousadas que vêm se mantendo, que o número de visitantes vem aumentando etc. Mas a que preço?! Só o DADE (Departamento de apoio às estâncias do Governo Estadual) investe em Cunha mais de 1 milhão de reais todo o ano. O retorno não acompanha o montante investido. Se investíssemos esse dinheiro em outra atividade, não lograríamos melhor sorte?
Cunha jamais conseguirá se tornar uma cidade nos moldes de Campos de Jordão. Primeiro, porque passaram por processos históricos distintos e são culturalmente diferentes. Cunha ainda é um reduto da cultura caipira; Campos do Jordão é qualquer coisa, menos caipira. Apesar da história e da cultura não serem inalteráveis, não são fáceis e rápidas de serem mudadas. O que levou séculos para se formar não se desfaz em décadas ou anos.
Outra diferença, talvez a fundamental (e essencialmente geográfica), é a da distribuição espacial das atratividades. Enquanto Campos do Jordão apresenta suas atratividades concentradas na Vila Capivari e com uma dispersão restrita a sua área urbanizada; Cunha possui suas atratividades dispersas na extensão de seu enorme e acidentado território, sendo que os atrativos de sua área urbana nem sempre se coadunam aos fatos naturais/culturais que atraem os turistas para a área rural. Sem contar que essa dispersão exige uma infraestrutura adequada, a fim de garantir acessibilidade e o bem-estar necessário ao visitante.
Por uma questão histórica e geográfica, o turismo em Cunha está sendo um verdadeiro fiasco. Mas há alternativas? Sim, há. É preciso, antes de mais nada, abandonar o modelo jordanense. Buscar ou construir modelos alternativos, valorizar as nossas potencialidades, repensar os eventos desenvolvidos durante o ano, replanejar a questão turística (marketing, público-alvo, infraestrutura etc.), recalcular o preço das pousadas, bares e restaurantes etc. Enfim, começar do zero.
O difícil não é recomeçar do zero. A dificuldade é encontrar alguém disposto a pagar o preço de quatro décadas de uma política turística equivocada. Quem se habilita?
Texto publicado em 30 de abril 2012, no blog “Ritter & Humboldt”.
Município manteve praticamente a mesma população durante todo o século XX.
Em 1.836, a população da Vila de Cunha era de 3.403 habitantes. A população da Província de S. Paulo não passava de 327 mil habitantes. Portanto, a população da Vila de Cunha representava cerca de 1% da população provincial que, àquela época, ainda incorporava o atual Estado do Paraná. Hoje, a população de Cunha é de 21.697 habitantes, segundo o IBGE. No Estado de S. Paulo, o mais populoso da Federação, vivem mais de 43 milhões de pessoas. Portanto, em nosso Município habita cerca de 0,05% do montante da população estadual, desconsiderando, claro, a população do Paraná, que agora é uma unidade federativa.
Se nesses 180 anos decorridos de lá para cá, Cunha mantivesse a participação no total da população estadual, não “parando no tempo” (como dizem), teríamos hoje mais 400 mil habitantes! Ia faltar morro para o povo fazer casa… Pensando melhor, ainda bem que viramos uma “cidade morta” na virada do século XIX para o XX.
Vale frisar que essa estagnação é fruto do saldo migratório negativo, e não da queda da taxa de natalidade/fecundidade, tal como acontece nos países desenvolvidos. Por trás dessa aparente estagnação há, paradoxalmente, toda uma dinâmica. Os “pushs factors” que podemos destacar são:
a) Estrutura agrária equalizada por gerações de herdeiros, inviabilizando novos desmembramentos de glebas às gerações futuras, tornando o fator fundiário um instrumento de repulsa;
b) Êxodo rural impulsionado pela industrialização das cidades do Vale do Paraíba e da Grande São Paulo a partir dos anos 1950;
c) Incapacidade técnica da agricultura tradicional/familiar de disputar mercado com a agricultura moderna e mecanizada;
d) Falência das elites agrárias tradicionais de Cunha, devido aos fatores “b” (escassez de mão-de-obra) e “c” (rendimentos precários e baixa produtividade);
e) Incapacidade do Estado de suprir as demandas por educação, saúde, transporte e direitos trabalhistas para a população do campo;
f) Substituição da agricultura familiar, combinada na tríade milho, feijão e suinocultura, pela pecuária de leite e corte, atividade com menor demanda de mão-de-obra e que introduziu espécies exóticas para formação de pastagem e resistentes à sazonalidade, tornando as roçadas um trabalho menos duro;
g) Devido aos fatores “b” e “c”, início da decadência das relações de trabalho pré-capitalistas nas roças de Cunha (inquilinos, agregados, meeiros etc.) e de solidariedade camponesa (mutirões), com a introdução do trabalho assalariado, autônomos (diaristas) e arrendamentos, a fim de contrair empréstimos bancários.
Nada indica que essa estagnação demográfica seja superada tão logo. O recente aumento das atividades turísticas pode amenizar essa situação, evitando a saída de muitos cunhenses. Entretanto, a reversão desse processo depende de fatores econômicos muito mais pungentes que esse surto turístico incipiente.
Texto publicado em 30 de julho de 2016, na página Jacuhy.
Migrar é ação inerente à história da Humanidade. Desde os mais remotos tempos, mudar de lugar para suprir suas necessidades parece ser uma condição que acompanhou e garantiu a existência das sociedades humanas, levando à sua dispersão pelo Globo. A geógrafa francesa BEAUJEU-GARNIER (1980, p. 191) discorre a esse respeito: “o homem é uma criatura móvel, capaz de investigar, suscetível à sugestão e dotada de imaginação e iniciativa. Isso explica a razão pela qual, tendo concebido a idéia de que suas necessidades podem ser satisfeitas algures, decide não só ir a esse lugar como, também, sobre os meios por que seu projeto pode ser realizado.”. E assim tem feito desde que se pôs a andar, há milhões de anos.
Pirâmide etária do estado de São Paulo, segundo Censo de 2010. Não se nota nela a retração das barras que compreendem a população em idade ativa. Fonte: IBGE
São Paulo, nosso estado, foi receptáculo, desde o final do século XIX, de inúmeras levas de imigrantes que partiram para o Novo Mundo: italianos, japoneses, libaneses, alemães etc. Já no século XX, foi a vez dos nordestinos fluir em grandes levas para cá, acompanhando a necessidade das indústrias por mão de obra barata, abandonando a região de origem e os graves problemas e disparidades sociais até hoje não superados. Por isso o geógrafo brasileiro Milton Santos faz questão de anotar e chamar a atenção para a complexidade do fenômeno migratório, ao escrever que “o fenômeno das migrações aparece, portanto, estreitamente ligado ao da organização da economia e do espaço, vistos de um ponto de vista dinâmico.” (SANTOS, 2008, p. 306). A questão migratória vai além dos fatores psicológicos e mesmo das diferenças de renda entre os trabalhadores do campo e da cidade.
Evolução da população de Cunha ao longo dos últimos 40 anos. Criação: Jacuhy. Fonte dos dados: Fundação SEADE.
Cunha e outros municípios do Alto Vale do Paraíba vivenciaram no século passado um processo inverso do estadual. Porque, como afirmou SANTOS (2008, p. 301), as migrações são expressões da desigualdade espacial, resultado dos mecanismos de modernização, da influência da grande cidade sobre parte da área rural próxima. Assim, as circunstâncias históricas e econômicas fizeram prevalecer nestas paragens o êxodo rural. Camponeses sem acesso à terra (meeiros, agregados, inquilinos etc.) e pequenos agricultores com baixos rendimentos deixaram o campo cunhense e partiram para outras cidades do Vale do Paraíba e da Região Metropolitana de São Paulo, em busca de emprego, melhores condições de vida e maiores salários. Durante todo o século XX, essas perdas migratórias enxugavam as altas taxas de natalidade e de fertilidade, impedindo o seu reflexo no aumento natural da população municipal. Desse modo, a população de Cunha ficou estagnada na casa dos vinte mil habitantes durante todo o século passado. E assim permanece.
Essas condições podem ser observadas nas pirâmides etárias de Cunha. Os gráficos são reveladores quando se trata da estagnação demográfica em que o município se encontra há mais de um século. Cunha se fechou em uma agricultura familiar e de subsistência, de baixo rendimento, autóctone, calcada na plantação consorciada de milho/feijão e na pecuária extensiva. Tudo muito impróprio, dada às condições geomorfológicas do lugar, território acidentado em cada canto. E sem acompanhar (por muitas razões) as inovações tecnológicas do agronegócio. Não porque os agricultores cunhenses assim quiseram, mas porque estruturas poderosas, que se articulam em escalas superiores a local, implantaram e porque a lógica do capital é geradora de desigualdades, privilegiando certos espaços e se esquecendo de outros. O Brasil viveu durante o século XX um projeto avassalador de modernização, que culminou na concentração espacial da produção e consumo (SANTOS, 2008, p. 305-306), sobretudo nas grandes cidades, que serviram como espaços de recepção de bens, pessoas e capitais desses projetos do mercado, em prejuízo das cidades pequenas e zonas rurais.
Pirâmide etária de Cunha, segundo o Censo 2010.As barras da população compreendida entre os 20 e 39 anos estão retraídas. Fonte: IBGE.
Percebe-se, observando as pirâmides etárias do município, que as barras sofrem uma retração quando estão nas faixas etárias que compreendem a população em idade ativa (conforme se vê na imagem acima), que vai, geralmente, dos 16 aos 60 anos. Isso é um claro indicador do impacto do saldo migratório negativo. Muitos jovens, após se formarem no ensino médio, acabam deixando Cunha e partindo em busca de emprego, por isso há essa depressão no miolo da pirâmide. O mesmo fenômeno não é observado no estado de São Paulo e nem nos municípios da região que foram capazes de oferecer oportunidades de emprego, seja no comércio, serviços ou nos seus parques industriais. Mesmo se decidem permanecer no campo, o sítio da família, um minifúndio explorado pela força do trabalho familiar, não é capaz de propiciar renda para todos os filhos. Muitos têm que se mudar, mesmo a contragosto. É a chamada “migração ascendente” (SANTOS, 2008, p. 304), que se relaciona com o êxodo rural, fluxo que surge como uma fuga da miséria.
Pirâmide etária de Cunha, segundo o Censo 2000.A barra da população compreendida entre os 25 e 29 anos está retraída. Nota-se ainda um perfil clássico de pirâmide, entre a Fase I e Fase II da Teoria da Transição Demográfica. Fonte: IBGE.
Em Cunha, essa migração ascendente se acelera após a pavimentação da Rodovia Paulo Virgínio (SP-171), que liga Cunha à Rodovia Presidente Dutra (BR-116), na década de 1960. Por isso, Milton SANTOS (2008, p. 304) e outros estudiosos do fenômeno migratório, relacionam esses deslocamentos de população às facilidades de transporte. Assim, milhares de pessoas começam a esvaziar os campos e cidades menores em direção às metrópoles regionais e mais ainda para as metrópoles nacionais, onde o setor terciário é elástico o suficiente para recebê-las. Essas migrações nascem de situações de desequilíbrios e acabam agravando as desigualdades econômicas e espaciais, inchando as cidades e murchando as zonas rurais e cidades locais. Por fim, geram mais concentração espacial de renda, população, indústrias, comércio, consumo, poder político, inovações tecnológicas etc. Criam um espaço de topologia marcada por assimetrias socioeconômicas.
Quando se chega na faixa da população idosa, que estão representadas no topo, o município volta a se assemelhar aos padrões estaduais e nacionais. Isso indica uma migração de retorno. Muitos cunhenses, após se aposentarem, retornam à terra natal. O lugar onde o umbigo foi enterrado cala mais alto na alma do cunhense.
Garantir emprego para sua população, sobretudo para sua juventude, é um dos desafios mais urgentes para o município de Cunha. Há dois caminhos no horizonte. O turismo, em franca expansão, cuja capacidade a ser alcançada ainda é incerta. E a agricultura familiar, que pode se reinventar com novas formas de produzir, com sistemas agroflorestais, produção orgânica e diversificação de culturas. Mão de obra é o que não falta, mas faltam projetos, recursos, vontade e formação técnica para a juventude trabalhadora cunhense. Hoje, as cidades maiores já não são mais tão atrativas como eram no tempo dos nossos pais e avós, devido ao alto custo de vida e à rarefação dos empregos, fatores que se somam a um mercado cada vez mais exigente de qualificação e, desse modo, concorrido.
Talvez o futuro esteja nascendo em cidades como Cunha. Não custa sonhar. Com os pés no chão e mãos à obra, claro.
Referências:
BEAUJEU-GARNIER, J. Geografia de População. Tradução: Leônidas G. de Carvalho. 2. ed. São Paulo: Editora Nacional, 1980.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Demográfico 2010: sinopse dos resultados. Disponível em: < https://censo2010.ibge.gov.br/resultados.html >, acesso em 5 jun. 2021.
SANTOS, M. O espaço dividido: os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos. Tradução: Myrna T. R. Viana. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2008.
Rio Paraibuna cortando o Parque Estadual da Serra Mar – Núcleo de Cunha. Foto: Instituto Florestal.
Segundo os levantamentos feitos pelo Instituto Florestal do estado de São Paulo, as áreas nativas de Mata Atlântica no município de Cunha vêm aumentando nas últimas décadas. Em 2005, Cunha contava com 35.048 hectares de vegetação nativa, ou seja, 26,3% do seu território (IF, 2005). Atualmente (IF, 2020), Cunha conta com 48.598 hectaresde cobertura vegetal nativa, o que corresponde a 34,5% do seu território. Um aumento de quase 10% nos últimos 15 anos, com 13,5 mil hectares regenerados, o que corresponde a cerca de 19 mil campos de futebol. Um aumento significativo, já que não houve nesse período nenhum programa municipal, estadual ou federal que incentivasse o reflorestamento com mata nativa. Muito mais poderia ter sido feito e recuperado, se houvesse. Já passou da hora do município ter uma unidade de conservação própria. Quem sabe na nascente do rio Jacuí ou mesmo na do rio Paraibuna…
Evolução do uso e ocupação do solo no município de Cunha ao longo de 20 anos.
Nas imagens observadas, o fato mais visível é o avanço das plantações de eucalipto (silvicultura), sobretudo no bairro da Várzea do Tanque. Mas isso é uma análise superficial. Análises espaciais a partir de sensoriamento remoto, utilizando softwares e métodos científicos, indicam que a cobertura vegetal do bioma original está em franca recuperação.
Situação do uso e ocupação do solo no município de Cunha nos últimos anos.
O município de Cunha possui mais um terço de seu território coberto por matas nativas é um valor bastante significativo no contexto estadual, sobretudo pelo fato do município já ter mais de 300 anos de colonização. Ainda mais porque desde a década de 1940 desenvolveu uma pecuária (leiteira e de corte) extensiva, rudimentar, muito danosa aos solos e à biodiversidade, com o plantio em larga escala de uma praga biológica chamada braquiária.
O motivo do aumento está relacionado muito mais às mudanças econômicas vivenciadas por Cunha nas últimas quatro décadas do que uma suposta tomada de “consciência ambiental” por parte de seus habitantes. Pode-se apontar alguns fatores que contribuíram para o aumento das áreas de mata nativas:
A criação de duas unidades de conservação abrangendo parte do território do município na década de 1970;
O aumento da fiscalização por parte da Polícia Militar Ambiental e dos demais órgãos controladores e fiscalizadores;
Êxodo rural e diminuição progressiva da população rural cunhense ao longo do século XX e início do século XXI;
Avanço no desenvolvimento turístico do município e valorização da paisagem como objeto de consumo, fomentando o turismo rural e ecoturismo, atividades em que as coberturas florestais apreciadas e objetos de atração;
Aumento dos sítios de veraneios, condomínios rurais e pousadas, cujo proprietários são pessoas de “fora”, que não dependem da agropecuária (setor primário) para custeio e sobrevivência, portanto podem deixar as pastagens se regenerar em matagais. Há uma refuncionalização, convertendo áreas agrícolas em áreas de lazer e turismo (setor terciário).
Entre outras coisas, vale ressaltar que: “Entre as décadas de 1960 e 1980, a atividade agropecuária no Vale do Paraíba diminuiu 13%, o que contribuiu para a estagnação dos índices de desmatamento na região. Desde então, a Mata Atlântica iniciou um processo espontâneo de regeneração. Muitas terras abandonadas se converteram em pequenos bosques de vegetação secundária, resultando em um aumento da cobertura florestal” (ANDRADE, 2017, p. 38). Entretanto, segundo estudos de SILVA (2016), não é uma regeneração zonal, mas por capões de matas, em áreas onde a pastagem e a lavoura foram abandonadas pelos proprietários. Esse tipo de regeneração aponta para a necessidade de se criar um corredor ecológico para que possa conectar essas manchas de matas secundárias, para que a recuperação possa ser mais efetiva, sobretudo para a fauna originária, sempre ameaçada por caçadores, pela destruição do seu habitat e pela falta de alimentos.
Vale lembrar que Cunha possui 2 unidades de conservação com áreas dentro do seu território: o Parque Estadual da Serra do Mar (Núcleos: Cunha e Santa Virgínia) e o Parque Nacional da Serra da Bocaina. Essas duas unidades de conservação são responsáveis por garantir a preservação de 8% do território municipal. Cunha é também onde nasce o rio Paraibuna e onde se forma o rio Paraitinga, formadores do rio Paraíba do Sul, maior curso d’água localizado entre as duas maiores regiões metropolitanas do país: São Paulo e Rio de Janeiro.
Referências:
ANDRADE, R. de O. Floresta revigorada. Pesquisa FAPESP, São Paulo, n. 259, p. 36-39, set. 2017.
SÃO PAULO (Estado). Secretaria do Meio Ambiente. Instituto Florestal (IF). Inventário florestal da vegetação natural do Estado de São Paulo. São Paulo: Imprensa Oficial, 2005.
SILVA, R. F. B. et al. Land changes fostering Atlantic Forest transition in Brazil: Evidence from the Paraíba Valley. The Professional Geographer. 2016.
Fonte: Maços de População da Villa de N. S. da Conceição de Cunha, Arquivo Público do Estado de S. Paulo.
Em um dos primeiros recenseamentos realizados em Cunha após a emancipação política, em 1785, a vila aparecia com 2.742 habitantes.
Chama a atenção a quantidade de escravos: 46,6% da população. Quase metade! Grande produtora de cereais, as fazendas de Cunha também se fundamentavam na mão-de-obra cativa, como todos os demais lugares da colônia. O trabalho familiar, baseado em minifúndios, vem bem depois, com as sucessivas divisões das propriedades de terra após as partilhas entres os herdeiros. O professor João Veloso sempre dizia que nem todos esses escravos eram de origem africana. Pelo menos nesse período, século XVIII, ainda havia muitos escravizados indígenas, os “bugres”.
Esses recenseamentos – documentos valiosos para os estudos demográficos, econômicos e históricos do estado e das cidades – encontram-se no Arquivo Público do Estado de São Paulo e estão digitalizados, disponíveis inclusive para consulta on-line. Para lê-los, principalmente os mais antigos, é preciso ter algum conhecimento em paleografia.
Cerca de 100 anos depois, em 1890, a população de Cunha era de 12.880 habitantes. Um aumento populacional de 370%. Já em 1991, a população de Cunha chegava a 23.462 habitantes. Um acréscimo populacional de 82%, porém bem menor do que houve no século anterior. Isso sem comparar com o crescimento populacional de São Paulo e do Brasil no mesmo período. Fica evidente que no século XIX Cunha atingiu o seu apogeu econômico, juntamente com o Vale do Paraíba, enriquecendo nos tempos áureos do café. O século XX foi marcado pela estagnação econômica, com uma agricultura de subsistência e uma pecuária extensiva de baixo rendimento, e, consequentemente, perda populacional devido ao êxodo rural.
Manada de porcos sendo transportada tocada. Foto: acervo de Francisco de C. D. Andrade. Década de 1930. Local: Paraibuna (SP).
Grande foi a importância dos rebanhos suínos para História e desenvolvimento regional, sobretudo para Cunha. O porco era comum em toda Ibéria, como uma forma de despeito aos mouros e judeus, que o tem – por preceitos religiosos – como “animal imundo”. Não existe carne mais cristã do que ele, pensavam os cruzados da Reconquista. Aporta no Brasil junto com os portugueses e acompanha a marcha colonizadora (DÓRIA; BASTOS, 2018, p. 110). Era um animal fundamental na vida do sítio. Dele, tudo se aproveitava. Até o resto para se fazer sabão. No dia em que no sítio se matava um, havia ajuntamento da vizinhança, aprofundando os vínculos de sociabilidade e de partilha, já que cada vizinho ganhava um pedaço para levar casa e dessas reuniões davam ocasião a muitos casamentos e compadrios. Em Cunha o ritual de sacrifício começava recolhendo a palha de pinheiro no campo, porque o porco, após ser morto, era sapecado para facilitar a retirada de sua pele. Hoje essa etapa é executada com maçarico… “O tempora! O mores!”, exclamaria Cícero, se caipira fosse.
Cunha era durante o século XIX foi o maior produtor de toucinho da Província de São Paulo (MÜLLER, 1978, p. 124), com produção em torno de 9 mil arrobas em 1836/1837, o que significava mais de 68% de toda a produção provincial. A carne de porco, junto com a quirera de milho, que para nós, de Cunha, é uma iguaria, foi de fundamental importância para alimentação das populações do centro-sul brasileiro, antes do advento do século XX e suas modernidades (DÓRIA; BASTOS, 2018, p. 191). Apesar de MÜLLER (1978) não especificar a quantidade de porcos que havia em Cunha no seu levantamento estatístico, nas características gerais das vilas, ele assim descreve Cunha: “N’este districto se planta muito mantimento, assim como algum tabaco: criam-se muitos porcos, e algum gado vaccum, e cavallar. Não tem terrenos devolutos.” (MÜLLER, 1978, p. 41). Fica claro que o lapso estatístico ao mencionar a produção agrícola de Cunha se deve à falta de dados precisos ou ao fato do porco daqui virar toucinho. Outros produtos agrícolas também são dignos de nota: a produção de milho e feijão, tradicionalíssimas da Paulistânia, a produção de azeite de amendoim, que apesar de ser pequena (127 medidas), era uma das maiores da província, e, por fim, o fumo. Este merece algumas considerações. A produção era modesta, de 649 arrobas, mas bastante significativa (mais de 5% de toda produção provincial). Seguia, transportado por tropas até o porto de Paraty. De lá, ia para o Rio de Janeiro, a Corte. Por isso, o fumo era o segundo produto mais taxado na Barreira do Taboão, atrás apenas do café (MÜLLER, 1978). No bairro Monjolo se produziu tabaco do tipo “Kentucky” até década de 1950. Segundo os moradores mais antigos, a produção foi abandonada devido às constantes chuvas de granizo, que arrasavam a plantação, causando grandes prejuízos. Isso é um dos motivos, o maior, sem dúvida é a concorrência desleal com lavoura comercial. A indústria do cigarro venceu a de fumo de corda.
Em ofício à Assembleia Provincial solicitando recursos financeiros para o município, a Câmara de Cunha de 1882 ao apresentar os predicados do lugar, assim descreve a suinocultura daqui: “O genero suino é objecto das attenções de innumeros creadores, que possuem grandes manadas. Os porcos desenvolvem-se muito bem e quando são sujeitos a céva, alguns chegam a produzir pezo superior a 12 arrobas só em toucinho.” Como se lê, o valor do animal estava na banha que fornecia, porque não havia outra gordura tão popular no Brasil para ser usada na preparação das refeições diárias (DÓRIA; BASTOS, 2018). O toucinho era um item de primeira necessidade e os poucos, mas já em franca expansão, núcleos urbanos precisavam das fazendas para obtê-lo. Aliás, conforme a estatística do próprio MÜLLER (1978), acompanhando os registros portuários, S. Paulo exportava toucinho para outras províncias. Muitas arrobas partiam de Cunha, certamente. Era um alimento mercantilizável e nosso município liderava a sua produção, já que era um dos núcleos especializados na produção de víveres e alimentos básicos, a ponto do capitão-general António José de Franca e Horta, então governador da Capitania de São Paulo, requisitar, em 1808, com urgência “porcos vivos, toucinho, carne de porco salgada, milho e feijão, de Cunha e São Luís (hoje do Paraitinga).” (DÓRIA; BASTOS, 2018, p. 90), porque o príncipe regente estava a caminho da capital e precisava ser bem tratado. Embora sua história esteja ligada (com razão) ao Tropeirismo e Bandeirantismo, como repasto rústico e do sertão, era consumido por todos, em todos os lugares do Brasil colonial, inclusive na Corte e pela nobreza.
Mais do que isso, a suinocultura possibilitou:
o comércio inter-regional, integrando cidade menores às maiores, produtores rurais aos consumidores urbanos, as zonas auríferas de Minas às zonas cerealíferas da Alta Mantiqueira e Serra do Mar;
uma alternativa econômica para as zonas em decadência, após o surto do café (no caso da nossa região). E como alimento durante o seu apogeu;
a utilização da banha do porco, tanto na gastronomia cotidiana quanto como conservante para alimentos;
o processamento da carne de porco em toucinho, facilitando a conservação do alimento, que, com vencimento adiado, tinha sua zona de abastecimento ampliada, integrando cada vez mais cidades e vilas às atividades comerciais;
a comercialização e escoamento da safra de milho de forma mais rápida e fácil, já que este cereal era usado quase que em sua totalidade na engorda dos rebanhos. Conforme percebe sagazmente Carlos Borges Schmidt, “o porco é o milho que anda”;
a contratação de mão de obra (após a abolição da escravidão) para transportar as varas de porcos pelas serras e caminhos afora.
Em Cunha, bem como em todo Alto Vale do Paraíba, tinha mais porco do que gente. Antes da expansão da fronteira agrícola brasileira para o Centro-Oeste, consumindo o Cerrado, boa parte dos gêneros alimentícios que provia nossas cidades vinha de regiões montanhosas e isoladas, similares ao nosso Alto Vale do Paraíba. E o transporte de varas pelos antigos caminhos do Ouro com destino aos mercados regionais (Guaratinguetá, Taubaté e Lorena) era bastante comum, tal como ilustra a foto. E assim foi até o início do século XX.
Atualmente há em Cunha 5.642 cabeças de porco e o município, apesar do seu enorme número de propriedades rurais, está muito longe de ser o maior produtor do estado. Em 484 estabelecimentos agropecuários há criação de suínos, o que representa apenas 21% do total de propriedades agrícolas locais. Bem distante daquilo que fomos no passado, cuja onipresença do porco era um fato distintivo do sítio caipira. Há diversas razões para essa decadência.
Já nas primeiras décadas do século XX começaram a se fixar em nossa região famílias mineiras, que foram introduzindo, pouco a pouco, a pecuária de leite e corte, de método extensivo (pastagens), a fabricação do queijo etc. Por outro lado, a suinocultura comercial, as exigências sanitárias, o automóvel e as estradas modernas puseram fim a essa época. O que era Economia virou História. Mas a deliciosa quirera com carne de porco resistiu ao tempo, porque o sabor, a suculência e a gostosura são atemporais. Ainda bem.
Referências:
ANDRADE, F. de C. D. A presença dos moinhos hidráulicos no Brasil. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, v. 23, n.1, São Paulo, jan./jun., 2015.
DÓRIA, C. A.; BASTOS, M. C. A culinária caipira da Paulistânia: a história e as receitas de um modo antigo de comer. São Paulo: Três Estrelas, 2018.
MÜLLER, D. P. Ensaio d’um quadro estatístico da província de São Paulo: ordenado pelas leis provinciais de 11 de abril de 1836 e 10 de março de 1837. 3. ed. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1978.
OFÍCIOS da Câmara Municipal da Cidade de Cunha do ano de 1882.
SCHMIDT, C. B. O milho e o monjolo: aspectos da civilização do milho, técnicas, utensílios e maquinaria tradicionais. Rio de Janeiro: Ministério da Agricultura, Serviço de Informação Agrícola, 1967.
VELOSO, J. J. de O. A História de Cunha: Freguesia do Facão, A Rota de Exploração das Minas e Abastecimento de Tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.