
Em 1.836, a população da Vila de Cunha era de 3.403 habitantes. A população da Província de S. Paulo não passava de 327 mil habitantes. Portanto, a população da Vila de Cunha representava cerca de 1% da população provincial que, àquela época, ainda incorporava o atual Estado do Paraná. Hoje, a população de Cunha é de 21.697 habitantes, segundo o IBGE. No Estado de S. Paulo, o mais populoso da Federação, vivem mais de 43 milhões de pessoas. Portanto, em nosso Município habita cerca de 0,05% do montante da população estadual, desconsiderando, claro, a população do Paraná, que agora é uma unidade federativa.
Se nesses 180 anos decorridos de lá para cá, Cunha mantivesse a participação no total da população estadual, não “parando no tempo” (como dizem), teríamos hoje mais 400 mil habitantes! Ia faltar morro para o povo fazer casa… Pensando melhor, ainda bem que viramos uma “cidade morta” na virada do século XIX para o XX.
Vale frisar que essa estagnação é fruto do saldo migratório negativo, e não da queda da taxa de natalidade/fecundidade, tal como acontece nos países desenvolvidos. Por trás dessa aparente estagnação há, paradoxalmente, toda uma dinâmica. Os “pushs factors” que podemos destacar são:
a) Estrutura agrária equalizada por gerações de herdeiros, inviabilizando novos desmembramentos de glebas às gerações futuras, tornando o fator fundiário um instrumento de repulsa;
b) Êxodo rural impulsionado pela industrialização das cidades do Vale do Paraíba e da Grande São Paulo a partir dos anos 1950;
c) Incapacidade técnica da agricultura tradicional/familiar de disputar mercado com a agricultura moderna e mecanizada;
d) Falência das elites agrárias tradicionais de Cunha, devido aos fatores “b” (escassez de mão-de-obra) e “c” (rendimentos precários e baixa produtividade);
e) Incapacidade do Estado de suprir as demandas por educação, saúde, transporte e direitos trabalhistas para a população do campo;
f) Substituição da agricultura familiar, combinada na tríade milho, feijão e suinocultura, pela pecuária de leite e corte, atividade com menor demanda de mão-de-obra e que introduziu espécies exóticas para formação de pastagem e resistentes à sazonalidade, tornando as roçadas um trabalho menos duro;
g) Devido aos fatores “b” e “c”, início da decadência das relações de trabalho pré-capitalistas nas roças de Cunha (inquilinos, agregados, meeiros etc.) e de solidariedade camponesa (mutirões), com a introdução do trabalho assalariado, autônomos (diaristas) e arrendamentos, a fim de contrair empréstimos bancários.
Nada indica que essa estagnação demográfica seja superada tão logo. O recente aumento das atividades turísticas pode amenizar essa situação, evitando a saída de muitos cunhenses. Entretanto, a reversão desse processo depende de fatores econômicos muito mais pungentes que esse surto turístico incipiente.
Texto publicado em 30 de julho de 2016, na página Jacuhy.