Bocaininha da Boa Esperança é um dos trezentos bairros rurais de Cunha. Localizado no extremo norte do município, dentro da área rural do distrito de Campos Novos, o lugar está a mais de 1.000m de altitude. Por um vale encaixado e estreito corre o rio Paraitinga, que banha o bairro, marcando a paisagem do lugar. O Paraitinga desce, engatinhando, as grimpas do Planalto da Bocaina e adentra o território cunhense nessa região. Diáfano ainda, porém menos volumoso e mais pedregoso. Daí o porquê de seu som, constante, integrar o cenário. A estradinha, que o margeia e se esgueira entre ele e as montanhas, vai para São José do Barreiro. O limite municipal é ali pertinho, um pouco mais arriba.
Rio Paraitinga, em um trecho encachoeirado, assim que adentra o território cunhense. Foto: Bota na Lama. Data: jun. 2018.
Tudo é planalto. As exíguas planícies de inundação e terraços fluviais (várzeas) constituem a exceção. Um pouco mais ao norte, há os Campos Naturais de Altitude. Paisagem agreste e lindíssima. Única em nossa região. Merece ser visitada.
Localização do bairro no mapa de 1945, de pousos da Folia do Divino, elaborado por Alceu Maynard Araújo.
Ipês, araucárias, braquiária, franjas de capoeira descendo as encostas. Montanhas mais pontiagudas e menos bojudas diferem o relevo de lá com o nosso de cá. É mar de morros ainda, mas com ondas e cristas. Ao sopé: o capim, a cana, a estrada, o bambuzal, a ponte, o mangueiro e o sítio ao centro. Disposição de elementos que apontam para a pecuária leiteira como atividade econômica principal. Mas já foi a agricultura. E já teve até tropeiro, como o Pedro Mineiro.
A caminho da Bocaininha. Foto: Cláudio Luiz de Mello
Aspecto do relevo no bairro da Bocaininha da Boa Esperança. Foto: Cláudio Luiz de Mello.
A caminho de São José do Barreiro. Estradas, estradinhas e araucárias. Foto: Erick Sobreiro.
Como todo bairro que se preze, a comunidade da Bocaininha também possui uma igreja, orago de Santa Luzia, uma escolinha (já fechada) e a vendinha. As casas são dispersas pelo vale. Em 2002, moravam no bairro 48 famílias. Hoje, bem menos. De acordo com o Censo 2022, do IBGE, no setor censitário em que está inserido o centro do bairro, havia 110 moradores.
Capela de Santa Luzia, no bairro da Bocaininha da Boa Esperança. Foto: Sandra Gomes. Data: 2023.
Dizem os mais antigos que habitavam a região, antes dos brancos chegarem, os indígenas “Piquira”. Esse povo originário se escondia naquele sertão, fugindo da colonização, que avançava continente adentro. Resistiam à catequização, à escravização imposta pelos portugueses. O bairro tem sua origem no início do século XIX, com a formação da Fazenda Bocaininha, propriedade da família Cardoso de Miranda, de São José do Barreiro. Outra fazenda da região, que deu nome ao bairro, foi a Fazenda Bocaininha. Na década de 1920, migram para a região famílias mineiras, trazendo consigo a pecuária leiteira.
Parte da Carta Topográfica do IGC, escala 1:10.000, mostrando a topografia e o núcleo do bairro. Fonte: Instituto Geográfico e Cartográfico de S. Paulo (IGC). Data: 1978.
O bairro está a 45 Km, a nordeste, da cidade de Cunha. E a 17 Km da vila de Campos de Cunha, sede do distrito. Isolado, Bocaininha é reduto da cultura caipira, autêntica manifestação da Paulistânia. A Folia de Reis é a tradição do lugar. Seus paramentos, dança, música, reza e almoço trazem mais vida à paisagem que a natureza, generosamente, caprichou.
Folia de Reis da Bocaina – Sr. Alfredo Virgulino. Arquivo: Museu Francisco Veloso. Data: década de 1990.
Era um domingo, 20 de abril de 1958, dia em que se comemorou o “Centenário de Cunha”. Celebração que tomou por base a data de 20 de abril de 1858, quando Cunha foi elevada à categoria de cidade. Como já discutimos aqui e em outros lugares, essa data não teve relevância histórica. Voltemos ao assunto do post.
Em Cunha temos apenas um monumento referente à Revolução Constitucionalista de 1932. É o dedicado a Paulo do Virgínio (alcunha de Paulo Gonçalves dos Santos). Um trabalhador rural do bairro do Taboão, que durante a guerra civil foi torturado e fuzilado por um grupo de soldados da Marinha, a saber: o 1º tenente Ayrton Teixeira Ribeiro, o sargento Roque Eugênio de Oliveira e os soldados Juvenal Bezerra Monteiro, Ascendino Gomes da Silva Dantas e Raymundo Jeronymo da Costa, integrantes do corpo de fuzileiros navais da Marinha do Brasil. Todos foram absolvidos Supremo Tribunal Militar. Mataram um civil e foram julgados por um tribunal militar. Era possível esperar justiça?
Os restos mortais de Paulo Virgínio foram transladados de Cunha no dia 7 de julho de 1955, após celebração de missa na Igreja Matriz. Daqui partiu para ser sepultado, de forma definitiva, no Mausoléu dos Heróis de 32, no Parque do Ibirapuera, na capital. O cortejo do “herói de Cunha” foi acompanhado durante todo o trajeto pelos batedores da Força Pública (Polícia Militar).
O Monumento, entretanto, foi erguido em 1958. Assim informou o Estadão (22 abr. 1958):
Vídeo da inauguração do Monumento a Paulo Virgínio, em 20 abr. 1958. Filme feito pelo Dr. Lescar Ferreira Mendes, advogado e jornalista cunhense. Evento filmado em 16 mm preto e branco, com câmera Bell & Howell Filmo 70 ou Bolex H16, a 18 quadros por segundo, utilizando filme pancromático Kodak Plus-X. Digitalização feita na década atual. Acervo: Família Mendes.
“Cunha prestou domingo último, por ocasião dos festejos comemorativos do seu centenário de fundação, tocante homenagem aos heróis de 32. A nove quilômetros da cidade, em cerimônia que reuniu mais de cem veteranos de 32, sob o comando do general Valdemiro Meirelles Maia, foi entregue ao povo um monumento a Paulo Virginio, herói de Cunha, no mesmo local onde tombou, metralhado pelas tropas da Ditadura.
Apesar das dificuldades de transporte, agravadas pelo mau tempo, o povo participou quase em sua totalidade das comemorações do centenário. Às 12 horas e 30, estudantes, autoridades, veteranos de 32 dirigiram-se em caminhões lotados, para o local da cerimônia de inauguração do monumento a Paulo Virginio. Lá chegando, depois do toque de marcha batida, o general Valdemiro Meirelles foi solicitado a assumir o comando do pelotão de veteranos de 32. Estes se apresentavam com capacetes, e eram chamados por ordem hierárquica. À frente deles, senhoras paulistas de 32, todas de preto, postavam-se em fila. Entre as presentes anotamos as seguintes sras.: Julieta Nunes Pereira, representando, também, o Clube Piratininga; Adelaide Correia Ribeiro; Rosa Lanza de Castro; Edith Pereira da Silva.
Antes do descerramento do monumento, o gen. Valdemiro Meirelles pronunciou algumas palavras de improviso, iniciando por dizer que se encontrava ali para suavizar saudades. Ali, naquele mesmo local, lutara por São Paulo, lutara pelo Brasil. Considerando as causas da Revolução Constitucionalista, declarou que São Paulo sofrera uma injustiça, na época, ao se lhe atribuir ideais separatistas. “Nada mais falso pois só é fundamentalmente brasileiro quem é fundamentalmente paulista. O povo queria apenas a Constituição, o direito de votar, de escolher”. Referindo-se, depois, ao nível de politização do povo, o gen. Meirelles declarou que se “naquela época eu comandei paulistas desarmados, hoje comando paulistas armados de civismo. A cruz é, antes de tudo, uma escola de civismo”, terminou o orador, apontando para o monumento a Paulo Virginio, que tem a forma de uma cruz. Referiu-se, também, o orador, à personalidade de Paulo Virginio, o caboclo que preferiu morrer a revelar às tropas invasoras o local da defesa paulista.
Página do jornal O Estado de São Paulo, em 22 de abril de 1958, noticiando a inauguração do Monumento e o “Centenário de Cunha”. Fonte: Acervo Estadão.
Foi prestada, depois, continência à bandeira brasileira, que foi içada pelo prefeito local, sr. Antonio Acacio Cursino. Na ocasião, além do próprio prefeito, falaram vários veteranos de 32, entre eles o sr. Mercio Prudente Correia, Cesar Salgado, o juiz de Direito da Comarca, dr. Paulo de Campos Azevedo, que agradeceu em nome de Cunha, o monumento a Paulo Virginio, dona Julieta Pereira Nunes, representando a mulher paulista, que foi convidada a descerrar o monumento, coberto com a bandeira de São Paulo. Precedeu o ato o toque de silencio, realizado por um veterano de 32. Em seguida, foi realizada a cerimônia da benção do monumento pelo padre Rodolfo Ignácio que oficiou, depois, missa campal. Em vista da chuva que caia abundante, após a missa rumaram todos para Cunha, a fim de participarem de um banquete, no Hotel Paulista.
O monumento a Paulo Virginio está situado numa elevação, no bairro do Rio Abaixo, no município de Cunha. É antes um túmulo, todo de granito sobre o qual uma grande cruz se ergue. Na lápide, numa placa de bronze, lê-se o seguinte epitáfio: ‘Aqui, aos 28 de julho de 1932 morreu Paulo filho de Cunha, herói e mártir fuzilado pela Ditadura. Homenagem da Sociedade Veteranos de 32 – MMDC, no seu 25ª aniversario’.”
Obviamente, tal monumento só pode ser inaugurado após o fim da ditadura do Estado Novo (1937-1945), que censurava qualquer manifestação de orgulho paulista, sobretudo aquelas que se fundamentavam na Revolução de 1932. Em 1958, o Brasil gozava de um regime democrático e expressar o orgulho de ser paulista estava na moda, consequência das celebrações exaltadas de 1954, ano em que a cidade de São Paulo celebrou, com pompa e ufanismo, seu IV Centenário de fundação.
Paulo Virgínio foi o herói caipira que a Revolução precisava. Torturado e morto por fuzileiros navais, que foram absurdamente absolvidos, sua morte foi um prenúncio dos tempos sombrios que viriam 32 anos depois.
Foto de capa: Inauguração do Monumento a Paulo Virgínio. Observação: foto colorizada por inteligência artificial. Detalhes: No centro, discursando, o juiz da Comarca de Cunha Dr. Paulo de Campos Azevedo. No canto direito, vê-se o Dr. Lescar Ferreira Mendes, advogado, jornalista e cinegrafista, segurando sua câmera. Foto postada, inicialmente, pelo blog “Tudo Por São Paulo 1932”. Sem autoria conhecida. Data: 22 abr. 1958. Local: bairro do Rio Abaixo, Cunha (SP).
Localização do Monumento a Paulo Virgínio (SP 171 – Rodovia Vice-Prefeito Salvador Pacetti):
O pinhão é a semente da Araucária. Cada vez mais conhecido, o pinhão tem atraído consumidores por ser um alimento sem glúten, com baixo índice glicêmico e altos teores de proteínas, fibras alimentares e amido. A semente também é rica em minerais como cobre, zinco, manganês, ferro, magnésio, cálcio, fósforo, enxofre e sódio. São encontrados ainda os ácidos graxos linoleico (ômega 6) e oleico (ômega 9), que contribuem para a redução do colesterol do sangue, ajudando na prevenção de doenças cardiovasculares.
Recorte da Folha de S. Paulo, 29 abr. 2001, noticiando a 1ª Festa do Pinhão de Cunha. Fonte: Acervo Folha.
Em Cunha, o pinhão é um atrativo turístico. Desde 2001, a Prefeitura tem realizado anualmente a Festa do Pinhão, atualmente o evento turístico local mais concorrido. Comum na região Sul, no Sudeste ele é um produto diferenciado. Não é todo lugar que tem. As araucárias ocorrem naturalmente em São Paulo apenas nas zonas de maior altitude que são, consequentemente, as mais frias. Essa espécie se desenvolve melhor em altitudes superiores a 900 metros. Assim, os pinheiros enfeitam a paisagem somente nas áreas das serras do Mar, da Mantiqueira e da Bocaina. São exceções no ambiente tropical.
Há registros que Cunha já exportava pinhão no século XVIII. Nos livros de registro da extinta Barreira do Taboão, datados do século XIX, aparece entre os itens comercializados o pinhão. Há alguns anos, a Casa de Agricultura de Cunha fez um levantamento e comprovou que o nosso município é o maior produtor de pinhão do estado de São Paulo. Em 2021, por exemplo, a produção cunhense foi de 630 toneladas. Muitos municípios famosos realizam a sua “festa do pinhão” com o pinhão que saiu de… Cunha!
Mas as araucárias são nativas de Cunha ou foram plantadas? Artigos sobre a palinologia dos Campos da Bocaina têm mostrado que elas estão na região, pelo menos, desde o final do Pleistoceno, época do período Quaternário, da era Cenozoica, do éon Fanerozoico, que está compreendida entre 2,588 milhões e 11,7 mil anos atrás, abrangendo o chamado Quaternário, caracterizada por glaciações repetidas. Ou seja, é impossível essa espécie ocorrer em Cunha por causa da intervenção humana sobre o meio, seja considerando as mãos indígenas (Puris) ou tropeiras, como já foi equivocadamente sugerido.
O Grimpeiro se destaca pela cauda alongada e por apresentar faixas negras na cabeça. Foto: Luciano Lima.
Para o biólogo Luciano Lima, que reside em Cunha, “tem uma outra coisa bem interessante que não deixa dúvidas sobre a araucária ser nativa de Cunha, a ocorrência do pássaro Grimpeiro por aqui. É uma ave com capacidade de dispersão bem limitada e que, literalmente, só vive onde tem araucária. A espécie é bem comum nas partes mais altas do município, por toda estrada do Paraibuna você a encontra”. Também conhecido como “rabo-de-espinho-da-araucária”, o Grimpeiro (Leptasthenura setaria), é uma espécie totalmente associada ao pinheiro-do-paraná.
Na verdade, a presença das araucárias no município de Cunha está associada à “Teoria dos Refúgios Florestais”, para a qual o geógrafo paulista Ab’Sáber trouxe significativas contribuições. O geógrafo sugeriu que, durante os períodos de grandes mudanças climáticas (como as glaciações do Quaternário), certas áreas funcionaram como “redutos” ecológicos, ou seja, refúgios naturais onde espécies de vegetação conseguiram sobreviver mesmo quando o clima geral se tornava desfavorável. Fazendo um recorte geográfico para o estado de São Paulo, supõem-se que, no passado, os cerrados teriam predominado sobre as áreas de matas. Nas depressões estariam as caatingas. As matas ficaram restritas aos refúgios localizados no topo das serras, que eram mais úmidos e nos “brejos” (ilhas de umidade e paisagens enclaves). Os refúgios da Serra do Mar eram faixas descontínuas junto às partes superiores das altas vertentes mais úmidas. As partes planálticas mais altas, que eram mais frias e secas, teriam facilitado a expansão das araucárias para o norte do que é hoje o Brasil, porém, mediante formações em faixas alongadas, seguindo os espigões e serranias, dotados de topos subúmidos e úmidos.
Mapa da “Cobertura Vegetal Primitiva do Estado de S. Paulo”, proposta pelo biogeógrafo Troppmair (1969). Nota-se mancha de vegetação de araucárias onde hoje seria Cunha. Cartografia: Marcelo Martinelli. Fonte: Revista Confins. Data: 2010.
A Serra do Mar, com sua altitude elevada e clima úmido e mais fresco, teria funcionado como um desses redutos durante os períodos mais secos e frios. As araucárias, que são adaptadas ao frio, encontraram nela um ambiente propício para sobreviver. Esses redutos preservaram fragmentos de vegetação original (como floresta tropical, cerrado ou caatinga), serviram como fontes de recolonização quando o clima voltou a ser mais favorável e explicam a presença de espécies isoladas em locais inesperados, como araucárias em áreas de clima tropical (de altitude), como Cunha.
Mesmo após o fim das glaciações, algumas populações de araucária permaneceram nesses refúgios, criando núcleos isolados em meio à Mata Atlântica. Isso explica por que vemos araucárias em locais como Cunha ou Campos do Jordão, fora do núcleo tradicional do sul do Brasil, de clima subtropical. A presença dessas árvores é considerada um relicto paleoclimático, uma espécie que sobreviveu às mudanças climáticas passadas e carrega a memória ecológica de outro tempo. Por isso, a paisagem que temos hoje em Cunha, para usar uma afirmação tão cara ao Ab’Sáber, é uma herança da natureza, de períodos geológicos que remetem há milhares e milhões de anos; já encerrados, mas que deixaram vestígios que ajudam a contar a história ambiental do lugar.
Aspecto do bairro rural da Aparição, em Cunha, dominado por sítios, morros e araucárias. Foto: Moara Imóveis. Data: 2024.
A Araucaria angustifólia enfrenta risco extremo de extinção. Com ciclo de vida lento e dependente de polinização pelo vento e dispersão por poucas espécies, como a gralha-azul, sua reprodução é naturalmente limitada. A intensa exploração madeireira, o desrespeito à legislação ambiental e a fragmentação de seu habitat agravaram sua situação. A fragmentação dos remanescentes florestais do ecossistema Mata das Araucárias provoca a erosão genética, reduzindo a variabilidade e aumentando a endogamia (o cruzamento entre indivíduos aparentados). Como consequência, a espécie perde capacidade de adaptação às mudanças climáticas em curso, às doenças e aos impactos humanos. Atualmente, a araucária já perdeu mais de 97% de sua área original e passou a integrar, desde 2011, a triste Lista Vermelha das espécies em extinção categorizada como “criticamente em perigo”. O pinheiro brasileiro carrega uma biodiversidade invisível, codificada em seu DNA, cuja perda é irreversível. Preservá-lo é proteger não apenas uma árvore, mas um patrimônio genético essencial à resiliência dos ecossistemas da Mata Atlântica.
As araucárias fazem parte da paisagem rural cunhense. Aspecto do bairro da Barra do J. Alves. Foto: Jacuhy. Data: 2017.
Dada a importância ambiental, cultural, paisagística e econômica das Araucárias, não resta outro caminho para Cunha a não ser preservar essa espécie. Ações nesse sentido devem ser criadas, promovidas e financiadas por todos os entes administrativos. Como já preconizou, inclusive, nosso Plano Diretor. Deve, ainda, ser tema obrigatório dentro da educação ambiental das redes de ensino públicas e privada. Só assim, a longo prazo, teremos pinhão para comer e vender; e as belíssimas araucárias verdejando pelos morros de Cunha.
“Sim, na roça o polvilho se faz a coisa alva: mais que o algodão, a garça, a roupa na corda. Do ralo às gamelas, da masseira às bacias, uma polpa se repassa, para assentar, no fundo da água e leite, azulosa — o amido — puro, limpo, feito surpresa”.
Conto “Substância”, de João Guimarães Rosa
Tem sido uma grata surpresa essa nova fase do Museu Francisco Veloso. Assumindo a sua função primordial, que é a pedagógica, de abrir seus espaços para contar e deixar que o povo de Cunha conte suas histórias. É nessa perspectiva que desde o dia 19 de julho de 2025 abriu suas portas para receber a exposição “Das Gamelas: corpo, memória, farinha”, que celebra os saberes ancestrais, a mandioca, o barro, a farinha e a força feminina no território local.
Figurino da personagem “Maria Exita”, usado pela artista e dançarina Dalila D’Cruz. Foto: Jacuhy. Data: 2025.
A idealizadora da exposição é Dalila D’Cruz, artista visual, professora, atriz e dançarina, que atualmente reside em Cunha. A ideia, segundo ela, nasceu do seu encantamento com o conto “Substância”, de Guimarães Rosa, sobretudo com a personagem “Maria Exita”, mulher e arquétipo, figura central do conto. “Maria Exita” vai trabalhar na fazenda “Samburá”, em uma casa de farinha, no sertão mineiro. Ali prepara o polvilho, a substância alimentar e necessária. Tarefa árdua, que consome o tempo de muitos; mas que por ser difícil de se fazer, guarda tanta beleza e muitos saberes em seu fabrico. No conto, Guimarães Rosa, com sua maestria, faz um paralelo entre a vida de “Maria Exita” e a fabricação do polvilho. O interesse de Dalila pela personagem vem dos seus tempos de teatro, quando trabalhou em uma peça o livro “Primeiras Histórias”, de Guimarães Rosa, e justamente o conto que ela mais gostou (“Substância”) não entrou. Daí veio o seu interesse de estudá-lo pela dança. A atual exposição é o prolongamento desse interesse, do seu encantamento com arte de fazer farinha de “Maria Exita”.
A artista e idealizadora da exposição Dalila D’Cruz posa segurando a gamela. Foto: Jacuhy. Data: 2025.
Em Cunha, Dalila foi para o campo em busca dessas muitas “Marias Exitas”, que residem pelo extenso território rural cunhense. Silenciadas em suas casas de farinha, em seus monjolos, mexendo os seus tachos, esparramando farinha em suas gamelas, fazendo história… E encontrou. Assuntando aqui e acolá, juntamente com a equipe do Museu Francisco Veloso (Dina, Maiara, Izabel, Isabelle, Andreas e Thales), percorreram eles os lugares e as memórias das casas de farinha da Dona Neusa & Seu Derly, de Dona Zico, de Dona Antônia, de Dona Joana, do Seu Zico, da Dona Nê & Seu Jair Rosa, de Dona Nadir e até de Seu Zé Pedro, este cunhense radicado em Ubatuba… Não só de mandioca, mas de milho principalmente. Farinha de milho de monjolo. Ou só farinha de monjolo. Por que a preferência local por esse cereal americano? Vem de longe. Para o historiador Sérgio Buarque de Holanda, a farinha de milho era a preferida dos colonos paulistas, tanto em razão de a planta “se ajustar melhor aos hábitos peculiares à gente de serra acima” (o milharal podia ser colhido em apenas 4 meses) como pela produção em maior escala se comparada à da mandioca.
Uma homenagem às casas de farinha de Cunha. Foto: Jacuhy. Data: 2025.
Por isso, “Das Gamelas” (o título vem de um trecho do conto, já citado acima) é um projeto cultural que une tradição e inovação. Foi inspirada nas casas de farinha e visa transformar memória e ancestralidade em arte viva, conectando o público à cultura popular de forma sensorial e poética, inspirando aqueles que dela participam. A exposição tem recebido muitos visitantes, sobretudo alunos, de todas as faixas etárias, das diversas escolas de Cunha. Mais de 500 estudantes cunhenses já visitaram a exposição. Desse modo, o Museu assume o seu caráter pedagógico, educativo, ao propor aos estudantes uma experiência de valorização do passado (material e imaterial), dos saberes tradicionais, da realidade local, a um público, paradoxalmente, marcado pela conexão excessiva com espaços digitais e desconexão com lugar onde vivem. Seguindo nesse percurso formativo e educativo, o Museu tem promovido durante as quartas-feiras, após às 18h, rodas de conversa e leituras do conto “Substância”, de Guimarães Rosa, realizando encontros entre palavra e prática, tradição e território. Momento de literatura enriquecida e contextualizada pelas memórias locais.
Um olhar, novos encantamentos. Foto: Dina Zélia Chimello. Data: 2025.
Dalila apresenta a gamela aos alunos de Cunha. Foto: Dina Zélia Chimello. Data: 2025.
Alunos se reencontram com a história local, através da farinha. Foto: Dina Zélia Chimello. Data: 2025.
Dalila conversa com as crianças sobre a exposição. Foto: Dina Zélia Chimello. Data: 2025.
O gesto das mulheres da terra, nos seus ofícios, é movimento. É criatividade, poesia, tradição e história. Porque farinha não é só comida; é história. É memória e brasilidade. É o pão nosso de cada dia das faixas tropicais, porque foi o “primeiro conduto alimentar brasileiro pela extensão e continuidade nacional”. É o alimento, por excelência, dos sertões, como aponta o historiador potiguar Câmara Cascudo:“(…) mais conhecidas no emaranhado dos caminhos exploradores. A farinha indispensável era a explicação única. Comida para todos, portugueses e mazombos, a indiada fiel, fosse qual fosse o nível social participante.”. A explicação para a presença única desse alimento entre as gentes do interior vem do geógrafo Caio Prado Júnior. Diz ele: “pelas qualidades nutritivas da farinha, adaptabilidade da sua cultura a qualquer terreno e excepcional rusticidade, a mandioca, introduzida pela tradição indígena, foi universalmente adotada pela colonização como gênero básico de alimentação; e assim se perpetuou até nossos dias. É certamente a maior contribuição que nos trouxe a cultura indígena.” Como bem colocado no título “A Raiz Que Nos Fez Nação”, livro da autoracachoeirense Evelym Landim, a mandioca (aipim, macaxeira) é um dos pilares da cultura alimentar e da identidade brasileira.
Entrevista de Dalila D’Cruz ao “CANAL39 -TURISMO E CULTURA”, no YouTube, sobre a exposição “Das Gamelas”.
Quando, nos anos de 1940, o sociólogo Alceu Maynard Araújo, esteve realizando pesquisas junto aos agricultores de Cunha para o seu livro “Ciclo agrícola: calendário religioso e magias ligadas à plantação”, percebeu que a farinha fazia parte da alimentação básica do cunhense. Estava em todos os momentos. Cedo e à tarde, misturada com café ou com ovos na forma de farofa; na hora do almoço e da janta, misturada com feijão e torresmo ou engrossando e encorpando a quirera. Em Cunha, a farinha, por excelência, era de milho, cereal basilar. Mas havia também a produção de farinha de mandioca, em menor escala. Quando havia falta dessa farinha, recorria-se aos tropeiros, que a buscavam na vizinha Paraty, grande produtora e com uma farinha de mandioca com qualidade superior à de Cunha.
Outro ponto de encontro entre a exposição e a história é valorização que faz dos instrumentos usados na fabricação da farinha, itens indispensáveis à indústria doméstica, essa característica marcante do tempo colonial que ainda existe pelos sertões do nosso país. Gamelas, prensas, ralos… Objetos atravessados pela história, que estão imbricados na formação do povo brasileiro, como anota Sérgio Buarque de Holanda: “(…) vários instrumentos alienígenas se adaptarão também à necessidade de se prepararem para o consumo os produtos nativos de maior procura, aparecendo, assim, a prensa e o ralo de metal para a mandioca, o monjolo para pelar e pilar milho (…)”. São peças que, ao lado das memórias e saberes, ajudam a entender o nosso passado, pois são legados culturais. Essa exposição, antes de tudo, valoriza o jeito caipira de ser do cunhense.
Ralo caipira. Uma das peças da exposição. Foto: Jacuhy. Data: 2025.
A poeta caipira Adélia Prado certa vez escreveu: “a coisa mais fina do mundo é o sentimento”. O grande tema do conto de Guimarães Rosa é o da importância da essência, da “substância”. Dentro da construção da narrativa, percebe-se que a grande essência é o amor, essa substância fina como o polvilho, sentimento nobre e tão presente na vida e no ofício dessas “Marias Exitas”, que a exposição “Das gamelas” trouxe a lume. E não existe coisa mais alva, mais limpa e mais pura para um museu que dar voz e vez às pessoas simples da roça, historicamente esquecidas. O Jacuhy parabeniza o Museu Francisco Veloso, pela abertura e exposição, e a artista Dalila D’Cruz, pela sensibilidade e idealização “Das gamelas”. Cunha merece.
A exposição, que começou dia 19 de julho, vai até o dia 30 de setembro de 2025. Entrada franca. Não perca!
Localização do Museu Francisco Veloso (Google Maps):
Foto de capa: Dalila D’Cruz apresenta a exposição aos alunos cunhenses. Foto: Dina Zélia Chimello. 2025.
Esta é a planta da cidade de Cunha, desenhada em 1938, para compor o nosso primeiro mapa municipal. Faz parte do acervo do IGC (Instituto Geográfico e Cartográfico do Estado de São Paulo).
Com a ditadura de Vargas, durante o Estado Novo, foi decretada a organização e fixação da divisão territorial do Brasil (estados, municípios e distritos), conforme Decreto-Lei nº 311, de 2 de março de 1938.
Getúlio Vargas, Presidente da República, e Christovam Leite de Castro, Secretário-Geral do Conselho Nacional de Geografia, inauguram, em 1940, a Exposição Nacional dos Mapas Municipais, na cidade de Curitiba (PR). Foto: IBGE.
Esse decreto estabeleceu a obrigatoriedade da confecção de mapas de todos os municípios brasileiros. Medida fundamental para a centralização do poder durante o Estado Novo. Também uniformizou o conceito de “município” e “distrito” no Brasil. Permitiu a criação de estatísticas padronizadas e mapas oficiais do território brasileiro, servindo de base para as pesquisas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), criado em 1936. Houve uma grande exposição desses mapas no Rio de Janeiro.
Em 1938, o nosso município continha Cunha, que era o distrito-sede, e contava com mais dois distritos: Campos de Cunha (rebatizado assim, arbitrariamente, durante o Estado Novo, pois já havia outro lugar chamado “Campos Novos” em São Paulo) e Lagoinha. Sim, nossos vizinhos já foram nossos conterrâneos. Já tratamos desse fato aqui no Jacuhy.
A cidade de Cunha, em 1938. Foto: ENFA. Acervo: Museu Municipal Francisco Veloso.
O mapa de Cunha foi confeccionado pelo Instituto Geográfico e Geológico de S. Paulo (IGG), que teve como suporte fotografias aéreas tomadas pela Empresa Nacional de Fotos Aéreas (ENFA), que foi fundada em 1938 e focava em levantamentos aerofotogramétricos, uma técnica que utiliza fotografias aéreas para criar mapas e outros produtos cartográficos. Algumas dessas fotos aéreas estão preservadas até hoje e compõem parcialmente o acervo fotográfico do Museu Francisco Veloso.
O renomado IGG, mesmo com esses suportes e com pessoal técnico qualificado, cometeu falhas consideráveis na confecção do mapa de Cunha. O contorno territorial na sua parte sul e sudoeste ficou desfigurado. Por desconhecimento da comissão técnica? Por falta de apoio em campo e de uma base cartográfica confiável? Ou pela própria dificuldade do terreno, nessa região coberto por densa e impérvia mata? Os motivos podem ser muitos.
Apesar de bastante equivocado e com o traçado territorial todo impreciso, o mapa municipal de 1938 é histórico. Não apenas por ser o primeiro, mas também pelos recursos financeiros e técnicos alocados em sua elaboração. Nunca antes nada assim fora feito. Foi o primeiro a representar o nosso município em sua integralidade.
Mapa Municipal de Cunha, 1938. Fonte: IGC.
Além de apresentar as divisas municipais e distritais, localizar os 3 núcleos urbanos (Cunha, Lagoinha, Campos Novos) com o seu arruamento, esse mapa municipal situou 45 bairros rurais, alguns já desaparecidos, por exemplo, o “Águas Claras”, o “Fogo Vermelho”, o “Lageado de Cima”, o “dos Borges”, entre outros. E, ainda, determinou o Morro Agudo (Pico Agudo) como ponto culminante de Cunha, apesar de errar a localização montanha. De acordo com a carta topográfica do IBGE, o Pico Agudo tem 1.320 metros de altitude.
Só na década de 1960 é que esses equívocos foram corrigidos, pois houve deu-se início o mapeamento sistemático do território nacional, com levantamento aerofotográfico, apoio em campo e confecção de cartas hipsométricas, na escala de um para cinquenta mil. Empreitada que o IBGE levou adiante, determinando com precisão os limites de Cunha e sua rede hidrográfica, fundamental no estabelecimento de limites territoriais, que têm por base os interflúvios.
No Censo de 1940, Cunha apresentou sua maior população na série histórica dos recenseamentos: 24.818 habitantes. Talvez pelo acréscimo da população de Lagoinha. Território extenso. Mas a cidade era pequena. Moravam na urbe apenas 975 pessoas. Muitas casas da zona urbana eram de famílias da roça, que só visitavam a cidade nas festividades religiosas. Ficavam fechadas na maior parte do ano.
Montagem feita pelo Jacuhy, com sobreposição do Mapa Municipal de 1938 com imagem de satélite atual de Cunha, retirada do Google Earth.
A cidade de Cunha de 1938 corresponde, hoje, ao atual bairro do Centro. Seu perfil longitudinal, uma rugosidade dos tempos coloniais, é uma expansão da artéria da antiga Estrada Real. É o peso do tempo sobre o espaço, marcando ainda em nossos dias o formato da mancha urbana da nossa cidade.
Um recorte na Cunha de 1940. Uma abertura para a Cunha de 2024.
Um recorte de papel pode ser um recorte no tempo?
O croqui mostrado acima é da década de 1940, quando o chafariz ainda estava lá centro, e nossa cidade ainda não havia superado completamente o seu passado. Na Praça da Matriz tinha um chafariz. Ornamento? Não, sistema público de abastecimento de água. Foi inaugurado em 31 de dezembro de 1886. A maior obra empreendida pela Câmara de Cunha no século XIX. Se não a maior, pelo menos a mais custosa. Um desafio: abastecer uma vila edificada sobre o outeiro. Foi uma grande conquista local para a época. O problema do abastecimento de água na cidade, entretanto, tem resistido ao tempo e às tecnologias. Volta e meia ele emerge. E o povo sofre e reclama. Como antes.
Praça da Matriz de Cunha. Década de 1960. Arquivo: Museu Francisco Veloso.
Voltando ao chafariz, quando houve o calçamento do centro, feito por volta década de 1960, ele já havia perdido sua função saneadora e, na visão dos gestores locais, também a estética. Assim, foi realocado para um novo lugar, à altura de sua condição de coadjuvante. Foi depositado dentro do Mercado Municipal. Um artefato relegado ao ostracismo, aos cantos, ao esquecimento. Muitos conterrâneos desconhecem o seu paradeiro e sua história.
O antigo chafariz da Praça da Matriz, que está atualmente no Mercado Municipal. Foto de 2024.
O Jacuhy luta contra essas amnésias. É uma luta inglória e inútil, pois o tempo é implacável. Há muita coisa para ser relembrada e pouca gente se dedicando a essa tarefa. “A seara é grande, mas poucos são os ceifeiros”.
E o que eram esses croquis? Em 1940, o Brasil realizou o seu quinto recenseamento geral. Por ser o primeiro a ser realizado pelo IBGE, apresentou inúmeros desafios. Várias atividades foram desenvolvidas para dar suporte técnico ao Censo, entre elas a Campanha Nacional das Coordenadas Geográficas, executada pelo CNG, e que implicou no levantamento de coordenadas geográficas (latitude e longitude) para as sedes de todos os municípios brasileiros existentes àquela época.
No estado de São Paulo, o levantamento foi executado pelo pessoal técnico do antigo Instituto Geográfico e Geológico (IGG). Entre mais de 400 croquis em papel vegetal, coloridos à nanquim, com a localização de diversos marcos de coordenadas geográficas espalhados pelo estado, 4 deles foram implantados no município de Cunha. Além das sedes urbanas, alguns pontos de interesse geográfico ou administrativo também foram geolocalizados. As medições de Cunha foram realizadas entre 1940 e 1941.
Esses são os lugares do município de Cunha que receberam os Marcos de Coordenadas Geográficas do IGG:
Local: Bairro da Barra (Chico do Lau) – na divisa com o estado do Rio de Janeiro. Data: maio, 1941. Coordenadas: Latitude: 23º 03’ 17”.0 S; Longitude: 44º 48’ 40”.1 O
Croqui de coordenada geográfica do bairro da Barra do Chico do Lau. Fonte: Arquivo do IGC.
Local: Campos de Cunha (torre da Igreja de N.ª Senhora dos Remédios). Data: maio, 1940. Coordenadas: Latitude: 22º 55’ 15”.4 S; Longitude: 44º 49’ 11”.9 O
Croqui de coordenada geográfica da vila de Campos de Cunha. Fonte: Arquivo do IGC.
Local: Cunha (torre direita da Igreja Matriz). Data: maio, 1940. Coordenadas: Latitude: 23º 04’ 27”.0 S ; Longitude: 44º 57’ 35”.8 O
Croqui de coordenada geográfica da cidade de Cunha. Fonte: Arquivo do IGC.
Local: Garganta do Cedro / Serra do Mar (Bairro da Várzea do Cedro). Data: maio, 1940. Coordenadas Geográficas: Latitude: 23º 11’ 44”.2 S ; Longitude: 44º 52’ 23”.0 O
Croqui de coordenada geográfica do bairro da Várzea do Cedro. Fonte: Arquivo do IGC.
Um pequeno recorte de papel vegetal, colorido à nanquim, pode abrir espaço para muitas memórias. São marcos para muito além da geodésia.
Referências: Croquis de Coordenadas Geográficas do IGG. Fonte: Arquivo do IGC. Fotografias de Cunha. Fonte: Arquivo do Museu Francisco Veloso. Livro “A História de Cunha” (2010), do prof. João Veloso.
Uma das velhas fazendas de Cunha, que virou tapera.
Tapera. Segundo o Houaiss: “residência ou fazenda em ruínas, tomada pelo mato”. Mas não foi a língua dos portugueses que nos deu esse termo. Vem do Tupi. Eduardo Navarro, especialista no “grego da terra”, aponta o significado original: “aldeia que foi”, isto é, “aldeia em ruínas, aldeia extinta, aldeia destruída.” Todavia, ressalva: “em nossos dias, essa palavra é usada com o sentido de ‘casa em ruínas, casebre abandonado’”.
Em Cunha, essa condição, talvez por ser comum, se refletiu na toponímia rural. Há vários bairros que se chamam “Tapera” ou “Taperinha”.
Nota-se que só casa de pau-a-pique vira tapera. Talvez pela efemeridade do material usado nas construções de taipa. Ou não. Pode ser um indicativo do êxodo rural. Famílias que se foram e a casa, vazia e abandonada, virou uma tapera.
Abandonada pelos donos, nem visita costuma receber. Nem de vez em quando. Nem de gente escondendo de chuva braba. Todos sabem que estão infestadas por animais peçonhentos. E todos deviam saber que são moradas de assombrações (se você não acredita, é melhor não abusar).
Assim, a tapera… a taperinha vai, lentamente, desaparecendo. O tempo, em todos os seus sentidos, é implacável.
Rio Paraibuna, no Parque Estadual da Serra do Mar. Foto: Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística. Data: 2019.
O município de Cunha é banhado por 12 rios. São eles: Paraibuna, Bonito, Paraitinga, Peixe, Jacuí, Jacuizinho, Jacuí-Mirim, Monjolo, Rio Manso, Taboão, Guaripu, Mambucaba. Estes podem ser agrupados, de uma forma sintética, em 3 bacias hidrográficas principais: Paraitinga e Paraibuna, inseridas na Microrregião Hidrográfica Alto Paraíba do Sul, são formadoras do rio Paraíba do Sul; e Mambucaba, que converge diretamente para o oceano Atlântico, tendo sua foz na vila histórica de Mambucaba, em Angra dos Reis (RJ), na Microrregião Hidrográfica da Baía da Ilha Grande. Todos os nossos rios estão inseridos na Macrorregião Hidrográfica do Atlântico Sudeste.
Mapa das Bacias Hidrográficas do Município de Cunha, elaborado por Roberto Starzynski.
Quanto à toponímia, muitos nomes de rios, ribeirões e córregos de Cunha vêm do tupi antigo, a língua indígena clássica do Brasil, a velha língua brasílica dos primeiros dois séculos do período colonial, período em que o nosso município começou a ser ocupado pelos colonizadores. Por ser algo tão pretérito, o significado original se perdeu na memória, foi esquecido com o tempo… Ou, em uma perspectiva mais histórica, fizeram-nos esquecer, porque a língua portuguesa, segundo os pesquisadores, nos foi imposta pela metrópole lusitana.
O município de Cunha é conhecido como “berço das águas”, o que evidencia a sua relevância hidrográfica para a região, porque nele está localizada a nascente do rio Paraibuna e vira um rio, de fato, o Paraitinga, ambos formadores do rio Paraíba do Sul. Este rio que flui, estrategicamente, entre as duas maiores regiões metropolitanas do Brasil, recortando a industrializada região do Vale do Paraíba.
Entretanto, a rede hidrográfica cunhense apresenta inúmeros problemas. A poluição, o assoreamento, a degradação das nascentes, a supressão de mata ciliar são ameaças às nossas águas e maculam o epíteto recebido por nosso município, condenando esse leito a secar, se nada for feito. Nossos rios precisam receber tratamento à altura da sua relevância, tanto pela população local pelos entes federativos.
Voltemos, então, à toponímia fluvial, contribuição do tupi à geografia local:
Paraitinga:
De pará + aíb/a + ting + -a, que significa: rio ruim e claro. O “ruim”, no caso, era uma designação dada aos rios que não eram navegáveis ou que possuíam poucos peixes. O rio Paraitinga nasce na Serra da Bocaina, no município de Areias, e adentra nosso município em sua parte norte. Serve como limite natural de Cunha com Areias, Silveiras, Lorena e Lagoinha. Após percorrer 87 Km em terras cunhenses, adentra, na porção oeste do nosso território, no município de Lagoinha. É o maior dos nossos rios e também a maior bacia hidrográfica (509,8 Km²), batizando uma gama de bairros rurais cunhenses com o seu nome. Tem o de Baixo, o de Cima, o dos Verreschi, o dos Gonçalves, o dos Mota, o dos Cubas, famílias originais desses arraiais. Já foi, no passado, o limite entre Cunha e Guaratinguetá. Sua planície (a mais extensa do contexto cunhense) favoreceu, antigamente, a rizicultura, e, atualmente, a pecuária leiteira.
Paraibuna:
De pará + aíb/a + un (r, s) + -a, que significa: rio ruim e escuro. O “escuro”, no caso, é uma referência à coloração de suas águas, resultado da decomposição de matéria orgânica em suas margens, que corta densa Mata Atlântica em boa parte do seu curso, atravessando o Parque Estadual da Serra do Mar. O rio Paraibuna nasce na Serra do Mar, a sudeste de Cunha, no Alto da Fruta Branca, próximo à divisa com o estado do Rio de Janeiro. Após percorrer 48 Km em terras cunhenses, adentra, na porção sul, o município de São Luiz do Paraitinga. Apesar de sua área de nascente estar degradada e ocupada por casas de veraneio, pousadas e sítios com pecuária extensiva, parte considerável de seu curso se encontra dentro de uma unidade de conservação de proteção integral, o que o mantém preservado, se comparado aos demais rios cunhenses. Sua vocação socioeconômica, ainda pouco explorada, é o ecoturismo. É afirmado, habitualmente, que sua nascente fica no bairro da Aparição; contesto tal informação, pelo fato do ribeirão do Sertão e o córrego da Vargem Grande, seus afluentes, possuírem segmento fluvial mais extenso que o ribeirão da Aparição. Aliás, situação que até o Google Maps já percebeu. Com 236,8 Km², é a terceira maior bacia hidrográfica cunhense.
Jacuí:
De îaku (aves cracídeas) + ‘y, que significa: rio dos jacus. É o maior rio totalmente cunhense. Sua bacia hidrográfica ocupa a parte central do nosso município, sendo a segunda maior em extensão, com 480,1 Km². O rio Jacuí nasce na Serra do Mar, a sudeste de Cunha, no bairro do Mato Limpo, próximo à divisa com o Rio de Janeiro. Após percorrer 64 Km dentro do nosso território, deságua, a oeste, no rio Paraitinga, no limite com o município de Lagoinha, no bairro do Pinheiro. Suas águas abastecem a cidade de Cunha, através da captação na Adutora da Pimenta. No passado (entre as décadas de 1950 e 1970), juntamente com a captação de água, funcionou no local uma pequena central hidrelétrica, que fornecia energia para a cidade de Cunha. As ruínas dessas instalações ainda estão por lá. Suas águas formam duas famosas cachoeiras: da Pimenta e do Desterro. Mesmo possuindo tamanha importância turística e para o saneamento básico, sua situação é bastante preocupante. Sua bacia está toda degradada, devido à agropecuária extensiva e rudimentar. Seu leito está solapado; seu curso, assoreado; a mata ciliar, suprimida. Para agravar essa situação, o esgoto domiciliar da cidade de Cunha, hoje uma urbe com mais de 10 mil habitantes, é despejado no Jacuí, via córrego do Rodeio, seu afluente, sem nenhum tratamento. Obviamente, que todas essas situações comprometem a fauna fluvial, além de prejudicar sobremodo a qualidade de sua água. Além da importância ambiental, o Jacuí possui relevância histórica. Em 1650, o capitão Domingos Velho Cabral obteve uma sesmaria, a mais antiga que se tem notícia em Cunha, principiando do ribeiro do “Jacoímiri”, na Borda do Campo, com uma légua de testada e meia légua para cada lado, para o caminho antigo que ia para Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá. Foi o nome do primeiro jornal de Cunha (“O Jacuhy”), que circulou na década de 1860. Por todas essas razões, batizou este blog.
Jacu, a penelope, gênero de aves craciformes que marcou a toponímia hidrográfica cunhense. Foto: Adriano Ferreira. Data: 2019.
Itaim:
De itá + ĩ, que significa: pedrinhas. Mais conhecido como “rio da Catioca”, por atravessar esse histórico bairro cunhense, o Itaim é considerado um ribeirão pelo IBGE, nossa referência. Está bastante degradado, por ter servido, desde o século XVIII, pois seu vale serviu como vetor de povoamento e ocupação do município de Cunha. Os bairros mais antigos de Cunha e as famílias pioneiras viveram nessa bacia hidrográfica, recortada pelo caminho que interligava o porto de Paraty à então Vila de Taubaté, centro irradiador de povoamento regional. Essa peculiaridade histórica marcou sua paisagem, seja pela erosão ou a presença de várias e antigas fazendas, em estilo colonial. O ribeirão Itaim nasce na Serra do Alto do Diamante, a sudoeste de Cunha, acima do bairro do Sertão dos Marianos. Após percorrer 30 Km dentro do nosso território, deságua, a oeste, no rio Paraitinga, no bairro do Itaim, no limite com o município de Lagoinha. Com cerca de 129 Km², é a segunda menor bacia hidrográfica de Cunha. Na classificação hidrográfica de Cunha, realizada no início deste século por Roberto Starzynski, pesquisador do Instituto Florestal do Estado de São Paulo, não é considerada uma bacia, estando incorporada à bacia do Paraitinga.
Guaripu:
De gûariba + pu, que significa: barulho dos bugios (guaribas). Os bugios são símios da família dos cebídeos, que costumam emitir sons altos, daí a razão do nome do rio. O rio está bem preservado e limpo, pois localiza-se dentro do Parque Nacional da Serra da Bocaina, unidade de conservação integral. No passado, às suas margens, havia um antigo caminho de tropas, que foi parcialmente calçado, que ligava Lorena, passando por Campos Novos, ao porto de Mambucaba. Historiadores afirmam que esse calçamento foi feito por escravizados africanos, durante o Ciclo do Café no Vale do Paraíba. Sua potencialidade ecoturística, quase inexplorada, é enorme. Havia, em 1854, uma barreira fiscal da Província de S. Paulo no Ribeirão da Serra, que servia para manter transitável a estrada para o porto de Mambucaba, que partia da Grota Grande, no sertão de Mambucaba, até encontrar o rio “Guarahipu”. Atualmente, o seu curso é mais usado como acesso pela população do entorno para atingir o parque, exercendo pressão sobre os recursos naturais ameaçados que lá estão, que a unidade de conservação visa preservar. O rio do Guaripu nasce na Serra do Mar, a nordeste de Cunha, próximo ao bairro da Serra do Indaiá. Após percorrer 18 Km, servindo de divisa interestadual entre São Paulo e Rio de Janeiro, deságua, a nordeste, no rio Mambucaba, entre os municípios de Cunha (SP), Paraty (RJ) e Angra dos Reis (RJ).
Mambucaba:
De mumbuka + -ba [alamorfe de -sab(a)], que significa: lugar das abelhas (meliponídeas, que são as nativas e não têm ferrão). Junto com o rio do Guaripu, forma a nossa menor bacia hidrográfica (51,5 Km²) e a única que não converge para o rio Paraíba do Sul. O rio Mambucaba nasce na Serra da Bocaina, no município de Arapeí (SP). Limita Cunha, a nordeste, com os municípios de São José do Barreiro (SP) e Angra dos Reis (RJ), por 3,7 Km. Com cotas altimétricas inferiores a 680 metros, é o ponto mais baixo de Cunha. É, com certeza, o mais inóspito. De difícil acesso, na área ainda primitiva do Parque Nacional da Serra da Bocaina, o lugar está coberto pela exuberância da Mata Atlântica, ainda intacta, escondendo belíssimas e estrondosas cachoeiras.
Jacuí-Mirim:
De îaku (aves cracídeas) + ‘y + mirĩ, que significa: riozinho dos jacus, ou, por extensão, um rio Jacuí menor, mesmo significado de outro rio cunhense: o Jacuizinho. O rio Jacuí-Mirim nasce na Serra do Mar, a leste de Cunha, no bairro das Tamancas, próximo à divisa com o estado do Rio de Janeiro. De lá, segue por 23 Km, até desaguar, na parte central de nosso município, no rio Jacuí, no bairro do Rio Abaixo. Atravessa vários bairros rurais, batizando um deles. Sua bacia, assim como as outras, se encontra degradada, devido à ocupação do solo por pastagem, utilizada pela pecuária extensiva, atividade econômica da maioria das propriedades rurais da região. Parte de seu leito, nas cabeceiras, serve como limite distrital entre Cunha e Campos de Cunha. Seu vale serviu (no passado, como caminho natural) e ainda serve – parcialmente – como rota de acesso entre Cunha e Campos de Cunha, através da Estrada Vicinal Ignácio Bebiano dos Reis.
Mapa Hidrográfico do Município de Cunha (2025), versão preliminar, do Jacuhy.
Referências: CASTRO COELHO, Helvécio V. Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá. Revista da ASBRAP (Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia), Belo Horizonte (MG), n. 8, p. 209-216, 2001. MILAN, Pollianna. Português à força. Gazeta do Povo, 10 dez. 2010. Disponível em: < http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/portugues-a-forca-1467uqenkefjaq64x6t28fwpa/ >, acesso em: 27 jan. 2025. NAVARRO, Eduardo de A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo: Global, 2013. VELOSO, João J. de O. A História de Cunha: 1600-2010: A Freguesia do Facão, a rota de exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): JAC/Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.
Mapas: Folhas Topográficas do IBGE, escala 1: 50.000, elaboradas pela Diretoria de Geociências: – “Cunha” (MI-2771-1), 1974. – “Campos de Cunha” (MI-2742-3), 1974. – “Lagoinha” (MI-2770-2), 1973. – “Guaratinguetá” (MI-2741-4), 1982. – “Rio Mambucaba” (MI-2742-4), 1982. – “Ubatuba” (MI-2770-4), 1981. – “Picinguaba” (MI-2771-3), 1974. “Mapa das bacias hidrográficas do município de Cunha” (200-), de Roberto Starzynski. “Bacias e Divisões Hidrográficas do Brasil” (2021), do IBGE.
Vista da zona fronteiriça entre Cunha e São Luiz. Foto: Sítio Cotinga. Data: Maio de 2017.
Cunha, em função do tamanho do território (1.407,250 km²), limita-se com 10 municípios.
A sudoeste de nosso município se encontra o limite com São Luiz do Paraitinga, mais precisamente com o distrito de São Pedro da Catuçaba. Uma área pioneira no povoamento do município de Cunha. Os topônimos tupis dos bairros de lá corroboram esse pioneirismo, essa antiguidade: Catioca, Itambé, Itacuruçá, Itaim etc. A vila da Catuçaba, antigo povoado de São Pedro, também é de origem tupi (“katu” – bom + “sab(a)” – lugar = “lugar bom”). Distrito luizense desde 1944, Catuçaba hoje é a referência urbana daquela região cercada de antigas fazendas e bairros rurais que abrange, além do próprio município de São Luiz, Cunha e Lagoinha.
Vales encaixados, em “V”, dominam a região. Foto: Pilatus Expedições. Data: 2011.
O limite é todo terrestre. A linha divisória (e imaginária) segue por cerca de 28 quilômetros, partindo de Lagoinha até encontrar o limite com Ubatuba. Parte é permeável; outra, não. A parte permeável, onde há intercâmbio, fica ao norte, nas proximidades com Lagoinha. Há duas ligações por estrada de terra batida. Nem sempre estão em boas condições de trafegabilidade, por falta de manutenção periódica das municipalidades. Uma das ligações, via Fazenda Sant’Anna, é pelo bairro do Mato Dentro (Cunha) até alcançar o bairro do Chapéu Grande (São Luiz do Paraitinga). A outra ligação é pelo bairro do Ferraz (Cunha), que segue por um vale, até alcançar os contrafortes da Serra do Campo Grande e dobrar no bairro do Pinga (São Luiz do Paraitinga).
Mar de Morros: as montanhas que servem como limite entre Cunha e São Luiz. Foto: Michel Salazar.
Criado em 1977, o Parque Estadual da Serra do Mar impermeabilizou a parte sul da região fronteiriça, já no Planalto do Paraibuna. Por ser uma unidade de conservação de proteção integral, a ocupação humana ali, que era rarefeita, foi sendo progressivamente restrita e banida, regenerando em Mata Atlântica as áreas ocupadas e as trilhas abertas de outrora. Nas cercanias tinha até bairro conhecido: Sertão do Palmital. Inexistente atualmente, vencido pelo avanço da floresta tropical.
Serra do Campo Grande: aspecto. Foto: Rodrigo Leite Massiere. Data: 201[?].
O morro pedregoso mostrado na foto desta postagem está a 1.580 metros de altitude. A Serra do Campo Grande em alguns pontos chega superar os 1.600 metros. Por isso, ali a fisionomia é diferente do entrelaçado esverdeado de árvores, arbustos, cipós e plantas da Mata Atlântica característica. A altitude moldou nova fisionomia. É domínio de um ecossistema chamado de “campos de altitude” que, segundo a biogeografia, a despeito das controvérsias sobre sua origem, são típicos dos pontos mais elevados dos sistemas serranos do sudeste brasileiro, que se soergueram principalmente durante o período geológico do Terciário. Um delicado relicto escondido no topo da serra, tal qual na Serra da Bocaina. Fez bem o governo estadual em determinar a preservação daquela área, através de unidade de conservação.
Alto do Diamante. Foto: Alessandra Ramos. Arte e dados sobre a foto: Jacuhy.
As velhas fazendas que compõem a paisagem cultural daquelas bandas; as que sobraram, diga-se; são mais uma evidência que foi por ali que começou a ocupação do nosso município. A mais soberba, exemplo do neoclássico rural paulista, a Fazenda Sant´Anna fica por perto. Mas são as modestas, ecléticas por questões de pobreza, que podem ser vistas com mais frequência. São janelas para um tempo que já se foi… Muitas estão abandonadas, atestando a mudança dos ciclos econômicos que fizeram a riqueza e a história. Perderam a função dentro da organização espacial que emergiu no século passado. A pecuária de corte e leite, atividade agora predominante, é causadora de despovoamento, de êxodo rural. Desoladas, à mercê do tempo, as fazendas acabam virando taperas. E por fim, ruínas.
Fazenda do Mato Dentro quando ainda estava em pé. Hoje, está em ruínas. Foto: Pilatus Expedições. Data: 2011.
Mais que laços culturais, religiosos e genealógicos em comum, essa região de fronteira, no entorno da Serra do Campo Grande (também chamada de “Alto do Diamante”), se constitui em uma paisagem bastante interessante. Ainda está vivo o folclore caipira em suas diversas manifestações, sobretudo nas folias, bandeiras e pousos da Festa do Divino Espírito Santo, festa ontológica dessa gente paulista há mais de quatrocentos anos.
Parte da Carta Topográfica “Lagoinha”, do IBGE, mostrando o limite entre os dois municípios, o desenho e a altimetria do relevo local.
Os limites municipais são meras convenções do Estado, visando garantir ordenamento territorial, criar jurisdição. A paisagem cultural, filha que é da história viva, supera todas as artificialidades. Ali é tudo uma gente só, um mesmo lugar.
Referências: Google Earth, Google Maps, A História de Cunha: 1600-2010 (João Veloso), IBGE (Cidades, Cartas Topográficas, Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos – CNEFE), Dicionário de Tupi Antigo (Eduardo Navarro), Terra Paulista: histórias, arte, costume (CENPEC), A Passarinhóloga (blog), As transformações na arquitetura rural paulista pré-moderna (Marcelo G. Augusto).
Publicação original (Facebook):
Observação: Este texto, após ser compartilhado em nossa página no Facebook, obteve um excelente alcance. E surgiram alguns questionamentos sobre o conceito de fronteira, na forma como utilizei no título. Pois, atualmente, o termo fronteira tem sido usado para designar a linha divisória entre países; entre unidades federativas, seria divisa; entre municípios (como no caso), limite. Essa informação vem sendo ventilada, inclusive, em páginas de Geografia. Mas é meramente semântica; não conceitual, como se faz sugerir. Tal distinção não encontra eco nos autores clássicos da Geografia. “Fronteira”, para Raffestin (1993), é uma zona (geográfica) camuflada em linha. Portanto, como conclui Ferrari (2014), “o limite não é visível fora do mapa, mas é justificado pelo marco de fronteira simbolizando a linha, enquanto a fronteira é uma zona geográfica, um espaço que pode, conseqüentemente, criar relações que ultrapassem o limite[…]”. Sugestões de leitura sobre o assunto: RAFFESTIN, Claude. Por uma Geografia do Poder. São Paulo: Ática, 1993. FERRARI, M. AS NOÇÕES DE FRONTEIRA EM GEOGRAFIA. Perspectiva Geográfica, [S. l.], v. 9, n. 10, 2014. Disponível em: https://e-revista.unioeste.br/index.php/pgeografica/article/view/10161. Acesso em: 18 nov. 2024.
Na foto: Os tropeiros Deti da Praia e Zé do Barreiro, no Bairro do Encontro – Cunha (SP) Foto: Instituto Chão Caipira, 2010.
Cunha adentrou o século XXI no lombo das tropas. Em sua primeira década, ainda era comum encontrar tropas e tropeiros pelas estradas de terra do município. Pelo preço, pela escassez ou pela limitação do transporte automotivo, incapaz de superar as perambeiras de Cunha. O futuro chegou nas cangalhas.
Hoje, tudo isso é raridade…
As tropas conduziram, por quase três séculos, a história de nossa terra. Dos facãozenses de outrora (os cunhenses de hoje), o historiador Carlos da Silveira chegou a dizer: “era uma gente tão dada à economia tropeira, que sobre eles podemos dizer que acompanhavam o tropel das bestas, seguindo o chacoalhar do cincerro”. Essa procissão estradeira de muares ainda transita no nosso subconsciente, mesmo desarraigados de nossas ancestralidades, dos seus ofícios e vivências.
A versatilidade desse meio de transporte era um diferencial. Os jacás alceados levavam de tudo: criança, cachorro, leite, milho, feijão, porco, toucinho, abóboras, mantimentos outros e artefatos dos mais diversos. Os tropeiros, mais que levar e trazer mercadorias, espalhavam notícias e recados, favoreciam os negócios, esparramavam novas ideias.
A saga tropeira foi a própria vida do mundo rural cunhense, o ânimo que permitiu ao caipira sobreviver e resistir, com seu rosário de tradições, à ideologia da modernidade e do progresso a todo custo.
Foi um tempo difícil, penoso, de pouca riqueza e muito trabalho; mas quem viveu, dele sente saudade. E muito daquilo que se forjou naqueles idos, carregamos conosco como herança cultural.
Foto: Fernando Cobbos. Local: Casa que pertenceu à Sá Mariinha, bairro das Três Pontes, município de Cunha (SP).
Não havia pedreiros. Todo mundo “dava uma mão”. A obra era erguida em mutirão. Juntava o bairro, avisava a vizinhança, o povo vinha e cada um fazia uma parte.
Em geral, esse evento construtivo antecedia os preparativos para o casório. Em pouco tempo, lá estava: toda branquinha, uma casinha coberta de telha ou sapé, aguardando para ser a sede de um novo lar. Casa de pau a pique, de taipa de mão, de taipa de sopapo, de taipa de sebe, barreada.
Nossos avós e pais, muito certamente, aprenderam a andar em seu chão batido e dormiram em seus quartos. Apertados, porque as famílias eram numerosas. Amontoados, porque faltavam esteiras e camas. O dinheiro era curto. A mobília, pouca e funcional. O chão da sala, espaço destinado às visitas, era coberto de tapete de tiras de trapos. Enfeite caipira, um terror para quem tinha alergia. Na cozinha, o fogão a lenha, soltando fumaça, escurecendo e preservando a madeira. Na chapa, bule com café quente. Café torrado em casa. Meu Deus, eu ainda sou capaz de sentir o cheiro que recendia pelo terreiro! As memórias olfativas são estranhas e íntimas demais. Evocam pessoas queridas que já se foram…
Em cada canto dos vales de Cunha havia dúzias delas. Como contas de um rosário, acompanhando as estreitas linhas do relevo mais plano, margeando os “corguinhos”. Tempo em que a maioria das pessoas morava na roça. Gente de fibra, forjada no sol da limpa de milho e feijão. Gente criadeira. Couve no canteiro, galinha no terreiro, porco no chiqueiro, vaca no mangueiro.
Seus materiais eram sustentáveis antes disso virar moda. Madeira, água, argila, taguatinga, cipó, bambu, sapé, terra e pedra. Textura irregular, revelando rusticidade, simplicidade. O bambu, como as veias, sobressaindo do barro. Taquara e madeira entrelaçadas com cipó. Barro batido e moldado a muitas mãos. União difícil de destruir. Janelas: disformes, assimétricas, contidas… para defesa? Verdadeira fortaleza.
Depois de feitas e arrumadinhas, eram relicários níveos em meio ao verde das hortas e milharais. Já foram parte da paisagem rural cunhense. Por isso, tantos bairros cunhenses chamados “Tapera”, “Taperinha”… Hoje, são raras.
Casinha de pau a pique. Quando todos se vão, quando tudo se acaba… vira tapera. Mas, barreada e caiada, habitada, cabia de tudo: uma família inteira e todas as coisas boas do mundo.
Representação ilustrativa do Governador Lobo de Saldanha, gerada por IA.
O relato vem da época que Cunha era Facão. Século XVIII, portanto. Feito pelo Capitão General Martim Lopes Lobo de Saldanha, que foi o 10º Governador da Capitania de São Paulo, de 14 de maio de 1775 a 15 de março de 1782.
Partiu de Lisboa e chegou ao Rio de Janeiro, centro da administração colonial. Do Rio navegou até Paraty. Daí até aqui, o Facão. E daqui em direção à capital, São Paulo. Viagem difícil. Uma aventura, deveras.
Tanto que, para sorte nossa, resolveu anotar. A carta narrando a viagem foi destinada a D. Luís de Almeida Portugal Soares de Alarcão de Eça Melo e Silva Mascarenhas (1729–1790), 2º. Marquês do Lavradio, Vice-rei do Brasil entre 1769 e 1778.
De sua passagem pela Freguesia do Facão, entre 3 e 5 de junho de 1775, consta o seguinte:
“No dia 2 de Junho dormi ao pé da serra, em caza do Souza, e no dia 3 subi a serra, o mais do tempo a pé pelo impraticável caminho, e vim dormir á Apparição; no dia 4 fomos ouvir Missa ao Facão e dormir na caza de José Alz’. No dia 5 ouvi Missa na Parahytinga e dormir á Rocinha, ao pé do morro; nessa noute e na manhã do dia 6 que vim dormir a Guaratinguetá, me acompanhou uma trovoada grande, com m.ta chuva.”
Deste curto relato, podemos extrair as seguintes informações históricas:
O porto de Paraty era a principal rota de entrada para S. Paulo e para o Sertão, ainda no último quartel do século XVIII.
A péssima condição da Estrada Cunha-Paraty (Estrada Real – Caminho Velho), cuja intransitabilidade era notória e temida por todos os viajantes. Basta observar que a comitiva do futuro governador gastou um dia inteiro, de cedo até a noite, dos Penha até a Aparição, tendo que escalar a serra mais a pé do que montado.
O bairro da Aparição, também muito recorrente na memória dos viajantes, era um pouso de tropas, lugar de descanso para os caminhantes que superavam a Serra do Facão.
O Facão já era uma freguesia (da Vila de S. A. de Guaratinguetá). Orago à Nossa Senhora da Conceição, com vigário próprio e missas regulares. Numa dessas, que o futuro governador assistiu, foi celebrada pelo padre Floriano da Silva Toledo (segundo lista dos párocos de Cunha elaborada por Carlos da Silveira, em 1906). Floriano era filho de Luiz da Silva Porto, fundador da capela da Boa Vista.
José Alz’., citado na descrição, morador do Facão, com casa no largo da Matriz, era José Alves (ou Álvarez) de Oliveira, português de Aveiro. Veio a falecer em Cunha em 1792. Foi casado com Margarida da Silva do Amaral, natural de Paraty. Mudou-se para Cunha, com sua família, por volta de 1742. Foi um dos assinantes do termo de ereção da Vila de Cunha, em 1785. Seus descendentes estão, hoje, assinando Querido e Alves de Oliveira como sobrenome.
A ocorrência de missa na capela de Nossa Senhora Sant’Anna do Paraitinga (conhecida como “Capela da Santaninha” ou “Santana Velha”). Ficava no bairro do Campo Belo. Foi construída entre 1736 e 1740. Dos registros mais antigos sobre ela, consta um batizado realizado em 1752. Ligada intimamente ao tropeirismo e ao fluxo que dele vem, conhece também a decadência após a abertura da estrada de ferro que ligou São Paulo à Corte, em 1877. No século XX, fica em ruínas, sendo demolida no ano de 1947. A atual capela de Santana do Paraitinga foi inaugurada em 1964; já a Capela de Santaninha, no Campo Belo, foi reconstruída no ano 2000. O Paraitinga, como se nota, também foi pouso de tropeiro.
A existência da Rocinha, hoje área urbana isolada de Guaratinguetá, originada de um antigo rancho de tropeiros.
O governo de Lobo de Saldanha, cuja memória a historiografia paulista tratou de execrar, foi marcado pelas tensões geopolíticas no sul da colônia, os litígios e os conflitos com os espanhóis pela região do Rio da Prata. Por ser militar, administrou bem essa questão, arregimentando tropas, formando batalhões, guarnecendo as fronteiras, defendendo as terras do Império Lusitano. Entretanto, inapto politicamente, arrumou muitas encrencas com o clero e com Câmara de São Paulo. Muitas vezes agindo passionalmente, arregimentou ainda muitos inimigos entre a elite e os historiadores locais, razão pela qual sua memória póstuma foi anatematizada.
Antes de encerrar a missiva, depois de experenciar a travessia pelos caminhos da Capitania, Lobo de Saldanha promete:
“Estou da esperança de povoar o sertão desta Capitania e da de V. Exª., para que nos seja mais fácil a comunicação pelo Paraty de terra.”
Preocupado com questões geopolíticas e picuinhas políticas, ficou na promessa a melhoria das vias terrestres de comunicação da Capitania de S. Paulo. Relatos posteriores, tanto do século XVIII quanto do XIX, reforçam a saga que era transitar entre Cunha e Paraty.
Ou ainda é?
Referências: ARCHIVO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Publicação official de documentos interessantes para a história e costumes de S. Paulo: correspondencia de Martim Lopes Lobo de Saldanha (1775-1777). Vol. XLII. São Paulo: Escola Typographica Salesiana, 1903. BARBIO, Marcelo. Uma teia de famílias. Disponível em: <https://marcelobarbio.net.br/pafg538.htm#12544>. Acesso em 23 jul. 2024. BORSOI, Diogo Fonseca. A paisagem das trocas: a Vila de Cunha e a formação de uma economia de abastecimento interno na transição do século XVIII para o XIX. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, São Paulo, v. 28, p. 1–56, 2020. LEITE, Lorena. Déspota, tirano e arbitrário: o governo de Martim Lopes Lobo de Saldanha na capitania de São Paulo (1775-1782). 2013. Dissertação (Mestrado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. Disponível em: http://www.teses.usp.br/…/8/8137/tde-31102013-105747/. Acesso em: 23 jul. 2024. VELOSO, João J. de O. A História de Cunha (1600-2010): Freguesia do Facão – A rota da exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha / JAC gráfica e editora, 2010.
Imagem de satélite da tríplice fronteira: Cunha, Guaratinguetá, Lagoinha, no bairro do Rio do Peixe. Fonte: Google Earth.
O bairro
A palavra “bairro” vem sendo usada desde o século X. Sua origem etimológica é controversa, provavelmente ibérica. Dizem que vem do árabe “bárri” (isto é, “exterior”) e este do árabe clássico بري (barrī), que significa “selvagem”. Segundo o Houaiss, é a “porção de território povoado nas cercanias de uma cidade; povoado, arraial, distrito”. Para a geografia, trata-se de “organizações rurais dispersas, estruturadas por grupos de vizinhança, e marcadas por uma consciência coletiva de pertencimento, emanada na convivência diária do homem do campo com seus parentes, vizinhos e parceiros”.
Localização do bairro, a extremo noroeste do município de Cunha. Cartografia: Jacuhy.
O Rio do Peixe é um bairro rural, um entre tantos do Vale do Paraíba paulista – exceto por uma característica – estar localizado entre três municípios: Cunha, Guaratinguetá e Lagoinha. Os moradores, por uma questão de proximidade, se identificam como lagoinhenses. A parte cunhense está no extremo noroeste do nosso município, longe da sede, portanto.
Capela de Santa Luzia do Rio do Peixe, localizada no município de Cunha, é o centro religioso da comunidade rural. Foto: Google Street View.
Os moradores expressam sua devoção na capelinha de Santa Luzia, padroeira do bairro, que é atendida pelos padres de Lagoinha. O predomínio da pecuária leiteira hoje é incontestável. Pastos e mais pastos, com manchas de eucalipto. No começo do século XX, a produção do bairro era escoada por tropas, sendo levada até o Rancho da Pedreira, para ser comercializada em Guaratinguetá. A lavoura de milho e feijão, associada à suinocultura e outras feituras caipiras, eram o sustento das famílias, sítios e fazendas. A vida girava em torno de um calendário agrícola, a exemplo de outros bairros de Cunha e região. Mas as transformações vivenciadas ao longo do século XX impulsionaram a pecuária, sobretudo a leiteira. A chegada dos mineiros, o êxodo rural, o aposento das tropas, a inviabilidade econômica das lavouras em uma ecologia dominada por montanhas íngremes… O Rio do Peixe se adequou às imposições econômicas.
Em direção a Cunha, pela SP-153. Vista do Rio do Peixe. Foto: Google Street View.
Atualmente, o bairro é atravessado por uma estrada asfaltada, um luxo que chegou tarde (no final do século XX). A rodovia João Martins Corrêa (SP-153) liga a cidade de Lagoinha ao bairro da Rocinha, em Guaratinguetá, conectando-se à rodovia Paulo Virgínio (SP-171). Isso abriu um leque de oportunidades econômicas para o bairro, não só com a valorização dos imóveis rurais, mas também com o turismo rural. Casas de veraneio e acomodações alugáveis foram erguidas.
O rio
Trajeto do rio do Peixe, da nascente à foz. Fonte: Carta Topográfica do IBGE.
O rio do Peixe, curso d’água, é um dos muitos afluentes do rio Paraitinga. Nasce na serra da Embira, que é uma das variações toponímicas da serra do Quebra-Cangalha, no bairro do Córrego da Onça, município de Lagoinha. A nascente, assim como o bairro, também se situa em tríplice fronteira: Lagoinha, Guaratinguetá, Aparecida. A altitude supera até os 1.500m. Uma das nascentes, inclusive, é perto do topo do pico da Embira, que com seus 1.541m de altitude, é o ponto culminante da Quebra-Cangalha e do município de Lagoinha.
De lá, o rio do Peixe marcha para o oeste, encachoeirando-se serra abaixo, até alcançar o bairro da Santa Rita. Rumando na mesma direção, alcança o pequeno vale encaixado que batizou. Daí em diante, seu curso natural serve de limite entre Cunha e Guaratinguetá, desenhando nosso território até a altura do bairro Retiro das Palmeiras, de onde, convertendo-se para o sul, vai desaguar no Paraitinga, no bairro do Jaguarão.
O rio do Peixe, em trecho encachoeirado no município de Lagoinha. Foto: Danilo de Paula. Data: 2022.
Esses vales, como o rio do Peixe, embora modestos, são, no contexto do Domínio Morfoclimático dos Mares de Morros, vias naturais de comunicação e ocupação, favorecendo o assentamento humano. Foram, desde tempos imemoriais, preferidos por indígenas, bandeirantes, tropeiros e sesmeiros. Ao se constituir as fazendas, núcleos originários de muitos bairros rurais, procuravam sempre instalar-se nessas planuras exíguas, nessas baixadas que permitiam explorar a motricidade hídrica, tão útil outrora e ainda agora. Por isso, quase todo sítio de bairro rural cunhense localiza-se nessas acanhadas planícies fluviais.
As linhas
Desse modo, muitas vezes, os limites de determinado bairro se confundem com os limites fisiográficos da paisagem, porque o bairro “é um lugar, uma área qualquer, com características mais ou menos próprias”, podendo ser “um vale, uma cabeceira ou nascente de algum ribeirão, uma praia (…) É o povo que lhe dá o nome e determina, com limites mais ou menos imprecisos, a área abrangida pelo mesmo”. Mas, dificilmente, os bairros se confundem com os limites intermunicipais.
Vídeo com imagens aéreas do Rio do Peixe, nas proximidades da tríplice fronteira, feito pelo canal Guará Vídeo Drone, em 2023.
Os limites políticos e territoriais estabelecidos pelo Estado pouco importam. São formalidades cartoriais. O cotidiano é regido pelas relações humanas, pelo dinamismo econômico, pela solidariedade vicinal e por heranças culturais e históricas, que remontam às primeiras famílias que ali se estabeleceram. Estar em uma tríplice fronteira não se sobrepõe a fatos sociais de maior envergadura. Antes de serem desse ou daquele município, os moradores se identificam e se sentem pertencentes ao bairro do Rio do Peixe.
Antiga escola rural do bairro do Rio do Peixe, em ruínas, em meio à braquiária. Símbolo do êxodo rural. Foto: Google Street View.
O torrão precede o território, tal como o lar precede o Estado-Nação. Um bairro rural se sustenta por laços que linhas imaginárias jamais poderão confundir.
Referências: Bairro rural-bairro urbano: um revisão conceitual, artigo de Bruno Maia Halley, publicado na GEOUSP – Espaço e Tempo, em 2014. Cartas topográficas “Lagoinha” e “Guaratinguetá”, do IBGE, com primeira edição em 1973. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, publicado em 2001. Google Earth e Google Street View, de onde foram tiradas as imagens e usados como fontes de consulta. Negro Político, Político Negro – A Vida do Doutor Alfredo Casemiro da Rocha, de Oracy Nogueira, 1992.
Cunha vista da Serra da Bocaina. Foto: Pedro Máximo. Data: 2011.
A cidade de Cunha vista da Pedra Grande, na Serra da Bocaina, próxima à divisa com Silveiras. Está a 34 quilômetros em distância absoluta, na direção sudoeste. O interessante dessa perspectiva é que aparece a Serra do Alto do Diamante ao fundo, que está a cerca de 55 quilômetros de distância da Pedra Grande. Após essa serra, temos ainda o bairro do Sertão do Palmital e mais cerca de 5 Km (em termos absolutos) de terras cunhenses até se chegar ao limite com São Luís do Paraitinga, divisa formada com cotas altimétricas inferiores ao do Alto do Diamante e vertente do rio Paraibuna. A foto na perspectiva noroeste-sudoeste revela um pouco da extensão de nosso município, maior do Vale do Paraíba e o único no estado circundado por três 3 serras principais (além de outras ramificações), como é o caso do Alto do Diamante, do Alto Grande e do Campo Grande. Todas com picos ultrapassando os 1600 metros de altitude.
Cunha vista da Pedra Grande. Cotas altimétricas do IBGE (1973). Edição: Jacuhy.
O bairro Sertão do Palmital, ainda em 1970, completamente isolado de Cunha. Os moradores se serviam, quando podiam, de São Luiz do Paraitinga, via distrito de São Pedro da Catuçaba. Mesmo assim por trilhas acessíveis apenas a pé ou a cavalo.
Parte da carta hipsométrica das três serras. Fonte: IBGE, 1973.
Um dos morros da Serra desperta a nossa atenção por sua feição cônica, se assemelhando a um vulcão, o que obviamente não é e nem nunca foi. Trata-se de dois morros na verdade, mais pontiagudos e altos que os vizinhos que observados de longe, revelam esse contorno diferente. Essa Serra, aliás, pode ser melhor observada do Morro Grande, vide as fotos da “Estalagem Shambala” ou do loteamento recentemente aberto “Alpes de Cunha”.
Alto do Diamante e Campo Grande. Vista da Estalagem Shambala. Data: 2022.
Os morros que circundam a cidade de Cunha, e que parecem altos, praticamente se aplainam ante a imponência da Serra do Mar, que, como uma muralha, cerca o município nos limites de sudoeste a nordeste.
Vista da Serra do Campo Grande. Foto: Guto Felipe. Data: 2022.
Todo esse “Mar de Morros” é obra de milhões de anos de processos erosivos contínuos, consequência da ação do clima tropical sobre o relevo. As paisagens que temos hoje são heranças que a natureza nos legou e que devemos preservar para a posteridade.
Vista da Serra do Alto do Diamante. Foto: Rodrigo Leite. Data: 2012.
Por isso, o desmatamento incontrolável que nossa região passou nos últimos cem anos preocupa. Não só pelo aumento dos movimentos de massa e os riscos que eles trazem à segurança das pessoas e animais, além dos prejuízos, mas pela perda dos solos, um problema grave e ainda pouco abordado e tratado em Cunha. Sem solo não há agricultura, pecuária e nem vida. A aceleração dos processos erosivos e a retirada ilegal de mata ciliar levam ao assoreamento dos cursos d’água e ao desaparecimento da fauna fluvial. A retirada de mata no topo dos morros leva ao sumiço dos vertedouros. Toda ação humana gera algum impacto ambiental que, mais cedo ou mais tarde, acarretará algum impacto social.
O pouco que restou da nossa Mata Atlântica foi resultado da ação impositiva do Estado, que interveio na década de 1.970 para impedir o desaparecimento completo da cobertura vegetal, com a criação de duas unidades de conservação de proteção integral: Parque Nacional da Serra da Bocaina e Parque Estadual da Serra do Mar. Nunca partiu de nós, cunhenses, o devido cuidado com meio ambiente. É muito provável que sem as unidades de conservação, o pouco de verde que ainda restou já teria virado carvão, moirão, palanque, esteio, móveis, pasto etc. Até o nosso linguajar valida a visão antiecológica de ver árvores e matas como um problema. Chamamos de “pasto sujo” aquele que contém árvores e capoeirões espalhados pela herdade.
O desenvolvimento do turismo surge como uma esperança. Ao retirar do setor primário o sustento de muitas famílias e realocá-lo no terciário, ameniza a pressão sobre os recursos naturais do município. Ademais, a paisagem natural ou regenerada deixa de ser um “pasto sujo” e passa a ser valorizada. Valorizada no sentido financeiro mesmo, pois o turismo é uma atividade econômica que promove o consumo do espaço e das paisagens. Desde que não seja predatório ou privilégio de alguns empreendedores, o turismo pode ser uma das saídas para Cunha.
A pergunta que fica é: o que deixaremos para as futuras gerações? Mais do que esperar do Estado e atribuir responsabilidades a outrem, sempre é bom fazer um exercício de reflexão pessoal, focado na nossa ação no mundo. Cabe a nós, enquanto comunidade, buscar alternativas econômicas sustentáveis.
Referências: AB’SÁBER, Aziz N. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. 5 ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008. CRUZ, Rita de C. A. da. Introdução à geografia do turismo. 2. ed. São Paulo: Roca, 2003. IBGE. Lagoinha: região sudeste do Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 1973. 1 carta topográfca, color., 4465 × 3555 pixels, 5,50 MB, jpeg. Escala 1:50.000. Projeção UTM. Datum horizontal: marégrafo Imbituba, SC, Datum vertical: Córrego Alegre, MG. Folha SF 23-Y-D-III-2. O ESTADO DE S. PAULO. Palmital, um bairro isolado. 4 out. 1970, p. 42. SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996. VELOSO, João J. de O. O ambiente natural cunhense. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 1996.
Logotipo utilizado nos galões da Águas Virtuosas de Santa Rosa. Símbolo de qualidade.
Um breve levantamento histórico das “Águas Virtuosas de Santa Rosa”, hoje “Águas Serras de Cunha”. As águas da Fonte Paulista, considerada uma das melhores do Brasil, voltou a ser engarrafada. Mais que uma fonte geradora de empregos, trata-se um motivo de orgulho para todos os cunhenses.
Século XIX – Em ofício endereçado à Assembleia Provincial solicitando recursos, em 1882, a Câmara de Cunha cita que “no lugar denominado Pedra Branca”, na então Freguesia de Campos Novos, havia uma fonte de água que “na crença popular diz ser milagrosa”, de “gosto nauseante”, de temperatura “em certas ocasiões mais sensivelmente elevada que o ambiente”, porém ainda desprovida de uma “análise qualitativa” que determine suas propriedades físico-químicas.
Década de 1910 – Moradores de Cunha e Campos Novos costumavam fazer excursões para as “Águas”, para beber nas suas fontes, engarrafá-la e até nela se banhar, crendo ser o líquido portador de moléculas milagrosas. A fama da água se espalha pelo Vale e chega aos ouvidos do endinheirado empreendedor Barão da Bocaina, o Francisco de Paula Vicente de Azevedo. Assim que soube das fontes minerais, comprou as terras onde se localizavam as minas. Passava, então, o local a ser denominado por “Águas do Barão”. Era natural de Lorena (SP), mas já época morava em São Paulo (SP). O Barão possuía terras em diversos municípios da nossa região e do Sul de Minas. Pioneiro na introdução do trabalho livre no Vale, estabeleceu diversas colônias agrícolas para imigrantes, com destaque para a de Quiririm, em Taubaté, e para a de Canas, hoje município. Em São Paulo, capital, tonou-se banqueiro, investidor e empresário. Chegou a participar do governo do guaratinguetaense Rodrigues Alves, quando este esteve na Presidência. Esteve sempre envolvido com projetos modernizadores, copiando o que podia da Europa. Em 1861 adquiriu uma grande propriedade de terra na Serra da Mantiqueira, introduzindo uma fazenda-modelo, que veio a se chamar “São Francisco dos Campos do Jordão”. Anos depois, já famosa, tornar-se-ia na primeira estância climática e cidade sanatório, visando o tratamento de tuberculosos. E ainda introduziu nessa sua fazenda o cultivo de frutas europeias. Parecia ser similar o seu projeto para as fontes de água mineral da Pedra Branca, rebatizada por ele, posteriormente, como católico fervoroso que era, como “Águas de Santa Rosa”.
1912 – É organizada a “Companhia Águas Mineraes Santa Rosa”, em Campos Novos de Cunha.
1 de dezembro de 1912 – A “Companhia de Águas Mineraes de Santa Rosa”, do Barão da Bocaina, compra a Fazenda Jaboticabal, espólio de Laurindo Umbellino dos Santos Pinto, com 150 alqueires de terra, aumentando a propriedade da Companhia, que já tinha domínios no lugar. Essa ampliação era fruto da ambição do Barão de levantar no bairro uma nova cidade, uma estância hidromineral, parcelando o solo, levantando casas e hotéis e criando serviços de abastecimento e distribuição das águas minerais.
28 de dezembro de 1913 – Após receber infraestrutura, é fechada à visitação pública a primeira fonte das “Águas Mineraes de Santa Rosa”.
28 de outubro de 1915 – Instrução Pública: É criada pela Assembleia Legislativa de São Paulo uma Escola Rural Mista no Bairro das Águas Virtuosas de Santa Rosa, município de Cunha.
1915 – Entra no orçamento estadual, por indicação do deputado estadual Dr. Casemiro da Rocha e outros da região, a construção de uma estrada ligando Lorena à estação das “Águas Virtuosas de Santa Rosa”.
1916 – Iniciam-se as obras de infraestrutura turística na fazenda das “Águas Virtuosas de Santa Rosa”, tendo à frente o arquiteto francês radicado em Cunha Cyrille Loviat, o mesmo que construiu o Grupo Escolar de Cunha e o Mercado Municpal. A ideia inicial era construir um hotel e um posto policial. O zelador da fazenda era o sr. Bernardino Alves Ferreira.
6 de agosto de 1919 – nomeada, por decreto estadual, a primeira professora da Escola Rural Districtal das “Águas Virtuosas de Santa Rosa”, a saber: Professora Gesséa Dias Corrêa, aprovada em concurso público.
1918 – Requer o Barão da Bocaina, junto ao Governo Federal, a reconstrução da estrada Lorena-Mambucaba, que passava pelo distrito de Campos de Cunha.
1919 – É votado, para o orçamento de 1920, por indicação do deputado Dr. Casemiro da Rocha, a restauração da estrada que ligava a fazenda das “Águas” ao porto de Taquary, município de Paraty, estado do Rio de Janeiro.
1 de janeiro de 1920 – O bairro das “Águas” recebe uma agência postal dos Correios. Antes mesmo de Campos Novos ter uma! Razão de muitas críticas dos moradores da vila, muito mais populosa e ainda desprovida de serviço postal. O agente postal nomeado para aquela agência foi o sr. Benedito Vaz Reis.
Década de 1920 – Administra as fontes minerais a “Companhia de Águas Mineraes de Santa Rosa”. Em diversas comunicações oficiais aponta-se a necessidade de arrumar a estrada que liga a sede da fazenda à cidade de Lorena. Necessidade de prolongar a estrada de Campos Novos à fazenda das “Águas” é prevista no orçamento estadual.
1932 – Durante a Revolução Constitucionalista foi ocupada por tropas paulistas (do 4º Batalhão de Combate e da Liga de Defesa Paulista, sob o comando do Tenente Meirelles Maia). Estando arranchados na localidade, chamou a atenção do serviço médico do Exército Constitucionalista a dentição totalmente preservada dos moradores locais, algo raro na zona rural de Cunha naquela época. Os oficiais médicos atribuíram tal característica à salubridade e propriedades químicas daquelas fontes minerais. Passada a guerra civil, foram aqueles soldados grandes incentivadores da ideia de tornar Cunha uma estância hidromineral, pois muitos que lutaram em Cunha, entrariam para a política, posteriormente. Entre eles, podemos citar o ex-governador Adhemar de Barros, já falecido, que, como mandatário estadual, muito lutou para que Cunha alcançasse o status de estância.
17 de outubro de 1938 – Falece em São Paulo (SP), o Barão da Bocaina, último titular ainda vivo do Império do Brasil. Com sua morte, fenece o seu projeto para as “Águas Virtuosas de Santa Rosa”.
10 de julho de 1940 – É aberta a estrada rodoviária de Cunha a Campos Novos, de terra batida ainda, substituindo o leito carroçável, o antigo caminho de tropa que servia de ligação entre a sede municipal e a distrital. A caravana de políticos que vem inaugurar a obra visita a fazenda da estação das Águas Virtuosas de Santa Rosa, ainda um projeto promissor.
Dezembro de 1941 – É extinta a agência postal das “Águas Virtuosas de Santa Rosa”.
Década de 1940 – A Companhia possuía ações na bolsa de valores do Rio. Laudos do Laboratório Adolpho Lutz e do antigo Instituto Geográfico e Geológico de São Paulo apontam as fontes de águas minerais da fazenda, com vazão de 101.400 litros por hora, como as melhores do país.
Expedição do antropólogo americano Robert W. Shirley à Fazenda das Águas. 1965. Foto: Arquivo do Museu Francisco Veloso.
Década de 1960 – A Fazenda das Águas, como é conhecida, é vendida ao empresário Ghisleni Giulio, que pretende pôr em prática os antigos projetos do Barão da Bocaina.
Setembro de 1972 – É feito um reflorestamento com eucalipto na fazenda das “Águas Minerais de Santa Rosa”, empreendimento da Agro Vale do Paraíba S/C Ltda., com sede em Guaratinguetá. Trata-se de um investimento que conta com a participação de várias empresas e alega o plantio de 5 milhões de árvores, em três parques florestais criados em nossa região. Até hoje é a maior fazenda do município de Cunha, chegando até o Sertão, no limite com o estado do Rio de Janeiro, município de Paraty. Um ponto verde escuro nas imagens de satélite, devido a cobertura com eucalipto.
12 de novembro de 1975 – É criada a empresa Águas Virtuosas Santa Rosa LTDA, para envasar e comercializar águas minerais.
Igreja da Fazenda das Águas em 1978. Foto: Eurindo Perez (Página “Parada do Tempo”/ Facebook)
1981 – Inicia-se negociação com a Arábia Saudita, visando exportar água mineral de qualidade superior para aquele árido reino do Oriente Médio.
Década de 1980 – A Fazenda das Águas é um dos destinos turísticos de Cunha mais visitado e conhecido. A própria Prefeitura divulgava o lugar como um dos atrativos de Cunha, quando fazia anúncios na imprensa. A visitação pública aumenta após o asfaltamento do Estrada Municipal Ignácio Bebiano dos Reis, que interliga a cidade de Cunha à vila de Campos de Cunha.
Década de 1990 – A água mineral “Águas Virtuosas de Santa Rosa” conquista o mercado regional e seu nome se consolida, fornecendo um produto de excelente qualidade por um preço menor que as concorrentes. Na mesma década, a empresa seria fechada por motivos econômicos (?) e a comercialização suspensa.
24 de abril de 2000 – A Fazenda das Águas e suas fontes minerais são compradas e incorporadas pela empresa do mesmo ramo Águas Prata Ltda.
Década de 2010 – O reflorestamento de eucalipto da fazenda é vendido à indústria de madeira e celulose. A extração de madeira do local, pela quantidade de árvores, gera um importante fluxo de empregos em Cunha.
2021 – As fontes minerais da Fazenda das Águas voltam a ser envasadas e comercializadas, com novo nome: “Águas Serras de Cunha”.
Fontes: Arquivos do Museu Municipal Francisco Veloso. Arquivos da Prefeitura Municipal de Cunha. Grupo “Memória Cunhense” – Facebook. Jornal Correio Paulistano, 1854 a 1942. Jornal do Commercio (RJ) – 1940 a 1949. O Estado de São Paulo, 28 set. 1972. O Estado de São Paulo, 1 abr. 1981. Ofícios da Câmara Municipal da Cidade de Cunha, 1882. Página “Parada do Tempo” – Facebook. PASIN, J. L. Os Barões do Café: titulares do Império no Vale do Paraíba Paulista. Aparecida: Vale Livros, 2001. Revista Istoé, 21 dez. 1977. VELOSO, J. J. de O. A História de Cunha (1600-2010). Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010. ______. O ambiente natural cunhense. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 1996.