Um recorte de papel

Um recorte na Cunha de 1940. Uma abertura para a Cunha de 2024.

Um recorte de papel pode ser um recorte no tempo?

O croqui mostrado acima é da década de 1940, quando o chafariz ainda estava lá centro, e nossa cidade ainda não havia superado completamente o seu passado. Na Praça da Matriz tinha um chafariz. Ornamento? Não, sistema público de abastecimento de água. Foi inaugurado em 31 de dezembro de 1886. A maior obra empreendida pela Câmara de Cunha no século XIX. Se não a maior, pelo menos a mais custosa. Um desafio: abastecer uma vila edificada sobre o outeiro. Foi uma grande conquista local para a época. O problema do abastecimento de água na cidade, entretanto, tem resistido ao tempo e às tecnologias. Volta e meia ele emerge. E o povo sofre e reclama. Como antes.

Praça da Matriz de Cunha. Década de 1960. Arquivo: Museu Francisco Veloso.

Voltando ao chafariz, quando houve o calçamento do centro, feito por volta década de 1960, ele já havia perdido sua função saneadora e, na visão dos gestores locais, também a estética. Assim, foi realocado para um novo lugar, à altura de sua condição de coadjuvante. Foi depositado dentro do Mercado Municipal. Um artefato relegado ao ostracismo, aos cantos, ao esquecimento. Muitos conterrâneos desconhecem o seu paradeiro e sua história.

O antigo chafariz da Praça da Matriz, que está atualmente no Mercado Municipal. Foto de 2024.

O Jacuhy luta contra essas amnésias. É uma luta inglória e inútil, pois o tempo é implacável. Há muita coisa para ser relembrada e pouca gente se dedicando a essa tarefa. “A seara é grande, mas poucos são os ceifeiros”.

E o que eram esses croquis? Em 1940, o Brasil realizou o seu quinto recenseamento geral. Por ser o primeiro a ser realizado pelo IBGE, apresentou inúmeros desafios. Várias atividades foram desenvolvidas para dar suporte técnico ao Censo, entre elas a Campanha Nacional das Coordenadas Geográficas, executada pelo CNG, e que implicou no levantamento de coordenadas geográficas (latitude e longitude) para as sedes de todos os municípios brasileiros existentes àquela época.

No estado de São Paulo, o levantamento foi executado pelo pessoal técnico do antigo Instituto Geográfico e Geológico (IGG). Entre mais de 400 croquis em papel vegetal, coloridos à nanquim, com a localização de diversos marcos de coordenadas geográficas espalhados pelo estado, 4 deles foram implantados no município de Cunha. Além das sedes urbanas, alguns pontos de interesse geográfico ou administrativo também foram geolocalizados. As medições de Cunha foram realizadas entre 1940 e 1941.

Esses são os lugares do município de Cunha que receberam os Marcos de Coordenadas Geográficas do IGG:

Local: Bairro da Barra (Chico do Lau) – na divisa com o estado do Rio de Janeiro.
Data: maio, 1941.
Coordenadas: Latitude: 23º 03’ 17”.0 S; Longitude: 44º 48’ 40”.1 O

Croqui de coordenada geográfica do bairro da Barra do Chico do Lau. Fonte: Arquivo do IGC.

Local: Campos de Cunha (torre da Igreja de N.ª Senhora dos Remédios).
Data: maio, 1940.
Coordenadas: Latitude: 22º 55’ 15”.4 S; Longitude: 44º 49’ 11”.9 O

Croqui de coordenada geográfica da vila de Campos de Cunha. Fonte: Arquivo do IGC.

Local: Cunha (torre direita da Igreja Matriz).
Data: maio, 1940.
Coordenadas: Latitude: 23º 04’ 27”.0 S ; Longitude: 44º 57’ 35”.8 O

Croqui de coordenada geográfica da cidade de Cunha. Fonte: Arquivo do IGC.

Local: Garganta do Cedro / Serra do Mar (Bairro da Várzea do Cedro).
Data: maio, 1940.
Coordenadas Geográficas: Latitude: 23º 11’ 44”.2 S ; Longitude: 44º 52’ 23”.0 O

Croqui de coordenada geográfica do bairro da Várzea do Cedro. Fonte: Arquivo do IGC.

Um pequeno recorte de papel vegetal, colorido à nanquim, pode abrir espaço para muitas memórias. São marcos para muito além da geodésia.

Referências:
Croquis de Coordenadas Geográficas do IGG. Fonte: Arquivo do IGC.
Fotografias de Cunha. Fonte: Arquivo do Museu Francisco Veloso.
Livro “A História de Cunha” (2010), do prof. João Veloso.

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