A Serra do Mar – a “Paranapiacaba”, na língua tupi, que significa “lugar de onde se vê o mar”, através da junção de paranã (mar), epîak (ver) e aba (lugar), conforme tradução de Frei Gaspar da Madre de Deus – não é uma cordilheira, um dobramento moderno como é o Andes. É uma cadeia de montanhas alinhadas. Não por acaso, foi entendida pelos colonizadores portugueses, tão afeitos ao Medievo, como uma muralha.
Relevo de origem complexa, sobreposição de diversos eventos geológicos marcam sua evolução. Sua estrutura geológica aponta para formação do antigo continente Pangeia (há 300 milhões de anos) e para a traumática separação da Gondwana (180 milhões de anos), que resultou no nascimento da América do Sul e da África. Esse relevo escarpado, aliás, é herança dessa separação.
Mas não só isso. O tectonismo foi intenso, de modo que a parte mais alta desse relevo antigo foi totalmente destruída e foi se depositar no fundo do mar ou na Bacia Sedimentar do Paraná. O que vemos hoje da Serra do Mar, seus pontões rochosos, é uma belíssima exposição natural de rochas graníticas que foram formadas a 30 quilômetros de profundidade. O intemperismo e os sucessivos processos erosivos foram esculpindo esse relevo, salientando as rochas mais resistentes. As rochas mais fracas não tiveram vez. Viraram sedimentos.
Serra do Marumbi – Km 60. Foto: Arthur Wischral. Data: 1928. Fonte: Instituto Moreira Salles (IMS).
Ranhuras erosivas fazem parte da paisagem natural, mesmo em áreas cobertas de Mata Atlântica. São resultantes dos altos índices pluviométricos, condicionados pela proximidade com o oceano e pela altura das montanhas, que ultrapassam com folga a cota dos 1.000 metros, combinados com a declividade acentuada, por vezes abrupta, de suas escarpas. O solo raso, sustentado por lajedos, são incapazes de manter-se incólume nesses lugares. Todos esses processos geológicos recobertos por floresta tropical resultaram em uma paisagem de beleza cênica ímpar, de cartão-postal, como a mostrada acima, no município de Morretes (PR).
Duas falhas transcorrentes pré-cambrianas perlongam a Serra do Mar e seu reverso. Geólogos interpretam as escarpas da serra nesse trecho como resultado de abatimentos e basculamentos de blocos de falha. Dada a continuidade topográfica da Serra do Parati com o planalto, é provável que elas representem a parte frontal de erosão remontante da borda do planalto entre os dois maciços resistentes dos promontórios sustentados pelas rochas alcalinas da ilha de São Sebastião e o granito do Parati.
Origem e evolução da Serra da Mantiqueira e da Serra do Mar. Fonte: Revista Pesquisa FAPESP. Data: 2021.
Para o geógrafo Daniel Souza, do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP), a Serra do Mar e da Mantiqueira foram “moldadas por incessantes movimentos da superfície e pela erosão causada por rios e pelo clima, principalmente a chuva”. O geólogo Claudio Riccomini, do Instituto de Geociências da USP, acrescenta: “além do clima, há uma forte influência dos movimentos tectônicos, mesmo nos últimos 20 mil anos, na modelagem e na erosão do relevo”. Essas serras já foram uma só, há 130 milhões de anos, quando se formaram, conforme mostra o infográfico acima. Chegaram a atingir incríveis 4 mil metros de altitude! (hoje, não chega a 3 mil…). Mas nada dura para sempre. Tremores sísmicos intensos estremeceram a ligação e o divórcio foi inevitável. Desse distanciamento surgiu o Vale do Paraíba, abertura propícia para o acúmulo de sedimentos oriundos da erosão das duas serras. Esse acúmulo gerou a chamada Bacia Sedimentar de Taubaté, importante feição geológica de rifteamento no Brasil. Há 15 milhões de anos, os rios Paraitinga e Paraibuna, que encorpavam o volume do rio Tietê, foram, finalmente, capturados por esse vale novo, mudando de rumo, e direcionando para o Rio de Janeiro, como é atualmente.
A separação dessas serras trouxe três consequências:
A formação de reservas de petróleo nas bacias sedimentares de Santos e Campos, localizadas no litoral dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro;
Uma nova configuração da rede hidrográfica regional, separando as bacias do Paraíba do Sul e a do Tietê, pelo soerguimento do chamado Alto Estrutural de Arujá;
Vicariância, pois a separação de comunidades de animais e plantas, favoreceu a formação de novas espécies.
Na foto, ao fundo, vê-se a Serra dos Três Picos, com altitudes que variam entre 1.500 – 1.600 metros, dentro do município de Paraty. Captura tomada da Estrada Cunha-Paraty (RJ-165).
A evolução não para. As encostas do Serra do Mar continuam erodindo, se desgastando. A serra vai se distanciando do mar, ampliando a planície costeira.
Foto de capa: mapa “Brasile Centrale” (parcial), autor: Herbet Bayer, Instituto Geographico de Agostini (1952).
“Sim, na roça o polvilho se faz a coisa alva: mais que o algodão, a garça, a roupa na corda. Do ralo às gamelas, da masseira às bacias, uma polpa se repassa, para assentar, no fundo da água e leite, azulosa — o amido — puro, limpo, feito surpresa”.
Conto “Substância”, de João Guimarães Rosa
Tem sido uma grata surpresa essa nova fase do Museu Francisco Veloso. Assumindo a sua função primordial, que é a pedagógica, de abrir seus espaços para contar e deixar que o povo de Cunha conte suas histórias. É nessa perspectiva que desde o dia 19 de julho de 2025 abriu suas portas para receber a exposição “Das Gamelas: corpo, memória, farinha”, que celebra os saberes ancestrais, a mandioca, o barro, a farinha e a força feminina no território local.
Figurino da personagem “Maria Exita”, usado pela artista e dançarina Dalila D’Cruz. Foto: Jacuhy. Data: 2025.
A idealizadora da exposição é Dalila D’Cruz, artista visual, professora, atriz e dançarina, que atualmente reside em Cunha. A ideia, segundo ela, nasceu do seu encantamento com o conto “Substância”, de Guimarães Rosa, sobretudo com a personagem “Maria Exita”, mulher e arquétipo, figura central do conto. “Maria Exita” vai trabalhar na fazenda “Samburá”, em uma casa de farinha, no sertão mineiro. Ali prepara o polvilho, a substância alimentar e necessária. Tarefa árdua, que consome o tempo de muitos; mas que por ser difícil de se fazer, guarda tanta beleza e muitos saberes em seu fabrico. No conto, Guimarães Rosa, com sua maestria, faz um paralelo entre a vida de “Maria Exita” e a fabricação do polvilho. O interesse de Dalila pela personagem vem dos seus tempos de teatro, quando trabalhou em uma peça o livro “Primeiras Histórias”, de Guimarães Rosa, e justamente o conto que ela mais gostou (“Substância”) não entrou. Daí veio o seu interesse de estudá-lo pela dança. A atual exposição é o prolongamento desse interesse, do seu encantamento com arte de fazer farinha de “Maria Exita”.
A artista e idealizadora da exposição Dalila D’Cruz posa segurando a gamela. Foto: Jacuhy. Data: 2025.
Em Cunha, Dalila foi para o campo em busca dessas muitas “Marias Exitas”, que residem pelo extenso território rural cunhense. Silenciadas em suas casas de farinha, em seus monjolos, mexendo os seus tachos, esparramando farinha em suas gamelas, fazendo história… E encontrou. Assuntando aqui e acolá, juntamente com a equipe do Museu Francisco Veloso (Dina, Maiara, Izabel, Isabelle, Andreas e Thales), percorreram eles os lugares e as memórias das casas de farinha da Dona Neusa & Seu Derly, de Dona Zico, de Dona Antônia, de Dona Joana, do Seu Zico, da Dona Nê & Seu Jair Rosa, de Dona Nadir e até de Seu Zé Pedro, este cunhense radicado em Ubatuba… Não só de mandioca, mas de milho principalmente. Farinha de milho de monjolo. Ou só farinha de monjolo. Por que a preferência local por esse cereal americano? Vem de longe. Para o historiador Sérgio Buarque de Holanda, a farinha de milho era a preferida dos colonos paulistas, tanto em razão de a planta “se ajustar melhor aos hábitos peculiares à gente de serra acima” (o milharal podia ser colhido em apenas 4 meses) como pela produção em maior escala se comparada à da mandioca.
Uma homenagem às casas de farinha de Cunha. Foto: Jacuhy. Data: 2025.
Por isso, “Das Gamelas” (o título vem de um trecho do conto, já citado acima) é um projeto cultural que une tradição e inovação. Foi inspirada nas casas de farinha e visa transformar memória e ancestralidade em arte viva, conectando o público à cultura popular de forma sensorial e poética, inspirando aqueles que dela participam. A exposição tem recebido muitos visitantes, sobretudo alunos, de todas as faixas etárias, das diversas escolas de Cunha. Mais de 500 estudantes cunhenses já visitaram a exposição. Desse modo, o Museu assume o seu caráter pedagógico, educativo, ao propor aos estudantes uma experiência de valorização do passado (material e imaterial), dos saberes tradicionais, da realidade local, a um público, paradoxalmente, marcado pela conexão excessiva com espaços digitais e desconexão com lugar onde vivem. Seguindo nesse percurso formativo e educativo, o Museu tem promovido durante as quartas-feiras, após às 18h, rodas de conversa e leituras do conto “Substância”, de Guimarães Rosa, realizando encontros entre palavra e prática, tradição e território. Momento de literatura enriquecida e contextualizada pelas memórias locais.
Um olhar, novos encantamentos. Foto: Dina Zélia Chimello. Data: 2025.
Dalila apresenta a gamela aos alunos de Cunha. Foto: Dina Zélia Chimello. Data: 2025.
Alunos se reencontram com a história local, através da farinha. Foto: Dina Zélia Chimello. Data: 2025.
Dalila conversa com as crianças sobre a exposição. Foto: Dina Zélia Chimello. Data: 2025.
O gesto das mulheres da terra, nos seus ofícios, é movimento. É criatividade, poesia, tradição e história. Porque farinha não é só comida; é história. É memória e brasilidade. É o pão nosso de cada dia das faixas tropicais, porque foi o “primeiro conduto alimentar brasileiro pela extensão e continuidade nacional”. É o alimento, por excelência, dos sertões, como aponta o historiador potiguar Câmara Cascudo:“(…) mais conhecidas no emaranhado dos caminhos exploradores. A farinha indispensável era a explicação única. Comida para todos, portugueses e mazombos, a indiada fiel, fosse qual fosse o nível social participante.”. A explicação para a presença única desse alimento entre as gentes do interior vem do geógrafo Caio Prado Júnior. Diz ele: “pelas qualidades nutritivas da farinha, adaptabilidade da sua cultura a qualquer terreno e excepcional rusticidade, a mandioca, introduzida pela tradição indígena, foi universalmente adotada pela colonização como gênero básico de alimentação; e assim se perpetuou até nossos dias. É certamente a maior contribuição que nos trouxe a cultura indígena.” Como bem colocado no título “A Raiz Que Nos Fez Nação”, livro da autoracachoeirense Evelym Landim, a mandioca (aipim, macaxeira) é um dos pilares da cultura alimentar e da identidade brasileira.
Entrevista de Dalila D’Cruz ao “CANAL39 -TURISMO E CULTURA”, no YouTube, sobre a exposição “Das Gamelas”.
Quando, nos anos de 1940, o sociólogo Alceu Maynard Araújo, esteve realizando pesquisas junto aos agricultores de Cunha para o seu livro “Ciclo agrícola: calendário religioso e magias ligadas à plantação”, percebeu que a farinha fazia parte da alimentação básica do cunhense. Estava em todos os momentos. Cedo e à tarde, misturada com café ou com ovos na forma de farofa; na hora do almoço e da janta, misturada com feijão e torresmo ou engrossando e encorpando a quirera. Em Cunha, a farinha, por excelência, era de milho, cereal basilar. Mas havia também a produção de farinha de mandioca, em menor escala. Quando havia falta dessa farinha, recorria-se aos tropeiros, que a buscavam na vizinha Paraty, grande produtora e com uma farinha de mandioca com qualidade superior à de Cunha.
Outro ponto de encontro entre a exposição e a história é valorização que faz dos instrumentos usados na fabricação da farinha, itens indispensáveis à indústria doméstica, essa característica marcante do tempo colonial que ainda existe pelos sertões do nosso país. Gamelas, prensas, ralos… Objetos atravessados pela história, que estão imbricados na formação do povo brasileiro, como anota Sérgio Buarque de Holanda: “(…) vários instrumentos alienígenas se adaptarão também à necessidade de se prepararem para o consumo os produtos nativos de maior procura, aparecendo, assim, a prensa e o ralo de metal para a mandioca, o monjolo para pelar e pilar milho (…)”. São peças que, ao lado das memórias e saberes, ajudam a entender o nosso passado, pois são legados culturais. Essa exposição, antes de tudo, valoriza o jeito caipira de ser do cunhense.
Ralo caipira. Uma das peças da exposição. Foto: Jacuhy. Data: 2025.
A poeta caipira Adélia Prado certa vez escreveu: “a coisa mais fina do mundo é o sentimento”. O grande tema do conto de Guimarães Rosa é o da importância da essência, da “substância”. Dentro da construção da narrativa, percebe-se que a grande essência é o amor, essa substância fina como o polvilho, sentimento nobre e tão presente na vida e no ofício dessas “Marias Exitas”, que a exposição “Das gamelas” trouxe a lume. E não existe coisa mais alva, mais limpa e mais pura para um museu que dar voz e vez às pessoas simples da roça, historicamente esquecidas. O Jacuhy parabeniza o Museu Francisco Veloso, pela abertura e exposição, e a artista Dalila D’Cruz, pela sensibilidade e idealização “Das gamelas”. Cunha merece.
A exposição, que começou dia 19 de julho, vai até o dia 30 de setembro de 2025. Entrada franca. Não perca!
Localização do Museu Francisco Veloso (Google Maps):
Foto de capa: Dalila D’Cruz apresenta a exposição aos alunos cunhenses. Foto: Dina Zélia Chimello. 2025.
Nos idos de 1875, as fontes de águas minerais de Cunha já eram conhecidas no estado de S. Paulo. Engana-se, portanto, quem pensa que elas foram descobertas no século XX. Em sua obra “A província de S. Paulo: trabalho estatístico, histórico e noticioso”, publicado em 1875, escrita pelo senador Joaquim Floriano de Godoy (1826 – 1907), ao descrever as fontes de águas minerais paulistas conhecidas, aponta: “Só são conhecidas algumas fontes e entre estas as do municipio de Cunha, de agua ferrea, e em S. João Baptista uma fonte thermal sulphurosa na vertente paulista da serra de Caldas da provincia de Minas Geraes”. Alguns anos depois, em 1882, através de um ofício endereçado à Assembleia Provincial, a Câmara de Cunha cita que “no lugar denominado Pedra Branca”, na então Freguesia de Campos Novos, havia uma fonte de água que “na crença popular diz ser milagrosa”, de “gosto nauseante”, de temperatura “em certas ocasiões mais sensivelmente elevada que o ambiente”, porém ainda desprovida de uma “análise qualitativa” que determine suas propriedades físico-químicas.
Parte do ofício da Câmara da Cidade de Cunha, destinado à Assembleia Provincial de S. Paulo, relatando a existência de águas minerais em nosso município. Fonte: ALESP. Data: 1882.
A fama da água de Cunha se espalhou pela província de tal forma, que chegou aos ouvidos do endinheirado empreendedor Barão da Bocaina, o Francisco de Paula Vicente de Azevedo, que era aficionado por lugares que possuíam fontes de água mineral. Em 1912, ele adquiriu as terras da região, comprando a “Fazenda Jaboticabal”, criando, assim, a “Companhia Águas Mineraes Santa Rosa”. Seu projeto era criar uma cidade no entorno das nascentes, a exemplo do que fora feito em Campos do Jordão, empreendimento urbano patrocinado e dirigido pelo Barão.
Visita do Marechal Mallet, então Ministro da Guerra, em janeiro de 1902, a São Francisco dos Campos, em terras do Barão da Bocaina, que aparece em primeiro plano. Foto e Descrição: Fundação Christiano Rosa (Piquete – SP).
Na década de 1940, Cunha lutaria, com o apoio de alguns deputados, junto ao Governo Estadual, para se tornar uma Estância Hidromineral. As outras cidades, que já detinham esse título, pressionaram politicamente o governador e os deputados, a fim de barrar o intento cunhense. Obtiveram sucesso. Como prêmio de consolo, Cunha recebeu o título de Estância Climática, em 28 de outubro de 1948. Tarde demais para se tornar uma cidade-sanatório. A penicilina já havia chegado ao Brasil, por meio do pesquisador Henrique de Souza Filho, (do Instituto Oswaldo Cruz), em 1943. Ele foi responsável por realizar os primeiros experimentos com o antibiótico fora da Inglaterra, onde foi descoberto por Alexander Fleming. Esse remédio trouxe um impacto significativo na saúde pública, permitindo o tratamento de diversas doenças infecciosas, entre elas a tuberculose, que antes eram consideradas graves e muitas vezes fatais. As cidades sanatoriais, de “clima salubérrimo” (como gostava de adjetivar Cunha o entusiasta João Lellis Vieira, em sua coluna no “Correio Paulistano”), foram aposentadas.
Recorte do diário “Correio Paulistano”, de 28 jul. 1940, p. 3, em um dos muitos artigos que Lellis Vieira apresenta Cunha como a “Suíça Brasileira”. Fonte: Biblioteca Nacional.
Aliás, digna de nota é a batalha inglória, que João Lellis Vieira (Cunha, 15 de julho de 1880 – São Paulo, 5 de junho de 1949), diretor do Arquivo Público do Estado de São Paulo de 1938 a 1947, travaria nas colunas do “Correio Paulistano”. O cronista ergueu o estandarte de Cunha como a legítima “Suíça Brasileira”, insígnia disputada com Campos do Jordão. O “Correio Paulistano” foi o órgão oficial do Partido Republicano Paulista (PRP), partido que durante muitas décadas reinou em São Paulo. Cunhense, antigo perrepista, católico praticante, historiador e poeta, Lellis Vieira era graduado pela Faculdade de Filosofia de São Bento e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Nomeado pelo governador Ademar de Barros, dirigiu o Arquivo Público até 1947, quando assumiu o Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, ocupando esse cargo até falecer. Campos do Jordão, cidade situada no alto da serra da Mantiqueira, venceu essa batalha, ficando famosa e sendo reconhecida como a “Suíça Brasileira”. O próprio governo estadual construiu lá o seu palácio de inverno (“Palácio Boa Vista”) encerrando, assim, a questão.
Página do livro “A província de S. Paulo: trabalho estatístico, histórico e noticioso”, publicado em 1875, escrita pelo senador Joaquim Floriano de Godoy, que cita as águas minerais de Cunha. Fonte: Acervo digital da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM).
Foi somente em 1975 que a água mineral de Campos de Cunha passou a ser comercializada. A iniciativa veio do empresário Ghisleni Giulio, que adquiriu a fazenda nos anos de 1960. A “Águas Virtuosas Santa Rosa”, como era conhecida, em pouco tempo conquistou muitos fregueses devido à sua composição mineral, leveza e alto grau de pureza. Atualmente, é comercializada com o nome “Serras de Cunha” e pertence ao grupo “Águas Prata”.
Sob o território cunhense existe um reservatório de água com mais de 550 milhões de anos. É o Aquífero Cristalino, formado pelas rochas mais antigas do estado de São Paulo. O Cristalino aflora na parte leste do estado, cobrindo uma área de aproximadamente 53.400 km², conforme mostra o mapa acima. Ele está presente em outros municípios como Campos do Jordão, Águas de Lindóia, Jundiaí, Iporanga e até na Região Metropolitana de São Paulo. O Aquífero Cristalino é composto por rochas ígneas e metamórficas — tipos de rochas muito resistentes, formadas em condições extremas de temperatura e pressão. A água subterrânea no Cristalino se acumula e circula por fraturas nas rochas. Essas fendas surgiram muito tempo depois da formação das rochas, como resultado de movimentos tectônicos, como a separação dos continentes e a formação da Serra do Mar.
Desenho esquemático do Aquífero Cristalino Pré-Cambriano, com suas fraturas. Fonte: Instituto Geológico.
Dependendo do tipo e da quantidade dessas fraturas, o aquífero pode ter maior ou menor vazão. O Cristalino é dividido em duas unidades, sendo a principal o Aquífero Pré-Cambriano, que é o aquele que abrange o nosso município e possui as rochas mais resistentes e antigas. Sua produtividade é geralmente baixa e bastante variável, dependendo da presença de fraturas abertas. Apesar da produtividade variável, a água do Aquífero Cristalino é de boa qualidade e pode ser usada para consumo humano, possuindo diversas fontes minerais em sua área de ocorrência.
Recorte de um mapa com os principais recursos minerais que podem ocorrer em Cunha. Fonte: ANM, 2025.
A água é a principal riqueza mineral de Cunha. De acordo com recente consulta que fizemos à Agência Nacional de Mineração (ANM), a única concessão de lavra que existe em nosso município está outorgada às Águas Prata Ltda. e foi concedida em 1974. Na condição de requerimento ou autorização para pesquisa, além da água mineral, há outros minerais que estão sendo pesquisados por aqui: feldspato, argila, areia, ferro, terras raras, caulim, gnaisse e granito. Na área fronteiriça com o município de Lagoinha há dois requerimentos de lavra da Cerâmica Industrial de Taubaté Ltda. para exploração de caulim.
Foto de Capa: Represa da “Serras de Cunha”, bairro das Águas, Distrito de Campos de Cunha, Cunha – SP. Data: 2024.
Esta é a planta da cidade de Cunha, desenhada em 1938, para compor o nosso primeiro mapa municipal. Faz parte do acervo do IGC (Instituto Geográfico e Cartográfico do Estado de São Paulo).
Com a ditadura de Vargas, durante o Estado Novo, foi decretada a organização e fixação da divisão territorial do Brasil (estados, municípios e distritos), conforme Decreto-Lei nº 311, de 2 de março de 1938.
Getúlio Vargas, Presidente da República, e Christovam Leite de Castro, Secretário-Geral do Conselho Nacional de Geografia, inauguram, em 1940, a Exposição Nacional dos Mapas Municipais, na cidade de Curitiba (PR). Foto: IBGE.
Esse decreto estabeleceu a obrigatoriedade da confecção de mapas de todos os municípios brasileiros. Medida fundamental para a centralização do poder durante o Estado Novo. Também uniformizou o conceito de “município” e “distrito” no Brasil. Permitiu a criação de estatísticas padronizadas e mapas oficiais do território brasileiro, servindo de base para as pesquisas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), criado em 1936. Houve uma grande exposição desses mapas no Rio de Janeiro.
Em 1938, o nosso município continha Cunha, que era o distrito-sede, e contava com mais dois distritos: Campos de Cunha (rebatizado assim, arbitrariamente, durante o Estado Novo, pois já havia outro lugar chamado “Campos Novos” em São Paulo) e Lagoinha. Sim, nossos vizinhos já foram nossos conterrâneos. Já tratamos desse fato aqui no Jacuhy.
A cidade de Cunha, em 1938. Foto: ENFA. Acervo: Museu Municipal Francisco Veloso.
O mapa de Cunha foi confeccionado pelo Instituto Geográfico e Geológico de S. Paulo (IGG), que teve como suporte fotografias aéreas tomadas pela Empresa Nacional de Fotos Aéreas (ENFA), que foi fundada em 1938 e focava em levantamentos aerofotogramétricos, uma técnica que utiliza fotografias aéreas para criar mapas e outros produtos cartográficos. Algumas dessas fotos aéreas estão preservadas até hoje e compõem parcialmente o acervo fotográfico do Museu Francisco Veloso.
O renomado IGG, mesmo com esses suportes e com pessoal técnico qualificado, cometeu falhas consideráveis na confecção do mapa de Cunha. O contorno territorial na sua parte sul e sudoeste ficou desfigurado. Por desconhecimento da comissão técnica? Por falta de apoio em campo e de uma base cartográfica confiável? Ou pela própria dificuldade do terreno, nessa região coberto por densa e impérvia mata? Os motivos podem ser muitos.
Apesar de bastante equivocado e com o traçado territorial todo impreciso, o mapa municipal de 1938 é histórico. Não apenas por ser o primeiro, mas também pelos recursos financeiros e técnicos alocados em sua elaboração. Nunca antes nada assim fora feito. Foi o primeiro a representar o nosso município em sua integralidade.
Mapa Municipal de Cunha, 1938. Fonte: IGC.
Além de apresentar as divisas municipais e distritais, localizar os 3 núcleos urbanos (Cunha, Lagoinha, Campos Novos) com o seu arruamento, esse mapa municipal situou 45 bairros rurais, alguns já desaparecidos, por exemplo, o “Águas Claras”, o “Fogo Vermelho”, o “Lageado de Cima”, o “dos Borges”, entre outros. E, ainda, determinou o Morro Agudo (Pico Agudo) como ponto culminante de Cunha, apesar de errar a localização montanha. De acordo com a carta topográfica do IBGE, o Pico Agudo tem 1.320 metros de altitude.
Só na década de 1960 é que esses equívocos foram corrigidos, pois houve deu-se início o mapeamento sistemático do território nacional, com levantamento aerofotográfico, apoio em campo e confecção de cartas hipsométricas, na escala de um para cinquenta mil. Empreitada que o IBGE levou adiante, determinando com precisão os limites de Cunha e sua rede hidrográfica, fundamental no estabelecimento de limites territoriais, que têm por base os interflúvios.
No Censo de 1940, Cunha apresentou sua maior população na série histórica dos recenseamentos: 24.818 habitantes. Talvez pelo acréscimo da população de Lagoinha. Território extenso. Mas a cidade era pequena. Moravam na urbe apenas 975 pessoas. Muitas casas da zona urbana eram de famílias da roça, que só visitavam a cidade nas festividades religiosas. Ficavam fechadas na maior parte do ano.
Montagem feita pelo Jacuhy, com sobreposição do Mapa Municipal de 1938 com imagem de satélite atual de Cunha, retirada do Google Earth.
A cidade de Cunha de 1938 corresponde, hoje, ao atual bairro do Centro. Seu perfil longitudinal, uma rugosidade dos tempos coloniais, é uma expansão da artéria da antiga Estrada Real. É o peso do tempo sobre o espaço, marcando ainda em nossos dias o formato da mancha urbana da nossa cidade.
Em 1924, Cornélio Pires lançou o livro “Conversas do Pé do Fogo”. O livro reuniu causos, reflexões, ditados populares, anedotas e sabedoria popular, coletânea obtida das conversas simples, ao redor do fogo, nas rodas de violeiros e nos encontros típicos do meio rural paulista. Era um hábito muito caipira e comum conversar ao redor do fogão a lenha.
Mas qual era a pauta dessas prosas noturnas? Assuntos vários: vagueando entre causos de assombração, fofocas, picuinhas, bafafás, negócios e negociatas… e as infindáveis genealogias, levantadas desde priscas eras, com a devida resenha e desfecho, tal qual o poema “Quadrilha”, de Drummond. Em um mundo em que o jornal, o rádio ou a TV não “pegavam”, eram essas conversas uma eficaz forma informação e entretenimento. “Jogando conversa fora, até o sono chegar”, como diziam. Iluminadas pelas chamas do fogão, incutia-se nas gerações mais novas o modo de falar e de contar uma história, a sabedoria e as crendices populares, tão necessárias para sobrevivência de uma cultura, mantendo viva as tradições caipiras. Como um ritual, uma iniciação.
Com a morte dos bairros rurais, vitimados pelo êxodo rural, as conversas ao pé do fogo foram se apagando. Mas não só. Fogão a lenha é coisa do passado ou virou enfeite. Famílias numerosas foram se encurtando. Reunião de vizinhos para prosear, em um mundo cada vez mais individualista, é considerada “perda de tempo”. Vínculos de sociabilidade viraram cinzas. O último sopro foi o advento da internet e a sua popularização, com os “smartphones”, que transladou as conversas ao pé do fogo para as páginas da história, para o baú de coisas antigas. Os círculos materiais deram lugar aos virtuais, aos grupos no “Zap”.
Cada vez mais rara, essa maneira de conversar, prazerosa, demorada, desinteressada, assistida pelos braseiros, foi imortalizada nos versos de Cora Coralina, no poema “Fazenda Paraíso”:
“(…) De lado, bancos pesados, a mesa das refeições. Meu avô puxava o tamborete da cabeceira, tomava assento. Tio Jacinto vinha e se ajeitava, nós, gente menor, rodeávamos o fogo sentadas em pedaços de couro de boi, pelo chão. Gente grande nos bancos em fileira. Ricarda, acocorada, alimentava o fogo. Ficávamos ali em adoração naquele ritual sagrado, que vem de milênios, de quando o primeiro fogo se acendeu na terra. Contavam-se causos. Conversas infindáveis de outros tempos e pessoas mortas (…)”
Sobre Cornélio Pires, foi um jornalista, folclorista e escritor brasileiro, pioneiro na valorização da cultura caipira, sendo um dos primeiros a gravar discos com músicas sertanejas e causos do interior. Sua obra tem grande valor etnográfico, linguístico e histórico, preservando um Brasil que, aos poucos, se transformava com o avanço da urbanização. E que, neste dias, remetem a um tempo que já se foi…
O Museu Francisco Veloso deu início à restauração de vários artefatos históricos que fazem parte de seu acervo. Essa atividade tem por objetivo preservar os objetos indispensáveis para que a história de Cunha continue sendo contada, que é a missão fundamental do museu.
O “Boi Chimemé”, protagonista da cultura popular cunhense, sobretudo nos dias em que se brinca o carnaval de rua. Esta peça, parte do acervo do Museu Francisco Veloso, encontra-se restaurada e em breve voltará a ser exposta. Foto: Jacuhy. Data: 2025.
O nosso museu, desde quando foi fundado pelo professor João Veloso, nos anos de 1970, tem a missão de preservar e difundir a história e a cultura de Cunha, tanto que sua fundação coincide com a do Centro de Cultura e Tradição de Cunha. São instituições complementares. O Museu Francisco Veloso é o guardião do nosso passado. Assim, a restauração é parte essencial dessa missão, pois permite que peças fragilizadas pelo tempo voltem a ter estabilidade e possam ser expostas e estudadas.
Sala destinada à restauração do acervo do Museu Francisco Veloso. Batizada de “Ulpiano Toledo Bezerra de Menezes”, museólogo nascido em Cunha. Foto: Maiara Fernandes. Data: 2025.
A restauração visa preservar e revelar valores estéticos e históricos dos objetos do acervo, respeitando sua autenticidade. Isso significa que o trabalho não é apenas estético, mas também científico, garantindo que o público e os pesquisadores tenham acesso a informações fiéis que esses objetos trazem. É um trabalho minucioso e paciente, que exige uma equipe qualificada, para que atue com cuidado para não comprometer o valor histórico dos artefatos que estão em restauração. A restauração busca não apenas conferir estabilidade, mas recuperar, na medida do possível, as informações contidas nesses objetos. Isso significa que cada detalhe recuperado — uma inscrição, uma cor original, um símbolo –, pode revelar aspectos esquecidos ou detalhes que ajudam a montar o quebra-cabeça do passado, este país que não nos pertence, como bem alertou o sociólogo David Lowenthal.
Foto: Jacuhy. Data: 2025.
Foi pensando nessa questão que o Museu criou, recentemente, um espaço exclusivo, em suas dependências, destinado à restauração. Mais do um ambiente, o “Ateliê Restauro” conta com uma equipe qualificada para a empreitada: Thales Gayean é museólogo, historiador e técnico em restauro e conservação, Maiara Fernandes é graduanda em Museologia e Isabele Ceddia é cientista social e formada em artes visuais. A sala onde está o Ateliê foi batizada com o nome do cunhense Ulpiano Toledo Bezerra de Menezes, museólogo, arqueólogo e historiador do Departamento de História na Universidade de São Paulo (USP). Ulpiano é um dos maiores nomes, no Brasil, no campo dos estudos sobre cultura material, cultura visual e museus. O trabalho técnico consiste, entre outras coisas, em obturações, repinturas, remoção da oxidação, limpeza e hidratação dos artefatos. Algumas obras já foram restauradas, como as esculturas que representam a Congada de São Benedito, confeccionadas pelo ceramista Luiz Toledo, na década de 1990.
Esculturas do artista cunhense Luiz de Toledo, peças que representam a Congada de São Benedito. Em processo de restauro no Museu Francisco Veloso. Foto: Jacuhy. Data: 2025.
Quando falamos de história local, a restauração ganha um papel ainda mais afetivo. Objetos preservados contam histórias de famílias, comunidades e tradições que moldaram a identidade cunhense. Relíquias doadas por famílias, álbuns de fotografia, obras e esculturas de artistas locais, utensílios e tralhas do tropeirismo, objetos militares ligados à Revolução de 1932 etc. Muitas famílias e pessoas de Cunha têm confiado e depositado ao museu suas relíquias e artefatos outros de importância histórica. Foi assim que o professor João Veloso constituiu o acervo do MFV. E essas doações continuam a acontecer, pois a relação de confiança e identificação dos cunhenses com o seu museu é vigorosa o suficiente para ter sido perene até agora (e já se vai quase meio século de existência do Museu). E tudo indica que irá continuar.
Cangalha, essa tecnologia tão cara ao tropeirismo. Batizou uma serra e marcou época. Peça será restaurada pelo Museu Francisco Veloso. Foto: Jacuhy. Data: 2025.
Atualmente, o Museu tem se colocado como um espaço de visitação, recebendo muitos turistas que vêm passear em Cunha. Assim, o seu acervo e as peças restauradas ajudam a fortalecer o turismo cultural e, por consequência, a economia da cidade, pois atraem visitantes interessados em conhecer a história local, elemento indispensável para uma imersão completa do turista ao espaço que está consumindo. E Cunha tem muita história para contar. São mais de 300 anos.
Foto: Jacuhy. Data: 2025.
Trazer novos olhares para assuntos dados como encerrados. Pôr em evidência as negligências (e não foram poucas). O Museu Francisco Veloso tem buscado criar, de forma crítica e através da História, um sentimento de pertencimento do cunhense com sua terra, mostrando às novas gerações de onde vieram, como vieram e quais valores foram construídos ao longo do tempo. É uma proposta de longa duração e trabalhosa, mas necessária. Viva o nosso Museu!
Maquete do casarão Nenê Felipe, na rua Comendador João Vaz, onde está instalado o Museu Francisco Veloso. Foto: Jacuhy. Data: 2025.
Foto de capa: Relógio carrilhão que pertenceu ao antigo Paço Municipal, sobrevivente do incêndio de 1961. Hoje, parte do acervo do Museu Francisco Veloso. Foto: Maiara Fernandes. Data: 2025.
Um recorte na Cunha de 1940. Uma abertura para a Cunha de 2024.
Um recorte de papel pode ser um recorte no tempo?
O croqui mostrado acima é da década de 1940, quando o chafariz ainda estava lá centro, e nossa cidade ainda não havia superado completamente o seu passado. Na Praça da Matriz tinha um chafariz. Ornamento? Não, sistema público de abastecimento de água. Foi inaugurado em 31 de dezembro de 1886. A maior obra empreendida pela Câmara de Cunha no século XIX. Se não a maior, pelo menos a mais custosa. Um desafio: abastecer uma vila edificada sobre o outeiro. Foi uma grande conquista local para a época. O problema do abastecimento de água na cidade, entretanto, tem resistido ao tempo e às tecnologias. Volta e meia ele emerge. E o povo sofre e reclama. Como antes.
Praça da Matriz de Cunha. Década de 1960. Arquivo: Museu Francisco Veloso.
Voltando ao chafariz, quando houve o calçamento do centro, feito por volta década de 1960, ele já havia perdido sua função saneadora e, na visão dos gestores locais, também a estética. Assim, foi realocado para um novo lugar, à altura de sua condição de coadjuvante. Foi depositado dentro do Mercado Municipal. Um artefato relegado ao ostracismo, aos cantos, ao esquecimento. Muitos conterrâneos desconhecem o seu paradeiro e sua história.
O antigo chafariz da Praça da Matriz, que está atualmente no Mercado Municipal. Foto de 2024.
O Jacuhy luta contra essas amnésias. É uma luta inglória e inútil, pois o tempo é implacável. Há muita coisa para ser relembrada e pouca gente se dedicando a essa tarefa. “A seara é grande, mas poucos são os ceifeiros”.
E o que eram esses croquis? Em 1940, o Brasil realizou o seu quinto recenseamento geral. Por ser o primeiro a ser realizado pelo IBGE, apresentou inúmeros desafios. Várias atividades foram desenvolvidas para dar suporte técnico ao Censo, entre elas a Campanha Nacional das Coordenadas Geográficas, executada pelo CNG, e que implicou no levantamento de coordenadas geográficas (latitude e longitude) para as sedes de todos os municípios brasileiros existentes àquela época.
No estado de São Paulo, o levantamento foi executado pelo pessoal técnico do antigo Instituto Geográfico e Geológico (IGG). Entre mais de 400 croquis em papel vegetal, coloridos à nanquim, com a localização de diversos marcos de coordenadas geográficas espalhados pelo estado, 4 deles foram implantados no município de Cunha. Além das sedes urbanas, alguns pontos de interesse geográfico ou administrativo também foram geolocalizados. As medições de Cunha foram realizadas entre 1940 e 1941.
Esses são os lugares do município de Cunha que receberam os Marcos de Coordenadas Geográficas do IGG:
Local: Bairro da Barra (Chico do Lau) – na divisa com o estado do Rio de Janeiro. Data: maio, 1941. Coordenadas: Latitude: 23º 03’ 17”.0 S; Longitude: 44º 48’ 40”.1 O
Croqui de coordenada geográfica do bairro da Barra do Chico do Lau. Fonte: Arquivo do IGC.
Local: Campos de Cunha (torre da Igreja de N.ª Senhora dos Remédios). Data: maio, 1940. Coordenadas: Latitude: 22º 55’ 15”.4 S; Longitude: 44º 49’ 11”.9 O
Croqui de coordenada geográfica da vila de Campos de Cunha. Fonte: Arquivo do IGC.
Local: Cunha (torre direita da Igreja Matriz). Data: maio, 1940. Coordenadas: Latitude: 23º 04’ 27”.0 S ; Longitude: 44º 57’ 35”.8 O
Croqui de coordenada geográfica da cidade de Cunha. Fonte: Arquivo do IGC.
Local: Garganta do Cedro / Serra do Mar (Bairro da Várzea do Cedro). Data: maio, 1940. Coordenadas Geográficas: Latitude: 23º 11’ 44”.2 S ; Longitude: 44º 52’ 23”.0 O
Croqui de coordenada geográfica do bairro da Várzea do Cedro. Fonte: Arquivo do IGC.
Um pequeno recorte de papel vegetal, colorido à nanquim, pode abrir espaço para muitas memórias. São marcos para muito além da geodésia.
Referências: Croquis de Coordenadas Geográficas do IGG. Fonte: Arquivo do IGC. Fotografias de Cunha. Fonte: Arquivo do Museu Francisco Veloso. Livro “A História de Cunha” (2010), do prof. João Veloso.
A Praça do Rosário, no centro de Cunha, apesar da bela vista para a Serra do Mar, é pouco arborizada e cuidada. Foto: Paulo Pontes. Data: 2019.
A cidade de Cunha é a segunda menos arborizada da Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte (RMVPLN), de acordo com dados do Censo 2022, divulgados no dia 17 de abril, quinta-feira, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo a pesquisa Características Urbanísticas do Entorno dos Domicílios, nossa cidade apresentaapenas 16,87% de seus domicílios com uma ou mais árvores no entorno. A cidade menos arborizada é Arapeí, com 8,57%. Piquete, outra cidade turística da nossa região, também apresenta um índice baixo, com 25,36%. Vale lembrar que nossa região conta com 39 municípios, cuja população ultrapassa 2,5 milhões de habitantes e é altamente urbanizada, com 94,7% desse contingente vivendo em áreas urbanas.
Soldados paulistas na Praça da Matriz, em 1932. Nota-se as árvores compondo a paisagem da praça.
Cunha em 1940. Árvores ladeavam ruas e praças.
Aqui a Praça da Matriz em uma tomada aérea de 1939, com sua arborização característica.
É interessante perceber as mudanças pelas quais a paisagem urbana de Cunha passou ao longo do tempo. Por exemplo, quando observamos fotos das décadas de 1930 e 1940 (vide na galeria acima), percebemos que era uma cidade muito menor, porém muito mais arborizada do que é hoje. Lembrava aquelas charmosas vilas europeias. As ruas centrais e a Praça da Matriz eram adornadas e ladeadas por árvores. Cunha, naquele tempo, ainda não era uma cidade turística, como é atualmente.
O último grande projeto de arborização da cidade ocorreu na década de 1970, durante o mandato do ex-prefeito José Elias Abdalla (Zelão), que tinha como objetivo embelezar a cidade, na esperança de promover o despertar turístico de Cunha. Muitas das árvores então plantadas, já envelhecidas e malcuidadas, foram, ao longo do tempo, sendo cortadas pela gestão municipal para ampliar ou remodelar as vias públicas — ou pela Defesa Civil, devido aos riscos que apresentavam aos moradores e transeuntes.
Desse projeto urbanístico — um dos muitos idealizados por esse visionário prefeito — restou apenas a arborização da Avenida Padre Rodolfo, no bairro do Alto do Cruzeiro. Por isso, é a avenida mais verde e bonita da cidade. Aquelas sibipirunas são um presente à Santa Casa, aos seus convalescentes e aos moradores do entorno. Esperamos que essa avenida nunca venha a ser descaracterizada, como infelizmente ocorreu com tantas outras.
Praça Cônego Siqueira descaracterizada. Dos bancos em “S”, nos anos 1980/1990, para um arremedo de centro de eventos e festas, uma verdadeira gambiarra. Foto: Paulo Pontes. Data: 2019.
Até a década de 1990, a Praça da Matriz e a Praça Cônego Siqueira — sempre locais de encontro dos cunhenses de todas as gerações — ainda contavam com mais de uma dúzia de árvores. Até mesmo uma vetusta e frondosa araucária, símbolo de Cunha, localizada ao lado, no terreno da Prefeitura (onde atualmente funciona a Secretaria Municipal de Educação), veio a morrer misteriosamente nos últimos anos. Depois que decidiram transformar a praça em um centro de eventos, o verde foi cedendo espaço a estruturas metálicas e plásticas, de gosto estético bastante duvidoso. A arborização, sempre prometida, foi sendo deixada “para depois” — um “depois” com prazo indeterminado, ao que tudo indica. A cada reforma ou remodelação, mais concreto e pedra. E mais árvores sacrificadas. Um contrassenso em um lugar que promove o ecoturismo e outras características naturais como atrativos turísticos.
Vista de drone da Igreja de Nossa Senhora da Conceição – construção de 1731 no estilo barroco paulista, na Praça Cônego Siqueira e da Matriz. Nota-se poucas árvores na praça central. Data: maio de 2018. Autor: Rubens Chaves/Pulsar Imagens.
Em entrevista concedida ao Jacuhy, há alguns anos, o engenheiro agrônomo Glênio Wilson de Campos, da CATI (Coordenadoria de Assistência Técnica Integral), que esteve à frente da Casa da Agricultura de Cunha entre as décadas de 1970 e 1980, apontou que a falta de arborização é um dos problemas da cidade, não apenas por uma questão ambiental, mas também estética, considerando o enorme potencial turístico do município. À época, o engenheiro Glênio sugeriu o plantio de pereiras como solução, pois, além de serem árvores frutíferas, adaptam-se bem a ambientes urbanos. Cunha, no passado, chegou a realizar a “Festa da Pera” e era a maior produtora paulista dessa fruta, graças aos inúmeros pomares mantidos por seus pequenos produtores. Obviamente, não podemos deixar de mencionar que a Mata Atlântica — bioma no qual nosso município está inserido — possui uma flora riquíssima, com diversas espécies que se adaptam muito bem aos espaços urbanos.
Embora o Brasil seja o maior país tropical e abrigue a maior floresta do mundo, seus espaços urbanos ainda carecem de árvores. Segundo o IBGE, 66% dos brasileiros vivem em ruas arborizadas, mas um terço mora em vias sem qualquer árvore. “O fato de 66% dos brasileiros viverem em trechos de ruas com pelo menos uma árvore é um número significativo”, afirmou o geógrafo Jaison Cervi, da Coordenação de Geografia do IBGE. “O problema é que as porcentagens variam muito de acordo com a região do país.” Curiosamente, a Região Norte é a menos arborizada. Também não deixa de ser curioso que Cunha, município que abriga duas unidades de conservação em seu território, esteja entre os menos arborizados do Vale. Na verdade, é inaceitável.
A arborização é crucial para melhorar a qualidade de vida nas cidades e combater o aquecimento global. As árvores purificam o ar, reduzem a temperatura, previnem enchentes e diminuem a contaminação dos lençóis freáticos. Em resumo, são essenciais para qualquer ambiente. Mesmo que, em Cunha, elas não estejam “na moda”, sua importância se reafirmará cada vez mais. E voltarão a ser plantadas, seja pelo poder público local ou pela própria população, pois a tomada de consciência é inevitável — e diversos projetos ambientais vêm surgindo em nosso município. O aquecimento global está aí. Todos vão precisar de uma sombra para se proteger.
“Cunha” é uma homenagem ao ex-governador da Capitania de São Paulo, o capitão Francisco da Cunha e Meneses (1747-1812). O capitão Francisco da Cunha foi um militar português e governou a capitania de São Paulo entre 1782 e 1785, como capitão-general. No final do seu mandato, em 15 de setembro de 1.785, elevou a então Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Facão à condição de vila, o que equivale, hoje, a um município, um território independente. Até então, nosso município pertencia à Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá. Assim, para homenageá-lo, os moradores locais mudaram o nome daqui de “Facão” para “Cunha”, e a partir da instalação da Câmara, órgão administrativo das vilas daquela época, em 28 de outubro de 1.785, nosso município passou a se chamar Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha.
Em 20 de abril de 1.858, a vila foi elevada à categoria de cidade, e passou a se chamar “Cidade de Cunha”, já sem a referência à santa padroeira. E assim permanece até hoje.
E o nome Facão?
A origem é controversa e tem sido motivo de debate entre os historiadores. “Facão” ou “Facam” (dependendo do documento) é o mais antigo nome de Cunha. Há registros – anteriores ao ano de 1.700 – que mencionavam a existência de uma antiga capelinha dedicada à Nossa Senhora do Facão, nas cercanias da atual cidade, no chamado “Alto do José Dias” ou “Alto da Mantiquira”, na elevação que dá acesso ao atual bairro urbano Vila Rica. Mas por que chamavam nossa cidade desse nome? Um documento de 1.732, em que Francisco Tavares Brito relata sua viagem do Rio de Janeiro até Minas, passando por Cunha, deixa uma pista:
“A esta vila também vem dar o caminho de Parati, que chamam o Caminho Velho, e quem sai de Parati, vem ao Bananal, sobe a inacessível serra e descansa na Aparição; passa-se o rio Paraitinga (que toma aqui o nome das serranias por onde passa e logo depois se. chama Paraíba do Sul); e se pernoita no sítio que também toma o nome do rio; Afonso Martins; passa-se aqui o Facão, que é um *carreirinho / / que vai pelo alto de um cume, no qual apenas passa um cavalo ou passa um homem a pé, e se acaso declina para alguma das partes se precipita. Vai-se à Encruzilhada e se entra depois na vila de Guaratinguetá […]”
Aspecto do documento de 1732, contendo o relato de Francisco Tavares Brito. Códice Costa Matoso. Fonte: Fundação João Pinheiro.
Ou seja, o “Facão” seria uma passagem muito estreita e perigosa, no alto de um morro, com despenhadeiros em ambos os lados. Essa passagem, por ser temida, era sempre lembrada pelos viajantes, aventureiros e tropeiros; e acabou batizando toda a região. Ficava no antigo caminho entre Paraty e Cunha, em local incerto, no que veio a se chamar “Estrada Real”, cujo destino eram as cobiçadas jazidas de Minas Gerais.
Mas isso não é consenso entre os historiadores. Há outras cogitações.
Como foi formado o território cunhense?
Tempos coloniais. Os Guaianases, uma das inúmeras nações indígenas do Brasil, eram nômades, não possuindo uma aldeia fixa. Viviam e passavam pelo que veio a ser o município de Cunha. Percorriam todos esses sertões, por meio da densa Mata Atlântica, em busca de caça e frutos.
Em 1534, a fim de facilitar a colonização do Brasil, a Coroa Portuguesa estabeleceu o sistema de capitanias hereditárias. O que hoje é Cunha ficou pertencendo à Capitania de São Vicente, cujo donatário era Martim Afonso de Sousa.
Em 1624, a Capitania de São Vicente foi dividida e o que viria a ser Cunha passou a pertencer à Capitania de Itanhaém, que pertencia a Mariana de Sousa Guerra, a Condessa de Vimieiro, dona de todas as terras do Vale do Paraíba e Litoral Norte. Ela promoveu incursões exploratórias no Vale do Paraíba, a fim de conhecer melhor a região, que, na época, ainda era um sertão inóspito e povoado apenas por indígenas. Buscavam essas expedições encontrar metais preciosos ou capturar indígenas para vendê-los com escravos.
Em 24 de setembro de 1.650, o capitão Domingos Velho Cabral, morador da Vila de Guaratinguetá, recebe uma sesmaria (grande extensão de terra que era doada pela Coroa) no bairro da Borda do Campo, que fica na beira da Rodovia Paulo Virgínio, perto do Jacuí. Essa é a primeira sesmaria que foi doada no que veio a ser o território cunhense. O capitão irá abrir uma estrada ligando o Facão (Cunha) a Guaratinguetá, aproveitando uma trilha indígena já existente.
Em 1.724, Luiz da Silva Porto e sua família erguem uma capela no bairro da Boa Vista, dedicada a Jesus, Maria e José. Esse é marco fundador do município de Cunha.
Em 1.731, José Gomes de Gouveia constrói uma igreja no bairro do Facão, dedicada à Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal (e, futuramente, de Cunha também). No entorno dessa igreja irá se desenvolver um pequeno povoado. É o embrião da cidade de Cunha.
Em 1.749, com o aumento do movimento de tropas e o crescimento do povoado, a capela do Facão passa a ter um padre regular, se tornando uma freguesia. Surge, então, a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Facão, com paróquia e território pertencendo a Guaratinguetá.
Mapa da Divisão dos Municípios de São Paulo por volta de 1700. Cunha pertencia ao território de Guaratinguetá. Fonte: Fundação SEADE.
Em 15 de setembro de 1.785, o capitão-general da Capitania de S. Paulo Francisco da Cunha e Meneses eleva Cunha à condição de vila, tornando-a independente de Guaratinguetá. Cunha passa a ter território próprio (chamado de “termo”, na época) e a ser administrada localmente, com a criação da Câmara (não havia Prefeitura na época). Também vai mudar de nome, deixa de se chamar “Facão” e passa a se chamar Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha, para homenagear o capitão-general que lhe concedeu autonomia.
Em 18 de junho de 1.842, a Vila de N.ª S.ª da Conceição de Cunha é transferida para a província do Rio de Janeiro. Estava ocorrendo na província de São Paulo a Revolta Liberal e a transferência tinha o intuito de manter Cunha livre dos do domínio dos revoltosos. Cunha pertenceu à Província do Rio de Janeiro durante 2 meses, até que voltou novamente para a Província de S. Paulo.
Em 20 de abril de 1.858, Cunha é elevada à categoria de cidade.
Em 8 de março de 1.872 é criado o Distrito de Paz de Campos Novos, que passa a se chamar Freguesia de Nossa Senhora dos Remédios de Campos Novos.
Durante todo o século XIX, os limites de Cunha com os outros municípios vão sendo demarcados, fruto da disputa da Câmara de Cunha com as câmaras dos municípios vizinhos. Será assim com Paraty, que reclama como território seu até um marco que havia no bairro da Boa Vista; e com Guaratinguetá, que queria estabelecer o limite com Cunha pelo rio Paraitinga, aumentando, assim, seu território. A Câmara de Cunha sairá vitoriosa desses litígios. Além disso, fazendeiros estabelecidos nos limites com Lagoinha e São Luiz do Paraitinga, se valendo do poder político que possuíam e visando atender aos seus interesses eleitorais, mudavam suas fazendas para os municípios vizinhos, alterando assim o tamanho do nosso território.
Em 1.934, Lagoinha é transferida para Cunha como distrito. Ficará pertencendo a Cunha até 1.944, quando será transferida para o município de São Luís do Paraitinga. Nesse mesmo ano, o distrito de Campos Novos terá seu nome alterado para “Campos de Cunha”, por força de um decreto estadual. Apesar da mudança do nome, o antigo topônimo é até hoje o mais popular.
Em 1964, os limites de Cunha com outros municípios são descritos e estabelecidos na Lei Estadual nº 8.092, de 28/02/1964, permanecendo inalterados desde então.
Atualmente, Cunha possui uma área de 1.407,25 Km², sendo o 11º maior município do estado de São Paulo e o maior da região do Vale do Paraíba. Faz divisa com os seguintes municípios: Paraty e Angra dos Reis, do estado do Rio de Janeiro, e Ubatuba, São Luiz do Paraitinga, Lagoinha, Guaratinguetá, Lorena, Silveiras, Areias e São José do Barreiro, do estado de São Paulo. Em seu território há 2 unidades de conservação de proteção integral: o Parque Estadual da Serra do Mar e o Parque Nacional da Serra da Bocaina.
Quais povos estão presentes na formação territorial do município de Cunha?
Os povos originários, que habitavam Cunha antes da chegada dos portugueses, eram os “Guaianás” ou “Guaianases”. Segundo relato de viajantes, colonizadores e aventureiros, os Guaianases não falavam tupi e eram tronco linguístico Macro-Jê. Eram indígenas coletores (de pinhão e frutos) e caçadores, e, por consequência, nômades (migravam para o litoral dependendo da estação do ano). Viviam na Serra do Mar e faziam parte de um complexo cultural, cujos remanescentes seriam o Puri e Coroado, do Vale do Paraíba e sudeste de Minas. Até hoje é possível encontrar em Cunha cacos da cerâmica produzida por esse povo e machados líticos que confeccionaram. Algumas peças estão guardadas no Museu Municipal. Apesar de Cunha não ter aldeia, antropólogos que estudaram nosso município no século passado, apontaram que parte de nossa população é descendente de indígenas, pois apresenta traços biotípicos e feições dos povos originários do Brasil.
A primeira incursão colonizadora europeia em nosso território ocorreu em outubro de 1.596, quando Martim Corrêa de Sá, o inglês Anthony Knivet (autor do relato sobre a entrada), setecentos portugueses e cerca de 2 mil indígenas Guaianases percorreram onde, hoje, é o município de Cunha. Essa data marca a chegada dos portugueses (brancos) a Cunha. A partir do século XVII, muitas famílias paulistas oriundas de Taubaté e aventureiros portugueses vão se estabelecer em Cunha, ganhando sesmarias no bairro da Catioca e no seu entorno. Essas famílias pioneiras, católicas, além da religião, trouxeram para Cunha manifestações culturais típicas dos portugueses e dos paulistas, como Festa e Folia do Divino.
Entre os séculos XVI e XIX, cerca de 10 milhões de negros africanos foram trazidos às Américas para trabalhar de forma forçada como escravos. Milhares deles foram trazidos para Cunha, para trabalhar nas fazendas de milho e criação de porcos que havia aqui. Quase metade do contingente de africanos trazido para o Brasil era formada pelos Banto, que eram povos e culturas da região da África Central, onde atualmente se encontram países como Angola, Moçambique, Congo etc. Em Cunha, a maior parte dos escravizados eram Banto. Aliás, no século XIX, a maioria da população de Cunha era negra, seja livre ou escravizada. Esse povo trouxe consigo sua cultura e algumas manifestações culturais estão presentes em Cunha até hoje, como a Congada, o Moçambique e o Jongo. Outras etnias africanas também foram trazidas para Cunha, porém, não na mesma proporção que os bantos.
No final do século XIX e início do século XX chegaram a Cunha imigrantes vindos de outras partes do mundo, sobretudo do Líbano e da Itália. Essas famílias se dedicaram à agricultura, à marcenaria e ao comércio, sobretudo os libaneses; se dedicaram ainda à política, contribuindo para diversificar o mosaico cultural e étnico que caracteriza a população cunhense.
Uma das velhas fazendas de Cunha, que virou tapera.
Tapera. Segundo o Houaiss: “residência ou fazenda em ruínas, tomada pelo mato”. Mas não foi a língua dos portugueses que nos deu esse termo. Vem do Tupi. Eduardo Navarro, especialista no “grego da terra”, aponta o significado original: “aldeia que foi”, isto é, “aldeia em ruínas, aldeia extinta, aldeia destruída.” Todavia, ressalva: “em nossos dias, essa palavra é usada com o sentido de ‘casa em ruínas, casebre abandonado’”.
Em Cunha, essa condição, talvez por ser comum, se refletiu na toponímia rural. Há vários bairros que se chamam “Tapera” ou “Taperinha”.
Nota-se que só casa de pau-a-pique vira tapera. Talvez pela efemeridade do material usado nas construções de taipa. Ou não. Pode ser um indicativo do êxodo rural. Famílias que se foram e a casa, vazia e abandonada, virou uma tapera.
Abandonada pelos donos, nem visita costuma receber. Nem de vez em quando. Nem de gente escondendo de chuva braba. Todos sabem que estão infestadas por animais peçonhentos. E todos deviam saber que são moradas de assombrações (se você não acredita, é melhor não abusar).
Assim, a tapera… a taperinha vai, lentamente, desaparecendo. O tempo, em todos os seus sentidos, é implacável.
Rio Paraibuna, no Parque Estadual da Serra do Mar. Foto: Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística. Data: 2019.
O município de Cunha é banhado por 12 rios. São eles: Paraibuna, Bonito, Paraitinga, Peixe, Jacuí, Jacuizinho, Jacuí-Mirim, Monjolo, Rio Manso, Taboão, Guaripu, Mambucaba. Estes podem ser agrupados, de uma forma sintética, em 3 bacias hidrográficas principais: Paraitinga e Paraibuna, inseridas na Microrregião Hidrográfica Alto Paraíba do Sul, são formadoras do rio Paraíba do Sul; e Mambucaba, que converge diretamente para o oceano Atlântico, tendo sua foz na vila histórica de Mambucaba, em Angra dos Reis (RJ), na Microrregião Hidrográfica da Baía da Ilha Grande. Todos os nossos rios estão inseridos na Macrorregião Hidrográfica do Atlântico Sudeste.
Mapa das Bacias Hidrográficas do Município de Cunha, elaborado por Roberto Starzynski.
Quanto à toponímia, muitos nomes de rios, ribeirões e córregos de Cunha vêm do tupi antigo, a língua indígena clássica do Brasil, a velha língua brasílica dos primeiros dois séculos do período colonial, período em que o nosso município começou a ser ocupado pelos colonizadores. Por ser algo tão pretérito, o significado original se perdeu na memória, foi esquecido com o tempo… Ou, em uma perspectiva mais histórica, fizeram-nos esquecer, porque a língua portuguesa, segundo os pesquisadores, nos foi imposta pela metrópole lusitana.
O município de Cunha é conhecido como “berço das águas”, o que evidencia a sua relevância hidrográfica para a região, porque nele está localizada a nascente do rio Paraibuna e vira um rio, de fato, o Paraitinga, ambos formadores do rio Paraíba do Sul. Este rio que flui, estrategicamente, entre as duas maiores regiões metropolitanas do Brasil, recortando a industrializada região do Vale do Paraíba.
Entretanto, a rede hidrográfica cunhense apresenta inúmeros problemas. A poluição, o assoreamento, a degradação das nascentes, a supressão de mata ciliar são ameaças às nossas águas e maculam o epíteto recebido por nosso município, condenando esse leito a secar, se nada for feito. Nossos rios precisam receber tratamento à altura da sua relevância, tanto pela população local pelos entes federativos.
Voltemos, então, à toponímia fluvial, contribuição do tupi à geografia local:
Paraitinga:
De pará + aíb/a + ting + -a, que significa: rio ruim e claro. O “ruim”, no caso, era uma designação dada aos rios que não eram navegáveis ou que possuíam poucos peixes. O rio Paraitinga nasce na Serra da Bocaina, no município de Areias, e adentra nosso município em sua parte norte. Serve como limite natural de Cunha com Areias, Silveiras, Lorena e Lagoinha. Após percorrer 87 Km em terras cunhenses, adentra, na porção oeste do nosso território, no município de Lagoinha. É o maior dos nossos rios e também a maior bacia hidrográfica (509,8 Km²), batizando uma gama de bairros rurais cunhenses com o seu nome. Tem o de Baixo, o de Cima, o dos Verreschi, o dos Gonçalves, o dos Mota, o dos Cubas, famílias originais desses arraiais. Já foi, no passado, o limite entre Cunha e Guaratinguetá. Sua planície (a mais extensa do contexto cunhense) favoreceu, antigamente, a rizicultura, e, atualmente, a pecuária leiteira.
Paraibuna:
De pará + aíb/a + un (r, s) + -a, que significa: rio ruim e escuro. O “escuro”, no caso, é uma referência à coloração de suas águas, resultado da decomposição de matéria orgânica em suas margens, que corta densa Mata Atlântica em boa parte do seu curso, atravessando o Parque Estadual da Serra do Mar. O rio Paraibuna nasce na Serra do Mar, a sudeste de Cunha, no Alto da Fruta Branca, próximo à divisa com o estado do Rio de Janeiro. Após percorrer 48 Km em terras cunhenses, adentra, na porção sul, o município de São Luiz do Paraitinga. Apesar de sua área de nascente estar degradada e ocupada por casas de veraneio, pousadas e sítios com pecuária extensiva, parte considerável de seu curso se encontra dentro de uma unidade de conservação de proteção integral, o que o mantém preservado, se comparado aos demais rios cunhenses. Sua vocação socioeconômica, ainda pouco explorada, é o ecoturismo. É afirmado, habitualmente, que sua nascente fica no bairro da Aparição; contesto tal informação, pelo fato do ribeirão do Sertão e o córrego da Vargem Grande, seus afluentes, possuírem segmento fluvial mais extenso que o ribeirão da Aparição. Aliás, situação que até o Google Maps já percebeu. Com 236,8 Km², é a terceira maior bacia hidrográfica cunhense.
Jacuí:
De îaku (aves cracídeas) + ‘y, que significa: rio dos jacus. É o maior rio totalmente cunhense. Sua bacia hidrográfica ocupa a parte central do nosso município, sendo a segunda maior em extensão, com 480,1 Km². O rio Jacuí nasce na Serra do Mar, a sudeste de Cunha, no bairro do Mato Limpo, próximo à divisa com o Rio de Janeiro. Após percorrer 64 Km dentro do nosso território, deságua, a oeste, no rio Paraitinga, no limite com o município de Lagoinha, no bairro do Pinheiro. Suas águas abastecem a cidade de Cunha, através da captação na Adutora da Pimenta. No passado (entre as décadas de 1950 e 1970), juntamente com a captação de água, funcionou no local uma pequena central hidrelétrica, que fornecia energia para a cidade de Cunha. As ruínas dessas instalações ainda estão por lá. Suas águas formam duas famosas cachoeiras: da Pimenta e do Desterro. Mesmo possuindo tamanha importância turística e para o saneamento básico, sua situação é bastante preocupante. Sua bacia está toda degradada, devido à agropecuária extensiva e rudimentar. Seu leito está solapado; seu curso, assoreado; a mata ciliar, suprimida. Para agravar essa situação, o esgoto domiciliar da cidade de Cunha, hoje uma urbe com mais de 10 mil habitantes, é despejado no Jacuí, via córrego do Rodeio, seu afluente, sem nenhum tratamento. Obviamente, que todas essas situações comprometem a fauna fluvial, além de prejudicar sobremodo a qualidade de sua água. Além da importância ambiental, o Jacuí possui relevância histórica. Em 1650, o capitão Domingos Velho Cabral obteve uma sesmaria, a mais antiga que se tem notícia em Cunha, principiando do ribeiro do “Jacoímiri”, na Borda do Campo, com uma légua de testada e meia légua para cada lado, para o caminho antigo que ia para Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá. Foi o nome do primeiro jornal de Cunha (“O Jacuhy”), que circulou na década de 1860. Por todas essas razões, batizou este blog.
Jacu, a penelope, gênero de aves craciformes que marcou a toponímia hidrográfica cunhense. Foto: Adriano Ferreira. Data: 2019.
Itaim:
De itá + ĩ, que significa: pedrinhas. Mais conhecido como “rio da Catioca”, por atravessar esse histórico bairro cunhense, o Itaim é considerado um ribeirão pelo IBGE, nossa referência. Está bastante degradado, por ter servido, desde o século XVIII, pois seu vale serviu como vetor de povoamento e ocupação do município de Cunha. Os bairros mais antigos de Cunha e as famílias pioneiras viveram nessa bacia hidrográfica, recortada pelo caminho que interligava o porto de Paraty à então Vila de Taubaté, centro irradiador de povoamento regional. Essa peculiaridade histórica marcou sua paisagem, seja pela erosão ou a presença de várias e antigas fazendas, em estilo colonial. O ribeirão Itaim nasce na Serra do Alto do Diamante, a sudoeste de Cunha, acima do bairro do Sertão dos Marianos. Após percorrer 30 Km dentro do nosso território, deságua, a oeste, no rio Paraitinga, no bairro do Itaim, no limite com o município de Lagoinha. Com cerca de 129 Km², é a segunda menor bacia hidrográfica de Cunha. Na classificação hidrográfica de Cunha, realizada no início deste século por Roberto Starzynski, pesquisador do Instituto Florestal do Estado de São Paulo, não é considerada uma bacia, estando incorporada à bacia do Paraitinga.
Guaripu:
De gûariba + pu, que significa: barulho dos bugios (guaribas). Os bugios são símios da família dos cebídeos, que costumam emitir sons altos, daí a razão do nome do rio. O rio está bem preservado e limpo, pois localiza-se dentro do Parque Nacional da Serra da Bocaina, unidade de conservação integral. No passado, às suas margens, havia um antigo caminho de tropas, que foi parcialmente calçado, que ligava Lorena, passando por Campos Novos, ao porto de Mambucaba. Historiadores afirmam que esse calçamento foi feito por escravizados africanos, durante o Ciclo do Café no Vale do Paraíba. Sua potencialidade ecoturística, quase inexplorada, é enorme. Havia, em 1854, uma barreira fiscal da Província de S. Paulo no Ribeirão da Serra, que servia para manter transitável a estrada para o porto de Mambucaba, que partia da Grota Grande, no sertão de Mambucaba, até encontrar o rio “Guarahipu”. Atualmente, o seu curso é mais usado como acesso pela população do entorno para atingir o parque, exercendo pressão sobre os recursos naturais ameaçados que lá estão, que a unidade de conservação visa preservar. O rio do Guaripu nasce na Serra do Mar, a nordeste de Cunha, próximo ao bairro da Serra do Indaiá. Após percorrer 18 Km, servindo de divisa interestadual entre São Paulo e Rio de Janeiro, deságua, a nordeste, no rio Mambucaba, entre os municípios de Cunha (SP), Paraty (RJ) e Angra dos Reis (RJ).
Mambucaba:
De mumbuka + -ba [alamorfe de -sab(a)], que significa: lugar das abelhas (meliponídeas, que são as nativas e não têm ferrão). Junto com o rio do Guaripu, forma a nossa menor bacia hidrográfica (51,5 Km²) e a única que não converge para o rio Paraíba do Sul. O rio Mambucaba nasce na Serra da Bocaina, no município de Arapeí (SP). Limita Cunha, a nordeste, com os municípios de São José do Barreiro (SP) e Angra dos Reis (RJ), por 3,7 Km. Com cotas altimétricas inferiores a 680 metros, é o ponto mais baixo de Cunha. É, com certeza, o mais inóspito. De difícil acesso, na área ainda primitiva do Parque Nacional da Serra da Bocaina, o lugar está coberto pela exuberância da Mata Atlântica, ainda intacta, escondendo belíssimas e estrondosas cachoeiras.
Jacuí-Mirim:
De îaku (aves cracídeas) + ‘y + mirĩ, que significa: riozinho dos jacus, ou, por extensão, um rio Jacuí menor, mesmo significado de outro rio cunhense: o Jacuizinho. O rio Jacuí-Mirim nasce na Serra do Mar, a leste de Cunha, no bairro das Tamancas, próximo à divisa com o estado do Rio de Janeiro. De lá, segue por 23 Km, até desaguar, na parte central de nosso município, no rio Jacuí, no bairro do Rio Abaixo. Atravessa vários bairros rurais, batizando um deles. Sua bacia, assim como as outras, se encontra degradada, devido à ocupação do solo por pastagem, utilizada pela pecuária extensiva, atividade econômica da maioria das propriedades rurais da região. Parte de seu leito, nas cabeceiras, serve como limite distrital entre Cunha e Campos de Cunha. Seu vale serviu (no passado, como caminho natural) e ainda serve – parcialmente – como rota de acesso entre Cunha e Campos de Cunha, através da Estrada Vicinal Ignácio Bebiano dos Reis.
Mapa Hidrográfico do Município de Cunha (2025), versão preliminar, do Jacuhy.
Referências: CASTRO COELHO, Helvécio V. Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá. Revista da ASBRAP (Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia), Belo Horizonte (MG), n. 8, p. 209-216, 2001. MILAN, Pollianna. Português à força. Gazeta do Povo, 10 dez. 2010. Disponível em: < http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/portugues-a-forca-1467uqenkefjaq64x6t28fwpa/ >, acesso em: 27 jan. 2025. NAVARRO, Eduardo de A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo: Global, 2013. VELOSO, João J. de O. A História de Cunha: 1600-2010: A Freguesia do Facão, a rota de exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): JAC/Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.
Mapas: Folhas Topográficas do IBGE, escala 1: 50.000, elaboradas pela Diretoria de Geociências: – “Cunha” (MI-2771-1), 1974. – “Campos de Cunha” (MI-2742-3), 1974. – “Lagoinha” (MI-2770-2), 1973. – “Guaratinguetá” (MI-2741-4), 1982. – “Rio Mambucaba” (MI-2742-4), 1982. – “Ubatuba” (MI-2770-4), 1981. – “Picinguaba” (MI-2771-3), 1974. “Mapa das bacias hidrográficas do município de Cunha” (200-), de Roberto Starzynski. “Bacias e Divisões Hidrográficas do Brasil” (2021), do IBGE.
Arte elaborada pelo Jacuhy para a série de postagens de #HojeNaHistóriaDeCunha, do perfil do Jacuhy no Facebook. Data: 2020.
Há 15 anos, no dia 01/01/2.010, Cunha amanheceu isolada e destruída depois de uma chuva torrencial que durou 12 horas ininterruptas. A chuva começou no final da tarde do dia 31 de dezembro de 2.009 e foi até a manhã do Ano Novo. Deslizamentos de terra ocorreram em todo o município, sendo um deles fatal. Com tanta água sendo escoada, a drenagem dos rios foi insuficiente. Os seus volumes transbordaram com força, destruindo pontes, estradas, construções e tudo o mais que encontraram pela frente. Em São Luiz do Paraitinga, cidade à jusante do rio que a batizou, o Paraitinga, abastecido pelas torrentes recebidas no município de Cunha, subiu mais de 12 metros acima de seu leito normal, inundando a histórica cidade vale-paraibana, com dezenas de casarões e construções tombadas pelo Patrimônio Histórico. Os prédios de taipa derreteram, sucumbindo ante à força impetuosa da natureza. Todos assistiram inertes e estarrecidos à queda Igreja Matriz de São Luís de Tolosa, edifício centenário e imponente, que foi reconstruído recentemente.
Causas
Destruição causada pela chuva, no Distrito de Campos de Cunha, em 01 de jan. de 2010.
De onde veio tanta água? Dados históricos da PCD (Plataforma de Coleta de Dados) / Estações Ambientais Automáticas do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), localizada no alto do Parque Nova Cunha, registraram no dia 1º de janeiro de 2.010, 165 mm de precipitação, o que equivale dizer que em cada metro quadrado de solo choveu cerca 165 litros de água. Dados da Estação Digital da ANA (Agência Nacional de Águas), que fica perto da ponte sobre o rio Paraitinga, na Rodovia Paulo Virgínio, registrou 174 mm de precipitação, um valor extremamente alto e raro de acontecer, que até chega a assustar até os cientistas e estudiosos do clima. Assim que toda essa água começou a descer rio baixo, o nível do rio Paraitinga só ia aumentando, deixando a população luizense em pânico, pois não sabiam de onde estava vindo tanta água, já que a chuva por lá não foi tão forte como cá. Só depois dessa tragédia, os órgãos estaduais competentes resolveram criar uma rede de coleta de dados e de prevenção integrada, facilitando a comunicação da área à montante (Cunha), com as cidades à jusante do rio, como São Luiz.
Climograma de Cunha – SP, elaborado com dados meteorológicos entre 1991 a 2021. Fonte: Climate Data.
Segundo o meteorologista do CPTEC- INPE, Giovanni Dolif, a intensa precipitação que castigou a nossa região foi causada por um sistema de baixa pressão atmosférica, cujo centro estava no Atlântico, estacionado há alguns quilômetros litoral norte de São Paulo. Áreas de baixa pressão favorecem a ocorrência de chuvas. Ventos úmidos, vindos tanto do continente (desde a Amazônia) como do mar (do Atlântico), se encontraram justamente sobre nossa região, formando nuvens carregadas que acabaram se precipitando. Além do mais, o fator geomorfológico (Serra do Mar) favorece a formação de nuvens mais carregadas. Já para o renomado geógrafo brasileiro Aziz Nacib Ab’Sáber, já falecido, o evento de janeiro de 2.010 era parte de uma crise periódica de natureza climato-hidrológica de escala mais ampla que a mera convergência de ventos em determinado local, pois para ele a climatologia tropical entraria em colapso de tempos em tempos, como diz: “Este ano (2.010) foi de perturbações fortíssimas em toda a América Tropical. Concluo que houve crises regionais no Brasil Tropical-Atlântico desde Espírito Santo e Rio de Janeiro até o Nordeste de Santa Catarina, onde ainda predomina um clima tropical. Essas perturbações ocorrem de doze em doze anos ou de treze em treze anos (…) essa periodicidade é desconhecida em relação a São Luís. Mas, quando eu era menino, me lembro de ter ouvido gente falando que a cheia que ocorreu chegou até a porta do mercado”. Nesta entrevista à Rede Brasil Atual, Ab’Sáber também mencionou como agravante do colapso climático a feição do relevo, extremamente montanhosa em nossa região, um verdadeiro “mar de morros”, conforme termo que ele cunhou. Para o pesquisador, o caminho para minimizar os impactos desses colapsos passa pela educação preventiva, ressaltando que “é hora de obrigar essas cidades (Cunha, Angra dos Reis, São Luiz etc.) a terem ensino sobre a história da cidade, o sítio urbano da cidade, a periodicidade climática perigosa.” Ou seja, é preciso que cada morador conheça o seu próprio município, os seus aspectos naturais e históricos.
Vídeo gravado por morador mostrando a inundação causada pelo rio Paraitinga, na SP-171 (Rodovia Paulo Virgínio), na altura do bairro do Paraitinga. Data: 2.010.
Consequências
Em 01 de janeiro de 2.010, a situação era crítica, devido a diversos escorregamentos, tanto na zona urbana quanto na rural, isolando a cidade, as vilas e bairros rurais. Os números do desastre climático foram os seguintes: queda de cerca de 1.000 barreiras em estradas e rodovias; destruição de 300 pontes de madeira em estrada rural; 38 desabrigados; 492 desalojados; 12.000 isolados e 6 óbitos por soterramento (Mário Penha, 46 anos, Ingrid, 35 anos, Manolo e Érica, casal com aproximadamente 65 anos, Eduardo Moron, 15 anos, e Sabrina, 12 anos), todos de uma mesma família paulistana, que possuía uma casa de veraneio no bairro da Barra do Bié, destruída por um deslizamento de terra. Houve a remoção de famílias em aproximadamente 90 residências. Além desses danos, não se contabilizaram os inúmeros estábulos, áreas de pastagem e animais mortos em virtude da enchente causada por tamanha chuva, trazendo sérios prejuízos econômicos para pecuária leiteira, principal atividade municipal. Como a situação da cidade foi amplamente divulgada pela mídia e as estradas ficaram intransitáveis, o setor turístico também teve um enorme prejuízo e, nos anos posteriores, foi absorvendo o impacto negativo. A Prefeitura de Cunha, diante de sua incapacidade responder aos danos causados pelas consequências da precipitação anormal, decretou Estado de Calamidade Pública, em 5 de janeiro. O isolamento total durou até o dia 3 de janeiro, quando a ligação com Guaratinguetá foi reestabelecida, pois as pontes da SP-171 foram parcialmente destruídas. A Prefeitura deslocou todo o seu corpo técnico e parte do seu setor de serviços para a Escola Municipal “Benedito Aguiar Sant’Anna”, prédio que foi a base das operações emergenciais daquele janeiro. O objetivo era coordenar as ações e respostas da Municipalidade de maneira sinérgica, visando apresentar uma resposta menos demorada ante à catástrofe.
Vídeo elaborado pela Defesa Civil de Cunha, em 2.010, com fotos da tragédia climática, durante a resposta de Cunha à calamidade.
Apesar de toda tragédia vivenciada, Cunha também experimentou a solidariedade das cidades vizinhas e de todo Brasil, pois inúmeras doações foram encaminhadas à cidade. Os helicópteros da Polícia Militar do Estado de São Paulo e do Comando de Aviação do Exército Brasileiro, que se mobilizaram para atuar em Cunha nos momentos mais difíceis, em muito ajudaram à população da zona rural, prestando socorro e rompendo o isolamento que preocupava a todos. A Defesa Civil estadual, bem como os excelentes institutos estaduais IG (Instituto Geológico) e IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo) deram todo o apoio técnico, administrativo e operacional possível, não só no momento emergencial (com vistorias e interdição de áreas de risco), mas principalmente posteriormente, ajudando na construção de um município menos inseguro e mais planejado (ainda um sonho). Muitos moradores de Cunha também se voluntariam e atuaram naquele momento, seja na distribuição de alimentos e medicamentos para moradores rurais, na logística das operações ou ainda no descarregamento, armazenamento, triagem e distribuição das doações recebidas.
Destruição causada pela enchente na ponte sobre o rio Jacuizinho, na SP-171. Data: 01/01/2010.
O desastre natural serviu para reforçar o papel e a importância da Defesa Civil municipal, que foi o órgão mais atuante durante o período emergencial e de calamidade pública, prestando todo o socorro possível e não medindo esforços para que a os danos ocorridos fossem atenuados. O papel assumido pela Defesa Civil durante o momento calamitoso fez com que os moradores e órgãos municipais entendessem a importância da própria comunidade local atuar e se prevenir em relação aos riscos que podem destruir bens materiais e vidas. “Área de risco” passou a fazer parte do vocabulário cunhense e todos passaram a levar o assunto a sério. Esse evento triste e desastroso nos serviu como alerta, mostrando que nenhum lugar – nem os mais belos, como o nosso – está a salvo de eventos meteorológicos intensos e catastróficos. E que o único meio de evitar grandes danos materiais e humanos é se preparar para eles, porque cedo ou tarde acabam ocorrendo. As cicatrizes, dos movimentos de massas que ocorreram em 2.010, são visíveis ainda em nossa paisagem, servindo como lembrete, um recado da natureza para não nos deixar esquecer do fatídico desastre.
Reconstrução
Todo o mês de janeiro de 2.010 seria marcado pela ação emergencial da Prefeitura, de órgãos estaduais e da Polícia Militar e do Exército Brasileiro (presente com os seus helicópteros), um esforço conjunto na tentativa de mitigar os efeitos desastrosos do colapso climático, visando desobstruir estradas, levar medicamentos e mantimentos às comunidades isoladas e reconstruir pontes de madeira às pressas, na tentativa de reconectar os bairros rurais à sede municipal. A reconstrução das pontes, estradas e casas do município levaria ainda dois longos anos e receberia financiamento público, com a transferência de recursos estaduais e federais. As estradas foram refeitas entre os anos de 2.010/2.011, pela Companhia de Desenvolvimento Agrícola de São Paulo (CODASP), mediante convênio da Prefeitura com o Governo do Estado. Já o núcleo do CDHU – Estrada Velha, construído para atender às famílias que perderam suas casas no desastre, só foi concluído e inaugurado em 2.016.
Reportagem da TV Band Vale, em 28/01/2010, mostrando as ações da comunidade e da municipalidade cunhense para reconstruir o município.
Pode ocorrer novamente?
Desastres naturais de natureza atmosférica não são raros em Cunha. Como exemplo podemos citar a grande chuva do dia 17 para o dia 18 de dezembro de 1.973, que levou o prefeito de então José Elias Abdalla, o Zelão, a decretar estado de calamidade pública. Pontes e estradas ficaram destruídas e acabadas. Todavia, essa precipitação foi tipicamente convectiva, de modo que não se apresentou uniforme por todo o município, mas concentrou-se justamente nas cabeceiras do rio Jacuí, daí o seu impacto destrutivo. Segundo o DAEE, na Estação Pluviométrica do Cume foram registrados 73 mm, uma forte chuva, na Estação Pluviométrica da Paraibuna foram registrados 77,3 mm, mas nada se compara ao registrado na Estação Pluviométrica do Sertão do Rio Manso, com os seus alarmantes 293,5 mm anotados. O vendaval de granizo de 14 de junho de 1.987 durou apenas 5 minutos, mas acabou destruindo parcialmente 60 casas e ferindo 35 pessoas levemente. Os vários destelhamentos assustaram os moradores. Eventos climáticos extremos desse tipo demonstram que a nossa região não está livre de catástrofes naturais, pois fatores como característica do terreno e do relevo, o sistema atmosférico e a questão humana, que envolve a forma de ocupação e a ausência de planejamento e ordenamento territorial, são elementos catalisadores de tragédias climáticas. E nem sempre os prejuízos se restringem ao campo econômico, infelizmente. Geadas extremas e estiagens também costumam ocorrer em nosso município e podem acarretar muitos transtornos e danos econômicos para agropecuária local. Por isso a importância da elaboração por parte do município de um plano de contingência, para dar uma resposta rápida quando o desastre acontecer. Como é difícil saber “quando”, “o que” e “onde” ocorrerão os próximos eventos climáticos extremos, vale a máxima popular: “é melhor prevenir do que remediar”.
Vídeo mostra São Luís do Paraitinga alagada e a queda de uma das torres da Igreja Matriz, que acabou por ruir.
O que impressiona desde logo o visitante é uma espécie de majestade ao abandono. Tem-se a impressão de que o tempo ali parou tudo deixando como antes. A enormidade da matriz expressa uma grandeza remota. Não bastava apenas muita fé. Era preciso muita riqueza para custear um templo de tais proporções. Não há em todo o estado de São Paulo, da mesma época, nada que se lhe compare. Um pormenor marcante é a existência do primitivo pelourinho, ainda na praça central, defronte da matriz. Deram-lhe função moderna. Fizeram dele lampião. Em volta, há uma espécie de ciranda de casas térreas, de paredes de taipa, denunciando, pelo aspecto venerável, que fizeram mais de cem anos. E há sobrados imponentes, com sacadas providas de grades ricas, proclamando uma riqueza que passou. Nas ruas relativamente largas, que conheceram o alarido das tropas, assenta agora a quietude de uma velha cidade afastada das rotas do comércio. Cunha, atualmente, recorda. É como velha que se senta junto da janela, de olhar perdido no horizonte, e conta o rosário e lembra a juventude. Lá distante, está Parati, que era a sua porta ao mar. É outro rescaldo de grandeza, onde existem telhados com telhas de porcelana vinda do reino e provavelmente importadas da China. Era no tempo dos galeões, do intercâmbio com o remoto Oriente, em que os navios, na volta do mar, vinham tocar e reabastecer-se nestes fartos Brasis.
Imagem colorizada da rua Eduardo Querido, centro de Cunha, com as igrejas do Rosário e da Matriz ao fundo. Data: 1947. Autor: Alceu Maynard de Araújo.
Do outro lado, alonga-se o vale do Paraíba, por onde correu também a prosperidade nos tempos dessa baga sagrada que se tornou o café. Antes, já por ali escorrera o ouro que descia das Minas e ia fecundando de povoações as terras férteis que marginavam o Paraíba, transformado em roteiro da aventura e, depois, centro de fé, ao dar ao Brasil a imagem venerada da Aparecida.
Entre esplendores que se apagaram ficou Cunha esquecida, quase isolada, no centro de serras de encostas hostis e bons caminhos.
Fausto passado
Como acontece com famílias em declínio que encontram no passado estímulo para a modéstia presente, em Cunha a tradição tem grande importância. O passado vive, palpita nas conversações. Serve de compensação, é motivo de orgulho. O majestoso sobrado em que o duque de Caxias esteve hospedado quando uma vez subiu de Parati e se destinava ao interior de São Paulo merece citação especial. Mas no prédio os anos estão marcados. As largas tábuas do soalho apresentam múltiplas frinchas pelas quais se vê perfeitamente o andar térreo. A escada está com os degraus gastos e range aflitivamente. Porque a tradição tem desses inconvenientes. Assume por vezes o aspecto de paupérrima velhice. Devia ter sido imponente a recepção ao ilustre Caxias. A sociedade próspera daquele tempo compareceu, as damas com seus vestidos mais ricos, as joias mais caras. Parece ainda escutar-se o riso alegre das mocinhas de então, jubilosas por exibirem suas graças e sua opulência. De todo esse encanto juvenil restam punhados de ossos no cemitério local. Mas naqueles tempos… Sim naqueles tempos, tudo era grandioso. Ouro em barra, pedras preciosas em grande número. Há lendas de terem escondido fortunas nas pareces de taipa dos velhos sobrados.
Dizem que gente encontrou tesouros na demolição de casas antigas. Contam a história do governador das Setes Vilas, homem poderoso, que arrecadava o dízimo da região, cheia de ouro vindo das Minas e em cuja rota Cunha estava. Sua fortuna era imensa. Em 1850, ascendia a oitocentos e cinquenta contos de réis, quantia fabulosa porque tinha apreciável valor aquisitivo a pataca de cobre, que valia 40 réis. E então na casa daquele poderoso senhor, o ouro era medido aos litros como se faz com o feijão, e amontoado em prateleiras. Lá está a casa soberba para atestar tamanho fausto. Defronte dela juntava-se, ao anoitecer, a numerosa escravatura de velas acesas na mão para rezar o terço diante do nicho, em plena rua. O altivo senhor queria obediência e religião. E a escravaria, ao voltar do serviço, ia rezar antes de entrar na senzala. Como seres humanos oravam para, em seguida, como animais serem juntados no ergástulo.
Tradições e superstições
Terra antiga que ficou isolada, conservou bem vivo o patrimônio mental, sem grandes alterações. Na ocasião do parto ainda é preconizado soprar numa garrafa com força a fim de acelerar o desfecho feliz. Aliás era recurso primitivo, aconselhado às índias, que, em vez de garrafas inexistentes, usavam bambus. Tinha lógica. O esforço provocava contração dos músculos abdominais constituindo assim um apreciável concurso, como o espirro.
Muitas das práticas e superstições observadas tiveram origem nos tempos recuados da colonização e ainda são observados nas províncias do norte de Portugal, como o lobisomem que é um ser humano que se metamorfoseia, em certas noites, em lobo e sai a morder o semelhante. As pessoas mordidas transformam-se também em lobisomem. A cura só pode ser conseguida em noite de lua cheia, ferindo o monstro atrás da orelha, com um garfo tridente. Em Cunha, quando o lobisomem é preto dizem tratar-se de um indivíduo negro. Se o cachorro é branco, então o infeliz é branco também. O animal toma a cor da epiderme do ser humano. Colocar teia de aranha e açúcar sobre feridas, considerar a laranja como alimento frio que se deve evitar no inverno, que carne de porco é quente, que só devem comer certos alimentos em meses que não têm “r”, que frutas misturadas com leite fazem mal e envenenam, por uma faca sobre mordida de abelha ou aranha, feiticeiras malévolas, alecrim e arruda contra mau olhado, são crendice que vieram nos galeões, por lá ficaram e ainda hoje se encontram também nas populações rurais peninsulares.
Conjunto arquitetônico do centro de Cunha, visto da Praça do Rosário. Foto: Robert W. Shirley. Data: 1965.
A Festa do Divino
A festa do Divino se celebra nas velhas cidades, constitui em Cunha a mais importante das manifestações religiosas e representa o ponto mais alto da vida da comunidade. Não tem data fixa. Varia de acordo com os recursos que o festeiro reúne. Tem que ser grandiosa, pois determina afluência maciça dos moradores da zona rural. Pode-se avaliar o interesse pelo fato de uma população dispersa de vinte e sete mil almas já se ter reunido na cidade num total de cerca de dez mil pessoas. Em importância só se lhe aproxima a festa de S. José, que reúne multidões. Além das cerimônias religiosas, há fogueiras, fogos, “companhias de moçambique” que executam danças próprias, que dizem não ser congada. Cada “companhia” tem um general que carrega o bastão, um capitão e um mestre com funções de dirigente da dança. Vinte dançarinos e doze tocadores de instrumentos formam uma grande companhia de moçambiqueiros. Violas, violão, cavaquinhos, caixas e pandeiros e até violinos integram o grupo de tocadores. O conjunto é constituído geralmente por pessoas aparentadas. Há ainda uma patente superior, o chefe supremo, o “rei”. É quem tudo manda. Poder supremo sem possibilidade de contestação. É uma espécie de patriarca, pois os elementos mais afastados em parentesco são seus afilhados. Irmãos, filhos, sobrinhos e netos desse rei constituem o moçambique, que usa uma espécie de uniforme, constituído por barrete branco, camisa e calças brancas. A camisa e os barretes são enfeitados com lãs de cores. O rei usa uma espécie de coroa. Só ele tem o direito de conduzir a bandeira de S. Benedito. Nas pernas, como se fossem ligas, usam todos uma tira de couro com guizos. Dançam empunhando bastões lisos, com pouco mais de um metro e que esgrimem enquanto volteiam.
Organizar a festa do Divino é uma honra e um empreitada, pois exige coleta de donativos durante longos meses que são recolhidos em casa do festeiro. Há até um empreiteiro da “folia do Divino”, com sucesso garantido por duas dezenas de anos de prática, conhecedor do meio, amigo de toda a gente e bom tocador de violão e improvisador de modinhas. Daí o seu êxito.
Contrastes
Ambiente propenso não apenas à crença, mas também a credulidade e à crendice, ali se verificaram fatos e cenas bem curiosas. Em 1932, quando chegaram forças ditatoriais para ocupar a cidade, tomaram medidas estranhas. Começaram por implantar a desordem, abrindo as portas da cadeia e soltando os criminosos ali detidos. Entre esses figurava um moço loiro, que por não ter maior ocupação folheara uma das Bíblias distribuídas por uma missão protestante. Ao ver-se livre e sem ter recursos resolveu apresentar-se como o “Cristo que voltou”. Arranjou uma espécie de túnica branca, mostrava-se no alto de cupins, com os cabelos compridos, a barba loira crescida. Mandava fazer penitência. Impunha castigos e reparações, que consistiam em boa comida. Levava vida fácil e regalada. Até que um dia escolheu uma caipira jeitosa para companheira. Apresentou-a aos crentes como Virgem Maria. Acreditaram. Até que um dia o viram deitado com ela. Logo esmoreceu a fé. Aquela gente era crédula, mas não imbecil. Levaram o caso ao conhecimento do delegado que interveio com louvável presteza e reconduziu o “Cristo que voltou” à cadeia donde tinha sido libertado indevidamente para cumprir a pena que faltava.
Sem a mesma gravidade e até cheio de pitoresco, foi o caso de João Camilo, espécie de capelão ambulante da roça. Era um velho preto de alma simples e confusas noções da religião. Influenciado pelo que vira na igreja amarrava um grande jacá em grosso tronco de arvore, à semelhança de um púlpito. E dali falava com confusa eloquência aos seus ouvintes intercalando na oratória deformações de frases latinas, dando a impressão de que rezava como padre… Retivera algumas palavras que ia soltando, repetindo: “oremus, oremus, repcicione Cristu, amem. Ora pronobis Santa Degenis, espeto da justiça, aleluia. O Senhor me ajude que eu também lhe ajudarei”.
Evolução e estagnação
Fac-símile da crônica sociológica de Barros Ferreira, publicada no Estadão, em 25 set. 1965.
Depois do período áureo, Cunha ainda cresceu até entrar em estagnação por falta de estímulos econômicos. No entanto, oferece condições magníficas para estância de repouso e cura, com seu clima seco e frio. Poderiam seus campos, a mil metros de altitude, produzir variadas frutas europeias, iguais às que se recebem da Argentina. Uvas de mesa podiam ali ser colhidas em larga escala. A oliveira devia ali produzir bem. É região de grandes frios que “torram” os pastos, segundo a expressão usada e impedem a volta integral à pastorícia, que é um estágio primitivo, um regresso, quando já foi atingida a fase agrícola. Com 2.472 habitantes em 1799, já contava 7.873 em 1872. Em 1886 somava 10.856 o povo do município. Seguiu-se o período da emigração do café do vale do Paraíba, o abandono da rota de Parati. Em 1920, tinha 20.171 almas. 24.818 revelou o censo de 1940. Não houve, portanto, o mesmo impulso no seu crescimento demográfico. A cidade de Cunha que começou opulenta não atingiu o desenvolvimento de outros, de Araraquara, por exemplo, que é muito mais recente e começou infinitamente mais pobre. Ficou segregada e esquecida, a ponto tal que, no movimento de 1932, muita gente orgulhosa de seus conhecimentos geográficos indagou onde ficava e foi procurar sua posição no mapa do Estado, de tal forma fora o declínio de uma das mais opulentas cidades paulistas do século passado.
Fonte: Crônica extraída do jornal O Estado de S. Paulo, em 25 de setembro de 1955.
* Miguel Ângelo Barros Ferreira (1906-1997) foi um jornalista, historiador e escritor português, que passou boa parte da sua vida no Brasil, na cidade de São Paulo, onde veio a falecer.
O professor João José de Oliveira Veloso segurando o seu livro “A História de Cunha”, no Museu Francisco Veloso. Foto: Geraldo Magela Tannus. Data: setembro de 2010.
JOÃO JOSÉ DE OLIVEIRA VELOSO (Nascimento: 05/11/1945 – Falecimento: 30/11/2020).
João José de Oliveira Veloso nasceu em 05 de novembro de 1.945, em Cunha, Estado de São Paulo. Filho de José Veloso Sobrinho e de Maria José de Oliveira.
Atuou como professor de Inglês e Português da Rede Pública Estadual de Ensino, aposentado em 2007.
Residia à Rua Augusto Adolfo Hauke, 84, Alto do Cruzeiro – Cunha/SP.
Fez o curso primário no Grupo Escolar “Dr. Casemiro da Rocha”, e o ginasial no Colégio Estadual “Paulo Virgínio”, ambos em Cunha/SP.
Cursou a Escola Normal “Miss Martha Watts”, no Instituto Educacional “O Piracicabano”, em Piracicaba/SP, de 1966 a 1968.
De 1969 a 1972, cursou Letras – Licenciatura Plena em Português / Inglês – na Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras do antigo Instituto Santa Teresa D’Ávila (hoje UNIFATEA, situada à Avenida Peixoto de Castro, em Lorena, SP), sendo da primeira turma mista a se formar nessa faculdade.
Desde 1972, dedicou-se a promover a cultura do Município de Cunha, apoiado pelo professor Dr. Robert W. Shirley (antropólogo e brasilianista, que viera reestudar mudança social em Cunha como bolsista do Instituto de Estudos Latino-Americanos, entre 1965 e 1966).
Em contato com esse professor norte-americano, João Veloso veio a traduzir a tese de doutorado daquele sobre Cunha: “The End of a Tradition” (1971), publicada pela Columbia University Press. A tradução realizou-se em 1977, e foi publicada pela Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia, em parceria com a Editora Perspectiva, com o título “O Fim de uma Tradição”.
“O fim de uma tradição”, de Robert W. Shirley, livro de antropologia, cujo objeto de estudo é Cunha, que foi traduzido para o português pelo professor João Veloso, em 1977.
Vendo a necessidade de um local onde se pudessem concentrar dados históricos sobre Cunha/SP, funda, em 1977, com alguns colegas professores e demais pessoas ligadas à cultura cunhense, o Centro de Cultura e Tradição de Cunha, entidade sem fins lucrativos, tendo como sede física o Museu Francisco Veloso.
A partir de então, é nessas duas entidades (Centro de Cultura e Museu) que se concentraram todas as suas atividades culturais no sentido de se promover a cultura cunhense, destinadas não somente aos alunos da rede pública e particular de ensino do Município, mas também a todas as pessoas, órgãos e entidades interessados na história local.
Desde 1977, o professor Veloso vinha publicando revistas, monografias, boletins… sobre o Município de Cunha, material farto que tem promovido a História de Cunha não apenas “in loco”, mas também em todo o Vale do Paraíba e no Estado de São Paulo.
Em 1978, Veloso tornou-se membro efetivo do IEV – Instituto de Estudos Valeparaibanos.
Em 1987, traduziu para o Português o curso sobre Antropologia Jurídica, ministrado pelo professor Robert W. Shirley na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, no Largo de São Francisco, que deu origem ao livro “Antropologia Jurídica”, publicado pela Editora Saraiva, nesse mesmo ano.
Professor João Veloso, seu irmão Pedro, e os componentes da Companhia de Folia de Reis de Cunha “Magos do Oriente” (Família Castro e Benedito Malaquias de Paula. Foto: José Antonio (Rádio Serrana FM). Década de 1990.
Já em 1997, recebeu a Distinção Cultural Paulo Pereira dos Reis, criada pelo IEV.
Recebeu também, por duas vezes, homenagens na Câmara Municipal de Cunha: em 1988 e em 2010, por atividades culturais ligadas à história de Cunha.
O eminente professor João José de Oliveira Veloso ainda foi colaborador, dentro de suas possibilidades, com artigos históricos sobre Cunha, no Boletim do IEV, na Revista Ângulo (UNIFATEA) e em alguns jornais locais e regionais.
Suas primeiras obras publicadas são “‘Sá’ Mariinha das Três Pontes, curandeira e vidente” – JAC Gráfica e Editora, 1994; e “O Ambiente Natural Cunhense”, JAC Gráfica e Editora, 1995.
Livro que despertou o meu interesse pela história de Cunha. Em 1999, eu ganhei do professor João Veloso um exemplar deste livro (o da foto), como um presente por estar à frente das comemorações da Revolução Constitucionalista, que ocorreram na Escola Estadual “Paulo Virginio”, Cunha, SP.
Já em outubro de 2010, o professor Veloso lançou sua obra-prima, intitulada “A História de Cunha – 1600-2010 – Freguesia do Facão – A Rota da Exploração das Minas e Abastecimento de Tropas” – JAC Gráfica e Editora, Centro de Cultura e Tradição de Cunha, composta por 496 páginas.
“A História de Cunha”, livro de 2010, uma certidão de nascimento para a nossa história, fruto de 40 anos de estudos do professor João Veloso. Esse livro inspirou novos estudiosos da história local e colocou a história de Cunha em questão.
Em 2014, lançou “A História de Zina – A saga de uma família da zona rural cunhense” – J. A. Cursino & Editores, Centro de Cultura e Tradição de Cunha. E também o livro “A História da Música em Cunha”, escrito em parceria com o Professor Victor Amato dos Santos.
E em 2015, publicou a revista “Simplificando a História de Cunha” (um resumo da obra “A História de Cunha – 1600-2010 – Freguesia do Facão – A Rota da Exploração das Minas e Abastecimento de Tropas”), também em parceria com o Professor Victor Amato.
Esta última publicação tem a finalidade principal de ser utilizada nos anos iniciais do Ensino Fundamental pelas redes pública e particular de ensino do Município de Cunha/SP; e ainda a de servir à informação da população cunhense e demais interessados sobre o assunto.
O Professor João Veloso faleceu serenamente na manhã de 30 de novembro de 2020, após passar mal em sua residência e ser conduzido à Santa Casa de Cunha pelo seu irmão Pedro Veloso.
Professor João Veloso proseando na Praça da Matriz, pouco antes de falecer.
Seus restos mortais encontram-se sepultados no Cemitério Municipal de Cunha.
* Texto cedido, gentilmente, pelo professor Victor Amato dos Santos ao Jacuhy, em 30 nov. 2024. A ele, sempre parceiro deste blog, nossa gratidão.
Publicação original:
Nota de Pesar do IEV (nstituto de Estudos Valeparaibanos): Hoje, 30.11.2020, é um triste dia para a história valeparaibana. Nossa região e o município de Cunha-SP perderam um dos seus destemidos guardiões. Autor de diversas obras, era um dos principais nomes da preservação da história e da memória de Cunha, esteve à frente do Museu Municipal e Centro de Cultura e Tradição de Cunha “Francisco Veloso”, além de ter participado de importantes momentos da história da nossa região. Nós, do Instituto de Estudos Valeparaibanos, lamentamos o repentino falecimento deste célebre companheiro e iremos manter vivas a memória e a história deste que, para nós, sempre fará parte da nossa instituição, inspiração para aqueles que ficam e têm, assim como ele, grande paixão e respeito pelo Vale do Paraíba. Nossos sentimentos aos familiares, amigos e inúmeros alunos que hoje se despedem deste grande mestre. O enterro do Professor João Veloso acontecerá às 16h no Cemitério Municipal de Cunha. Diego Amaro de Almeida – Presidente do IEV
Vista da zona fronteiriça entre Cunha e São Luiz. Foto: Sítio Cotinga. Data: Maio de 2017.
Cunha, em função do tamanho do território (1.407,250 km²), limita-se com 10 municípios.
A sudoeste de nosso município se encontra o limite com São Luiz do Paraitinga, mais precisamente com o distrito de São Pedro da Catuçaba. Uma área pioneira no povoamento do município de Cunha. Os topônimos tupis dos bairros de lá corroboram esse pioneirismo, essa antiguidade: Catioca, Itambé, Itacuruçá, Itaim etc. A vila da Catuçaba, antigo povoado de São Pedro, também é de origem tupi (“katu” – bom + “sab(a)” – lugar = “lugar bom”). Distrito luizense desde 1944, Catuçaba hoje é a referência urbana daquela região cercada de antigas fazendas e bairros rurais que abrange, além do próprio município de São Luiz, Cunha e Lagoinha.
Vales encaixados, em “V”, dominam a região. Foto: Pilatus Expedições. Data: 2011.
O limite é todo terrestre. A linha divisória (e imaginária) segue por cerca de 28 quilômetros, partindo de Lagoinha até encontrar o limite com Ubatuba. Parte é permeável; outra, não. A parte permeável, onde há intercâmbio, fica ao norte, nas proximidades com Lagoinha. Há duas ligações por estrada de terra batida. Nem sempre estão em boas condições de trafegabilidade, por falta de manutenção periódica das municipalidades. Uma das ligações, via Fazenda Sant’Anna, é pelo bairro do Mato Dentro (Cunha) até alcançar o bairro do Chapéu Grande (São Luiz do Paraitinga). A outra ligação é pelo bairro do Ferraz (Cunha), que segue por um vale, até alcançar os contrafortes da Serra do Campo Grande e dobrar no bairro do Pinga (São Luiz do Paraitinga).
Mar de Morros: as montanhas que servem como limite entre Cunha e São Luiz. Foto: Michel Salazar.
Criado em 1977, o Parque Estadual da Serra do Mar impermeabilizou a parte sul da região fronteiriça, já no Planalto do Paraibuna. Por ser uma unidade de conservação de proteção integral, a ocupação humana ali, que era rarefeita, foi sendo progressivamente restrita e banida, regenerando em Mata Atlântica as áreas ocupadas e as trilhas abertas de outrora. Nas cercanias tinha até bairro conhecido: Sertão do Palmital. Inexistente atualmente, vencido pelo avanço da floresta tropical.
Serra do Campo Grande: aspecto. Foto: Rodrigo Leite Massiere. Data: 201[?].
O morro pedregoso mostrado na foto desta postagem está a 1.580 metros de altitude. A Serra do Campo Grande em alguns pontos chega superar os 1.600 metros. Por isso, ali a fisionomia é diferente do entrelaçado esverdeado de árvores, arbustos, cipós e plantas da Mata Atlântica característica. A altitude moldou nova fisionomia. É domínio de um ecossistema chamado de “campos de altitude” que, segundo a biogeografia, a despeito das controvérsias sobre sua origem, são típicos dos pontos mais elevados dos sistemas serranos do sudeste brasileiro, que se soergueram principalmente durante o período geológico do Terciário. Um delicado relicto escondido no topo da serra, tal qual na Serra da Bocaina. Fez bem o governo estadual em determinar a preservação daquela área, através de unidade de conservação.
Alto do Diamante. Foto: Alessandra Ramos. Arte e dados sobre a foto: Jacuhy.
As velhas fazendas que compõem a paisagem cultural daquelas bandas; as que sobraram, diga-se; são mais uma evidência que foi por ali que começou a ocupação do nosso município. A mais soberba, exemplo do neoclássico rural paulista, a Fazenda Sant´Anna fica por perto. Mas são as modestas, ecléticas por questões de pobreza, que podem ser vistas com mais frequência. São janelas para um tempo que já se foi… Muitas estão abandonadas, atestando a mudança dos ciclos econômicos que fizeram a riqueza e a história. Perderam a função dentro da organização espacial que emergiu no século passado. A pecuária de corte e leite, atividade agora predominante, é causadora de despovoamento, de êxodo rural. Desoladas, à mercê do tempo, as fazendas acabam virando taperas. E por fim, ruínas.
Fazenda do Mato Dentro quando ainda estava em pé. Hoje, está em ruínas. Foto: Pilatus Expedições. Data: 2011.
Mais que laços culturais, religiosos e genealógicos em comum, essa região de fronteira, no entorno da Serra do Campo Grande (também chamada de “Alto do Diamante”), se constitui em uma paisagem bastante interessante. Ainda está vivo o folclore caipira em suas diversas manifestações, sobretudo nas folias, bandeiras e pousos da Festa do Divino Espírito Santo, festa ontológica dessa gente paulista há mais de quatrocentos anos.
Parte da Carta Topográfica “Lagoinha”, do IBGE, mostrando o limite entre os dois municípios, o desenho e a altimetria do relevo local.
Os limites municipais são meras convenções do Estado, visando garantir ordenamento territorial, criar jurisdição. A paisagem cultural, filha que é da história viva, supera todas as artificialidades. Ali é tudo uma gente só, um mesmo lugar.
Referências: Google Earth, Google Maps, A História de Cunha: 1600-2010 (João Veloso), IBGE (Cidades, Cartas Topográficas, Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos – CNEFE), Dicionário de Tupi Antigo (Eduardo Navarro), Terra Paulista: histórias, arte, costume (CENPEC), A Passarinhóloga (blog), As transformações na arquitetura rural paulista pré-moderna (Marcelo G. Augusto).
Publicação original (Facebook):
Observação: Este texto, após ser compartilhado em nossa página no Facebook, obteve um excelente alcance. E surgiram alguns questionamentos sobre o conceito de fronteira, na forma como utilizei no título. Pois, atualmente, o termo fronteira tem sido usado para designar a linha divisória entre países; entre unidades federativas, seria divisa; entre municípios (como no caso), limite. Essa informação vem sendo ventilada, inclusive, em páginas de Geografia. Mas é meramente semântica; não conceitual, como se faz sugerir. Tal distinção não encontra eco nos autores clássicos da Geografia. “Fronteira”, para Raffestin (1993), é uma zona (geográfica) camuflada em linha. Portanto, como conclui Ferrari (2014), “o limite não é visível fora do mapa, mas é justificado pelo marco de fronteira simbolizando a linha, enquanto a fronteira é uma zona geográfica, um espaço que pode, conseqüentemente, criar relações que ultrapassem o limite[…]”. Sugestões de leitura sobre o assunto: RAFFESTIN, Claude. Por uma Geografia do Poder. São Paulo: Ática, 1993. FERRARI, M. AS NOÇÕES DE FRONTEIRA EM GEOGRAFIA. Perspectiva Geográfica, [S. l.], v. 9, n. 10, 2014. Disponível em: https://e-revista.unioeste.br/index.php/pgeografica/article/view/10161. Acesso em: 18 nov. 2024.