“Esta é a trincheira que não se rendeu:
(…)
a que, atenta, nos vigia;
a que, invicta, nos defende;
a que, eterna, nos glorifica!” (…)
(Guilherme de Almeida, 1890 – 1969, foi um poeta e escritor paulista. Lutou em Cunha, na Revolução Constitucionalista, em 1932. Compôs alguns poemas diretamente das trincheiras de Cunha, nos dias em que esteve no front, defendendo São Paulo, defendendo a democracia).
Durante os dias mais intensos da chamada Batalha de Cunha, havia um sistema de trincheiras que guardava a cidade do assédio dos federais. Era o “Reducto”, conhecido atualmente como “Morro Grande”. Irredutível em seu posicionamento privilegiado, esse conjunto de linhas de defesa não cedeu. Com tenacidade e eficácia, foi defendido e guarnecido pelas levas de voluntários que chegavam, dia após dia, ao front, engrossando o Exército Constitucionalista. Antes, resistiu e permitiu o avanço dos paulistas sobre os federais, marcando uma das poucas vitórias militares que os paulistas obtiveram ao longo do conflito civil.
O tenente Abílio Pereira de Rezende apelidou a intricada rede de trincheiras de “a intransponível”, porque, segundo ele, por ela “não passava nem mosquete e nem mosquito”.
A geomorfologia local facilitava a defesa. Como uma muralha de terra e granito, doze montanhas erguem-se a mais de mil metros de altitude, cercando Cunha em meia-lua. Ninhos de metralhadora cautelosamente distribuídos pela rede criavam um círculo de fogo perfeito para repelir qualquer “desavisado”. Os paulistas não estavam dispostos a recuar. A rede estendia-se sobre os caminhos que chegavam até a cidade, permitindo, assim, o total controle da situação.
As tropas federais ficaram, por sua vez, estacionadas no Divino Mestre, uma montanha de maior altitude, de onde conseguiam visualizar as torres da Igreja Matriz, postas, assim, ao alcance de seus Krupp 75 mm. O lugar possuía uma vista panorâmica de toda a região, o que possibilitava aos federais acompanhar (quase) todo o movimento das tropas paulistas. Porém, essa ligeira vantagem era contrabalançada por uma falha geológica, que criou um vale encaixado e rebaixado, separando o Divino Mestre do Morro Grande. Na prática, essa falha transformava o cenário em um castelo feudal: as montanhas se assemelhavam às muralhas; a falha, a um fosso. Os ataques federais, que a ninguém surpreendiam, foram, um a um, rechaçados. Tentaram, algumas vezes, até ataques frontais. Sem sucesso.
Os voluntários sustentaram, a ferro e fogo, suas posições, mesmo em desvantagem no número de homens e armas, e com escassez de munição.
Em 1932, parece que a covardia andava fora de moda.
Cunha não caiu para que São Paulo se mantivesse de pé.
Fotos: “A Gazeta, 1932”. Colorização feita por IA (Gemini).










