23 de outubro de 1944: instalação do telégrafo em Cunha

Em uma segunda-feira, no dia 23 de outubro de 1944, Cunha era, finalmente, conectada à rede telegráfica nacional. Assim noticiou o jornal “O Estado de S. Paulo”, em 24 de outubro de 1944: “Inaugurado em Cunha o Serviço Telegrafico Via-Radio. A Diretoria Regional dos Correios e Telégrafos acaba de inaugurar na cidade de Cunha, neste Estado, o serviço telegráfico Via-radio, feito por intermédio da agência postal dessa localidade”. Era uma conquista para o pacato e isolado município serrano, sempre marginal quando o assunto era comunicação e tecnologia. Mas é preciso contextualizar essa benesse, pois como pontua o historiador Giovanni Levi (1992, p. 154), “a abordagem micro-histórica dedica-se ao problema de como obtemos acesso ao conhecimento do passado, através de vários indícios, sinais e sintomas. Esse é um procedimento que toma o particular como seu ponto de partida (um particular que com frequência é altamente específico e individual, e seria impossível descrever como um caso típico) e prossegue, identificando seu significado à luz de seu próprio contexto específico.” E qual era o contexto? Mundial, a Segunda Grande Guerra. E nacional, a ditadura varguista. Durante o Estado Novo (1937–1945), Getúlio Vargas promoveu a expansão das redes telegráficas no Brasil como parte de um projeto mais amplo de centralização do poder, modernização da infraestrutura e controle da comunicação, como pode ser melhor observado, em nossa região, no mapa abaixo. Na época, o telégrafo era uma forma rápida, segura e barata de comunicação, ideal para um país continental e ainda desintegrado, com suas “ilhas regionais”, como o Brasil.

Parte do Mapa das redes postal e telegráfica do departamento dos Correios e Telégrafos, mostrando a distribuição da rede telegráfica de Cunha e seu entorno. Data: 1944. Fonte: Biblioteca Nacional.

Sua implantação em nosso país, entretanto, é mais remota. Nos tempos do Império, a novidade foi rapidamente adotada. Surgida em 1844 nos Estados Unidos, já em maio de 1852 era feita a primeira transmissão telegráfica, no Rio de Janeiro, entre o Quartel-General do Exército e a Quinta da Boa Vista, palácio imperial. A mensagem transmitida teria sido um verso do poeta Gonçalves Dias: “minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá”. Essa modernização era parte do projeto político e econômico D. Pedro II, que teve o seu auge nos anos de 1850, com a implantação de estradas de ferro, iluminação a gás, entre outras inovações, financiadas pelo superávit das exportações de café. O ministro da justiça Eusébio de Queiroz celebrou a novidade: “A comunicação dos pensamentos, das ordens, das notícias já não encontra demora na distância”. Com esta declaração ao imperador, o ministro vislumbrava a nova tecnologia a serviço dos interesses do Estado, da eficiência na administração pública e do cumprimento de suas ordens a tempo. Entre tais interesses, destacava-se a necessidade de agilizar o envio de ordens destinadas à repressão do tráfico de escravos. Mas sua expansão pelo território nacional demoraria ainda e motivou-se por razões menos nobres. Inicialmente circunscrita à província do Rio de Janeiro, a rede telegráfica conhece uma rápida expansão, mas em direção à fronteira meridional, motivada pelas necessidades impostas pela guerra com o Paraguai (1864-1870).

Notícia da instalação do telégrafo em Cunha.

O termo “telégrafo” refere-se a qualquer dispositivo ou sistema destinado à transmissão de informações por meio de sinais codificados a longas distâncias, de maneira confiável e segura entre pontos distantes, superando as limitações impostas pela geografia. Diversos sistemas telegráficos foram empregados ao longo da história; contudo, a designação é mais comumente associada ao telégrafo elétrico. Durante mais de um século, esse sistema constituiu o principal meio de envio de informações impressas, seja por meio de fios condutores ou por ondas de rádio. Concebido antes da invenção do telefone, constituiu um avanço significativo nos sistemas de comunicação. Posteriormente, desenvolveu-se a radiotelegrafia, modalidade de comunicação que utiliza ondas de rádio para transmitir sinais codificados, como o código Morse. Nesse sistema, a portadora de rádio é modulada por meio da variação de sua amplitude, possibilitando a emissão e recepção de informações em tempo real e sem a necessidade de conexões físicas entre os pontos comunicantes. Esta modalidade telegráfica é a que foi implantada na agência postal de Cunha.

Exemplo de telégrafo, no Museu Correios, em Brasília (DF). Foto: Acervo do Museu Correios.

Os sociólogos que estiveram em Cunha em 1945 não deixaram de registrar os meios de comunicação existentes ou não por aqui. Emilio Willems (1947, p. 22) escreveu: “Em 1908 foi construída uma linha telefônica entre Cunha e Guaratinguetá. Explorada por um concessionário privado, ela existiu até 1932. Em toda cidade de Cunha havia dois aparelhos apenas e nenhum na zona rural, circunstâncias essas que provam ter sido bem restrito o uso que se fazia desse meio de comunicação rápido. Na Revolução de 1932, a linha foi destruída. Somente em novembro de 1944, Cunha foi ligada à rede telegráfica do país. Desde então, parte da população urbana está se utilizando, em escala crescente, desse novo meio de comunicação que se integrou rapidamente à cultura local.” Ou seja, Willems relata que no intervalo de apenas um ano, entre a instalação do serviço e o início de sua pesquisa, os telegramas passaram a ser enviados e recebidos por boa parte da nossa população urbana, integrando-se na vida local e a integrando ao restante do país. Não é de se espantar, afinal, toda tecnologia é rapidamente absorvida, pois facilita a vida social e agiliza a transações comerciais de qualquer lugar.

Sobre o telégrafo, um fato anedótico ocorreu nos anos 1950 e foi registrado nas memórias do juiz da comarca de então (Azevedo, 1984, p. 39-41). A luz elétrica de Cunha era péssima. A Usina Hidrelétrica do bairro do Encontro não conseguia suprir a cidade de eletricidade suficiente. Faltava luz quase toda a semana. E, quando tinha, era mortiça. Era a “luz do Zé Saninha”, sinônimo de fraqueza na gíria popular cunhense. Assim, bem precavidos, toda casa da cidade tinha um lampião à querosene, para os dias em que o dínamo da Usina falhasse. E este não decepcionava: falhava dia sim, dia também. O prefeito Antonio Accacio Cursino não sabia mais o que fazer. Vai que falha na véspera da eleição? Seria um desastre… eleitoral. Já tinha, em vão, perdido um dos olhos tentando consertar o motor da Usina. Nesses dias de lida mecânica contava com o apoio técnico do Dr. Lescar Ferreira Mendes, advogado e jornalista cunhense, de saudosa memória, que era, entre outras coisas, mecânico nas horas vagas. Lescar sempre consertava o motor da Usina, mas, certa vez, constatou que não havia mais reparo possível a ser feito. Era um motor do início do século XX. A Usina tinha sido construída em 1923, nos tempos do Coronel João Olympio. E Cunha já estava a 15 dias sem luz elétrica. O único jeito era reparar o motor em São Paulo. Coube ao advogado-mecânico a empreitada de levar o fundido para ser consertado em São Paulo. E ele foi. Pôs o enguiçado na camioneta da Prefeitura e desceu o morro do Facão, rumando para Guaratinguetá e, de lá, para a capital bandeirante. Passaram-se quinze dias e nada. O povo estranhava e indagava: “cadê o motor?”. E reclamava. E o Cursino não sabia mais que desculpa inventar para seus eleitores. Até que, em uma tarde, o carteiro sobe, apressado, as escadas do sobrado do Paço Municipal, no Alto do Cruzeiro, e entrega um telegrama ao prefeito. O remetente era um velho amigo cunhense, residente em São Paulo. A mensagem era esta: “PREFEITO MUNICIPAL DE CUNHA / DOUTOR LESCAR SEGUE HOJE MORTO / PT SAUDAÇOES” A notícia ruim se espalhou rapidamente. “Uma hora depois, a cidade de Cunha se revolucionou consternada e enlutada. Ninguém queria acreditar naquela notícia desalentadora, mesmo porque, aquilo significava o fim de muitas esperanças de luz”. Inacreditável! O Dr. Lescar havia falecido… Mas a tristeza, para felicidade geral, foi curta. Dezesseis horas depois, ouve-se o barulho do arranque da camioneta da Prefeitura vencendo o morro do Facão: nela estava o Dr. Lescar vivo! Trazendo consigo o motor restaurado para alegria de seus patrícios. Festa na comuna. Alívio para familiares e amigos, que não eram poucos. À noite, com Cunha novamente iluminada, se esclarece o mal-entendido. Antes de partir para Cunha, Lescar almoçara com um velho amigo e conterrâneo e solicitou que ele fosse até a agência dos Correios e remetesse um telegrama ao prefeito de Cunha informando sua partida com o motor consertado. E assim o amigo o fez. Acontece que o telegrafista, displicente, trocou o “R” de lugar e, em vez de telegrafar “MOTOR”, telegrafara “MORTO”, causando toda a confusão. Os telegramas precisavam ter uma mensagem curta e direta, sem acentos ou sinais gráficos, o que agilizava o envio, mas abria margem para muitos equívocos e confusões, como foi esse caso. Quanto ao motor, logo voltaria a morrer deixando Cunha às escuras, problema que vai se arrastar até o ano de 1958, quando o Governo Estadual construiu a Usina Hidrelétrica da Cachoeira da Pimenta, sanando a questão da iluminação.

Com relação à chegada do telefone a Cunha, a data apresentada por Willems difere daquelas que nossa pesquisa encontrou nas hemerotecas digitais. As primeiras notícias encontradas sobre o assunto, de um projeto de linha telefônica conectando Guaratinguetá a Cunha são de 1915. Sendo que em 13 de junho de 1916, aparece no jornal “O Estado de S. Paulo” a notícia que que José Florindo Coelho, concessionário da Rede Telefônica Nossa Senhora Aparecida, partindo de Guaratinguetá, deu início à instalação de uma linha telefônica almejando estendê-la até a cidade de Cunha. Essa informação aponta que a instalação ocorreu oito anos depois da referida data apresentada por Willems. Não se sabe qual fonte (oral ou documental) o sociólogo alemão utilizou para cravar a instalação da linha telefônica em 1908. Quanto à sua destruição em 1932, não resta dúvida. O Dr. Pedro Martha, juiz de direito em Cunha nos dias de 1932, relata para Castro Junior (1935, p. 13) o que houve com o telefone: “Os marinheiros estraçalharam o telephone e como temessemos um novo ataque, fui com um rapaz daqui, Geraldo Nascimento que tambem tomára parte na refrega, collocar um apparelho velho, nos muros do Cemiterio. Conseguimos relatar tudo ao delegado de Guará Dr. Venancio Ayres e no dia seguinte chegavam as forças.” Como se extrai do excerto, mesmo atacado, o telefone continuou funcionando. Precariamente, como sempre foi. E durante o conflito que se estendeu em nosso município, entre julho e setembro, as linhas telefônicas foram ampliadas e funcionaram perfeitamente, graças aos serviços dos técnicos do Exército Constitucionalista. Um dos tais, Clementino (1935, p. 98) informa: “Na Delegacia, já havia uma rêde telephonica para Guará, Uzina, Q. G. e Reducto.” E mais (p. 98): “Estendemos o fio telephonico até perto de Apparição a 18 kilometros de Cunha”. E ainda (p. 101): “os fios telephonicos iam até a fazenda do ‘Quim Prudente’ [bairro do Cume].” E conclui (p. 124): “Dias depois da nóssa installação e quando quasi todas as trincheiras tinham telephones e probabilidades de mais promptamente receberem auxilio.” Ou seja, em 1932, durante a Revolução Constitucionalista, Cunha chegou a ter uma ampla rede telefônica, funcionando até mesmo na nossa zona rural. Vicissitudes da guerra. É de se supor que foi arrancada na retirada do Exército Constitucionalista, ocorrida em setembro de 1932, ou foi destruída pelas tropas federais, que ocuparam a cidade logo em seguida. O fato é que não foi mais restabelecida, deixando Cunha sem contato telefônico com outras cidades pelas próximas décadas.

Notícia da instalação da rede telefônica entre Cunha e Guaratinguetá.

Em 1966, segundo Shirley (1977, p. 310), havia 93 telefones em Cunha. Uma quantia razoável, tendo em vista o percentual de moradores da zona urbana. Suprimida desde 1932, a conexão telefônica tinha sido restaurada há pouco tempo, quando Shirley esteve em Cunha fazendo suas pesquisas. Em suas memórias (1984, p. 196), o ex-juiz da Comarca de Cunha Dr. Paulo de Campos Azevedo, escreve indignado: “Na minha Comarca não havia telefone; o telégrafo funcionava precariamente e nesse dia estava interrompido; a estrada, no tempo das chuvas, mais parecia uma trilha de índios.” Havia falecido o desembargador Paulo de Oliveira Costa (que, aliás, é o patrono do Fórum de Cunha) e ele, que estava em Cunha, não ficou sabendo de nada e não pode comparecer ao velório. Era novembro de 1960. O enérgico juiz não deixou barato. Em 30 de junho de 1961, reúne os moradores da cidade no Fórum e, por intermédio seu, traz até Cunha os representantes da Companhia Telefônica Tupi, de Taubaté. É feito um acordo entre os moradores e a empresa. Se pelo menos 50 pessoas comprassem o aparelho e assinassem o contrato com a Tupi, ela proveria a cidade de ligação telefônica. Cada aparelho custava 40 mil cruzeiros. O acordo é fechado: colheram-se mais de 70 assinaturas no dia. As ligações interurbanas seriam realizadas por micro-ondas, através da estação de Paraibuna. Encerrava-se uma das mais antigas reivindicações de Cunha, que levou o prefeito de Cunha, naquela época, Osmar Felipe a apelar até para o poeta Guilherme de Almeida, que solidário ao povo de Cunha, usou, inclusive, a sua coluna no Estadão para transcrever o ofício enviado pelo prefeito (O Estado de S. Paulo, 19 fev. 1960, p. 5), reforçando o pedido endereçado ao Governo Estadual que se restabelecesse a linha telefônica de Cunha. O “príncipe dos poetas” havia lutado em Cunha, em 1932, e tinha um carinho especial pelos “cunheiros”. Amizade nascida nas trincheiras. 

Antiga central telefônica de Cunha, na Praça Prudente Guimarães. Atualmente, no prédio está instalado o Conselho Tutelar. Data: década de 1960. Arquivo: Prefeitura Municipal de Cunha.

O impacto dessa tecnologia de comunicação foi modesto em seus primórdios. Além de não haver nenhuma ligação telefônica na imensa zona rural de Cunha, Shirley (1977, p. 196) aponta que apenas uma linha ligava Cunha e Paraty com a cidade de Guaratinguetá e de lá com as outras cidades do país. O serviço interurbano era, portanto, “demorado e irregular”. Uma chamada para a capital, por exemplo, demorava de meia hora até doze horas para ser feita. Um tempo impensável nos dias de hoje, mas que já naquela época limitava muito o uso do telefone em Cunha, a ponto do próprio antropólogo considerar seu impacto sobre a tradição local praticamente nulo, uma vez que seu uso era restrito, limitado e intermitente.

Atualmente, o uso do telefone fixo é cada vez mais raro, devido ao avanço da telefonia móvel e dos aplicativos de mensagens instantâneas, que funcionam via internet e estão nos smartphones de quase todas as pessoas. Por outro lado, os Correios afirmam que no primeiro semestre de 2024, 1,5 milhão de telegramas foram enviados no Brasil, uma média de 8 mil correspondências por dia. Não mais, obviamente, por rádio ou por cabos elétricos, mas pela internet. Atende, assim, os interesses das empresas e órgãos públicos que precisam notificar, cobrar ou comunicar determinada pessoa física ou jurídica por escrito, de forma oficial e confiável.

A comunicação sempre foi um problema histórico de Cunha, nosso gargalo, que múltiplos impactos trouxe sobre a economia e a sociedade. Já em 1945, Willems (1947, p. 164) concluía: “A fundação e história de Cunha ligam-se à existência de uma das  grandes estradas imperiais por onde o interior se comunicava com o  porto de Parati. Modificada a rede de comunicação pela construção da  Estrada de Ferro Central do Brasil, Cunha entrou numa longa fase de  isolamento e estagnação econômica, interrompida somente em tempo muito recente pela construção de uma rede de rodovias intra e intermunicipais”. A estagnação prosseguiu, porque nem toda rede de estradas é capaz de gerar fluxos rápidos o suficiente para atender às demandas do capital. Ainda hoje, fechando o primeiro quartel do século XXI, sofremos em Cunha com a falta de internet nos dias chuvosos ou quando incendeiam a Serra do Quebra-Cangalha. Os cabos de fibra óptica que nos conectam ao mundo são precários e nos fornecem um serviço lento, sofrível e intermitente. Funcionam aos trancos e barrancos. Como foi o telégrafo, o telefone, o rádio e o televisor. Cunha nunca muda. É o que dizem…

Imagem de capa: Meramente ilustrativa, de uma agência postal com serviço telegráfico, gerada por inteligência artificial.

AZEVEDO, Paulo de C. No Forvm: memórias de um juiz. São Paulo: Gráfica Sangirard, 1984.
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Cunha, carvão e milho

Na década de 1940, a fim de conhecer o Brasil e fazer uma nova regionalização do país, o recém-fundado IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) organizou diversas expedições por todos os rincões do território nacional. Nessas expedições coletavam dados, tiravam fotos, analisavam rochas e o relevo, confeccionavam mapas e croquis, entrevistavam pessoas e, assim, obtinham um panorama geral dos lugares por onde passavam. Em um período analógico, com comunicações limitadas e anterior a era do sensoriamento remoto, essas expedições eram o meio mais eficaz de obter informações geográficas de uma porção do território. Geralmente, contavam com geógrafos, geólogos, cientistas sociais e outros profissionais de áreas afins. Uma dessas expedições passou por Cunha. Foi realizada entre os dias 29 de outubro e 2 de novembro de 1943 e foi liderada pela professora Mariam Tiomno. Partiu de Guaratinguetá, passou por Cunha e Paraty e terminou em Angra dos Reis. O relatório foi publicado no Boletim Geográfico do IBGE, em 1944. Sobre o município de Cunha foi relatado o seguinte:

“As várzeas são aproveitadas para plantio do arroz e as encostas para mandioca. O arroz também se desenvolve nas encostas por ser úmida a região. Notam-se, ainda, culturas associadas de milho e feijão. Continuando a viagem, atinge-se a fazenda d do Sr. Jose Verresqui, onde se dá a confluência do rio Cedro com o Paraitinga numa várzea larga bem cultivada. O caminho segue depois o rio Sapê, que consta na carta como rio Facão. O vale é profundo e encaixado entre as colinas. Nas encostas dominam os pastos onde ocorrem, às vêzes, capões fechados. No vale há pequenas plantações de milho, feijão e arroz. Do alto vê-se bem a grande regularidade daquela superfície de erosão muito antiga.

Croqui da Estrada Cunha-Guaratinguetá, atual Rodovia Paulo Virgínio (SP – 171), no final dos anos 1940. Autor: Carlos Borges Schmidt. Fonte: Boletim Paulista de Geografia, 1950.

Em Teodoro Cassinho passa-se para a vertente do Jacui; o antigo nível de erosão é marcado pelos seixos bem rolados vistos na margem da estrada. A vegetação apresenta-se mais abundante e exuberante. O feto arborescente surge pela 1ª vez. Encontra-se a araucária em grande quantidade. É bem observada a derrubada de árvores para produção do carvão vegetal exportado para o Rio, na razão de 3.000 sacas por mês.

O hábito de preparar a terra em ‘mutirão’ ou ‘butirão’ é aí notado. Pelo vale do rio Facão, que a estrada acompanha desde Curralinho, atinge-se Cunha. O vale apresenta-se bastante aprofundado e os sucessivos ciclos de erosão são marcados em Curralinho por níveis de seixos rolados. Nas margens do rio cultiva-se o trigo para consumo local.

As maiores produções do município são o carvão de madeira e o milho.

A sua exportação é, entretanto, pequena por ser empregado na alimentação do gado, principalmente suíno. Cêrca de 40.000 cabeças são exportadas anualmente. Dos produtos agrícolas o mais exportado é o feijão, depois a batatinha.

A produção se escoa pela estrada de Guaratinguetá. Há um comércio muito rudimentar com Parati; Cunha envia-lhe feijão e toucinho e recebe em troca peixe e parati. Êsse intercâmbio não se pode desenvolver pela carência de estradas. Cessando o movimento das tropas de Minas e São Paulo para Parati, passando por Cunha, a estrada ficou completamente abandonada não restando atualmente quase nada da mesma.

Cunha, situada sôbre um pequeno esporão, numa altitude de 960 metros, possui cêrca de 250 casas, tôdas antigas, inclusive a Igreja, e uma população de 1.100 pessoas. Goza de um clima temperado e de um regime de chuvas de verão e sêca no inverno. As chuvas vão de novembro a janeiro e são frequentemente acompanhadas de trovoadas e de fortes ventanias. A geada é aí outro fator climático importante, os seus efeitos se fazem sentir até o mês de novembro, daí não plantarem café.

Rua Dr. Casemiro da Rocha, centro de Cunha. Foto: Mário de Sampaio Ferraz. Data: 1940.

De Cunha para Parati segue-se de início pela estrada de rodagem de Tabuão, antigo caminho das tropas melhorado durante a revolução de 1932. O caminho atravessa o morro do Apertado donde se divisam dois ciclos de erosão, um cortando as camadas e formando a peneplanície e outro constituído pelo vale. Entre êles há esporões intermediários, num dos quais situa-se a cidade de Cunha.

A vegetação se caracteriza por uma espécie de cerrado conhecido com o nome de ‘carrascal’.

Vêem-se plantações de feijão que abrangem grandes áreas, pequenas culturas de arroz e campos de pastagens com capim gordura.

No bairro de São José da Boa Vista, existe uma capela aonde, nos períodos de grande sêca, os moradores vão em romaria orar para que chova.

Adiante, atinge-se o morro do Divino Mestre, numa altitude de 1.500 metros, distingue-se num 1º plano a peneplanície dissecada muito confusa. Apresenta níveis intermediários, num dos quais se vê a cidade de Cunha. Nessa peneplanície de 900 a 1.000 metros de altitude há um tipo de rocha homogênea, gnaisse-granítico, que exerce ação determinante na disposição de rêde hidrográfica, em ‘pata de ganso’. (…)”

Além do ciclo econômico do carvão, pelo qual Cunha passou e é pouco lembrado, outras dados interessantes trazidos por esse relatório são: a importância que a suinocultura para Cunha; o cultivo de arroz nas áreas de várzea, atualmente, desaparecido; a existência de manchas de Cerrado em nosso município (“carrascá”, na linguagem popular), recentemente confirmadas por uma pesquisa sobre botânica; o casario colonial da cidade ainda intacto; a relação umbilical existente entre Cunha e Paraty, complementando-se; a péssima situação da Estrada Cunha-Paraty, grande gargalo para o desenvolvimento local.

O prefeito de Cunha na época (Antonio Accacio Cursino) pediu aos geógrafos que levassem a situação dessa estrada ao conhecimento dos políticos da capital, que era o Rio de Janeiro; e por fim, a mais importante observação dessa expedição, que mudou a interpretação geomorfológica sobre o Domínio dos Mares de Morros, pois ficou claro nessa expedição que esse tipo de relevo evolui e foi dissecado ao longo do tempo pelo forte processo erosivo ao qual é submetido devido às condições climáticas tropicais.

Estrada Cunha-Paraty, em seu trecho fluminense, sem calçamento. Acervo: Prefeitura Municipal de Paraty. Data: década de 1940.

O ciclo do carvão vegetal, que se encerrou no final da década de 1960, foi responsável pela devastação dos últimos remanescentes de Mata Atlântica original em nosso município. Também foi o responsável pelo desbravamento do então Sertão do Rio Paraibuna. Havia carvoarias e serrarias onde, atualmente, é a sede do núcleo de Cunha, do Parque Estadual, no bairro da Paraibuna. Esse ciclo só foi freado e encerrado com o advento do Código Florestal, em 1965, e posteriormente, com a criação do Parque Estadual da Serra do Mar, em 1977, que não só resguardou o que restou da Mata Atlântica em Cunha, como recuperou parte da área que foi devastada, com práticas eficazes de reflorestamento. Os grandes veículos de nosso estado, como a “Folha de São Paulo” e “O Estado de São Paulo”, também foram responsáveis pela feliz finalização desse ciclo em Cunha, pois realizaram nos anos de 1960 e 1970 diversas matérias denunciando a destruição da Mata Atlântica nos sertões do Vale do Paraíba, apontando o sertão do rio Paraibuna como uma área sob ataque da sanha devastadora das madeireiras e carvoarias.

Imagem de capa: montagem ilustrativa, com fotos retiradas de banco de imagens.

Rumo ao berço

Por João Lellis Vieira

Não se pôde falar em berço, que não venha logo a mente a caminha  do bebê, com balanço ou fixo, de pau a pique ou dourada, conforme a bolsa dos respectivos genitores. A propósito: o Ilustrado dr. Laurindo Minhoto, velho professor e advogado, hoje em sua tebaida de Tatuí, conversava sobre essa história de se escrever “progenitor” como pai da criança, quando o termo exato, em boa linguagem e com vistas ao purismo gramatical, é “genitor”, que gera…

Estávamos em sua esplendida residência, em meio a livros, dicionários etc., no dia em que fomos representar s. exc. o sr. dr. Mario Lins, ilustre Secretario da Educação e Saúde Pública, no banquete das normalistas.

E o notável mestre, prosseguindo na sua explanação, latinista que é, insistia: Veja você, seu Lellis, “progenitor” e avô, isto é, pai do pai e não pai da gente! Explique isso numa das suas crônicas.

“Fiat voluntas tua”, seja feita a sua vontade. (S. Mateus, cap. XXII, v. 42). Por isso, obedeçamos ao mestre quando escrevemos: pai não é “progenitor”, é avô; pai é “genitor”. Confere. Toque o trole.

Fechado o parêntesis, voltemos ao berço. Berço e também a santa terrinha, onde se deixou o “imbigo” e onde se abriu o olhinho marreco pela primeira vez. Haja o cabra nascido em Caixa-Pregos ou Cascos de Rolha, seja o que for o povoado que lhe ouviu primeiramente o nhé… nhé… nhé… nhé… grande, pequeno, bonito, feio, atrasado ou progressista, ele o deve amar entranhadamente!

Pode ser que algum filho ingrato despreze o seu torrão, mas fique desde já acentuado, que no mínimo não é grande coisa… Sim! Urge cultuar a sua terra, porque é uma prova de bons sentimentos, de sensibilidade afetiva e de caráter eréctil. Para nós, sujeitinho pernóstico, que esconde o solo do seu nascimento, por ser uma terrinha modesta, simples, sem progressos e outros animais ferozes, não vale duas pitadas. Passe de largo. Até logo, oh coisa!

Estamos, nesta altura da crônica, seguindo para a invicta Cunha, a santa terrinha, como dizem saudosamente os portugueses, lembrando a poesia das suas aldeias e o encanto das suas paisagens.

Vamos lá passar um dia, domingo. Matar um pouco as saudades. Viemos dali com 10 anos, já se vão 51 janeiros puxadótes. Ha pouco ainda estivemos revendo os panoramas indescritíveis das suas visões serranas. É uma encantadora maravilha de clima. Um assombro de frutas as mais europeias, desde a cereja às nozes.

Povo admiravelmente bom. Criaturas que tiram a camisa do corpo para servir. Espírito  simples, sem o artificio das máscaras móveis, sem fingimento dos gestos estudados. Concordia nos homens. Paz nas famílias. Tranquilidade nas almas.

Se alguma vez, uma ou outra divergência se assinala entre as ótimas pessoas do lugar, logo o ramo de oliveira se estende sobre os pequeninos desentendimentos e a vida prossegue no ritmo harmônico da melhor união de vistas.

Em 1937, nossa última visita a joia da Mantiqueira, chamada Cunha, recordamos saudosamente o “tempo será, de missiocó, laranja da China, tabaco em pó, quem é o mais durão, sou eu só só”… Depois, a tal de angina pectoris deu de brincar com a crônica, (mas levou no côco, foi-se! que a barreu! e isto porque a paquera era e é cunhense, rija, da boa) e só agora podemos dar um pulozinho aquele presépio que Nosso Senhor perpetuamente construiu nos picos da serra Quebra-Cangalha.

Quanta coisa linda e evocativa temos para ver e recordar na santa terrinha! O Cruzeiro, que o padre Bartholomeu Taddei, há 50 anos, plantou no Alto da Cadeia; o chafariz (ainda o mesmo) que o saudoso dr. Casimiro da Rocha inaugurou fazendo jorrar o líquido… que “pau d’água” não bebe; a chácara pitoresca do ilustre cunhense Juca Pereira; a casa do Chico Mendes, que acordava a população às 5 da manhã, tocando tambor numa caixa de querosene; a residência, com terraços, do inesquecível João José Vaz; o mercado antigo (quitanda) onde havia coqueiros magníficos com os devidos coquinhos amarelinhos; a Cachoeira, a Várzea do Gouvêa, a chácara da Calina, a chácara do Juca Bangu, o Bexiga, a chácara do Zé Joaquim, o sobrado do vigário padre Gomes, notável por suas pinturas internas representando episódios heroicos do Paraguai; a Igreja da Lapa, que caiu; a Igreja do Remédio, que também não existe mais; a capela de S. José, o Taboão, a escola do Rocambole, a fazenda Rio Abaixo, o sítio do Ladislau… Como tudo isto tem um sabor “irredutível ao verbo”, na frase de Eça de Queiroz!

E as festas de S. João, as fogueiras, a folia, a bandeira do Divino, os tocadores de viola, pandeiro, rufo… Havia um deles, um tal Claudio, turuna nas rufadas! E o “Império” com distribuição de cartuchos de doce. E a Semana Santa, todos de preto…

Vinham de outros lugares dois padres para ajudar o cônego Siqueira, um deles, o padre Velludo, com uns lenços de rapé muito molhados, estendidos na janela… pra enxugar!

E o “Tôco”, o cachorro do vigário, sempre ao lado do inesquecível sacerdote!

Vamos, rumo a Cunha, passar em revista, pela memória, todo esse tempo que não se apaga, corram os anos ou “carequem-se” as… cabeleiras!

Bendita sejas tu, oh terra do paraíso, onde se perpetua a saúde, onde se ouvem as harpas do heroísmo, cantando eternamente os salmos da vitória!

Museu de Cunha realiza exposição “Das Gamelas: corpo, memória, farinha”

“Sim, na roça o polvilho se faz a coisa alva: mais que o algodão, a garça, a roupa na corda. Do ralo às gamelas, da masseira às bacias, uma polpa se repassa, para assentar, no fundo da água e leite, azulosa — o amido — puro, limpo, feito surpresa”.

Conto “Substância”, de João Guimarães Rosa

Tem sido uma grata surpresa essa nova fase do Museu Francisco Veloso. Assumindo a sua função primordial, que é a pedagógica, de abrir seus espaços para contar e deixar que o povo de Cunha conte suas histórias. É nessa perspectiva que desde o dia 19 de julho de 2025 abriu suas portas para receber a exposição “Das Gamelas: corpo, memória, farinha”, que celebra os saberes ancestrais, a mandioca, o barro, a farinha e a força feminina no território local.

Figurino da personagem “Maria Exita”, usado pela artista e dançarina Dalila D’Cruz. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

A idealizadora da exposição é Dalila D’Cruz, artista visual, professora, atriz e dançarina, que atualmente reside em Cunha. A ideia, segundo ela, nasceu do seu encantamento com o conto “Substância”, de Guimarães Rosa, sobretudo com a personagem “Maria Exita”, mulher e arquétipo, figura central do conto. “Maria Exita” vai trabalhar na fazenda “Samburá”, em uma casa de farinha, no sertão mineiro. Ali prepara o polvilho, a substância alimentar e necessária. Tarefa árdua, que consome o tempo de muitos; mas que por ser difícil de se fazer, guarda tanta beleza e muitos saberes em seu fabrico. No conto, Guimarães Rosa, com sua maestria, faz um paralelo entre a vida de “Maria Exita” e a fabricação do polvilho. O interesse de Dalila pela personagem vem dos seus tempos de teatro, quando trabalhou em uma peça o livro “Primeiras Histórias”, de Guimarães Rosa, e justamente o conto que ela mais gostou (“Substância”) não entrou. Daí veio o seu interesse de estudá-lo pela dança. A atual exposição é o prolongamento desse interesse, do seu encantamento com arte de fazer farinha de “Maria Exita”.

A artista e idealizadora da exposição Dalila D’Cruz posa segurando a gamela. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Em Cunha, Dalila foi para o campo em busca dessas muitas “Marias Exitas”, que residem pelo extenso território rural cunhense. Silenciadas em suas casas de farinha, em seus monjolos, mexendo os seus tachos, esparramando farinha em suas gamelas, fazendo história… E encontrou. Assuntando aqui e acolá, juntamente com a equipe do Museu Francisco Veloso (Dina, Maiara, Izabel, Isabelle, Andreas e Thales), percorreram eles os lugares e as memórias das casas de farinha da Dona Neusa & Seu Derly, de Dona Zico, de Dona Antônia, de Dona Joana, do Seu Zico, da Dona Nê & Seu Jair Rosa, de Dona Nadir e até de Seu Zé Pedro, este cunhense radicado em Ubatuba… Não só de mandioca, mas de milho principalmente. Farinha de milho de monjolo. Ou só farinha de monjolo. Por que a preferência local por esse cereal americano? Vem de longe. Para o historiador Sérgio Buarque de Holanda, a farinha de milho era a preferida dos colonos paulistas, tanto em razão de a planta “se ajustar melhor aos hábitos peculiares à gente de serra acima” (o milharal podia ser colhido em apenas 4 meses) como pela produção em maior escala se comparada à da mandioca.

Uma homenagem às casas de farinha de Cunha. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Por isso, “Das Gamelas” (o título vem de um trecho do conto, já citado acima) é um projeto cultural que une tradição e inovação. Foi inspirada nas casas de farinha e visa transformar memória e ancestralidade em arte viva, conectando o público à cultura popular de forma sensorial e poética, inspirando aqueles que dela participam. A exposição tem recebido muitos visitantes, sobretudo alunos, de todas as faixas etárias, das diversas escolas de Cunha. Mais de 500 estudantes cunhenses já visitaram a exposição. Desse modo, o Museu assume o seu caráter pedagógico, educativo, ao propor aos estudantes uma experiência de valorização do passado (material e imaterial), dos saberes tradicionais, da realidade local, a um público, paradoxalmente, marcado pela conexão excessiva com espaços digitais e desconexão com lugar onde vivem. Seguindo nesse percurso formativo e educativo, o Museu tem promovido durante as quartas-feiras, após às 18h, rodas de conversa e leituras do conto “Substância”, de Guimarães Rosa, realizando encontros entre palavra e prática, tradição e território. Momento de literatura enriquecida e contextualizada pelas memórias locais.

O gesto das mulheres da terra, nos seus ofícios, é movimento. É criatividade, poesia, tradição e história. Porque farinha não é só comida; é história. É memória e brasilidade. É o pão nosso de cada dia das faixas tropicais, porque foi o “primeiro conduto alimentar brasileiro pela extensão e continuidade nacional”. É o alimento, por excelência, dos sertões, como aponta o historiador potiguar Câmara Cascudo:“(…) mais conhecidas no emaranhado dos caminhos exploradores. A farinha indispensável era a explicação única. Comida para todos, portugueses e mazombos, a indiada fiel, fosse qual fosse o nível social participante.”. A explicação para a presença única desse alimento entre as gentes do interior vem do geógrafo Caio Prado Júnior. Diz ele: “pelas qualidades nutritivas da farinha, adaptabilidade da sua cultura a qualquer terreno e excepcional rusticidade, a mandioca, introduzida pela tradição indígena, foi universalmente adotada pela colonização como gênero básico de alimentação; e assim se perpetuou até nossos dias. É certamente a maior contribuição que nos trouxe a cultura indígena.” Como bem colocado no título “A Raiz Que Nos Fez Nação”, livro da autora cachoeirense Evelym Landim, a mandioca (aipim, macaxeira) é um dos pilares da cultura alimentar e da identidade brasileira.

Entrevista de Dalila D’Cruz ao “CANAL39 -TURISMO E CULTURA”, no YouTube, sobre a exposição “Das Gamelas”.

Quando, nos anos de 1940, o sociólogo Alceu Maynard Araújo, esteve realizando pesquisas junto aos agricultores de Cunha para o seu livro “Ciclo agrícola: calendário religioso e magias ligadas à plantação”, percebeu que a farinha fazia parte da alimentação básica do cunhense. Estava em todos os momentos. Cedo e à tarde, misturada com café ou com ovos na forma de farofa; na hora do almoço e da janta, misturada com feijão e torresmo ou engrossando e encorpando a quirera. Em Cunha, a farinha, por excelência, era de milho, cereal basilar. Mas havia também a produção de farinha de mandioca, em menor escala. Quando havia falta dessa farinha, recorria-se aos tropeiros, que a buscavam na vizinha Paraty, grande produtora e com uma farinha de mandioca com qualidade superior à de Cunha.

Outro ponto de encontro entre a exposição e a história é valorização que faz dos instrumentos usados na fabricação da farinha, itens indispensáveis à indústria doméstica, essa característica marcante do tempo colonial que ainda existe pelos sertões do nosso país. Gamelas, prensas, ralos… Objetos atravessados pela história, que estão imbricados na formação do povo brasileiro, como anota Sérgio Buarque de Holanda: “(…) vários instrumentos alienígenas se adaptarão também à necessidade de se prepararem para o consumo os produtos nativos de maior procura, aparecendo, assim, a prensa e o ralo de metal para a mandioca, o monjolo para pelar e pilar milho (…)”. São peças que, ao lado das memórias e saberes, ajudam a entender o nosso passado, pois são legados culturais. Essa exposição, antes de tudo, valoriza o jeito caipira de ser do cunhense.

Ralo caipira. Uma das peças da exposição. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

A poeta caipira Adélia Prado certa vez escreveu: “a coisa mais fina do mundo é o sentimento”. O grande tema do conto de Guimarães Rosa é o da importância da essência, da “substância”. Dentro da construção da narrativa, percebe-se que a grande essência é o amor, essa substância fina como o polvilho, sentimento nobre e tão presente na vida e no ofício dessas “Marias Exitas”, que a exposição “Das gamelas” trouxe a lume. E não existe coisa mais alva, mais limpa e mais pura para um museu que dar voz e vez às pessoas simples da roça, historicamente esquecidas. O Jacuhy parabeniza o Museu Francisco Veloso, pela abertura e exposição, e a artista Dalila D’Cruz, pela sensibilidade e idealização “Das gamelas”. Cunha merece.

A exposição, que começou dia 19 de julho, vai até o dia 30 de setembro de 2025. Entrada franca. Não perca!

Localização do Museu Francisco Veloso (Google Maps):

Foto de capa: Dalila D’Cruz apresenta a exposição aos alunos cunhenses. Foto: Dina Zélia Chimello. 2025.

Cunha e suas águas minerais

Nos idos de 1875, as fontes de águas minerais de Cunha já eram conhecidas no estado de S. Paulo. Engana-se, portanto, quem pensa que elas foram descobertas no século XX. Em sua obra “A província de S. Paulo: trabalho estatístico, histórico e noticioso”, publicado em 1875, escrita pelo senador Joaquim Floriano de Godoy (1826 – 1907), ao descrever as fontes de águas minerais paulistas conhecidas, aponta: “Só são conhecidas algumas fontes e entre estas as do municipio de Cunha, de agua ferrea, e em S. João Baptista uma fonte thermal sulphurosa na vertente paulista da serra de Caldas da provincia de Minas Geraes”. Alguns anos depois, em 1882, através de um ofício endereçado à Assembleia Provincial, a Câmara de Cunha cita que “no lugar denominado Pedra Branca”, na então Freguesia de Campos Novos, havia uma fonte de água que “na crença popular diz ser milagrosa”, de “gosto nauseante”, de temperatura “em certas ocasiões mais sensivelmente elevada que o ambiente”, porém ainda desprovida de uma “análise qualitativa” que determine suas propriedades físico-químicas.

Parte do ofício da Câmara da Cidade de Cunha, destinado à Assembleia Provincial de S. Paulo, relatando a existência de águas minerais em nosso município. Fonte: ALESP. Data: 1882.

A fama da água de Cunha se espalhou pela província de tal forma, que chegou aos ouvidos do endinheirado empreendedor Barão da Bocaina, o Francisco de Paula Vicente de Azevedo, que era aficionado por lugares que possuíam fontes de água mineral. Em 1912, ele adquiriu as terras da região, comprando a “Fazenda Jaboticabal”, criando, assim, a “Companhia Águas Mineraes Santa Rosa”. Seu projeto era criar uma cidade no entorno das nascentes, a exemplo do que fora feito em Campos do Jordão, empreendimento urbano patrocinado e dirigido pelo Barão.

Visita do Marechal Mallet, então Ministro da Guerra, em janeiro de 1902, a São Francisco dos Campos, em terras do Barão da Bocaina, que aparece em primeiro plano. Foto e Descrição: Fundação Christiano Rosa (Piquete – SP).

Na década de 1940, Cunha lutaria, com o apoio de alguns deputados, junto ao Governo Estadual, para se tornar uma Estância Hidromineral. As outras cidades, que já detinham esse título, pressionaram politicamente o governador e os deputados, a fim de barrar o intento cunhense. Obtiveram sucesso. Como prêmio de consolo, Cunha recebeu o título de Estância Climática, em 28 de outubro de 1948. Tarde demais para se tornar uma cidade-sanatório. A penicilina já havia chegado ao Brasil, por meio do pesquisador Henrique de Souza Filho, (do Instituto Oswaldo Cruz), em 1943. Ele foi responsável por realizar os primeiros experimentos com o antibiótico fora da Inglaterra, onde foi descoberto por Alexander Fleming. Esse remédio trouxe um impacto significativo na saúde pública, permitindo o tratamento de diversas doenças infecciosas, entre elas a tuberculose, que antes eram consideradas graves e muitas vezes fatais. As cidades sanatoriais, de “clima salubérrimo” (como gostava de adjetivar Cunha o entusiasta João Lellis Vieira, em sua coluna no “Correio Paulistano”), foram aposentadas.

Recorte do diário “Correio Paulistano”, de 28 jul. 1940, p. 3, em um dos muitos artigos que Lellis Vieira apresenta Cunha como a “Suíça Brasileira”. Fonte: Biblioteca Nacional.

Aliás, digna de nota é a batalha inglória, que João Lellis Vieira (Cunha, 15 de julho de 1880 – São Paulo, 5 de junho de 1949), diretor do Arquivo Público do Estado de São Paulo de 1938 a 1947, travaria nas colunas do “Correio Paulistano”. O cronista ergueu o estandarte de Cunha como a legítima “Suíça Brasileira”, insígnia disputada com Campos do Jordão. O “Correio Paulistano” foi o órgão oficial do Partido Republicano Paulista (PRP), partido que durante muitas décadas reinou em São Paulo. Cunhense, antigo perrepista, católico praticante, historiador e poeta, Lellis Vieira era graduado pela Faculdade de Filosofia de São Bento e membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Nomeado pelo governador Ademar de Barros, dirigiu o Arquivo Público até 1947, quando assumiu o Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, ocupando esse cargo até falecer. Campos do Jordão, cidade situada no alto da serra da Mantiqueira, venceu essa batalha, ficando famosa e sendo reconhecida como a “Suíça Brasileira”.  O próprio governo estadual construiu lá o seu palácio de inverno (“Palácio Boa Vista”) encerrando, assim, a questão.

Página do livro “A província de S. Paulo: trabalho estatístico, histórico e noticioso”, publicado em 1875, escrita pelo senador Joaquim Floriano de Godoy, que cita as águas minerais de Cunha. Fonte: Acervo digital da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM).

Foi somente em 1975 que a água mineral de Campos de Cunha passou a ser comercializada. A iniciativa veio do empresário Ghisleni Giulio, que adquiriu a fazenda nos anos de 1960. A “Águas Virtuosas Santa Rosa”, como era conhecida, em pouco tempo conquistou muitos fregueses devido à sua composição mineral, leveza e alto grau de pureza. Atualmente, é comercializada com o nome “Serras de Cunha” e pertence ao grupo “Águas Prata”.

Sob o território cunhense existe um reservatório de água com mais de 550 milhões de anos. É o Aquífero Cristalino, formado pelas rochas mais antigas do estado de São Paulo. O Cristalino aflora na parte leste do estado, cobrindo uma área de aproximadamente 53.400 km², conforme mostra o mapa acima. Ele está presente em outros municípios como Campos do Jordão, Águas de Lindóia, Jundiaí, Iporanga e até na Região Metropolitana de São Paulo.  O Aquífero Cristalino é composto por rochas ígneas e metamórficas — tipos de rochas muito resistentes, formadas em condições extremas de temperatura e pressão. A água subterrânea no Cristalino se acumula e circula por fraturas nas rochas. Essas fendas surgiram muito tempo depois da formação das rochas, como resultado de movimentos tectônicos, como a separação dos continentes e a formação da Serra do Mar.

Desenho esquemático do Aquífero Cristalino Pré-Cambriano, com suas fraturas. Fonte: Instituto Geológico.

Dependendo do tipo e da quantidade dessas fraturas, o aquífero pode ter maior ou menor vazão. O Cristalino é dividido em duas unidades, sendo a principal o Aquífero Pré-Cambriano, que é o aquele que abrange o nosso município e possui as rochas mais resistentes e antigas. Sua produtividade é geralmente baixa e bastante variável, dependendo da presença de fraturas abertas. Apesar da produtividade variável, a água do Aquífero Cristalino é de boa qualidade e pode ser usada para consumo humano, possuindo diversas fontes minerais em sua área de ocorrência.

Recorte de um mapa com os principais recursos minerais que podem ocorrer em Cunha. Fonte: ANM, 2025.

A água é a principal riqueza mineral de Cunha. De acordo com recente consulta que fizemos à Agência Nacional de Mineração (ANM), a única concessão de lavra que existe em nosso município está outorgada às Águas Prata Ltda. e foi concedida em 1974. Na condição de requerimento ou autorização para pesquisa, além da água mineral, há outros minerais que estão sendo pesquisados por aqui: feldspato, argila, areia, ferro, terras raras, caulim, gnaisse e granito. Na área fronteiriça com o município de Lagoinha há dois requerimentos de lavra da Cerâmica Industrial de Taubaté Ltda. para exploração de caulim.

Foto de Capa: Represa da “Serras de Cunha”, bairro das Águas, Distrito de Campos de Cunha, Cunha – SP. Data: 2024.

Leia mais: Cunha e suas águas minerais

Um recorte de papel

Um recorte na Cunha de 1940. Uma abertura para a Cunha de 2024.

Um recorte de papel pode ser um recorte no tempo?

O croqui mostrado acima é da década de 1940, quando o chafariz ainda estava lá centro, e nossa cidade ainda não havia superado completamente o seu passado. Na Praça da Matriz tinha um chafariz. Ornamento? Não, sistema público de abastecimento de água. Foi inaugurado em 31 de dezembro de 1886. A maior obra empreendida pela Câmara de Cunha no século XIX. Se não a maior, pelo menos a mais custosa. Um desafio: abastecer uma vila edificada sobre o outeiro. Foi uma grande conquista local para a época. O problema do abastecimento de água na cidade, entretanto, tem resistido ao tempo e às tecnologias. Volta e meia ele emerge. E o povo sofre e reclama. Como antes.

Praça da Matriz de Cunha. Década de 1960. Arquivo: Museu Francisco Veloso.

Voltando ao chafariz, quando houve o calçamento do centro, feito por volta década de 1960, ele já havia perdido sua função saneadora e, na visão dos gestores locais, também a estética. Assim, foi realocado para um novo lugar, à altura de sua condição de coadjuvante. Foi depositado dentro do Mercado Municipal. Um artefato relegado ao ostracismo, aos cantos, ao esquecimento. Muitos conterrâneos desconhecem o seu paradeiro e sua história.

O antigo chafariz da Praça da Matriz, que está atualmente no Mercado Municipal. Foto de 2024.

O Jacuhy luta contra essas amnésias. É uma luta inglória e inútil, pois o tempo é implacável. Há muita coisa para ser relembrada e pouca gente se dedicando a essa tarefa. “A seara é grande, mas poucos são os ceifeiros”.

E o que eram esses croquis? Em 1940, o Brasil realizou o seu quinto recenseamento geral. Por ser o primeiro a ser realizado pelo IBGE, apresentou inúmeros desafios. Várias atividades foram desenvolvidas para dar suporte técnico ao Censo, entre elas a Campanha Nacional das Coordenadas Geográficas, executada pelo CNG, e que implicou no levantamento de coordenadas geográficas (latitude e longitude) para as sedes de todos os municípios brasileiros existentes àquela época.

No estado de São Paulo, o levantamento foi executado pelo pessoal técnico do antigo Instituto Geográfico e Geológico (IGG). Entre mais de 400 croquis em papel vegetal, coloridos à nanquim, com a localização de diversos marcos de coordenadas geográficas espalhados pelo estado, 4 deles foram implantados no município de Cunha. Além das sedes urbanas, alguns pontos de interesse geográfico ou administrativo também foram geolocalizados. As medições de Cunha foram realizadas entre 1940 e 1941.

Esses são os lugares do município de Cunha que receberam os Marcos de Coordenadas Geográficas do IGG:

Local: Bairro da Barra (Chico do Lau) – na divisa com o estado do Rio de Janeiro.
Data: maio, 1941.
Coordenadas: Latitude: 23º 03’ 17”.0 S; Longitude: 44º 48’ 40”.1 O

Croqui de coordenada geográfica do bairro da Barra do Chico do Lau. Fonte: Arquivo do IGC.

Local: Campos de Cunha (torre da Igreja de N.ª Senhora dos Remédios).
Data: maio, 1940.
Coordenadas: Latitude: 22º 55’ 15”.4 S; Longitude: 44º 49’ 11”.9 O

Croqui de coordenada geográfica da vila de Campos de Cunha. Fonte: Arquivo do IGC.

Local: Cunha (torre direita da Igreja Matriz).
Data: maio, 1940.
Coordenadas: Latitude: 23º 04’ 27”.0 S ; Longitude: 44º 57’ 35”.8 O

Croqui de coordenada geográfica da cidade de Cunha. Fonte: Arquivo do IGC.

Local: Garganta do Cedro / Serra do Mar (Bairro da Várzea do Cedro).
Data: maio, 1940.
Coordenadas Geográficas: Latitude: 23º 11’ 44”.2 S ; Longitude: 44º 52’ 23”.0 O

Croqui de coordenada geográfica do bairro da Várzea do Cedro. Fonte: Arquivo do IGC.

Um pequeno recorte de papel vegetal, colorido à nanquim, pode abrir espaço para muitas memórias. São marcos para muito além da geodésia.

Referências:
Croquis de Coordenadas Geográficas do IGG. Fonte: Arquivo do IGC.
Fotografias de Cunha. Fonte: Arquivo do Museu Francisco Veloso.
Livro “A História de Cunha” (2010), do prof. João Veloso.