25 de setembro de 2010 – Lançamento do livro “A História de Cunha”, do professor João Veloso

O homem e a obra. Veloso tem nas mãos “A História de Cunha”. Foto: Geraldo Magela Tannús. Ano: 2010.

Há 11 anos era lançada a obra “A História de Cunha – 1600-2010 – Freguesia do Facão – A Rota da exploração das minas e abastecimento de tropas“, do professor e historiador cunhense João José de Oliveira Veloso (1945-2020), um livro que é fruto de uma vida de pesquisa. Páginas e páginas de muita informação, fatos e fontes primárias sobre a História de Cunha, antiga Freguesia do Facão.

E foi lançado em 2.010, justamente no ano em que Cunha viveu uma terrível catástrofe climática, revelando o caráter providencial do livro, pois diante do cenário de destruição que estava posto, nada mais inspirador para reconstrução do que olhar para grandeza do nosso passado.

São 496 páginas de pura história, quase sempre recheadas com fontes primárias. Fruto do amor e desprendimento de um apaixonado por Cunha: o professor João Veloso. Ele, tal como os sertanistas de outrora, explorou corredores e estantes empoeiradas dos arquivos públicos, enveredou-se por museus, inquiriu cunhenses que já se foram, averiguou obras, artigos e teses, campeou fotos e artefatos, desenterrou pilhas e pilhas de testamentos e doações de sesmarias, reconstituiu as sendas das tropas e os caminhos perdidos. Lapidou todas as informações colhidas, organizando-as e fazendo a sua interpretação. Para, finalmente, nos entregar essa obra valiosíssima. É um livro definitivo? O próprio professor Veloso, com a humildade que lhe era típica, rechaçou essa qualificação. Para ele, havia muito a ser pesquisado e muitas perguntas sem resposta na história local. Mas, convenhamos, não há mais nada de essencial a ser dito. Alguns fatos, talvez, ainda possam ser pormenorizados e ampliados, como o próprio professor João Veloso fez questão de deixar claro, quando deu uma aula pública, em 2017, na homenagem que a Câmara de Cunha lhe rendeu, na data em que foi aprovada a mudança do dia de comemoração de aniversário de Cunha para 19 de março. Essa retificação foi ancorada na pesquisa que culminou na publicação do livro “A História de Cunha (1.600 – 2.010)”, pelo professor João Veloso.

Foram mais de 40 anos de pesquisas realizadas por um professor abnegado, que não mediu esforços físicos e financeiros para trazer à lume um passado quase esquecido. Tirou o pó da grandeza do passado de Cunha, nos presenteando com a publicação. Como diz o professor José Eduardo Marques Mauro (professor do IEB-USP), o “livro patenteia o coroamento de todo um extenso e duradouro trabalho do autor, que, apresentado com esmerada publicação, assume o significado de uma autêntica dádiva ofertada à cidade e a população do município, se constituindo em um reforço ao aperfeiçoamento da identidade local e regional da população cunhense”. O professor Nelson Pesciotta (USP/UNITAU, ex-presidente do IEV), in memoriam, foi além. Para Pesciotta, o livro do professor João Veloso foi “uma certidão de nascimento para Cunha”. E foi mesmo!  Descortinou o nosso passado, situou o Cunha (Facão) no tempo e foi a primeira obra exclusiva sobre História de Cunha. E, pela sua abrangência temporal e qualidade acadêmica, é até hoje a única. Por ser insuperável, deve ser lida e consultada. Não é à toa que o professor José Eduardo disse que compreender a História de Cunha é uma forma de compreender a História do Brasil, já que na micro-história do município é possível pôr em evidência o pulsar da Nação.

O professor João Veloso foi o fundador do Centro de Cultura e Tradição de Cunha, criador e mantenedor do Museu Municipal “Francisco Veloso” e foi membro ativo do IEV (Instituto de Estudos Valeparaibanos). Também fez a tradução do livro “O fim de uma tradição”, do antropólogo Robert W. Shirley, obra de referência nas áreas de Sociologia e Antropologia, no que concerne ao estudo de comunidade.

A obra “A História de Cunha“, atualmente esgotada, fomentou o interesse e o debate sobre a História local, servindo de referência para outros livros e dissertações sobre Cunha que foram lançadas no último decênio. Podemos dizer ainda que são frutos dessa obra ímpar o grupo do Facebook “Memória Cunhense“, um dos maiores do Vale sobre a temática memorialista, e a retificação da data de fundação do município de Cunha (agora 19/03/1724 e não mais 20/04/1858).

Mais que um historiador, o professor João foi um defensor do patrimônio histórico e cultural cunhense, um cidadão ativo na defesa da cultura e tradições do nosso povo. Em 2008, junto com o professor José Eduardo Marques Mauro, encetou um movimento que resultou na criação do COMPHACC (Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Cunha), realizando o tombamento dos imóveis históricos da cidade de Cunha, estabelecendo uma área de envoltória para preservar a nossa paisagem urbana. Graças a esse tombamento, em 2018, veio o tombamento estadual, realizado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT), órgão do Governo de São Paulo.

O livro “A História de Cunha” não foi a sua primeira obra e não foi a última. Em 2014, lançou “A história de Zina: a saga de uma família da zona rural cunhense”, uma ficção histórica romanceada. Suas crônicas, presentes no livro “O ambiente natural cunhense” são ótimas e merecem ser relidas. Um retrato fiel do povo de Cunha, de seus modos e dilemas, com uma boa dose de sofisticada ironia. Quando partiu, no começo deste ano, tinha um livro no prelo, sobre as manifestações folclóricas do município. Torcemos pelo lançamento. Como obra póstuma e como uma forma de gratidão do povo de Cunha a quem tanto fez por nosso lugar.

Uma segunda edição da obra “História de Cunha“, revista e ampliada, vinha sendo preparada, antes do repentino e infeliz falecimento do professor João Veloso. Mas quem sabe não possa sair nos próximos anos? Em 2024, Cunha irá comemorar o seu Tricentenário. E uma segunda edição dessa obra é um presente e tanto para comemorar tão significativo jubileu. Cunha merece!

Fonte:
VELOSO, J. J. de O. A História de Cunha (1600-2010): Freguesia do Facão: A rota da exploração das minas e abastecimento das tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.

Obs.: Texto publicado em 25 de setembro de 2020, na página Jacuhy, do Facebook, na série “Hoje na História de Cunha”. A redação foi alterada em virtude do falecimento do professor e historiador João Veloso, em novembro de 2020.

4 comentários em “25 de setembro de 2010 – Lançamento do livro “A História de Cunha”, do professor João Veloso

  1. Correção :meu amigo Prof João ,faleceu de um ataque cardíaco ,no dia 30 de novembro de 2020 ,uma triste segunda -feira chuvosa ,em que as homenagens merecidas não foram possíveis devido à Pandemia .

    1. Verdade, Eloiza. Eu estive no velório. E tomei a chuva no Cemitério, acompanhando o sepultamento. Texto já corrigido. Grato por sua atenção. Abraços!

  2. Olá! Onde poderia encontrar o livro? Tenho familiares em Cunha e gostaria de saber um pouco mais. Obrigada!

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