Paisagem do bairro do Barreiro – Cunha – SP. Julho, 2018.
aos poucos os nossos verdes vales vão esvaecendo
as pastagens vão se rareando, ficando ralas, tosquiadas
e, olhando aqui de riba, dá pra ver a poeira
acompanhando as estradinhas lá embaixo
o ar começa a ficar pesado, meio azulado,
parece querer também ficar deitado,
aninhar-se entre as montanhas
por isso a neblina só dissipa depois que o Sol está alto
ou "rachando mamona", como dizia meu avô
é o frio, é a geada, é inverno em Cunha
tempo de tudo se recolher, guardar-se
como a gente mesmo se recolhe dentro de casa
na boca do fogão ou num agasalho,
os bichos e os matos também têm a mesma ciência
quase nada que é plantado sai, os bichos se entocam,
vaca esconde o leite, galinha não gosta de chocar,
e até o tempo, arisco que é, obedece
perceberam que até as noites ficam mais longas?
há quem prefira a primavera, com suas chuvas de trovoada
e que faz os passarinhos sair em festança pelo céu,
dançando e se fartando entre as revoadas de aleluias
nos quatro cantos, tudo o que tem na terra acaba brotando
trazendo o verde mais vivo que a esperança de volta
até a terra entra no cio, dá pra sentir que ela fica quente,
esperando o caboclo lançar a semente de milho e feijão
mas prefiro mesmo o inverno, não por que gosto
das coisas estorricadas pela geada e pelo vento frio
nem de ver os vitelos encarangados no canto do mangueiro
Mas por que através dele, o Criador, penso eu, nos ensina
uma grande lição e que não pode ser esquecida
que no vai-e-vem da vida, no acontecer das coisas,
também temos que dar uma parada
para assentar as ideias no lugar, esperar a poeira abaixar,
matutar sobre o que fizemos e como fazer diferente,
assuntar sobre a nossa própria vida e - por que não? -
para descansar os cambitos e prosear
Para daí, sim, voltar com a mesma força e palpite
que voltam os matos e os bichos quando chega a primavera
(julho, 2018)