Migrar é ação inerente à história da Humanidade. Desde os mais remotos tempos, mudar de lugar para suprir suas necessidades parece ser uma condição que acompanhou e garantiu a existência das sociedades humanas, levando à sua dispersão pelo Globo. A geógrafa francesa BEAUJEU-GARNIER (1980, p. 191) discorre a esse respeito: “o homem é uma criatura móvel, capaz de investigar, suscetível à sugestão e dotada de imaginação e iniciativa. Isso explica a razão pela qual, tendo concebido a idéia de que suas necessidades podem ser satisfeitas algures, decide não só ir a esse lugar como, também, sobre os meios por que seu projeto pode ser realizado.”. E assim tem feito desde que se pôs a andar, há milhões de anos.

São Paulo, nosso estado, foi receptáculo, desde o final do século XIX, de inúmeras levas de imigrantes que partiram para o Novo Mundo: italianos, japoneses, libaneses, alemães etc. Já no século XX, foi a vez dos nordestinos fluir em grandes levas para cá, acompanhando a necessidade das indústrias por mão de obra barata, abandonando a região de origem e os graves problemas e disparidades sociais até hoje não superados. Por isso o geógrafo brasileiro Milton Santos faz questão de anotar e chamar a atenção para a complexidade do fenômeno migratório, ao escrever que “o fenômeno das migrações aparece, portanto, estreitamente ligado ao da organização da economia e do espaço, vistos de um ponto de vista dinâmico.” (SANTOS, 2008, p. 306). A questão migratória vai além dos fatores psicológicos e mesmo das diferenças de renda entre os trabalhadores do campo e da cidade.

Cunha e outros municípios do Alto Vale do Paraíba vivenciaram no século passado um processo inverso do estadual. Porque, como afirmou SANTOS (2008, p. 301), as migrações são expressões da desigualdade espacial, resultado dos mecanismos de modernização, da influência da grande cidade sobre parte da área rural próxima. Assim, as circunstâncias históricas e econômicas fizeram prevalecer nestas paragens o êxodo rural. Camponeses sem acesso à terra (meeiros, agregados, inquilinos etc.) e pequenos agricultores com baixos rendimentos deixaram o campo cunhense e partiram para outras cidades do Vale do Paraíba e da Região Metropolitana de São Paulo, em busca de emprego, melhores condições de vida e maiores salários. Durante todo o século XX, essas perdas migratórias enxugavam as altas taxas de natalidade e de fertilidade, impedindo o seu reflexo no aumento natural da população municipal. Desse modo, a população de Cunha ficou estagnada na casa dos vinte mil habitantes durante todo o século passado. E assim permanece.
Essas condições podem ser observadas nas pirâmides etárias de Cunha. Os gráficos são reveladores quando se trata da estagnação demográfica em que o município se encontra há mais de um século. Cunha se fechou em uma agricultura familiar e de subsistência, de baixo rendimento, autóctone, calcada na plantação consorciada de milho/feijão e na pecuária extensiva. Tudo muito impróprio, dada às condições geomorfológicas do lugar, território acidentado em cada canto. E sem acompanhar (por muitas razões) as inovações tecnológicas do agronegócio. Não porque os agricultores cunhenses assim quiseram, mas porque estruturas poderosas, que se articulam em escalas superiores a local, implantaram e porque a lógica do capital é geradora de desigualdades, privilegiando certos espaços e se esquecendo de outros. O Brasil viveu durante o século XX um projeto avassalador de modernização, que culminou na concentração espacial da produção e consumo (SANTOS, 2008, p. 305-306), sobretudo nas grandes cidades, que serviram como espaços de recepção de bens, pessoas e capitais desses projetos do mercado, em prejuízo das cidades pequenas e zonas rurais.

Percebe-se, observando as pirâmides etárias do município, que as barras sofrem uma retração quando estão nas faixas etárias que compreendem a população em idade ativa (conforme se vê na imagem acima), que vai, geralmente, dos 16 aos 60 anos. Isso é um claro indicador do impacto do saldo migratório negativo. Muitos jovens, após se formarem no ensino médio, acabam deixando Cunha e partindo em busca de emprego, por isso há essa depressão no miolo da pirâmide. O mesmo fenômeno não é observado no estado de São Paulo e nem nos municípios da região que foram capazes de oferecer oportunidades de emprego, seja no comércio, serviços ou nos seus parques industriais. Mesmo se decidem permanecer no campo, o sítio da família, um minifúndio explorado pela força do trabalho familiar, não é capaz de propiciar renda para todos os filhos. Muitos têm que se mudar, mesmo a contragosto. É a chamada “migração ascendente” (SANTOS, 2008, p. 304), que se relaciona com o êxodo rural, fluxo que surge como uma fuga da miséria.

Em Cunha, essa migração ascendente se acelera após a pavimentação da Rodovia Paulo Virgínio (SP-171), que liga Cunha à Rodovia Presidente Dutra (BR-116), na década de 1960. Por isso, Milton SANTOS (2008, p. 304) e outros estudiosos do fenômeno migratório, relacionam esses deslocamentos de população às facilidades de transporte. Assim, milhares de pessoas começam a esvaziar os campos e cidades menores em direção às metrópoles regionais e mais ainda para as metrópoles nacionais, onde o setor terciário é elástico o suficiente para recebê-las. Essas migrações nascem de situações de desequilíbrios e acabam agravando as desigualdades econômicas e espaciais, inchando as cidades e murchando as zonas rurais e cidades locais. Por fim, geram mais concentração espacial de renda, população, indústrias, comércio, consumo, poder político, inovações tecnológicas etc. Criam um espaço de topologia marcada por assimetrias socioeconômicas.
Quando se chega na faixa da população idosa, que estão representadas no topo, o município volta a se assemelhar aos padrões estaduais e nacionais. Isso indica uma migração de retorno. Muitos cunhenses, após se aposentarem, retornam à terra natal. O lugar onde o umbigo foi enterrado cala mais alto na alma do cunhense.
Garantir emprego para sua população, sobretudo para sua juventude, é um dos desafios mais urgentes para o município de Cunha. Há dois caminhos no horizonte. O turismo, em franca expansão, cuja capacidade a ser alcançada ainda é incerta. E a agricultura familiar, que pode se reinventar com novas formas de produzir, com sistemas agroflorestais, produção orgânica e diversificação de culturas. Mão de obra é o que não falta, mas faltam projetos, recursos, vontade e formação técnica para a juventude trabalhadora cunhense. Hoje, as cidades maiores já não são mais tão atrativas como eram no tempo dos nossos pais e avós, devido ao alto custo de vida e à rarefação dos empregos, fatores que se somam a um mercado cada vez mais exigente de qualificação e, desse modo, concorrido.
Talvez o futuro esteja nascendo em cidades como Cunha. Não custa sonhar. Com os pés no chão e mãos à obra, claro.
Referências:
BEAUJEU-GARNIER, J. Geografia de População. Tradução: Leônidas G. de Carvalho. 2. ed. São Paulo: Editora Nacional, 1980.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Demográfico 2010: sinopse dos resultados. Disponível em: < https://censo2010.ibge.gov.br/resultados.html >, acesso em 5 jun. 2021.
SANTOS, M. O espaço dividido: os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos. Tradução: Myrna T. R. Viana. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2008.