PIB de Cunha cresce 11% em 2020

Setorização do PIB cunhense – 2020. Arte: Jacuhy.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou no dia 16 de dezembro de 2022 o Produto Interno Bruto (PIB) referente ao ano de 2020 de todos os municípios do Brasil. O intuito da instituição é “fornecer estimativas do Produto Interno Bruto – PIB dos Municípios, a preços correntes, e do valor adicionado bruto da Agropecuária, da Indústria, dos Serviços e da Administração, saúde e educação públicas e seguridade social, a preços correntes, compatível com as metodologias das Contas Regionais e Nacionais do Brasil, sendo as estimativas obtidas comparáveis entre si”; sendo portanto, um dado econômico relevante para o planejamento estatal, que permite verificar regiões e pontos com o avanços ou retrocessos econômicos no conjunto territorial do país. Ron Johnston (2009, p. 320) afirma que as estimativas do PIB são usadas para comparar o volume da atividade econômica ao longo do tempo e do espaço – seja em agregado ou per capita – mas para evitar complicações introduzidas pela inflação e flutuações da taxa de câmbio, elas devem ser convertidas em uma base comum.

A divulgação dos dados referentes ao PIB dos municípios em 2020 era aguardada, pois foi um ano atípico, marcado pelo alastramento do COVID-19 e a consequente paralização de diversas atividades econômicas, em virtude da emergência sanitária. O tamanho do impacto da pandemia sobre a economia tem sido objeto de debate entre os economistas. À medida em que os dados vêm sendo divulgados, foi possível perceber que os setores mais impactados pela pandemia foram o de alojamento e alimentação; serviços domésticos; transporte, armazenamento e correio; artes, cultura, esporte e recreação e outras atividades de serviços. Segundo o IBGE, “os resultados de 2020 evidenciam que os efeitos da pandemia de COVID-19 sobre as economias municipais variaram de acordo com a importância das suas atividades de Serviços, sobretudo as presenciais. Isto porque estes serviços agregam as atividades com as maiores quedas de participação no País entre 2019 e 2020, sendo as mais afetadas pelas medidas restritivas de isolamento e precaução de contágio por parte das famílias adotadas durante o ano.”. Todavia, os economistas e técnicos de planejamento têm alertado para a interpretação econômica do PIB dos municípios em 2020 e pedido cautela, pois foi um “ano em que a crise sanitária provocada pela Covid-19 trouxe grandes desafios para a mensuração da atividade econômica”, conforme consta na “Nota técnica – PIB 2020”, emitida pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE), órgão do Governo de São Paulo.

A região do Vale do Paraíba Paulista foi diretamente impactada pela pandemia e viu seu PIB regredir em relação a 2019. O PIB regional recuou de 131,6 bilhões de reais em 2019 para 122,6 bilhões de reais em 2020. Uma variação negativa de 6,87% no volume. Os grandes centros econômicos de nossa região, São José dos Campos e Taubaté, ficaram entre os municípios que mais perderam participação PIB do Brasil em 2020, o que demonstra o grave impacto causado pela pandemia sobre a economia regional. O PIB do estado de São Paulo avançou 0,4% no mesmo período. Cunha não sofreu o mesmo impacto econômico.

O PIB de Cunha avançou de 267,7 milhões de reais em 2019 para 297,3 milhões de reais em 2020, agregando assim quase 30 milhões de reais de um ano para o outro, uma variação de volume de 11,05%. Desde que o IBGE começou a mensurar os PIB dos municípios, em 2002, na metodologia que utiliza até agora, Cunha nunca registrou decréscimo. Com esse resultado, a taxa participação econômica do município no PIB estadual teve um pequeno aumento. Era de 0,0114% em 2019 e foi para 0,0125% em 2020. No ranking estadual, Cunha é apenas 365ª maior economia.

Evolução do PIB de Cunha (2002-2020). Fonte: IBGE, 2022.

Ao se fazer um recorte setorial no PIB de Cunha, percebe-se que o setor que alavancou esse crescimento, mesmo diante do cenário de crise econômica, foi o primário. A agropecuária cunhense teve uma variação positiva de 54%, passando a responder por 12,9% do PIB cunhense (era 9,3% em 2019). Cunha é o maior produtor de leite de São Paulo e possui o maior rebanho bovino do Vale do Paraíba Paulista.

O setor hoteleiro e de alimentação foi duramente atingido pelas restrições sanitárias e de circulação implementadas para deter o avanço do COVID-19. Em Cunha não foi diferente. Medidas restritivas foram tomadas pela Municipalidade para preservar a saúde da população e tentar frear o avanço das infecções por coronavírus. Eventos foram cancelados. Pousadas foram temporariamente fechadas e restaurantes só puderam funcionar com entregas em domicílio. O turismo, hoje uma importante atividade econômica de Cunha, foi o mais impactado pela pandemia. Por outro lado, muitas pessoas deixaram a Região Metropolitana de São Paulo e se refugiaram em suas casas de veraneio e sítios na zona rural cunhense, na esperança de não serem infectados. Essa migração sanitária, esse êxodo urbano temporário, certamente aqueceu o comércio local e o setor de serviços, compensando as perdas do setor turístico. Por essa razão, mesmo com a crise, o setor terciário de Cunha variou positivamente.

Plantação no bairro da Vargem Grande. Data: 2014. Foto: Facebook Bairro da Vargem Grande – Cunha – SP.

A outra parte do setor terciário, aquela ligada à administração pública, foi fundamental para estabilidade econômica do município, uma vez que esse funcionalismo não sofreu cortes no salário nem enfrentou demissões por causa da crise econômica desencadeada pela pandemia. Uma parte considerável dos cunhenses que possuem remuneração registrada são aposentados ou funcionários públicos municipais, estaduais e federais. A Prefeitura de Cunha, por exemplo, emprega diretamente mais de 600 pessoas.

O setor secundário de Cunha corresponde a apenas 5,3% do PIB municipal e é composto por pequenas indústrias alimentícias. Não sofreu queda, mas também não evoluiu economicamente no período. Já a agropecuária cunhense, marcada por sua característica familiar, sempre foi resiliente. Como não foi um setor atingido diretamente pelos impactos negativos pandemia, registrou um grande crescimento. Ou seria apenas uma consequência do aumento da fiscalização e do registro de produção?

Plantação de hortaliças em sistema hidropônico, na zona rural cunhense. Data: 2022.

O PIB per capita do município saltou de R$ 12.349 em 2019 para R$ 13.857,47 em 2020. Mesmo assim, caiu no ranking estadual. Ocupava a 631ª posição em 2019; em 2020, está na 634ª posição. De acordo com esse dado econômico, Cunha figura entre os municípios mais pobres do estado. São Paulo tem 645 municípios. Na média brasileira, o PIB per capita foi R$ 35.935,74; bem acima, portanto, do nosso PIB per capita municipal. Por fim, alerta o geógrafo britânico Ron Johnston (2009, p. 320) que “o PIB não é necessariamente uma medida válida de ‘saúde econômica’, uma vez que as consequências prejudiciais (por exemplo, sobre o meio ambiente) não são levadas em consideração. E sua melhoria nem sempre é sinal de crescimento real; por exemplo: o aumento dos gastos com policiamento poderia estimular o crescimento do PIB, mas não é nada mais que uma resposta a um aumento da criminalidade.”. E o PIB per capita é limitado como indicador econômico porque não considera uma condição básica da economia capitalista: a brutal desigualdade de renda que existe entre as classes sociais.

Referências:
FUNDAÇÃO SEADE. PIB paulista cresceu 0,4% em 2020, 10 mar. 2021. Disponível em: < https://informa.seade.gov.br/analise_pdf/pib-paulista-cresceu-2020/ >. Acesso em: 18 dez. 2022.
______. Nota técnica – PIB 2020. São Paulo: Fundação SEADE, 2022. Disponível em: < https://repositorio.seade.gov.br/dataset/1bd90672-72a8-47cb-a34d-ab9eb703735d/resource/c1b5063b-d6b9-4832-a8ee-9caad7ee2c85/download/nota-tecnica_pib_do_esp_2020.pdf >. Acesso em: 18 dez. 2022.
______. PIB por municípios do Estado de São Paulo – 2020. São Paulo: Fundação SEADE, 2022. Disponível em: < https://repositorio.seade.gov.br/dataset/1bd90672-72a8-47cb-a34d-ab9eb703735d/resource/13af6a0f-e731-4fc7-8664-73e57de8f465/download/pib-municipios-2020.xlsx >. Acesso em: 18 dez. 2022.
______. PIB para os municípios de São Paulo – 2019. São Paulo: Fundação SEADE, 2021. Disponível em: < https://repositorio.seade.gov.br/dataset/1bd90672-72a8-47cb-a34d-ab9eb703735d/resource/7a58161d-f687-4c15-8edf-0787a6b03245/download/pib-municipios-2019.xlsx >. Acesso em: 18 dez. 2022.
GREGORY, Derek et al. Dictionary of Human Geography. 5. ed. West Sussex (Reino Unido): Wiley-Blackwell, 2009.
IBGE. Produto Interno Bruto dos Municípios: Cunha. Rio de Janeiro: IBGE, 2022. Disponível em: < https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/contas-nacionais/9088-produto-interno-bruto-dos-municipios.html?t=pib-por-municipio&c=3513603 >. Acesso em: 18 dez. 2022.
______. Produto interno bruto dos municípios 2020. Rio de Janeiro: IBGE / Coordenação de Contas Nacionais, 2022. Disponível em: < https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101990_informativo.pdf >. Acesso em: 18 dez. 2022.

As perdas migratórias e a pirâmide etária de Cunha

Migrar é ação inerente à história da Humanidade. Desde os mais remotos tempos, mudar de lugar para suprir suas necessidades parece ser uma condição que acompanhou e garantiu a existência das sociedades humanas, levando à sua dispersão pelo Globo. A geógrafa francesa BEAUJEU-GARNIER (1980, p. 191) discorre a esse respeito: “o homem é uma criatura móvel, capaz de investigar, suscetível à sugestão e dotada de imaginação e iniciativa. Isso explica a razão pela qual, tendo concebido a idéia de que suas necessidades podem ser satisfeitas algures, decide não só ir a esse lugar como, também, sobre os meios por que seu projeto pode ser realizado.”. E assim tem feito desde que se pôs a andar, há milhões de anos.

Pirâmide etária do estado de São Paulo, segundo Censo de 2010. Não se nota nela a retração das barras que compreendem a população em idade ativa. Fonte: IBGE

São Paulo, nosso estado, foi receptáculo, desde o final do século XIX, de inúmeras levas de imigrantes que partiram para o Novo Mundo: italianos, japoneses, libaneses, alemães etc. Já no século XX, foi a vez dos nordestinos fluir em grandes levas para cá, acompanhando a necessidade das indústrias por mão de obra barata, abandonando a região de origem e os graves problemas e disparidades sociais até hoje não superados. Por isso o geógrafo brasileiro Milton Santos faz questão de anotar e chamar a atenção para a complexidade do fenômeno migratório, ao escrever que “o fenômeno das migrações aparece, portanto, estreitamente ligado ao da organização da economia e do espaço, vistos de um ponto de vista dinâmico.” (SANTOS, 2008, p. 306). A questão migratória vai além dos fatores psicológicos e mesmo das diferenças de renda entre os trabalhadores do campo e da cidade.

Evolução da população de Cunha ao longo dos últimos 40 anos. Criação: Jacuhy. Fonte dos dados: Fundação SEADE.

Cunha e outros municípios do Alto Vale do Paraíba vivenciaram no século passado um processo inverso do estadual. Porque, como afirmou SANTOS (2008, p. 301), as migrações são expressões da desigualdade espacial, resultado dos mecanismos de modernização, da influência da grande cidade sobre parte da área rural próxima. Assim, as circunstâncias históricas e econômicas fizeram prevalecer nestas paragens o êxodo rural. Camponeses sem acesso à terra (meeiros, agregados, inquilinos etc.) e pequenos agricultores com baixos rendimentos deixaram o campo cunhense e partiram para outras cidades do Vale do Paraíba e da Região Metropolitana de São Paulo, em busca de emprego, melhores condições de vida e maiores salários. Durante todo o século XX, essas perdas migratórias enxugavam as altas taxas de natalidade e de fertilidade, impedindo o seu reflexo no aumento natural da população municipal. Desse modo, a população de Cunha ficou estagnada na casa dos vinte mil habitantes durante todo o século passado. E assim permanece.

Essas condições podem ser observadas nas pirâmides etárias de Cunha. Os gráficos são reveladores quando se trata da estagnação demográfica em que o município se encontra há mais de um século. Cunha se fechou em uma agricultura familiar e de subsistência, de baixo rendimento, autóctone, calcada na plantação consorciada de milho/feijão e na pecuária extensiva. Tudo muito impróprio, dada às condições geomorfológicas do lugar, território acidentado em cada canto. E sem acompanhar (por muitas razões) as inovações tecnológicas do agronegócio. Não porque os agricultores cunhenses assim quiseram, mas porque estruturas poderosas, que se articulam em escalas superiores a local, implantaram e porque a lógica do capital é geradora de desigualdades, privilegiando certos espaços e se esquecendo de outros. O Brasil viveu durante o século XX um projeto avassalador de modernização, que culminou na concentração espacial da produção e consumo (SANTOS, 2008, p. 305-306), sobretudo nas grandes cidades, que serviram como espaços de recepção de bens, pessoas e capitais desses projetos do mercado, em prejuízo das cidades pequenas e zonas rurais.

Pirâmide etária de Cunha, segundo o Censo 2010. As barras da população compreendida entre os 20 e 39 anos estão retraídas. Fonte: IBGE.

Percebe-se, observando as pirâmides etárias do município, que as barras sofrem uma retração quando estão nas faixas etárias que compreendem a população em idade ativa (conforme se vê na imagem acima), que vai, geralmente, dos 16 aos 60 anos. Isso é um claro indicador do impacto do saldo migratório negativo. Muitos jovens, após se formarem no ensino médio, acabam deixando Cunha e partindo em busca de emprego, por isso há essa depressão no miolo da pirâmide. O mesmo fenômeno não é observado no estado de São Paulo e nem nos municípios da região que foram capazes de oferecer oportunidades de emprego, seja no comércio, serviços ou nos seus parques industriais. Mesmo se decidem permanecer no campo, o sítio da família, um minifúndio explorado pela força do trabalho familiar, não é capaz de propiciar renda para todos os filhos. Muitos têm que se mudar, mesmo a contragosto. É a chamada “migração ascendente” (SANTOS, 2008, p. 304), que se relaciona com o êxodo rural, fluxo que surge como uma fuga da miséria.

Pirâmide etária de Cunha, segundo o Censo 2000. A barra da população compreendida entre os 25 e 29 anos está retraída. Nota-se ainda um perfil clássico de pirâmide, entre a Fase I e Fase II da Teoria da Transição Demográfica. Fonte: IBGE.

Em Cunha, essa migração ascendente se acelera após a pavimentação da Rodovia Paulo Virgínio (SP-171), que liga Cunha à Rodovia Presidente Dutra (BR-116), na década de 1960. Por isso, Milton SANTOS (2008, p. 304) e outros estudiosos do fenômeno migratório, relacionam esses deslocamentos de população às facilidades de transporte. Assim, milhares de pessoas começam a esvaziar os campos e cidades menores em direção às metrópoles regionais e mais ainda para as metrópoles nacionais, onde o setor terciário é elástico o suficiente para recebê-las. Essas migrações nascem de situações de desequilíbrios e acabam agravando as desigualdades econômicas e espaciais, inchando as cidades e murchando as zonas rurais e cidades locais. Por fim, geram mais concentração espacial de renda, população, indústrias, comércio, consumo, poder político, inovações tecnológicas etc. Criam um espaço de topologia marcada por assimetrias socioeconômicas.

Quando se chega na faixa da população idosa, que estão representadas no topo, o município volta a se assemelhar aos padrões estaduais e nacionais. Isso indica uma migração de retorno. Muitos cunhenses, após se aposentarem, retornam à terra natal. O lugar onde o umbigo foi enterrado cala mais alto na alma do cunhense.

Garantir emprego para sua população, sobretudo para sua juventude, é um dos desafios mais urgentes para o município de Cunha. Há dois caminhos no horizonte. O turismo, em franca expansão, cuja capacidade a ser alcançada ainda é incerta. E a agricultura familiar, que pode se reinventar com novas formas de produzir, com sistemas agroflorestais, produção orgânica e diversificação de culturas. Mão de obra é o que não falta, mas faltam projetos, recursos, vontade e formação técnica para a juventude trabalhadora cunhense. Hoje, as cidades maiores já não são mais tão atrativas como eram no tempo dos nossos pais e avós, devido ao alto custo de vida e à rarefação dos empregos, fatores que se somam a um mercado cada vez mais exigente de qualificação e, desse modo, concorrido.

Talvez o futuro esteja nascendo em cidades como Cunha. Não custa sonhar. Com os pés no chão e mãos à obra, claro.

Referências:

BEAUJEU-GARNIER, J. Geografia de População. Tradução: Leônidas G. de Carvalho. 2. ed. São Paulo: Editora Nacional, 1980.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Demográfico 2010: sinopse dos resultados. Disponível em: < https://censo2010.ibge.gov.br/resultados.html >, acesso em 5 jun. 2021.

SANTOS, M. O espaço dividido: os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos. Tradução: Myrna T. R. Viana. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2008.

Uma situação inédita

“A maioria do povo mora na roça”, diziam os cunhenses a qualquer forasteiro, que constatar que a cidade de Cunha é muito pequena, acabava atacando nosso ego interiorano. Perdemos essa desculpa para a estatística. Pela primeira vez na História do município de Cunha, a população urbana ultrapassou a população rural. A urbanização crescente é uma tendência de todo o país e um processo pelo qual Cunha vinha passando nas últimas décadas. Em 2000, a porcentagem de população urbana era de 48,22% (11.134 habitantes) e a rural era de 51,78% (11.956 habitantes), ou seja, a população urbana cresceu em termos relativo e absoluto, enquanto a rural caiu em ambos. Repetiu-se em Cunha uma tendência da caracterizadora da urbanização brasileira. No estado de São Paulo, a população rural também caiu em termo absoluto (e no relativo também, idem), de pouco mais de 2,4 milhões em 2000 para cerca de 1,7 milhão em 2010. Isto aponta a pertinência do êxodo rural no território paulista, unidade federativa que viveu mais intensamente o processo de industrialização e urbanização nacional.

Fonte: IBGE – Censo 2010.

A taxa de urbanização cunhense cresceu 7,42% em 10 anos, o que corresponde um crescimento médio anual de cerca de 0,75%, sendo assim, é provável que a população urbana tenha superado a rural em 2003, no início da década de 2000. A taxa de urbanização de Cunha (55,6%) é ainda muito baixa em relação ao estado de São Paulo e ao Brasil. Em São Paulo chega aos impressionantes 96%; bem acima dos países desenvolvidos, no Reino Unido, por exemplo, que está em 84%, a mesma do Brasil. Assim, Cunha é um atípico município do Sudeste brasileiro, um território bastante ruralizado na área mais desenvolvida, industrializada e urbanizada do país. Aqui, o universo rural ainda exerce forte impacto e influência sobre a economia e na sociedade.

Outro fator importante é tratar do que foi considerado urbano para o IBGE. Neste caso, o instituto considera a organização do quadro territorial municipal e os seus perímetros. Todos esses perímetros devem ser definidos por lei municipal e sendo contidos dentro dos limites municipais. O Município de Cunha está assim organizado:

  • Cidade: a sede do município, no caso a cidade de Cunha;
  • Vilas: sedes de distritos, no caso a vila de Campos de Cunha;
  • Áreas Urbanas Isoladas (AUI’s): localidade com característica urbana separada da cidade ou das vilas, no caso temos duas – AUI do B. do Paraitinga e AUI do B. da Bocaina de São Roque.

O bairro rural da Bocaina, que tem igreja, rua, unidade básica de saúde, escola estadual até o 9º ano e outros elementos de centralidade/urbanidade, foi pela primeira vez recenseado como urbano, como uma área urbana isolada. São consideradas urbanas por lei municipal, todas feitas sem nenhum critério científico. Embora tratar essas AUI’s como área urbana seja questionável geograficamente, isso não teve impacto grande sobre a taxa de urbanização, porque só na cidade de Cunha reside mais 50% de toda a população municipal.

Observação: Texto escrito em 14 de janeiro de 2013, uma brevíssima análise dos resultados do Censo do IBGE de 2010.

Cunha: composição étnica em 1.828

Cem anos após a sua fundação e logo após a Independência do Brasil, a Vila de Cunha somava 3.192 almas, espalhadas, sobretudo, pelo seu extenso território rural, já que a população urbana naquele tempo era insignificante. Nada de insignificante era a sua importância econômica para o Vale e para a Província de S. Paulo. Impossibilitada, devido ao clima frio, de produzir café e cana-de-açúcar na escala reclamada pelo mercado, o município, desde os primórdios, dedicou-se à produção de gêneros de primeira necessidade para a economia interna, como milho, carne de porco, toucinho e tabaco. Embora fosse pequena a sua população de 1.828, era muito mais significativa relativamente do que os 22 mil habitantes de hoje, em um Estado com 43,7 milhões de habitantes. Na época a Província contava com apenas 221.559 habitantes, portanto, Cunha concentrava cerca de 1,5% de toda a população da Província. Nas fazendas, as plantações e o árduo trabalho agrícola demandavam uma grande e eficiente mão de obra, obtida principalmente através da escravização dos negros, daí se observa a grande proporção de população negra em nosso município, como se observa no gráfico.