Formação territorial e demográfica de Cunha

Qual a origem do nome do município de Cunha?

“Cunha” é uma homenagem ao ex-governador da Capitania de São Paulo, o capitão Francisco da Cunha e Meneses (1747-1812). O capitão Francisco da Cunha foi um militar português e governou a capitania de São Paulo entre 1782 e 1785, como capitão-general. No final do seu mandato, em 15 de setembro de 1.785, elevou a então Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Facão à condição de vila, o que equivale, hoje, a um município, um território independente. Até então, nosso município pertencia à Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá. Assim, para homenageá-lo, os moradores locais mudaram o nome daqui de “Facão” para “Cunha”, e a partir da instalação da Câmara, órgão administrativo das vilas daquela época, em 28 de outubro de 1.785, nosso município passou a se chamar Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha.

Em 20 de abril de 1.858, a vila foi elevada à categoria de cidade, e passou a se chamar “Cidade de Cunha”, já sem a referência à santa padroeira. E assim permanece até hoje.

E o nome Facão?

A origem é controversa e tem sido motivo de debate entre os historiadores. “Facão” ou “Facam” (dependendo do documento) é o mais antigo nome de Cunha. Há registros – anteriores ao ano de 1.700 – que mencionavam a existência de uma antiga capelinha dedicada à Nossa Senhora do Facão, nas cercanias da atual cidade, no chamado “Alto do José Dias” ou “Alto da Mantiquira”, na elevação que dá acesso ao atual bairro urbano Vila Rica. Mas por que chamavam nossa cidade desse nome? Um documento de 1.732, em que Francisco Tavares Brito relata sua viagem do Rio de Janeiro até Minas, passando por Cunha, deixa uma pista:

“A esta vila também vem dar o caminho de Parati, que chamam o Caminho Velho, e quem sai de Parati, vem ao Bananal, sobe a inacessível serra e descansa na Aparição; passa-se o rio Paraitinga (que toma aqui o nome das serranias por onde passa e logo depois se. chama Paraíba do Sul); e se pernoita no sítio que também toma o nome do rio; Afonso Martins; passa-se aqui o Facão, que é um *carreirinho / / que vai pelo alto de um cume, no qual apenas passa um cavalo ou passa um homem a pé, e se acaso declina para alguma das partes se precipita. Vai-se à Encruzilhada e se entra depois na vila de Guaratinguetá […]”

Aspecto do documento de 1732, contendo o relato de Francisco Tavares Brito. Códice Costa Matoso. Fonte: Fundação João Pinheiro.

Ou seja, o “Facão” seria uma passagem muito estreita e perigosa, no alto de um morro, com despenhadeiros em ambos os lados. Essa passagem, por ser temida, era sempre lembrada pelos viajantes, aventureiros e tropeiros; e acabou batizando toda a região. Ficava no antigo caminho entre Paraty e Cunha, em local incerto, no que veio a se chamar “Estrada Real”, cujo destino eram as cobiçadas jazidas de Minas Gerais.

Mas isso não é consenso entre os historiadores. Há outras cogitações.

Como foi formado o território cunhense?

Tempos coloniais. Os Guaianases, uma das inúmeras nações indígenas do Brasil, eram nômades, não possuindo uma aldeia fixa. Viviam e passavam pelo que veio a ser o município de Cunha. Percorriam todos esses sertões, por meio da densa Mata Atlântica, em busca de caça e frutos.

Em 1534, a fim de facilitar a colonização do Brasil, a Coroa Portuguesa estabeleceu o sistema de capitanias hereditárias. O que hoje é Cunha ficou pertencendo à Capitania de São Vicente, cujo donatário era Martim Afonso de Sousa.

Em 1624, a Capitania de São Vicente foi dividida e o que viria a ser Cunha passou a pertencer à Capitania de Itanhaém, que pertencia a Mariana de Sousa Guerra, a Condessa de Vimieiro, dona de todas as terras do Vale do Paraíba e Litoral Norte. Ela promoveu incursões exploratórias no Vale do Paraíba, a fim de conhecer melhor a região, que, na época, ainda era um sertão inóspito e povoado apenas por indígenas. Buscavam essas expedições encontrar metais preciosos ou capturar indígenas para vendê-los com escravos.

Em 24 de setembro de 1.650, o capitão Domingos Velho Cabral, morador da Vila de Guaratinguetá, recebe uma sesmaria (grande extensão de terra que era doada pela Coroa) no bairro da Borda do Campo, que fica na beira da Rodovia Paulo Virgínio, perto do Jacuí. Essa é a primeira sesmaria que foi doada no que veio a ser o território cunhense. O capitão irá abrir uma estrada ligando o Facão (Cunha) a Guaratinguetá, aproveitando uma trilha indígena já existente.

Em 1.724, Luiz da Silva Porto e sua família erguem uma capela no bairro da Boa Vista, dedicada a Jesus, Maria e José. Esse é marco fundador do município de Cunha.

Em 1.731, José Gomes de Gouveia constrói uma igreja no bairro do Facão, dedicada à Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal (e, futuramente, de Cunha também). No entorno dessa igreja irá se desenvolver um pequeno povoado. É o embrião da cidade de Cunha.

Em 1.749, com o aumento do movimento de tropas e o crescimento do povoado, a capela do Facão passa a ter um padre regular, se tornando uma freguesia. Surge, então, a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Facão, com paróquia e território pertencendo a Guaratinguetá.

Mapa da Divisão dos Municípios de São Paulo por volta de 1700. Cunha pertencia ao território de Guaratinguetá. Fonte: Fundação SEADE.

Em 15 de setembro de 1.785, o capitão-general da Capitania de S. Paulo Francisco da Cunha e Meneses eleva Cunha à condição de vila, tornando-a independente de Guaratinguetá. Cunha passa a ter território próprio (chamado de “termo”, na época) e a ser administrada localmente, com a criação da Câmara (não havia Prefeitura na época). Também vai mudar de nome, deixa de se chamar “Facão” e passa a se chamar Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha, para homenagear o capitão-general que lhe concedeu autonomia.

Em 18 de junho de 1.842, a Vila de N.ª S.ª da Conceição de Cunha é transferida para a província do Rio de Janeiro. Estava ocorrendo na província de São Paulo a Revolta Liberal e a transferência tinha o intuito de manter Cunha livre dos do domínio dos revoltosos. Cunha pertenceu à Província do Rio de Janeiro durante 2 meses, até que voltou novamente para a Província de S. Paulo.

Em 20 de abril de 1.858, Cunha é elevada à categoria de cidade.

Em 8 de março de 1.872 é criado o Distrito de Paz de Campos Novos, que passa a se chamar Freguesia de Nossa Senhora dos Remédios de Campos Novos.

Durante todo o século XIX, os limites de Cunha com os outros municípios vão sendo demarcados, fruto da disputa da Câmara de Cunha com as câmaras dos municípios vizinhos. Será assim com Paraty, que reclama como território seu até um marco que havia no bairro da Boa Vista; e com Guaratinguetá, que queria estabelecer o limite com Cunha pelo rio Paraitinga, aumentando, assim, seu território. A Câmara de Cunha sairá vitoriosa desses litígios. Além disso, fazendeiros estabelecidos nos limites com Lagoinha e São Luiz do Paraitinga, se valendo do poder político que possuíam e visando atender aos seus interesses eleitorais, mudavam suas fazendas para os municípios vizinhos, alterando assim o tamanho do nosso território.

Em 1.934, Lagoinha é transferida para Cunha como distrito. Ficará pertencendo a Cunha até 1.944, quando será transferida para o município de São Luís do Paraitinga. Nesse mesmo ano, o distrito de Campos Novos terá seu nome alterado para “Campos de Cunha”, por força de um decreto estadual. Apesar da mudança do nome, o antigo topônimo é até hoje o mais popular.

Em 1964, os limites de Cunha com outros municípios são descritos e estabelecidos na Lei Estadual nº 8.092, de 28/02/1964, permanecendo inalterados desde então.

Atualmente, Cunha possui uma área de 1.407,25 Km², sendo o 11º maior município do estado de São Paulo e o maior da região do Vale do Paraíba. Faz divisa com os seguintes municípios: Paraty e Angra dos Reis, do estado do Rio de Janeiro, e Ubatuba, São Luiz do Paraitinga, Lagoinha, Guaratinguetá, Lorena, Silveiras, Areias e São José do Barreiro, do estado de São Paulo. Em seu território há 2 unidades de conservação de proteção integral: o Parque Estadual da Serra do Mar e o Parque Nacional da Serra da Bocaina.

Quais povos estão presentes na formação territorial do município de Cunha?

Os povos originários, que habitavam Cunha antes da chegada dos portugueses, eram os “Guaianás” ou “Guaianases”. Segundo relato de viajantes, colonizadores e aventureiros, os Guaianases não falavam tupi e eram tronco linguístico Macro-Jê. Eram indígenas coletores (de pinhão e frutos) e caçadores, e, por consequência, nômades (migravam para o litoral dependendo da estação do ano). Viviam na Serra do Mar e faziam parte de um complexo cultural, cujos remanescentes seriam o Puri e Coroado, do Vale do Paraíba e sudeste de Minas. Até hoje é possível encontrar em Cunha cacos da cerâmica produzida por esse povo e machados líticos que confeccionaram. Algumas peças estão guardadas no Museu Municipal. Apesar de Cunha não ter aldeia, antropólogos que estudaram nosso município no século passado, apontaram que parte de nossa população é descendente de indígenas, pois apresenta traços biotípicos e feições dos povos originários do Brasil.

A primeira incursão colonizadora europeia em nosso território ocorreu em outubro de 1.596, quando Martim Corrêa de Sá, o inglês Anthony Knivet (autor do relato sobre a entrada), setecentos portugueses e cerca de 2 mil indígenas Guaianases percorreram onde, hoje, é o município de Cunha. Essa data marca a chegada dos portugueses (brancos) a Cunha. A partir do século XVII, muitas famílias paulistas oriundas de Taubaté e aventureiros portugueses vão se estabelecer em Cunha, ganhando sesmarias no bairro da Catioca e no seu entorno. Essas famílias pioneiras, católicas, além da religião, trouxeram para Cunha manifestações culturais típicas dos portugueses e dos paulistas, como Festa e Folia do Divino.

Entre os séculos XVI e XIX, cerca de 10 milhões de negros africanos foram trazidos às Américas para trabalhar de forma forçada como escravos. Milhares deles foram trazidos para Cunha, para trabalhar nas fazendas de milho e criação de porcos que havia aqui. Quase metade do contingente de africanos trazido para o Brasil era formada pelos Banto, que eram povos e culturas da região da África Central, onde atualmente se encontram países como Angola, Moçambique, Congo etc. Em Cunha, a maior parte dos escravizados eram Banto. Aliás, no século XIX, a maioria da população de Cunha era negra, seja livre ou escravizada. Esse povo trouxe consigo sua cultura e algumas manifestações culturais estão presentes em Cunha até hoje, como a Congada, o Moçambique e o Jongo. Outras etnias africanas também foram trazidas para Cunha, porém, não na mesma proporção que os bantos.

No final do século XIX e início do século XX chegaram a Cunha imigrantes vindos de outras partes do mundo, sobretudo do Líbano e da Itália. Essas famílias se dedicaram à agricultura, à marcenaria e ao comércio, sobretudo os libaneses; se dedicaram ainda à política, contribuindo para diversificar o mosaico cultural e étnico que caracteriza a população cunhense.

Censo 2022 aponta crescimento da população de Cunha

Contrariando as projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) dos últimos anos, a população de Cunha voltou a crescer. Foram recenseados 22.110 habitantes em todo o município em 2022, durante a realização do Censo. Esse dado foi divulgado pelo IBGE no dia 28 de dezembro de 2022. Em Cunha já está 100% concluído, com os 74 setores censitários apurados. Portanto, o resultado apresentado já é definitivo.

Observando as projeções populacionais do IBGE de 2019, 2020 e 2021 para Cunha, nota-se que indicavam sucessivas quedas na população municipal. Como essas projeções se baseiam em tendências, é provável que consideraram a redução da população que ocorreu entre os censos de 2000 e 2010. Naquele Censo foram contados 23.062 habitantes; neste, 21.866 habitantes. Assim, ano após ano, o IBGE foi apontando um tênue recuo da população cunhense.

Todavia, em 2022 apurou-se o contrário: houve a interrupção dos sucessivos recuos, registrando um ínfimo crescimento (1,1%). Se isso será uma tendência para as próximas décadas, tendo em vista que a atividade turística vem se fortalecendo nos últimos anos, só o tempo dirá. A estabilidade ou crescimento de uma população depende, entre outros fatores, de uma resposta econômica. Não tem como a população de Cunha crescer sem a economia local oferecer, por exemplo, emprego aos jovens.

Após essa divulgação protocolar, veio a divulgação completa do Censo 2022. Houve um decréscimo da população em relação ao resultado preliminar, razão pela qual este artigo foi editado. Outros aspectos da realidade local vão sendo divulgados, mediante cronograma do IBGE. Aguardamos os dados referentes às taxas de população rural e urbana, à pirâmide e composição etária, à renda média, à escolarização, à religião etc. Com esses dados, é possível comparar com os recenseamentos anteriores e indicar mudanças e permanências no tecido social local.

Vista aérea da cidade de Cunha. Imagem: Guará Vídeo Drone (YouTube). Data: junho de 2022.

Resultados Preliminares
A população da Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte (RMVPLN) chegou a 2,5 milhões de habitantes. Em relação ao Censo de 2010, a RMVPLN teve um acréscimo de 295.134 habitantes, o que corresponde a um aumento de 13% de sua população. A RMVPLN é composta por 39 municípios. Cunha foi o segundo município da região que menos cresceu, não acompanhando o patamar de crescimento regional. Ainda assim situação melhor do que nos 11 municípios da região (Cruzeiro, Campos do Jordão, Aparecida, Santa Branca, Piquete, São Luiz do Paraitinga, Bananal, Queluz, Redenção da Serra, Areias e Arapeí) que viram a sua população reduzir na última década.

O Jacuhy retornará à análise da população regional, quando o IBGE apresentar os resultados definitivos. Em alguns municípios da RMVPLN, o Censo 2022 ainda está inconcluso.

Referências:
BEAUJEU-GARNIER, Jacqueline. Geografia de população. Tradução de Leônidas Gontijo de Carvalho. 2. ed. São Paulo: Editora Nacional, 1980.
BROEK, Jan O. M. Iniciação ao estudo da geografia. 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981.
DAMIANI, Amélia L. População e geografia. 9. ed. São Paulo: Contexto, 2009.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo 2022: acompanhe a coleta nas UFs e municípios. Disponível em: < https://censo2022.ibge.gov.br/acompanhamento-de-coleta.html?cod=3513603 >. Acesso em 11 jan. 2023.
______. Censo 2022: Tabelas – Prévia da População dos Municípios com base nos dados do Censo Demográfico 2022 coletados até 25/12/2022. Disponível em: < https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/22827-censo-demografico-2022.html?edicao=35938&t=resultados >. Acesso em 11 jan. 2023.
______. Censo 2022: Municípios: prévia da população calculada com base nos resultados do Censo Demográfico 2022 até 25 de dezembro de 2022. Disponível em: < https://ftp.ibge.gov.br/Censos/Censo_Demografico_2022/Previa_da_Populacao/POP2022_Municipios.pdf >. Acesso em 11 jan. 2023.

Cunha no ano da Independência do Brasil

Os relatos de viagem do botânico francês Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) trazem um valioso contingente de informes sobre a mais importante região brasileira a que se estende entre as duas maiores cidades do país: o Vale do Paraíba.

Em 1822 realizou sua segunda viagem pela Província de São Paulo e nos legou diversos relatos sobre um tempo que já se foi… Nessa segunda viagem saiu do Rio de Janeiro e foi em direção a Minas. De lá, desceu a Mantiqueira, passou por Cachoeira Paulista e Guaratinguetá. Tomou rumo para Taubaté, Jacareí, Mogi das Cruzes e, finalmente, São Paulo. Na volta, retornou a Mogi das Cruzes, passou por Nossa Senhora da Escada, Jacareí, Taubaté. De Taubaté partiu em direção à capital do Brasil, passando por Aparecida, Guaratinguetá, Areias, Bananal, São João Marcos, Itaguaí e Santa Cruz.

Praça da Matriz de Cunha, por volta de 1900. Foto: Museu Municipal. Digitalização e coloração: Giorgio Cerutti.

Muito embora não tenha passado pela então Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha, Saint-Hilaire (2002, p. 118) não deixou de registrar informações sobre o nosso município. Pernoitando em um rancho de tropeiros, antes de chegar a Bananal, junto com seus dois criados – Firmino e Laruotte –, dois índios montados e um tropeiro, se deparou com dois soldados que iriam assumir guarda em uma barreira criada na estrada entre Cunha e Paraty e deles extraiu as seguintes informações, alguns meses antes da Independência do Brasil:

Rancho de Pedro Louco, 24 de abril, 4 léguas – No rancho sob o qual passamos a última noite, estavam dois homens da Vila de Cunha que vão assumir a guarda de uma barreira recém-criada nesta estrada. Segundo o que me informaram fica a cidade de Cunha situada perto da grande cordilheira, a nove léguas de Guaratinguetá, a quatorze do pequeno porto de Parati e cinco das nascentes do Paraíba. Como se acha em terreno baixo, o açúcar e o café não progridem em suas redondezas, que contudo produzem em abundância o milho e outros gêneros dos quais parte embarca em Parati para o Rio de Janeiro. De Guaratinguetá enviam também gêneros a Parati, fazendo-os passar pela Vila de Cunha.”

Saint-Hilaire, 24 de abril de 1822

Há outras impressões mais ou menos do mesmo período. Ficaremos, devido a sua precisão, com a do geógrafo e sacerdote português padre Manuel Aires de Casal (1945, p. 241-242), no seu “Corografia Brasílica”, lançado em 1817:

Cunha, em outro tempo Facão. Villa ainda pequena, e que com facilidade pôde ser considerável, situada na vizinhança do Rio Jacuhy sobre a serra, oito léguas ao Norte de Paraty, ornada com a Igreja Matriz, de que he Padroeira N. S. da Conceição. O clima he sadio, as noites de Junho, e Julho frias. He o lugar da Zona Torrida, onde ategora tem prosperado melhor as flores, e arvores frutiferas oriundas da Europa. Nos seus contornos ha extensos pinheiraes; e seus habitantes cultivam mantimentos do paiz, recolhem abundancia de milho, e criam em grande quantidade gallinhas, e porcos, sua riqueza. O caminho, que communica esta Villa com a do Paraty, he péssimo. Quando os recoveiros transitarem por elle com a mesma facilidade, e segurança, que os do Cubatão entre S. Paulo, e Santos, então uma terá florescimento, outra maior commercio.”

Padre Manuel Aires de Casal, 1817
Parte de uma carta da Província de S. Paulo, do início do século XIX, mostrando a localização de Cunha, os rios e os caminhos para o mar. Fonte: Acervo digital da Biblioteca Nacional.

População

A população da Vila alcançava 2.818 almas em 1823. A economia prosperava, mas de forma modesta. O café ainda não tinha alcançado o seu auge na região. E Cunha, que possuía função complementar, aguardava ser alavancada junto, com o arranque econômico que atingiria o Vale. Predominava entre as atividades, conforme descrição da época, presente nos Maços de População, o seguinte: “tem hum sitio em q. fas sua plantação e seva capados”. A mão de obra era basicamente escrava, contingente que atingia cerca de 44% de toda a população do município. A maioria era formada por escravizados africanos, porém é de se supor que ainda havia entre eles indígenas, descendentes dos povos originários.

As barreiras de alfândega que existiam no caminho até o mar eram ocupadas por soldados, que fiscalizam e faziam cumprir a taxação, daí a razão de ser a militar a profissão de maior ocupação entre os cunhenses nesse tempo. Não é uma coincidência ter Saint-Hilaire se deparado com dois deles, que vinham assumir posto em Cunha, quando pernoitou no rancho de Pedro Louco.

Fonte: Arquivo Público do Estado de S. Paulo, Maços de População da Vila de Cunha, 1823.

Na década de 1830, a produção de café se torna dominante no Vale do Paraíba, superando o cultivo de cana-de-açúcar, com quem dividia o uso e ocupação do solo. De 1823 a 1836, a população cresce. Reflexo do avanço da cafeicultura na região e do lastro de desenvolvimento que provocava. Passa de 2.818 para 3.403 habitantes. Chega a 559 “fógos” (sinônimo de moradia, casa, habitação, residência). É um novo tempo não só na política, mas na economia e na demografia. Recebe a região grandes contingentes humanos: de brancos, aventureiros e escravizados de outras partes do Brasil. Do ponto de vista ambiental é um desastre: liquidação quase completa da Mata Atlântica, que reduzir-se-á aos sertões e as cordilheiras.

Tropeirismo

O surgimento de Cunha, outrora Facão, que remonta às primeiras doações de sesmarias nos fins do século XVII, está relacionado diretamente com os caminhos, antigos, que permeavam o planalto do Paraitinga e do Paraibuna. Ponto de parada entre Paraty, no litoral, e as cidades do sertão: Guaratinguetá e Taubaté. Portanto, aqui, mais que em outros lugares, floresceu o tropeirismo. O dinamismo dos fluxos de gentes, mercadorias e ideias animou os primeiros anos da Freguesia do Facão, que vingou na Serra do Mar. Os que foram se estabelecendo, margeando a Estrada Real, foram se nutrindo desse movimento das tropas e do rol de atividades adjuntas que dessa circulação vai-e-vem advém.

Um dia comum em uma cidade paulista no início do século XIX. “San Bernardo”, aquarela sobre papel. 1827.
Autor: Charles Landseer. Fotografia: Fernando Chaves. Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural.

Por isso, a abertura de novas vias ou a modernização e retificação das antigas, sempre representava um duro golpe econômico e demográfico sobre o Facão. Essas decadências podem ser percebidas nos estudos genealógicos, como foi na pesquisa do historiador Carlos da Silveira (1938, p. 92): “As tropas, que eram a sua vida, começaram a se desviar para outras zonas e as velhas famílias, em fins do século XVIII e princípios do XIX, trataram de se ir localizando ao longo do caminho novo, de Lorena ao Rio. Numerosos habitantes, facãozenses puros, deslocaram-se da terra natal, povoando assim as margens da nova estrada, em territórios que vieram a constituir os municípios paulistas de Lorena até a fronteira fluminense, e, passando mesmo essa fronteira, estenderam-se até o Rio Piraí (…)”.

Mas Cunha sempre se reinventa. A natureza nos é generosa e disposição para o trabalho o cunhense sempre teve, desde sempre. Em 1836, chama a atenção o grande número de ferreiros entre as artes e ofícios de que se ocupavam os cunhenses. Havia 11 deles trabalhando em suas oficinas na Vila. Número bem acima dos municípios da região, inclusive daqueles que possuíam uma população ou um espaço urbano maior. Isso mostra que mesmo com a inauguração do caminho novo da Estrada Real ou do Caminho Novo da Piedade, os valeparaibanos não negligenciaram a antiga via de acesso ao litoral, que passava por Cunha e findava no porto de Paraty. Antes do café tomar conta, permaneceu essa via como rota de escoamento das riquezas do Vale.

Um tropeiro e a sua tropa, em aquarela de Jean Baptiste Debret. Carvão, 1822, aquarela. Fonte: Museus Castro Maya/IBRAM/MINC. Fotógrafo: Jaime Acioli

Por isso, Cunha não desapareceu do mapa. Além de sua produção agrícola, funcionava como entreposto comercial. Os ferradores de Cunha – produzindo estribos, esporas, ferraduras, cravos e pregos, fivelas, trempes, panelas e toda sorte de utensílios de ferro – davam assistência logística ao transporte de cargas e ao aparato das tropas. A nossa cidade, ainda que minúscula, ocupava uma função naquela rede urbana pretérita.

Economia

A vocação de Cunha para pecuária é antiga. O economista Francisco Vidal Luna (1998, p. 135), ao estudar os municípios paulistas entre os séculos XVIII e XIX, observou sobre essa atividade o que segue: “em 1804 sua importância maior ocorria no Vale do Paraíba, com 14,8% dos proprietários e 22,8% dos escravos, e no Caminho do Sul, com participações de 14,0% e 26,1%, respectivamente. No Vale do Paraíba destacavam-se Cunha e São Luís do Paraitinga (…)”. Todavia, naquele tempo predominava a suinocultura; e não a bovinocultura, como atualmente, com Cunha sendo a maior bacia leiteira do estado.

“Loja de carne de porco”, gravura de Jean B. Debret, representando o Rio de Janeiro do século XIX. Acervo do Museu Castro Maya.

Os dados estatísticos mais próximos, de 1836, apontavam que a Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha figurava entre as maiores produtoras de milho da Província de S. Paulo: com 87.988 alqueires, ocupando a 9ª posição. Além do cereal nativo da América, era destaque a produção de fumo com 649 arrobas, 2ª posição, atrás somente de Curitiba, que na época pertencia ao território paulista. Por ser um produto básico da culinária colonial, o toicinho era um produto comercializável e Cunha, com uma produção de 8.905 arrobas, ocupava naquela época a 1ª posição entre os municípios paulistas, correspondendo a 68,5% de toda produção provincial. Essa grande produção em nosso município indica o quanto a economia local estava ligada às culturas e criações que fugiam do sistema de plantation, ainda que a mão de obra fosse escrava em sua maioria. Junto com o cultivo de feijão, tabaco e milho e outros gêneros, criavam-se porcos e galinhas. Mais do que base da economia de subsistência, esses itens, para Cunha, destinavam-se à exportação e geração de receita. Seguiam para a Corte, via porto de Paraty, e para São Paulo e outras cidades do Vale, nas cangalhas.

Dos cultivos que prosperavam a província, Cunha em nada se destacava. Müller anota o que havia em nossas redondezas em termos de estabelecimentos agrícolas: “5 engenhos de assucar, em ponto pequeno, 2 fazendas de criar, 2 fazendas de café”. Número muito aquém dos municípios vizinhos. O motivo: o clima. A geomorfologia do nosso território, cercado por três serras, intensificava o frio característico do clima tropical de altitude. A geada, visita constante em nossos invernos, baldava as culturas tropicais nestas bandas. Entretanto, na descrição geral aparece a ressalva: “n’este districto se planta muito mantimento, assim como algum tabaco: criam-se muitos porcos, e algum gado vacum, e cavalar. Não tem terrenos devolutos.”. O café e o açúcar não fizeram a riqueza dos fazendeiros e sitiantes de Cunha, que de alguma forma, encontraram o seu nicho econômico como fornecedores de alimentos para região e para outras cidades maiores, envolvidas que eram em outras atividades agrícolas ou comerciais, mais rentáveis e tropicais.

Fazenda da Barreira, antes de ser demolida, no bairro do Taboão. Antiga alfândega para as mercadorias do Vale. Foto: Marcos Santilli. Data: década de 1980.

Após a Independência do Brasil, o Vale do Paraíba se tornará a região mais próspera do Império nascente. O café irá alavancar todas as localidades valeparaibanas. Até aquelas que não produziam café, como Cunha. No século XIX Cunha conhecerá o seu auge econômico e também viverá a sua decadência. Um século de muitas nuances, mudanças, e que merecerá, em breve, um texto só sobre esse período.

Referências:
AIRES DE CASAL, Manuel. Corografia Brasílica. Tomo I. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1945.
ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO (APESP). Maços de População – Vila de Cunha – 1823. Disponível em: < http://www.arquivoestado.sp.gov.br/web/digitalizado/textual/macos
_populacao >, acesso em 5 set. 2022.
DÓRIA, Carlos A.; BASTOS, Marcelo C. A culinária caipira da Paulistânia: a história e as receitas de um modo antigo de comer. São Paulo: Três Estrelas, 2018.
LUNA, Francisco V. São Paulo: População, Atividades e posse de escravos em vinte e cinco localidades – (1777-1829). Estudos Econômicos. São Paulo, v. 28, n. 1, p. 99 -169, jan/mar., 1998. Disponível em: < https://www.revistas.usp.br/ee/issue/view/877 >, acesso em 10 set. 2022.
MÜLLER, Daniel P. Ensaio d’um quadro estatístico da província de São Paulo: ordenado pelas leis provinciais de 11 de abril de 1836 e 10 de março de 1837. 3 ed. São Paulo: Governo do Estado, 1978.
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda viagem a São Paulo e quadro histórico da Província de São Paulo. Tradução de Afonso de E. Taunay. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2002.
SILVEIRA, Carlos da. Apontamentos para o estudo de uma grande família: os Lopes Figueira, do Facão. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. São Paulo, v. 35, p. 91-130, dez., 1938.
SOBRINHO, Alves M. A Civilização do Café (1820-1920). 3. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1978.

A estagnação demográfica do município de Cunha

Município manteve praticamente a mesma população durante todo o século XX.

Em 1.836, a população da Vila de Cunha era de 3.403 habitantes. A população da Província de S. Paulo não passava de 327 mil habitantes. Portanto, a população da Vila de Cunha representava cerca de 1% da população provincial que, àquela época, ainda incorporava o atual Estado do Paraná. Hoje, a população de Cunha é de 21.697 habitantes, segundo o IBGE. No Estado de S. Paulo, o mais populoso da Federação, vivem mais de 43 milhões de pessoas. Portanto, em nosso Município habita cerca de 0,05% do montante da população estadual, desconsiderando, claro, a população do Paraná, que agora é uma unidade federativa.

Se nesses 180 anos decorridos de lá para cá, Cunha mantivesse a participação no total da população estadual, não “parando no tempo” (como dizem), teríamos hoje mais 400 mil habitantes! Ia faltar morro para o povo fazer casa… Pensando melhor, ainda bem que viramos uma “cidade morta” na virada do século XIX para o XX.

Vale frisar que essa estagnação é fruto do saldo migratório negativo, e não da queda da taxa de natalidade/fecundidade, tal como acontece nos países desenvolvidos. Por trás dessa aparente estagnação há, paradoxalmente, toda uma dinâmica. Os “pushs factors” que podemos destacar são:

a) Estrutura agrária equalizada por gerações de herdeiros, inviabilizando novos desmembramentos de glebas às gerações futuras, tornando o fator fundiário um instrumento de repulsa;

b) Êxodo rural impulsionado pela industrialização das cidades do Vale do Paraíba e da Grande São Paulo a partir dos anos 1950;

c) Incapacidade técnica da agricultura tradicional/familiar de disputar mercado com a agricultura moderna e mecanizada;

d) Falência das elites agrárias tradicionais de Cunha, devido aos fatores “b” (escassez de mão-de-obra) e “c” (rendimentos precários e baixa produtividade);

e) Incapacidade do Estado de suprir as demandas por educação, saúde, transporte e direitos trabalhistas para a população do campo;

f) Substituição da agricultura familiar, combinada na tríade milho, feijão e suinocultura, pela pecuária de leite e corte, atividade com menor demanda de mão-de-obra e que introduziu espécies exóticas para formação de pastagem e resistentes à sazonalidade, tornando as roçadas um trabalho menos duro;

g) Devido aos fatores “b” e “c”, início da decadência das relações de trabalho pré-capitalistas nas roças de Cunha (inquilinos, agregados, meeiros etc.) e de solidariedade camponesa (mutirões), com a introdução do trabalho assalariado, autônomos (diaristas) e arrendamentos, a fim de contrair empréstimos bancários.

Nada indica que essa estagnação demográfica seja superada tão logo. O recente aumento das atividades turísticas pode amenizar essa situação, evitando a saída de muitos cunhenses. Entretanto, a reversão desse processo depende de fatores econômicos muito mais pungentes que esse surto turístico incipiente.

Texto publicado em 30 de julho de 2016, na página Jacuhy.

As perdas migratórias e a pirâmide etária de Cunha

Migrar é ação inerente à história da Humanidade. Desde os mais remotos tempos, mudar de lugar para suprir suas necessidades parece ser uma condição que acompanhou e garantiu a existência das sociedades humanas, levando à sua dispersão pelo Globo. A geógrafa francesa BEAUJEU-GARNIER (1980, p. 191) discorre a esse respeito: “o homem é uma criatura móvel, capaz de investigar, suscetível à sugestão e dotada de imaginação e iniciativa. Isso explica a razão pela qual, tendo concebido a idéia de que suas necessidades podem ser satisfeitas algures, decide não só ir a esse lugar como, também, sobre os meios por que seu projeto pode ser realizado.”. E assim tem feito desde que se pôs a andar, há milhões de anos.

Pirâmide etária do estado de São Paulo, segundo Censo de 2010. Não se nota nela a retração das barras que compreendem a população em idade ativa. Fonte: IBGE

São Paulo, nosso estado, foi receptáculo, desde o final do século XIX, de inúmeras levas de imigrantes que partiram para o Novo Mundo: italianos, japoneses, libaneses, alemães etc. Já no século XX, foi a vez dos nordestinos fluir em grandes levas para cá, acompanhando a necessidade das indústrias por mão de obra barata, abandonando a região de origem e os graves problemas e disparidades sociais até hoje não superados. Por isso o geógrafo brasileiro Milton Santos faz questão de anotar e chamar a atenção para a complexidade do fenômeno migratório, ao escrever que “o fenômeno das migrações aparece, portanto, estreitamente ligado ao da organização da economia e do espaço, vistos de um ponto de vista dinâmico.” (SANTOS, 2008, p. 306). A questão migratória vai além dos fatores psicológicos e mesmo das diferenças de renda entre os trabalhadores do campo e da cidade.

Evolução da população de Cunha ao longo dos últimos 40 anos. Criação: Jacuhy. Fonte dos dados: Fundação SEADE.

Cunha e outros municípios do Alto Vale do Paraíba vivenciaram no século passado um processo inverso do estadual. Porque, como afirmou SANTOS (2008, p. 301), as migrações são expressões da desigualdade espacial, resultado dos mecanismos de modernização, da influência da grande cidade sobre parte da área rural próxima. Assim, as circunstâncias históricas e econômicas fizeram prevalecer nestas paragens o êxodo rural. Camponeses sem acesso à terra (meeiros, agregados, inquilinos etc.) e pequenos agricultores com baixos rendimentos deixaram o campo cunhense e partiram para outras cidades do Vale do Paraíba e da Região Metropolitana de São Paulo, em busca de emprego, melhores condições de vida e maiores salários. Durante todo o século XX, essas perdas migratórias enxugavam as altas taxas de natalidade e de fertilidade, impedindo o seu reflexo no aumento natural da população municipal. Desse modo, a população de Cunha ficou estagnada na casa dos vinte mil habitantes durante todo o século passado. E assim permanece.

Essas condições podem ser observadas nas pirâmides etárias de Cunha. Os gráficos são reveladores quando se trata da estagnação demográfica em que o município se encontra há mais de um século. Cunha se fechou em uma agricultura familiar e de subsistência, de baixo rendimento, autóctone, calcada na plantação consorciada de milho/feijão e na pecuária extensiva. Tudo muito impróprio, dada às condições geomorfológicas do lugar, território acidentado em cada canto. E sem acompanhar (por muitas razões) as inovações tecnológicas do agronegócio. Não porque os agricultores cunhenses assim quiseram, mas porque estruturas poderosas, que se articulam em escalas superiores a local, implantaram e porque a lógica do capital é geradora de desigualdades, privilegiando certos espaços e se esquecendo de outros. O Brasil viveu durante o século XX um projeto avassalador de modernização, que culminou na concentração espacial da produção e consumo (SANTOS, 2008, p. 305-306), sobretudo nas grandes cidades, que serviram como espaços de recepção de bens, pessoas e capitais desses projetos do mercado, em prejuízo das cidades pequenas e zonas rurais.

Pirâmide etária de Cunha, segundo o Censo 2010. As barras da população compreendida entre os 20 e 39 anos estão retraídas. Fonte: IBGE.

Percebe-se, observando as pirâmides etárias do município, que as barras sofrem uma retração quando estão nas faixas etárias que compreendem a população em idade ativa (conforme se vê na imagem acima), que vai, geralmente, dos 16 aos 60 anos. Isso é um claro indicador do impacto do saldo migratório negativo. Muitos jovens, após se formarem no ensino médio, acabam deixando Cunha e partindo em busca de emprego, por isso há essa depressão no miolo da pirâmide. O mesmo fenômeno não é observado no estado de São Paulo e nem nos municípios da região que foram capazes de oferecer oportunidades de emprego, seja no comércio, serviços ou nos seus parques industriais. Mesmo se decidem permanecer no campo, o sítio da família, um minifúndio explorado pela força do trabalho familiar, não é capaz de propiciar renda para todos os filhos. Muitos têm que se mudar, mesmo a contragosto. É a chamada “migração ascendente” (SANTOS, 2008, p. 304), que se relaciona com o êxodo rural, fluxo que surge como uma fuga da miséria.

Pirâmide etária de Cunha, segundo o Censo 2000. A barra da população compreendida entre os 25 e 29 anos está retraída. Nota-se ainda um perfil clássico de pirâmide, entre a Fase I e Fase II da Teoria da Transição Demográfica. Fonte: IBGE.

Em Cunha, essa migração ascendente se acelera após a pavimentação da Rodovia Paulo Virgínio (SP-171), que liga Cunha à Rodovia Presidente Dutra (BR-116), na década de 1960. Por isso, Milton SANTOS (2008, p. 304) e outros estudiosos do fenômeno migratório, relacionam esses deslocamentos de população às facilidades de transporte. Assim, milhares de pessoas começam a esvaziar os campos e cidades menores em direção às metrópoles regionais e mais ainda para as metrópoles nacionais, onde o setor terciário é elástico o suficiente para recebê-las. Essas migrações nascem de situações de desequilíbrios e acabam agravando as desigualdades econômicas e espaciais, inchando as cidades e murchando as zonas rurais e cidades locais. Por fim, geram mais concentração espacial de renda, população, indústrias, comércio, consumo, poder político, inovações tecnológicas etc. Criam um espaço de topologia marcada por assimetrias socioeconômicas.

Quando se chega na faixa da população idosa, que estão representadas no topo, o município volta a se assemelhar aos padrões estaduais e nacionais. Isso indica uma migração de retorno. Muitos cunhenses, após se aposentarem, retornam à terra natal. O lugar onde o umbigo foi enterrado cala mais alto na alma do cunhense.

Garantir emprego para sua população, sobretudo para sua juventude, é um dos desafios mais urgentes para o município de Cunha. Há dois caminhos no horizonte. O turismo, em franca expansão, cuja capacidade a ser alcançada ainda é incerta. E a agricultura familiar, que pode se reinventar com novas formas de produzir, com sistemas agroflorestais, produção orgânica e diversificação de culturas. Mão de obra é o que não falta, mas faltam projetos, recursos, vontade e formação técnica para a juventude trabalhadora cunhense. Hoje, as cidades maiores já não são mais tão atrativas como eram no tempo dos nossos pais e avós, devido ao alto custo de vida e à rarefação dos empregos, fatores que se somam a um mercado cada vez mais exigente de qualificação e, desse modo, concorrido.

Talvez o futuro esteja nascendo em cidades como Cunha. Não custa sonhar. Com os pés no chão e mãos à obra, claro.

Referências:

BEAUJEU-GARNIER, J. Geografia de População. Tradução: Leônidas G. de Carvalho. 2. ed. São Paulo: Editora Nacional, 1980.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Demográfico 2010: sinopse dos resultados. Disponível em: < https://censo2010.ibge.gov.br/resultados.html >, acesso em 5 jun. 2021.

SANTOS, M. O espaço dividido: os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos. Tradução: Myrna T. R. Viana. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2008.

Uma situação inédita

“A maioria do povo mora na roça”, diziam os cunhenses a qualquer forasteiro, que constatar que a cidade de Cunha é muito pequena, acabava atacando nosso ego interiorano. Perdemos essa desculpa para a estatística. Pela primeira vez na História do município de Cunha, a população urbana ultrapassou a população rural. A urbanização crescente é uma tendência de todo o país e um processo pelo qual Cunha vinha passando nas últimas décadas. Em 2000, a porcentagem de população urbana era de 48,22% (11.134 habitantes) e a rural era de 51,78% (11.956 habitantes), ou seja, a população urbana cresceu em termos relativo e absoluto, enquanto a rural caiu em ambos. Repetiu-se em Cunha uma tendência da caracterizadora da urbanização brasileira. No estado de São Paulo, a população rural também caiu em termo absoluto (e no relativo também, idem), de pouco mais de 2,4 milhões em 2000 para cerca de 1,7 milhão em 2010. Isto aponta a pertinência do êxodo rural no território paulista, unidade federativa que viveu mais intensamente o processo de industrialização e urbanização nacional.

Fonte: IBGE – Censo 2010.

A taxa de urbanização cunhense cresceu 7,42% em 10 anos, o que corresponde um crescimento médio anual de cerca de 0,75%, sendo assim, é provável que a população urbana tenha superado a rural em 2003, no início da década de 2000. A taxa de urbanização de Cunha (55,6%) é ainda muito baixa em relação ao estado de São Paulo e ao Brasil. Em São Paulo chega aos impressionantes 96%; bem acima dos países desenvolvidos, no Reino Unido, por exemplo, que está em 84%, a mesma do Brasil. Assim, Cunha é um atípico município do Sudeste brasileiro, um território bastante ruralizado na área mais desenvolvida, industrializada e urbanizada do país. Aqui, o universo rural ainda exerce forte impacto e influência sobre a economia e na sociedade.

Outro fator importante é tratar do que foi considerado urbano para o IBGE. Neste caso, o instituto considera a organização do quadro territorial municipal e os seus perímetros. Todos esses perímetros devem ser definidos por lei municipal e sendo contidos dentro dos limites municipais. O Município de Cunha está assim organizado:

  • Cidade: a sede do município, no caso a cidade de Cunha;
  • Vilas: sedes de distritos, no caso a vila de Campos de Cunha;
  • Áreas Urbanas Isoladas (AUI’s): localidade com característica urbana separada da cidade ou das vilas, no caso temos duas – AUI do B. do Paraitinga e AUI do B. da Bocaina de São Roque.

O bairro rural da Bocaina, que tem igreja, rua, unidade básica de saúde, escola estadual até o 9º ano e outros elementos de centralidade/urbanidade, foi pela primeira vez recenseado como urbano, como uma área urbana isolada. São consideradas urbanas por lei municipal, todas feitas sem nenhum critério científico. Embora tratar essas AUI’s como área urbana seja questionável geograficamente, isso não teve impacto grande sobre a taxa de urbanização, porque só na cidade de Cunha reside mais 50% de toda a população municipal.

Observação: Texto escrito em 14 de janeiro de 2013, uma brevíssima análise dos resultados do Censo do IBGE de 2010.

População de Cunha em 1.793

Fonte: Maços de População da Villa de N. S. da Conceição de Cunha, Arquivo Público do Estado de S. Paulo.

Em um dos primeiros recenseamentos realizados em Cunha após a emancipação política, em 1785, a vila aparecia com 2.742 habitantes.

Chama a atenção a quantidade de escravos: 46,6% da população. Quase metade! Grande produtora de cereais, as fazendas de Cunha também se fundamentavam na mão-de-obra cativa, como todos os demais lugares da colônia. O trabalho familiar, baseado em minifúndios, vem bem depois, com as sucessivas divisões das propriedades de terra após as partilhas entres os herdeiros. O professor João Veloso sempre dizia que nem todos esses escravos eram de origem africana. Pelo menos nesse período, século XVIII, ainda havia muitos escravizados indígenas, os “bugres”.

Esses recenseamentos – documentos valiosos para os estudos demográficos, econômicos e históricos do estado e das cidades – encontram-se no Arquivo Público do Estado de São Paulo e estão digitalizados, disponíveis inclusive para consulta on-line. Para lê-los, principalmente os mais antigos, é preciso ter algum conhecimento em paleografia.

Cerca de 100 anos depois, em 1890, a população de Cunha era de 12.880 habitantes. Um aumento populacional de 370%. Já em 1991, a população de Cunha chegava a 23.462 habitantes. Um acréscimo populacional de 82%, porém bem menor do que houve no século anterior. Isso sem comparar com o crescimento populacional de São Paulo e do Brasil no mesmo período. Fica evidente que no século XIX Cunha atingiu o seu apogeu econômico, juntamente com o Vale do Paraíba, enriquecendo nos tempos áureos do café. O século XX foi marcado pela estagnação econômica, com uma agricultura de subsistência e uma pecuária extensiva de baixo rendimento, e, consequentemente, perda populacional devido ao êxodo rural.

Cunha: composição étnica em 1.828

Cem anos após a sua fundação e logo após a Independência do Brasil, a Vila de Cunha somava 3.192 almas, espalhadas, sobretudo, pelo seu extenso território rural, já que a população urbana naquele tempo era insignificante. Nada de insignificante era a sua importância econômica para o Vale e para a Província de S. Paulo. Impossibilitada, devido ao clima frio, de produzir café e cana-de-açúcar na escala reclamada pelo mercado, o município, desde os primórdios, dedicou-se à produção de gêneros de primeira necessidade para a economia interna, como milho, carne de porco, toucinho e tabaco. Embora fosse pequena a sua população de 1.828, era muito mais significativa relativamente do que os 22 mil habitantes de hoje, em um Estado com 43,7 milhões de habitantes. Na época a Província contava com apenas 221.559 habitantes, portanto, Cunha concentrava cerca de 1,5% de toda a população da Província. Nas fazendas, as plantações e o árduo trabalho agrícola demandavam uma grande e eficiente mão de obra, obtida principalmente através da escravização dos negros, daí se observa a grande proporção de população negra em nosso município, como se observa no gráfico.