
O Cemitério de Cunha foi inaugurado em 7 de abril de 1868, após mais de uma década de dedicação da Câmara Municipal. Angariar fundos naquele tempo não era fácil. A ação dos administradores locais em prol de um descanso seguro e asséptico aos mortos começou em meados do século XIX. O arcaico hábito de enterrar defuntos no interior de capelas e igrejas vinha sendo questionado pelas autoridades sanitárias do Império.
Entretanto, convém lembrar que essa honra de ser sepultado no interior dos templos sagrados era facultada às elites locais. Aos pobres e remediados, era oferecido o adro da Igreja Matriz. Sim, a praça já foi cemitério. Por isso, no início da década de 1990, quando a Praça da Matriz passou por uma de suas inúmeras reformas, foram encontradas ossadas e vestígios de antigas sepulturas.
Aliás, o jazigo refletia a condição social do falecido. Nem depois de morto se escapava da segregação de uma sociedade estamental. Aos escravizados era destinado o chão seco das fazendas e sítios em que trabalhavam. Os condenados à forca eram enterrados dentro de suas celas, na Cadeia Pública. Por isso, quando o antigo sobrado que sediava a Cadeia, Câmara e Prefeitura foi incendiado, em 1961, na base de suas ruínas foram encontrados muitos restos mortais. Os pobres da zona rural eram enterrados na beira das estradas ou ao lado das capelas locais, dando origem a muitas santa-cruzes, que podem ser encontradas até hoje pelas estradas de Cunha.
Um fato curioso e até anedótico aconteceu quando a Câmara de Cunha concluiu as obras do Cemitério. Tudo estava planejado para o começo de abril, dia 5, um domingo. Todavia, uma vez pronto, faltava a sua razão de existir: cadáveres. Não havia. Ninguém estava morrendo em Cunha naqueles idos. Os ricos, visando manter seu privilégio, queriam continuar sendo sepultados nas igrejas; os pobres e escravizados, por questão de custo e logística, continuavam a ser enterrados na roça. Cidade com pouca população, seria difícil encontrar algum finado ajustado ao calendário político. Foi aí que tiveram a ideia de emprestar um defunto de Paraty, cidade vizinha sempre afligida pelas moléstias tropicais. E de lá trouxeram o primeiro morto, inaugurando, assim, a necrópole municipal.

Uma década após a inauguração peculiar, o Cemitério Municipal finalmente pôde ser devidamente ocupado. Em 1878, a epidemia de varíola varreu o município de Cunha, ceifando muitas vidas. A famigerada e temida peste bubônica, desgraçadamente, povoou o campo-santo de sepulturas.
Em 23 de julho de 1971, o senhor José Oliveira Pinto resolveu se esconder na antiga capela do Cemitério, fugindo de uma forte chuva que atingia a cidade. Uma descarga elétrica atingiu a capela, ceifando sua vida e danificando a estrutura do secular velório.

Em 20 de abril de 1973, a Prefeitura entregou um Cemitério Municipal remodelado e reformado à população, com um belo gramado à frente e uma estátua de Cristo, com o braço direito levantado, sinalizando sua bênção ao povo de Cunha.
Referência:
“A história de Cunha: 1600-2010”, de João José de Oliveira Veloso.
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