
Com o título “Cidade Sitiada”, o Museu Francisco Veloso organiza desde o dia 9 de julho de 2022 uma exposição sobre a Revolução Constitucionalista de 1932, com enfoque nos acontecimentos de Cunha. A guerra civil de 1932 foi o mais importante evento histórico estadual no século XX e teve em Cunha um dos seus teatros principais, devido à proximidade com fronteira interestadual. A exposição vai até o dia 30 de setembro.
Apesar de já se ter passado 90 anos do conflito, deflagrado em 9 de julho de 1932, é um assunto que desperta defesas ou investidas apaixonadas. O historiador Hernâni Donato, em seu livro “História da Revolução Constitucionalista de 1932”, ao tratar sobre o interesse que esse remoto levante armado ainda desperta, aponta: “Extremadas. Assim têm sido as referências ao movimento cívico-político-militar ocorrido em 1932, preparado em vários estados, porém centralizado em São Paulo. Enaltecido ou denegrido”. São Paulo se levantou contra o “Governo Provisório” de Getúlio Vargas, instaurado pela Revolução de 1930, alegando a imediata reconstitucionalização e redemocratização do país. Derrotados no campo militar, os paulistas cantam vitória até hoje, pois o seu ideal, uma nova constituição, foi alcançado. Em 1933 houve eleição para composição da Assembleia Nacional Constituinte e em 1934 uma nova Constituição foi promulgada para o país. Já para o historiador Boris Fausto, em seu livro “História concisa do Brasil”, os objetivos dos paulistas e aliados eram ambíguos. Segundo ele, “a ‘guerra paulista’ teve um lado voltado para o passado e outro voltado para o futuro. A bandeira da constitucionalização abrigou tanto os que esperavam o retroceder às formas oligárquicas de poder quanto os que pretendiam estabelecer uma democracia liberal para o país”.











As ocorrências e consequências do conflito ainda estão vivas na memória de muitos cunhenses. Não as desavenças políticas das elites, mas o sofrimento do povo e a perda da inocência com tanta violência em um lugar outrora tão pacato. A tradição oral sobre a guerra civil vai desde as anedotas do contador de causos “Zé Varda” até o silêncio de traumas insuperáveis, vivos ainda nas lembranças daqueles que vivenciaram de perto os horrores de ter uma guerra acontecendo no quintal de casa.
O objetivo da exposição é provocar novos olhares e leituras sobre o movimento armado, ampliando a discussão para além das motivações políticas e das narrativas orquestradas por elas. Por isso, além de abordar os aspectos gerais do conflito, é tratado o desdobramento na cidade de Cunha, do cerco militar que a cidade passou entre julho e agosto de 1932. O envolvimento dos soldados e também dos moradores, civis, pessoas alheias aos acontecimentos políticos nacionais, mas que acabam tomando parte, sem querer, na guerra civil. Um verdadeiro drama que o tempo ainda não foi capaz de apagar.
A diretora do Museu, Dina Zélia Chimello, afirma que a exposição foi feita pensada nos cunhenses e aguarda a visita de todos. Recentemente, ela gentilmente nos concedeu uma entrevista sobre a exposição, que reproduzimos abaixo.
Jacuhy – Qual é o objetivo da exposição “Cidade Sitiada” e o que o Museu pretende promover com ela?
Dina Chimello: O objetivo principal é contar a história da Guerra Civil de 32, na cidade de Cunha, com base em relatos memorialísticos (foram feitas entrevistas com antigos moradores; e extraídos os testemunhos escritos de soldados voluntários). E assim provocar uma reflexão sobre as experiências vividas naqueles três meses de guerra, seja pelos soldados, ou pelas muitas famílias que abandonaram suas casas para viver no mato, sem alimento e proteção, segundo relato do sr. Enéas Roberto de Toledo, Dona Maria Pacheco e sr. Nino, os quais com seus testemunhos contribuíram, traduzindo os sentimentos dos seus antepassados e familiares.
O MFV (Museu Francisco Veloso) pretende, com a exposição “Cidade Sitiada”, promover e estabelecer vínculos com os cunhenses, em particular com as instituições escolares, de modo a contribuir para o envolvimento de professores e alunos com a memória e a história da cidade.
Jacuhy – Por que a escolha pela Revolução de 1932, uma guerra civil, como tema da primeira exposição do Museu sob sua gestão?
Dina Chimello: O tema foi uma sugestão do prefeito José Eder para celebrar os 90 anos da Guerra Civil de 1932. Os historiadores, Maria Izabel de Azevedo Marques Birolli, e Joaquim Roberto Fagundes foram responsáveis pela pesquisa histórica, e Andreas Guimarães pela expografia.
Jacuhy – Qual tem sido a impressão sobre a exposição dos munícipes e turistas que visitam o Museu?
Dina Chimello: É bastante impressionante como a exposição tem sido bem avaliada! Depoimentos cheios de emoção sobre a montagem da sala que conta a história dos “Lenços Brancos”, na voz de Tereza Freire. Sobre a grafia dos textos em tecidos, sobre a réplica da matraca e do boneco do soldado, obras do dedicado artesão Reginaldo da Silva Martins. Admiração ainda com a tecnologia de landing Page e QR code disponíveis em todas as salas, um recurso que possibilita maior alcance e visibilidade, trabalho técnico de Kauan Yorras Ruan Pereira, empresa, Essencial Artes Designer e Publicidade.
Jacuhy – Sabemos que a Revolução de 1932 ainda é trabalhada nas aulas de História. As escolas de Cunha têm frequentado a exposição?
Dina Chimello: Sim, uma grande quantidade de alunos e professores já visitaram a exposição, e queremos continuar a recebê-los com muita alegria e disposição. Acreditamos que, inspirados por ela, poderão surgir muitas e importantes atividades escolares. Esperamos ainda que estes alunos levem seus familiares. A exposição foi movida pelo sonho e o desejo de receber os cunhenses!
Jacuhy – Até quando vai a exposição e qual o horário que o Museu fica aberto à visitação? Ele funciona aos sábados e domingos?
Dina Chimello: Até dia 30/9 de 2022. De terça à sexta-feira, das 9h às 16 horas. Aos sábados das 10h30 às 16 horas. Aos domingos das 10h30 às 13 horas.
O Museu fica no calçadão da rua Comendador João Vaz, centro de Cunha, no casarão que pertenceu ao sr. Nenê Felipe.