
Tradições se acabam. Infelizmente. Porque elas formam a nossa identidade cultural. Porque elas se perdem na massificação de culturas hegemônicas promovidas pela Globalização. Resistir é preciso. Relembrar é resistir. Há muito tempo, a Folia de Reis de Caixa percorria a extensa zona rural de Cunha, passando por seus bairros, sítios e fazendas, entre os dias 24 de dezembro até 06 de janeiro do ano seguinte (Dia de Santos Reis), podendo prolongar-se até dia 2 de fevereiro (Dia de Nossa Senhora das Candeias ou da Luz) ou até 6 de janeiro (Dia de Santo Reis). Esse período festivo fazia parte da Festa do Deus-Menino, que celebrava o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, conforme a liturgia católica. A Folia de Reis era a popularização da celebração religiosa. Era uma forma de como o povo interpretava as verdades de fé. E celebrava o nascimento, isto é, a vida. Saíamos foliões sempre à noite, imitando os Reis Magos, que viajam guiados por uma estrela. Cantando e louvando o nascimento do Menino Deus e pedindo óbolos, renovavam a fé e a esperança pelos rincões de Cunha daquele tempo. Não havia televisão, rádio mesmo era difícil, internet, então, nem se pensava em existir… Não era só fé, mas divertimento e congraçamento comunitário. Havia também a Folia de Reis de Banda de Música, mas essa só se apresentava na cidade.
A Folia de Reis de Caixa de Cunha percorria a imensa área rural cunhense, cantando e esmolando. Paravam nas casas que tinham presépio (outra tradição cunhense), por mais rústico que fossem. E quase sempre eram mesmo. O povo era pobre em recursos materiais, mas abundava a fé a fartura de honestidade, bondade, hospitalidade, virtudes que dinheiro nenhum podia comprar. A Folia tinha os seguintes participantes: alferes, mestre-violeiro, contra-mestre, tocador de adufe, Tocador de caixa, além deles a Folia contava com os palhaços (Pai João, Catirina, Palhaço) e as pastorinhas, formada por meninas e vestidas a caráter.

A Folia de Reis de Cunha foi estudada por Alceu Maynard Araujo, sociólogo paulista e grande folclorista. E foi ele quem popularizou a música “Visita ao Presépio”, da Folia de Reis de Cunha, muito executada e cantada por diversos intérpretes e quase nunca creditada à nossa Folia de Reis. A saudosa Inezita Barroso, por exemplo, gostava muito de cantá-la em seu programa “Viola, minha viola”, na TV Cultura (veja vídeo abaixo), mas sempre creditava assim: “recolhida por Alceu Maynard Araujo”, sem dizer onde e nem de quem o eminente sociólogo teria recolhido. É um desleixo do programa, pois o próprio Araujo deixou registrada a letra, as notas e autoria correta em dois de seus livros “Cultura Popular Brasileira” (2. ed., 1973, p. 27) e no “Canta Brasil” (1957, p. 43 – 45) e no artigo “Folia de Reis de Cunha”, que saiu na Revista do Museu Paulista, volume III, p. 424-425, 1949. A música “Vista ao Presépio” (mais conhecida pelo seu primeiro verso “Acordai quem está dormindo”) é patrimônio cultural do município de Cunha.