Pedra do Frade – Cunha – SP

Pedra do Frade, no bairro do Sertãozinho. Foto: Alessandro Ferraz.

1. Localização:

Está localizada no bairro do Sertãozinho, zona rural do município Cunha (SP). Possui um paredão de 80 metros de altura (IGC, 1978). Está a 14 quilômetros da sede urbana municipal em distância absoluta. As coordenadas geográficas da Pedra, obtidas pelo SIG on-line DataGEO, do Sistema Ambiental Paulista, são as seguintes: 23º10’23.7″S; 45º02’51.1″W (Datum: Sirgas 2000).

Localização da Pedra do Frade no município de Cunha. Cartografia: Jacuhy.

2. Altitude:

Varia conforme o produto cartográfico, site geoespacial ou SIG utilizado. Assim, tem-se:

  • na carta do IBGE: 1.220 metros.
  • na carta do IGC: 1.246 metros.
  • no software Google Earth: 1.233 metros.
A Pedra do Frade está a 1.246 metros de altitude. Fonte: IGC.

3. História:

A Pedra do Frade está dentro do sítio do Frade, propriedade do Sr. José Wagner e pertenceu às terras da fazenda do Sr. Décio Mariano Leite, que era filho de Crispim Mariano Leite e neto do capitão Joaquim Mariano de Toledo, povoador da região. Tem esse nome, segundo a tradição oral, porque na época da escravidão morava um frade no local, que a usava como refúgio, pois era defensor dos escravizados. Segundo dizem, há em um dos lados da Pedra a entrada para uma gruta, que serviu como abrigo para o frade e para os seus protegidos, que fugiam dos horrores da escravidão. Um frade é um religioso católico, não necessariamente um clérigo, que pertence a uma ordem religiosa mendicante. Diferente dos monges, os frades não ficavam tão enclausurados nos mosteiros, mas exerciam seu ministério junto ao povo. São notórios defensores dos pobres e oprimidos.

Pedra do Frade e o Alto do Diamante. Foto: Jorge Prudente. Arte: Jacuhy.

É muito difícil atestar a veracidade sobre a existência desse frade, mas relatos como esse são repassados pelos moradores locais ao longo do tempo. Há um fundo de verdade por trás de todos eles. A escravidão foi uma triste realidade no município de Cunha desde os tempos coloniais. No século XIX, por exemplo, quase metade da população de Cunha era formada por negros escravizados. A Pedra do Frade está próxima ao bairro da Catioca, primitiva zona de ocupação e povoamento do município de Cunha (VELOSO, 2010). Região privilegiada e propícia à colonização, pois estava situada no caminho que ligava a Freguesia do Facão (Cunha) à Vila de Taubaté. Assim, foi desde o século XVIII toda fatiada em sesmarias. Muitas fazendas surgiram na região da Catioca. Poucas permaneceram até hoje, como é o caso da Fazenda Sant’Anna, um testemunho de uma época pretérita. Mesmo se o relato não passar de mito e lenda, é certo que na região da Pedra do Frade houve escravidão e que muitos negros, como forma de resistir à opressão, fugiam e procuravam abrigo em lugares remotos.

Em 1933, o terreno no qual está a Pedra do Frade foi arrolado no espólio do capitão Joaquim Mariano de Toledo (“Quim Mariano”), maior fazendeiro de Cunha no início do século XX, com a seguinte descrição: “(…) i) – Três partes de terras no lugar denominado ‘Frade’ (…)” (VELOSO, 2010, p. 251). Os moradores do bairro do Sertãozinho figuraram entre os primeiros moradores de Cunha a se converterem ao metodismo, ainda nas primeiras décadas do século XX.

Aspecto do relevo da região. Foto: Adilson Toledo.

A Pedra do Frade é um prolongamento da Serra do Alto do Diamante e se encontra em uma região de Cunha onde as montanhas com os cumes pedregosos embelezam ainda mais a paisagem rural. Mas por que Alto do Diamante? Do ponto de vista geológico é muitíssimo improvável encontrar essas pedras preciosas em Cunha. Porém, por estar sobre o embasamento cristalino, há grande ocorrência de pedras de quartzo nas terras cunhenses. Essas pedras eram antigamente confundidas com diamantes ou consideradas como indícios de que haveria diamantes no lugar. Daí a crença popular de que poderia haver diamantes naqueles outeiros, onde brotam quartzos de variados aspectos e cores. Outros afirmam que o lajedo de gnaisse, após uma chuva ou garoa, tendo ficado molhado, tem brilho intenso como diamante, ao refletir a luz do Sol. Parece que os afloramentos rochosos marcaram a toponímia local. É muito provável, por exemplo, que o bairro do Itambé, vizinho do Sertãozinho, tenha recebido esse nome em razão do aspecto da Serra do Alto do Diamante. Itambé é topônimo (litotopônimo, no caso) de origem tupi (“itá-aimbé”) e significa “pedra pontuda e afiada” ou “pedra de amolar”,podendo, por extensão, ser traduzido como “borda; beira; precipício” (NAVARRO, 2013). Seria uma possível referência ao afloramento rochoso do Alto do Diamante? Vejam as fotos e tirem suas conclusões.

Aspecto do Alto do Diamante. Foto: Jorge Prudente.

4. Meio físico:

A Pedra do Frade, bem como todo o território cunhense, está inserida dentro do Domínio Morfoclimático dos Mares de Morros, possuindo as seguintes características:

  • a) Hidrografia: a Pedra exerce a função de divisor de águas, separando as microbacias do ribeirão do Limão e a do ribeirão das Abóboras, ambos tributários do ribeirão Itaim, que deságua no rio Paraitinga, na divisa com Lagoinha (SP). No sopé da face noroeste da Pedra nasce o córrego dos Peros (IBGE, 1974).
  • b) Climatologia: ocorre o tropical de altitude típico, com suas estações bem definidas, podendo ocorrer geada no inverno. Entretanto, essa região localizada em uma área serrana é mais úmida do que boa parte do município, devido à altitude e à proximidade com a Serra do Mar, sendo comum a ocorrência de eventos orográficos (garoa, serração) de manhã ou na parte da tarde.
  • c) Vegetação: no passado pré-colonial, era a região coberta por Mata Atlântica. Atualmente o entorno da Pedra está ocupado por pastagens, em função da atividade pecuária que se desenvolve no lugar. Na proximidade topo do encontra-se uma pequena mancha de Floresta Ombrófila Densa em estágio médio (SÃO PAULO, 2020). No topo da Pedra, entre as lascas seixosas que se desprenderam do monólito, brotam flores rupestres, o que ressalta a beleza do lugar.
  • d) Geologia: área de contato das entidades tectono-estratigráficas Terrenos Embu e Terreno Serra do Mar, formada há 587 milhões de anos, durante a Era Neoproterozoica (CPRM, 2006). A geotecnia aponta ser o local sujeito a alta suscetibilidade a escorregamentos (naturais e induzidos), com rochas cristalinas no embasamento (NAKAZAWA; FREITAS; DINIZ, 1994). Há o predomínio de rochas ígneas plutônicas. Registra-se a ocorrência dos seguintes tipos de rochas: gnaisse, biotita, granito, monzogranito, migmatito, xisto, metapelito, quartzito, meta-arenito etc. A região está inserida no maciço do Corpo Granito Natividade da Serra (IPT, 2010).
  • e) Geomorfologia: está dentro da unidade morfoestrutural do Cinturão Orogênico do Atlântico, mais especificamente no Planalto do Paraitinga-Paraibuna. A Pedra em si é um penedo granítico, fruto da erosão diferencial e resultado do ataque dos agentes exógenos sobre o relevo. A Pedra está passando por um processo de esfoliação esferoidal. Do ponto de vista topográfico é a Pedra um esporão, um interrompimento da declividade da linha de crista da Serra do Alto do Diamante. Esta serra chega a atingir em seu cume a altitude de 1.640 metros. O relevo da região é todo orientando pela litografia, sendo o bairro do Sertãozinho um vale em “v”, aninhado entre dois esporões lançados do maciço central da Serra do Alto do Diamante. A Pedra do Frade é apresentada no Mapa Geomorfológico do Município de Cunha (IPT, 2010) como parte integrante das serras alongadas, com morros altos e fortemente ondulados.
  • f) Pedologia: o solo predominante é o cambissolo háplico (SÃO PAULO, 2007), ocorrendo ainda em associação com os latossolos amarelo e vermelho-amarelo típico. Ambos são distróficos. Apresenta textura média, é argiloso e típico de relevo fortemente ondulado, com profundidade variável de pouco até muito profundo.
Pedra do Frade, hipsometria e vizinhança. Fonte: IBGE.

5. Ecoturismo:

Apresenta enorme potencial, porém ainda permanece inexplorada. Além de ser um mirante fascinante, nela pode se desenvolver atividades como: montanhismo, rapel, trekking, mountain bike etc. As formações rochosas e altas montanhas do entorno são um espetáculo que merece ser apreciado por mais pessoas.

Pastagens dominam o entorno da Pedra do Frade. Foto: Alessandro Ferraz.

6. Acesso:

Antes de tudo, é importante ressaltar que a Pedra está em propriedade particular, sendo assim, o acesso até ela necessita de anuência prévia dos proprietários.Para chegar até o local, deve-se seguir pelos seguintes caminhos:SP – 171 (Rodovia Vice-Prefeito Salvador Pacetti, de Cunha até a divisa com o estado do Rio de Janeiro), em asfalto, por 3,3 Km, daí entra à direita e segue pela Estrada Municipal Benedito Galvão de França (Cunha – Catioca), em terra batida, por 10,3 Km; daí entra à esquerda e segue pela estrada que interliga o bairro das Abóboras ao bairro do Jericó, em terra batida, por 0,5 Km, daí entra à direita, subindo e seguindo pela Estrada do Limão/Sertãozinho, em terra batida, por 6,3 Km até a entrada da trilha que dá acesso à Pedra, que está à esquerda da estrada. É um caminho de tropa frequentado pelos íncolas locais, que liga o bairro do Sertãozinho ao bairro do Sertão dos Marianos, do outro lado da cadeia de montanhas. Da estrada do Sertãozinho segue-se por trilha, em direção ao Sertão dos Marianos, subida a pique, por 1,4 Km.

Imagem de satélite da Pedra do Frade. Fonte: EMPLASA, 2010.

7. Outras informações:

a) Localização da Pedra do Frade no Google Maps: https://www.google.com.br/maps/place/23%C2%B010’22.3%22S+45%C2%B002’50.1%22W/@-23.1728611,-45.0485514,674/data=!3m2!1e3!4b1!4m14!1m7!3m6!1s0x9d7ce47f825ea7:0xb0e1ed8f9db1d15a!2sCunha,+SP,+12530-000!3b1!8m2!3d-23.0743544!4d-44.9561012!3m5!1s0x0:0x0!7e2!8m2!3d-23.1728643!4d-45.0472496!5m1!1e4

b) Rota da cidade de Cunha até o início da trilha para a Pedra do Frade: https://goo.gl/maps/CgmRpPTBuvmS1EJh6;

c) Não temos nenhuma informação sobre as condições de trafegabilidade, no momento, da estrada que leva à Pedra do Frade.

d) O presente artigo contou com informações valiosas fornecidas pelas seguintes pessoas Sr. Jorge Prudente (sitiante no bairro do Sertãozinho), Sr. Adilson Galvão (quem sugeriu esta publicação) e pela guia turística Sra. Edna Maria. Nosso agradecimento a eles.

Bairro do Sertãozinho. Foto: Adilson Toledo.

8. Fotos:

Adilson Toledo, Alessandro Ferraz e Jorge Prudente.

9. Referências:

AB’SÁBER, A. N. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

COMPANHIA DE PESQUISA DE RECURSOS MINERAIS (CPRM). Mapa geológico do estado de São Paulo. Escala 1:750:000. Breve descrição das unidades litoestratigráficas aflorantes no estado de São Paulo. São Paulo: CPRM, 2006.

FRADE. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2021. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Frade&oldid=60735861 >. Acesso em: 24 mar. 2021.

GUERRA, A. T. Dicionário geológico-geomorfológico. 8. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 1993.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Lagoinha. Rio de Janeiro: IBGE, 1974. 1 carta topográfica, color., 4465 x 3555 pixels, 5,50 MB, jpeg. Escala 1:50.000. Projeção UTM. Datum horizontal: marégrafo Imbituba, SC, Datum vertical: Córrego Alegre, MG. Folha SF-23-Y-D-III-2, MI: 2770-2. Disponível em: < https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/mapas/GEBIS%20-%20RJ/SF-23-Y-D-III-2.jpg >. Acesso em: 18 jun. 2021.

INSTITUTO GEOGRÁFICO E CARTOGRÁFICO (IGC). Sertão. São Paulo: Governo do Estado de S. Paulo – Sec. de Economia e Planejamento: Plano Cartográfico do Estado de S. Paulo / Coordenadoria de Divisão Regional / Divisão de Geografia, 1978. Escala 1:10.000. Projeção UTM. Datum horizontal: marégrafo Imbituba, SC, Datum vertical: Córrego Alegre, MG. Carta SF-23-Y-D-III-2-SE-D, Folha: 083/131.

INSTITUTO DE PESQUISAS TECNOLÓGICAS (IPT). Esboço geológico do município de Cunha. Escala 1:50.000. São Paulo: IPT, 2010.

NAKAZAWA, V. A.; FREITAS, C. G. L.; DINIZ, N. C. Carta Geotécnica do Estado de São Paulo. Escala 1:500.000. São Paulo: Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), 1994.

NAVARRO, E. de A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo: Global, 2013.

ROMARIZ, Dora de Amarante. Biogeografia: conceitos e temas. São Paulo: Scortecci, 2008.

SÃO PAULO (Estado). Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente. Mapa pedológico do Estado de São Paulo: revisado e ampliado. São Paulo: Instituto Florestal (IF), 2017. 118p. : il. color ; mapas. 42×29,7 cm. Disponível em: <http://www.iflorestal.sp.gov.br >. Acesso em: 1 mai. 2021.

______. Inventário Florestal do Estado de São Paulo: mapeamento da cobertura vegetal nativa. São Paulo: IF (Instituto Florestal), 2020. Disponível em: < https://smastr16.blob.core.windows.net/home/2020/07/inventarioflorestal2020.pdf >. Acesso em: 1 jun. 2021.

______. DataGEO – Sistema Ambiental Paulista: Infraestrutura de Dados Espaciais Ambientais do Estado de São Paulo (IDEA-SP). Disponível em: < https://datageo.ambiente.sp.gov.br/app/?ctx=DATAGEO >. Acesso em: 1 jun. 2021.

VELOSO, J. J. de O. A História de Cunha: 1600-2010 – Freguesia do Facão – A rota da exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.

Mapa concêntrico mostrando os pontos de referência próximos à Pedra do Frade. Cartografia: Jacuhy.

4 comentários em “Pedra do Frade – Cunha – SP

  1. Parabéns pelo execente trabalho, meus ancestrais imigrantes espanhois trabalharam na Fazenda Sant’Anna ao chegarem ao Brasil. Agora em novembro de 2024 vou visitar a sede da Fazenda, e se possível subir a Pedra do Frade. Sobre a Fazenda há alguma publicação, ou site onde encontro informações históricas. Em Bibliotecas de Cunha e São Luis Paraitinga devo achar algo sobre a Fazenda?
    Joel Parizi

    1. Olá, Joel. Até onde sei a fazenda Sant’Anna está à venda e bem deteriorada. Há muita coisa no Museu de Cunha, no livro “A história de Cunha”, do professor João Veloso e, com certeza, nos museus de São Luiz e Lagoinha, já que os antigos proprietários eram vinculados a essas duas cidades.

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