A cidade dos palácios abandonados 

Por Miguel Ângelo Barros Ferreira *

O que impressiona desde logo o visitante é uma espécie de majestade ao abandono. Tem-se a impressão de que o tempo ali parou tudo deixando como antes. A enormidade da matriz expressa uma grandeza remota. Não bastava apenas muita fé. Era preciso muita riqueza para custear um templo de tais proporções. Não há em todo o estado de São Paulo, da mesma época, nada que se lhe compare. Um pormenor marcante é a existência do primitivo pelourinho, ainda na praça central, defronte da matriz. Deram-lhe função moderna. Fizeram dele lampião. Em volta, há uma espécie de ciranda de casas térreas, de paredes de taipa, denunciando, pelo aspecto venerável, que fizeram mais de cem anos. E há sobrados imponentes, com sacadas providas de grades ricas, proclamando uma riqueza que passou. Nas ruas relativamente largas, que conheceram o alarido das tropas, assenta agora a quietude de uma velha cidade afastada das rotas do comércio. Cunha, atualmente, recorda. É como velha que se senta junto da janela, de olhar perdido no horizonte, e conta o rosário e lembra a juventude. Lá distante, está Parati, que era a sua porta ao mar. É outro rescaldo de grandeza, onde existem telhados com telhas de porcelana vinda do reino e provavelmente importadas da China. Era no tempo dos galeões, do intercâmbio com o remoto Oriente, em que os navios, na volta do mar, vinham tocar e reabastecer-se nestes fartos Brasis. 

Imagem colorizada da rua Eduardo Querido, centro de Cunha, com as igrejas do Rosário e da Matriz ao fundo. Data: 1947. Autor: Alceu Maynard de Araújo.

Do outro lado, alonga-se o vale do Paraíba, por onde correu também a prosperidade nos tempos dessa baga sagrada que se tornou o café. Antes, já por ali escorrera o ouro que descia das Minas e ia fecundando de povoações as terras férteis que marginavam o Paraíba, transformado em roteiro da aventura e, depois, centro de fé, ao dar ao Brasil a imagem venerada da Aparecida. 

Entre esplendores que se apagaram ficou Cunha esquecida, quase isolada, no centro de serras de encostas hostis e bons caminhos. 

Fausto passado 

Como acontece com famílias em declínio que encontram no passado estímulo para a modéstia presente, em Cunha a tradição tem grande importância. O passado vive, palpita nas conversações. Serve de compensação, é motivo de orgulho. O majestoso sobrado em que o duque de Caxias esteve hospedado quando uma vez subiu de Parati e se destinava ao interior de São Paulo merece citação especial. Mas no prédio os anos estão marcados. As largas tábuas do soalho apresentam múltiplas frinchas pelas quais se vê perfeitamente o andar térreo. A escada está com os degraus gastos e range aflitivamente. Porque a tradição tem desses inconvenientes. Assume por vezes o aspecto de paupérrima velhice. Devia ter sido imponente a recepção ao ilustre Caxias. A sociedade próspera daquele tempo compareceu, as damas com seus vestidos mais ricos, as joias mais caras. Parece ainda escutar-se o riso alegre das mocinhas de então, jubilosas por exibirem suas graças e sua opulência. De todo esse encanto juvenil restam punhados de ossos no cemitério local. Mas naqueles tempos… Sim naqueles tempos, tudo era grandioso. Ouro em barra, pedras preciosas em grande número. Há lendas de terem escondido fortunas nas pareces de taipa dos velhos sobrados. 

Dizem que gente encontrou tesouros na demolição de casas antigas. Contam a história do governador das Setes Vilas, homem poderoso, que arrecadava o dízimo da região, cheia de ouro vindo das Minas e em cuja rota Cunha estava. Sua fortuna era imensa. Em 1850, ascendia a oitocentos e cinquenta contos de réis, quantia fabulosa porque tinha apreciável valor aquisitivo a pataca de cobre, que valia 40 réis. E então na casa daquele poderoso senhor, o ouro era medido aos litros como se faz com o feijão, e amontoado em prateleiras. Lá está a casa soberba para atestar tamanho fausto. Defronte dela juntava-se, ao anoitecer, a numerosa escravatura de velas acesas na mão para rezar o terço diante do nicho, em plena rua. O altivo senhor queria obediência e religião. E a escravaria, ao voltar do serviço, ia rezar antes de entrar na senzala. Como seres humanos oravam para, em seguida, como animais serem juntados no ergástulo.  

Tradições e superstições 

Terra antiga que ficou isolada, conservou bem vivo o patrimônio mental, sem grandes alterações. Na ocasião do parto ainda é preconizado soprar numa garrafa com força a fim de acelerar o desfecho feliz. Aliás era recurso primitivo, aconselhado às índias, que, em vez de garrafas inexistentes, usavam bambus. Tinha lógica. O esforço provocava contração dos músculos abdominais constituindo assim um apreciável concurso, como o espirro. 

Muitas das práticas e superstições observadas tiveram origem nos tempos recuados da colonização e ainda são observados nas províncias do norte de Portugal, como o lobisomem que é um ser humano que se metamorfoseia, em certas noites, em lobo e sai a morder o semelhante. As pessoas mordidas transformam-se também em lobisomem. A cura só pode ser conseguida em noite de lua cheia, ferindo o monstro atrás da orelha, com um garfo tridente. Em Cunha, quando o lobisomem é preto dizem tratar-se de um indivíduo negro. Se o cachorro é branco, então o infeliz é branco também. O animal toma a cor da epiderme do ser humano. Colocar teia de aranha e açúcar sobre feridas, considerar a laranja como alimento frio que se deve evitar no inverno, que carne de porco é quente, que só devem comer certos alimentos em meses que não têm “r”, que frutas misturadas com leite fazem mal e envenenam, por uma faca sobre mordida de abelha ou aranha, feiticeiras malévolas, alecrim e arruda contra mau olhado, são crendice que vieram nos galeões, por lá ficaram e ainda hoje se encontram também nas populações rurais peninsulares. 

Conjunto arquitetônico do centro de Cunha, visto da Praça do Rosário. Foto: Robert W. Shirley. Data: 1965.

A Festa do Divino 

A festa do Divino se celebra nas velhas cidades, constitui em Cunha a mais importante das manifestações religiosas e representa o ponto mais alto da vida da comunidade. Não tem data fixa. Varia de acordo com os recursos que o festeiro reúne. Tem que ser grandiosa, pois determina afluência maciça dos moradores da zona rural. Pode-se avaliar o interesse pelo fato de uma população dispersa de vinte e sete mil almas já se ter reunido na cidade num total de cerca de dez mil pessoas. Em importância só se lhe aproxima a festa de S. José, que reúne multidões. Além das cerimônias religiosas, há fogueiras, fogos, “companhias de moçambique” que executam danças próprias, que dizem não ser congada. Cada “companhia” tem um general que carrega o bastão, um capitão e um mestre com funções de dirigente da dança. Vinte dançarinos e doze tocadores de instrumentos formam uma grande companhia de moçambiqueiros. Violas, violão, cavaquinhos, caixas e pandeiros e até violinos integram o grupo de tocadores. O conjunto é constituído geralmente por pessoas aparentadas. Há ainda uma patente superior, o chefe supremo, o “rei”. É quem tudo manda. Poder supremo sem possibilidade de contestação. É uma espécie de patriarca, pois os elementos mais afastados em parentesco são seus afilhados. Irmãos, filhos, sobrinhos e netos desse rei constituem o moçambique, que usa uma espécie de uniforme, constituído por barrete branco, camisa e calças brancas. A camisa e os barretes são enfeitados com lãs de cores. O rei usa uma espécie de coroa. Só ele tem o direito de conduzir a bandeira de S. Benedito. Nas pernas, como se fossem ligas, usam todos uma tira de couro com guizos. Dançam empunhando bastões lisos, com pouco mais de um metro e que esgrimem enquanto volteiam. 

Organizar a festa do Divino é uma honra e um empreitada, pois exige coleta de donativos durante longos meses que são recolhidos em casa do festeiro. Há até um empreiteiro da “folia do Divino”, com sucesso garantido por duas dezenas de anos de prática, conhecedor do meio, amigo de toda a gente e bom tocador de violão e improvisador de modinhas. Daí o seu êxito. 

Contrastes 

Ambiente propenso não apenas à crença, mas também a credulidade e à crendice, ali se verificaram fatos e cenas bem curiosas. Em 1932, quando chegaram forças ditatoriais para ocupar a cidade, tomaram medidas estranhas. Começaram por implantar a desordem, abrindo as portas da cadeia e soltando os criminosos ali detidos. Entre esses figurava um moço loiro, que por não ter maior ocupação folheara uma das Bíblias distribuídas por uma missão protestante. Ao ver-se livre e sem ter recursos resolveu apresentar-se como o “Cristo que voltou”. Arranjou uma espécie de túnica branca, mostrava-se no alto de cupins, com os cabelos compridos, a barba loira crescida. Mandava fazer penitência. Impunha castigos e reparações, que consistiam em boa comida. Levava vida fácil e regalada. Até que um dia escolheu uma caipira jeitosa para companheira. Apresentou-a aos crentes como Virgem Maria. Acreditaram. Até que um dia o viram deitado com ela. Logo esmoreceu a fé. Aquela gente era crédula, mas não imbecil. Levaram o caso ao conhecimento do delegado que interveio com louvável presteza e reconduziu o “Cristo que voltou” à cadeia donde tinha sido libertado indevidamente para cumprir a pena que faltava. 

Sem a mesma gravidade e até cheio de pitoresco, foi o caso de João Camilo, espécie de capelão ambulante da roça. Era um velho preto de alma simples e confusas noções da religião. Influenciado pelo que vira na igreja amarrava um grande jacá em grosso tronco de arvore, à semelhança de um púlpito. E dali falava com confusa eloquência aos seus ouvintes intercalando na oratória deformações de frases latinas, dando a impressão de que rezava como padre… Retivera algumas palavras que ia soltando, repetindo: “oremus, oremus, repcicione Cristu, amem. Ora pronobis Santa Degenis, espeto da justiça, aleluia. O Senhor me ajude que eu também lhe ajudarei”

Evolução e estagnação 

Fac-símile da crônica sociológica de Barros Ferreira, publicada no Estadão, em 25 set. 1965.

Depois do período áureo, Cunha ainda cresceu até entrar em estagnação por falta de estímulos econômicos. No entanto, oferece condições magníficas para estância de repouso e cura, com seu clima seco e frio. Poderiam seus campos, a mil metros de altitude, produzir variadas frutas europeias, iguais às que se recebem da Argentina. Uvas de mesa podiam ali ser colhidas em larga escala. A oliveira devia ali produzir bem. É região de grandes frios que “torram” os pastos, segundo a expressão usada e impedem a volta integral à pastorícia, que é um estágio primitivo, um regresso, quando já foi atingida a fase agrícola. Com 2.472 habitantes em 1799, já contava 7.873 em 1872. Em 1886 somava 10.856 o povo do município. Seguiu-se o período da emigração do café do vale do Paraíba, o abandono da rota de Parati. Em 1920, tinha 20.171 almas. 24.818 revelou o censo de 1940. Não houve, portanto, o mesmo impulso no seu crescimento demográfico. A cidade de Cunha que começou opulenta não atingiu o desenvolvimento de outros, de Araraquara, por exemplo, que é muito mais recente e começou infinitamente mais pobre. Ficou segregada e esquecida, a ponto tal que, no movimento de 1932, muita gente orgulhosa de seus conhecimentos geográficos indagou onde ficava e foi procurar sua posição no mapa do Estado, de tal forma fora o declínio de uma das mais opulentas cidades paulistas do século passado. 

Fonte: Crônica extraída do jornal O Estado de S. Paulo, em 25 de setembro de 1955.

* Miguel Ângelo Barros Ferreira (1906-1997) foi um jornalista, historiador e escritor português, que passou boa parte da sua vida no Brasil, na cidade de São Paulo, onde veio a falecer.

Entrevista com o professor Victor Amato dos Santos

Montagem sobre foto de Chayeni Fiorelli.

O professor Victor Amato dos Santos é figura conhecida e querida no cenário cultural cunhense. Uns o conhecem por ser o maestro da União Musical Cunhense, a banda de Cunha, que sempre se faz presente nas nossas festas cívicas e religiosas. Outros recordam dele na Banda Furiosa, com as marchinhas que alegravam os foliões nas tardes de Carnaval. E tem aqueles que acompanham as suas postagens no grupo “Memória Cunhense”, no Facebook. Ele está sempre publicando um texto ou nota sobre algum cunhense inolvidável, sobre alguma tradição da nossa gente ou algum dobrado ou samba de sua autoria. O Victor é professor de Língua Portuguesa na Escola Estadual Paulo Virgínio. Trabalha diariamente com a escrita. E foi assim, escrevendo, que ele nos presenteou com dois livros: “A História do Carnaval de Cunha”, em 2012, e a “A História da Música em Cunha”, em 2014. São obras que vêm do seu interesse por história e são frutos do seu amor por Cunha. Por isso, estamos no aguardo da terceira. Será que sai? Para responder essa e outras perguntas, pedi que nos concedesse uma entrevista. Ele é incentivador antigo do Jacuhy, quando ainda estávamos no ninho. E ele, prontamente e gentilmente, nos atendeu.

Jacuhy: Primeiramente, Victor, eu agradeço a sua boa vontade em conceder esta entrevista, tirando um tempinho das suas merecidas férias.  É sempre uma honra contar com o seu apoio e parceria, pois você é uma referência para todos nós que amamos, lutamos e defendemos a História e as Tradições de Cunha. E é sobre isso que gostaria de começar a nossa conversa. Em 1971, o antropólogo estadunidense Robert W. Shirley lançou o livro “O fim de uma tradição” (depois, em 1977, traduzido para o português pelo professor João Veloso), fruto das pesquisas de campo realizadas por ele em Cunha, na década de 1960. A conclusão a que ele chegou foi de que o fim das tradições de Cunha era iminente, em virtude do êxodo rural, do avanço da industrialização e do fim do isolamento de Cunha, rompido pela popularização da mídia eletrônica, pelas ligações rodoviárias e pelos projetos estatais de integração. Você, como agente cultural e estudioso do assunto, olhando em 2023 para a conclusão do antropólogo Shirley, como a enxerga? Acertou? Equivocou-se? E ainda sobre o assunto, qual é a situação dos grupos tradicionais e folclóricos de Cunha atualmente?

Victor: Primeiramente, agradeço as suas considerações a meu respeito. Seu empenho no sentido de aprofundamento sobre as pesquisas já realizadas sobre Cunha é admirável!

Sobre a questão levantada, graças a Deus Shirley se equivocou em relação às previsões de desaparecimento da cultura cunhense, apresentadas em “O Fim de uma Tradição”.

Cunha, como poucos lugares, soube receber as novidades do mundo atual, mas sem deixar para trás as suas raízes mais profundas dos antigos costumes, muitos ainda dos tempos da formação da Povoação oficial e da Fundação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Facão. Estão aí as festas de São José da Boa Vista, de São Benedito, do Divino e da Padroeira; o carnaval de rua; a tradicional Semana Santa; o boneco do Judas; as folias de Reis (da cidade e da zona rural) e do Divino Espírito Santo; as congadas (moçambiques); os violeiros; o jongo; a banda de música – que já tem quase dois séculos de existência –; os benzedores; os artesãos e ceramistas; dentre outras manifestações de cultura e de religiosidade popular de não menor importância que as citadas. Vivíssimas no presente, comprovam em plenitude o que afirmo aqui. Esses elementos são aquilo que verdadeiramente atrai o turista para o nosso Município, aliados à paisagem natural exuberante de que dispomos e da qual, responsavelmente, temos o prazer de desfrutar.

Aliás, como um dos que trabalham dentro desse círculo das tradições cunhenses, ainda não vi acontecer qualquer trabalho de resgate de manifestações culturais do nosso município, mas sim um grande empenho de todos os líderes e membros de cada respectivo agrupamento cultural em mantê-los em pleno vigor – só deve ser resgatado aquilo que foi perdido; e, graças a Deus novamente, não tivemos perdas nesse sentido por aqui!

A banda União Musical Cunhense no topo da Pedra Marcela, em 2013, na gravação da música “Aqui é o meu lugar”, tema da TV Vanguarda. Foto: Bethânia Fochi.

Jacuhy: Em novembro de 2021, você surpreendeu a todos anunciando o fim da participação da Banda Furiosa, que alegrava os foliões com suas marchinhas, no carnaval de Cunha. Sua decisão, segundo o que escreveu, foi motivada pelo cumprimento do papel educativo que Banda Furiosa buscava exercer nos 15 anos que participou do carnaval, formando, nas suas palavras, uma “geração que soubesse brincar o carnaval sem os excessos que o caracterizam (…) dar espaço para o encontro saudável entre gerações (crianças, pais, avós e bisavós), que só demonstraram Educação, alegria inocente, satisfação e afins para compartilhar.”. Acrescentou, ainda, que seus problemas de saúde dificultavam muito o seu serviço à frente da Banda. Esse foi um adeus definitivo ou temporário do carnaval? A Banda Furiosa vai continuar abrilhantando as festividades cívicas e religiosas do município? Quais são os desafios que a Banda Furiosa enfrenta para manter-se viva e atuante, como tem sido desde sua formação?

Victor: Há de se diferenciar, primeiro, a banda de música da cidade – que já é quase bicentenária – do conjunto Banda Furiosa, criado por mim em 2005 para realizar as matinês no carnaval cunhense.

Se o conjunto carnavalesco encerrou suas atividades por ter, como expliquei, atingido o propósito para o qual foi criado, a banda de música tradicional – hoje União Musical Cunhense — encontra-se em pleno funcionamento, e espero que assim continue por muitos e muitos anos.

Não posso deixar de mencionar que todos os que nos dedicamos aos trabalhos à frente de cada grupo da tradição e da cultura de Cunha nos vemos, frequentemente, diante e nas mãos de pessoas que têm tudo para nos dar o devido apoio; mas, em incontáveis vezes, elas se deixam levar pelo orgulho, pela vaidade, pela inveja e pela ganância, o que nos traz desmotivação pelos desgastes desnecessários pelos quais nos vemos obrigados a passar. Com a Banda Furiosa não foi diferente. Foi também por isso que decidi encerrar suas atividades no carnaval de Cunha.

Na União Musical Cunhense, que atualmente tem participado mais e de forma gratuita das festividades da Igreja Católica local, enquanto eu fizer parte da mesma e tiver condições para tanto, estarei a ensinar os princípios da Arte Musical para crianças e jovens, com a intenção de realizar a necessária reposição de elementos, para a preservação deste que é o grupo musical mais antigo de Cunha. Sou o nono maestro nesses quase duzentos anos de existência da nossa banda de música, e já formei inúmeros músicos, com a colaboração do meu amigo Tonico Capítulo, nesses meus já 35 anos de atuação como multi-instrumentista, professor de Música e maestro. Deus continue a me conceder a saúde e a orientação necessárias para continuar esses trabalhos.

Marchinha da Banda Furiosa, de autoria de Victor Amato dos Santos. Vídeo cedido pelo entrevistado.

Jacuhy: Depois de muitos anos trabalhando nas secretarias das escolas por onde passou, você retornou para sala de aula, atuando com professor de Língua Portuguesa. Essa volta quase que coincidiu com um momento importante para a rede estadual aqui em Cunha, que foi a adesão de todas as escolas ao programa de tempo integral. Como você vê esse programa? Quais são suas expectativas em relação a ele?

Victor: Sabe, nunca trabalhei especificamente em secretaria de escola nesse período em que tive de, contrariado, me afastar, por questões de saúde, das atividades em sala de aula: organizei ricos acervos de multimídia; pintei faixas divisórias de vagas em estacionamento interno de escola; tendo a devida formação para tanto, fiz diversos trabalhos de encanador e de eletricista; desentupi redes sanitárias; montei salas de leitura; ajudei em secretaria e em cozinha (manutenção de equipamentos e de instalações, com o devido conhecimento técnico); e, principalmente, atendi ao professor João Veloso em suas atividades histórico-culturais e às Redes Pública (Municipal e Estadual) e Particular de Educação em nosso Município. Isso sem deixar a nossa banda de música para trás, e também atendendo a muitos pedidos das Secretarias Municipais de Educação e de Turismo e Cultura.

Por isso é que tenho me sentido bastante cansado, física e mentalmente.

Quanto ao PEI (Programa de Ensino Integral), este continua a ser observado por mim. Não tenho ainda opinião formada sobre os resultados que ele poderá trazer à população cunhense. É preciso que eu trabalhe, como professor de Língua Portuguesa, mais este ano de 2023 nesse projeto do Estado de São Paulo, para que as devidas observações sejam feitas e, desse modo especificamente, eu possa continuar o meu aprimoramento como profissional da Educação.

Capas dos livros de história de Cunha lançados pelo professor Victor Amato dos Santos.

Jacuhy: Em 2017, você esteve coordenou o movimento que buscava retificar a data de aniversário de Cunha, estabelecendo o dia 19 de março de 1724 como data de fundação do município. Tanto o Legislativo quanto o Executivo Municipal acolheram a mudança proposta, visto que foi amplamente embasada em fontes históricas e corroborada pelo livro “A História de Cunha: 1600 – 2010” e pelo próprio autor, o professor João Veloso. Algumas pessoas na época não gostaram e protestaram pelas redes sociais, dizendo que era uma questão irrelevante. Por que você insistiu para que ocorresse essa retificação? O que Cunha ganhou com essa mudança?

Victor: Foi um esforço sobre-humano o que fiz para que fosse aprovada, pelo Legislativo e pelo Executivo Municipais, a necessária retificação da data histórica da Fundação de Cunha e as consequentes adaptações, com base na tese mais que coerente do Professor João Veloso, publicada em 2010 sob o título “A História de Cunha – 1600-2010 – A Rota de Exploração das Minas e Abastecimento das Tropas”.

A saúde frágil do nosso historiador João Veloso já dava sinais de que ele não estaria mais por muito tempo entre nós; daí ser necessária, para que ele fosse reconhecido oficialmente em vida pelo seu trabalho, uma ação urgente, que foi respaldada pelo então prefeito Rolien Garcia e pela maioria dos vereadores daquele período – como você sabe, houve quem votasse contra a retificação… –; além do auxílio de colaboradores da causa, como você mesmo, o Joás Ferreira de Oliveira, a maioria dos colegas de trabalho das escolas públicas e particulares do nosso Município e, principalmente, da maioria da população cunhense.

Isso agregou maior valor histórico, cultural, social e antropológico a Cunha, o que se reflete nitidamente nos aspectos que dão embasamento ao movimento em torno do turismo, ao qual Cunha tem se dedicado com afinco nessas últimas três décadas.

Enfim, tudo foi posto no devido lugar, para que, com o respaldo das pesquisas do Professor João Veloso, pudesse ser devidamente preservado.

Em família: Victor e os integrantes da Banda Furiosa, sempre alegrando as tardes do Carnaval de Cunha.

Jacuhy: Com a retificação e o estabelecimento do ano de 1724 como data de fundação, aproximou-se de todos nós a comemoração dos 300 anos de fundação de Cunha, afinal, 2024 é ano que vem. O que você espera, em termos de eventos, em relação a essa comemoração? Qual seria o maior presente para Cunha nesse tricentenário?

Victor: O movimento em torno das comemorações do Tricentenário de Fundação de Cunha já deveria estar acontecendo intensamente, com o envolvimento de todos os setores da sociedade local.

Para tanto, a Paróquia Nossa Senhora da Conceição, sob o comando do Padre Fábio Nogueira de Sá e com bastante auxílio de minha parte, já promoveu a restauração da imagem de Nossa Senhora da Conceição do Facão, e também   das imagens da Sagrada Família da Boa Vista; isso sem contar as restaurações de templos históricos como a Capela da Boa Vista (o “Berço” de Cunha), a matriz e a igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito.

Ainda em forma de lei municipal, há uma “receita” para serem desenvolvidos todos os atos necessários a uma comemoração à altura da data tão importante a todos nós. Espero que a legislação municipal correspondente seja cumprida plenamente, para que tudo saia como tão importante momento exige.

A banda União Musical Cunhense presente na Procissão das Bandeiras, na Festa do Divino Espírito Santo de Cunha, em 2018. Foto: Chayeni Fiorelli.

Jacuhy: Em seu livro “A História da Música em Cunha”, escrito junto com o professor João Veloso, lançado em 2014, você demonstra que existe uma tradição musical muito antiga – e rica – em Cunha. No início do século XXI, você participou e ajudou a implementar um projeto de educação musical na Escola Estadual Paulo Virgínio, que foi um sucesso e rendeu frutos. Alguns integrantes da Banda, por exemplo, foram formados no projeto. Sabendo da importância da formação musical para crianças e jovens para dar continuidade a essa tradição cunhense, existe a viabilidade de um projeto similar aquele que foi implantado há 20 anos ser implantado em alguma escola de Cunha? Quais contribuições o ensino de música pode trazer para aprendizagem dos alunos?

Victor: Depois do período a que você se refere – ano 2001 –, já houve formação de outros vários integrantes, mas na garagem da minha casa – que por certo tempo, foi usada como sala de ensaios e de aulas de Música –; e, a partir de 2011, na atual sede da banda (atrás do cinema).

A formação de novos músicos é um processo contínuo, que tem de ocorrer pelo menos a cada quinquênio; ou então a banda entra em decadência por falta de componentes e se encaminha para a extinção. Nunca cobrei um centavo sequer de quem aprendeu Música comigo nessas últimas três décadas em que me dedico à manutenção plena da nossa banda de música. E já está chegando a hora de eu formar uma nova turma de músicos, com o auxílio, na parte prática, dos membros mais antigos da banda. Talvez essa parte teórica inicial seja ministrada ainda este ano por mim na disciplina Eletivas, do PEI, mas ainda não estou certo disso.

Dobrado João Veloso, de autoria de Victor Amato dos Santos, tocado pela banda União Musical Cunhense. Homenagem feita ao professor João Veloso em 2017.

Jacuhy: Foi uma grande perda para Cunha o falecimento do professor e historiador João José de Oliveira Veloso, ocorrido em 30 de novembro de 2020. Ele foi um mestre para todos nós. Você, como amigo e admirador do professor João Veloso, foi a pessoa que mais lutou para que ele tivesse o merecido reconhecimento em vida, fazendo tudo o que estava em seu alcance. Qual é o principal legado deixado pelo professor João Veloso? O que o Centro de Cultura e Tradição de Cunha, o Museu Municipal Francisco Veloso e o COMPHACC (Conselho Municipal do Patrimônio Histórico Artístico e Cultural de Cunha), entidades criadas por ele, podem fazer para tentar preencher a lacuna que a ausência do professor provocou, dando continuidade ao trabalho do João Veloso?

Victor: Acima dos resultados que o Professor João Veloso conseguiu atingir através das pesquisas que realizou durante aproximadamente 5 décadas, creio que o maior legado deixado por ele é o amor incondicional por Cunha.

Sua ausência física deixou incontestavelmente uma lacuna muito difícil de ser preenchida, uma vez que esse preenchimento exige não só habilidades intelectuais, mas também uma paixão sadia por esse nosso “Mar de Morros”, tal qual a que ele sempre soube cultivar e preservar intacta dentro de si.

Vê-lo reconhecido em vida e tão emocionado com tal atitude, esse foi um dos maiores presentes que os meus olhos já puderam contemplar. Sou muito feliz e grato a Deus por isso.

Quanto aos trabalhos do Museu Francisco Veloso e do Centro de Tradição e Cultura de Cunha, tive de me afastar temporariamente dos mesmos, por conta das minhas atividades profissionais, que se intensificaram com a chegada do PEI à EE Paulo Virgínio, onde trabalho. Mas creio que tudo esteja correndo bem por lá. Estão em boas mãos, principalmente nas das funcionárias, sempre tão dedicadas e muito bem formadas pela convivência de décadas com o Professor João Veloso.

João Veloso, Victor e integrantes da banda União Musical Cunhense no lançamento do livro “A História da Música em Cunha”. Data: 2014. Foto: Geraldo Magela Tannus.

Jacuhy: Victor, você já publicou dois livros sobre a História de Cunha (“A História do Carnaval de Cunha”, 2012; “A História da Música em Cunha”, 2014) e contribuiu com um de poemas (“Poetas de Cunha”, 2007, organizado pelo saudoso professor Ernesto Veloso dos Santos). Tem sido um colaborador assíduo do grupo “Memória Cunhense”, no Facebook, sempre trazendo biografias de cunhenses inesquecíveis. Nós, seus leitores e admiradores, podemos esperar mais um trabalho seu? Se sim, pretende escrever um trabalho de cunho memorialista/biográfico ou publicar os seus poemas?

Victor: Tenho mais materiais que, com o tempo, eu gostaria de transformar em livros para publicá-los. Mas meu tempo tem sido muito restrito a outras obrigações que me prendem de certa forma. E ainda existe a questão do alto valor monetário exigido para se fazer essas edições. Ou seja: é preciso tempo e dinheiro suficientes, para que sejam produzidos trabalhos de qualidade. Nesse sentido, nunca fiz nada que fosse descartável em minha vida. Tudo o que produzi é permanente, visando ao bem-estar de gerações e gerações. Então, se tudo der certo nesse sentido de novas publicações, é desse modo que deverá acontecer.

Jacuhy: Muito obrigado por sua entrevista e colaboração com a nossa página e blog.

Data da entrevista: 28 de janeiro de 2023.

Folia de Reis de Caixa de Cunha

Na foto de 1.947, tirada pelo sociólogo Alceu Maynard de Araújo, aparece o Alferes (chefe da folia) – José Tomaz da Silva (Tomazinho); o Mestre-Violeiro – Paulo Rita (do bairro da Capivara); o tocador de adufe (pandeiro) – José Prudente, na época com 12 anos de idade, o mais moço da folia; e outros componentes não identificados.

Tradições se acabam. Infelizmente. Porque elas formam a nossa identidade cultural. Porque elas se perdem na massificação de culturas hegemônicas promovidas pela Globalização. Resistir é preciso. Relembrar é resistir. Há muito tempo, a Folia de Reis de Caixa percorria a extensa zona rural de Cunha, passando por seus bairros, sítios e fazendas, entre os dias 24 de dezembro até 06 de janeiro do ano seguinte (Dia de Santos Reis), podendo prolongar-se até dia 2 de fevereiro (Dia de Nossa Senhora das Candeias ou da Luz) ou até 6 de janeiro (Dia de Santo Reis). Esse período festivo fazia parte da Festa do Deus-Menino, que celebrava o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, conforme a liturgia católica. A Folia de Reis era a popularização da celebração religiosa. Era uma forma de como o povo interpretava as verdades de fé. E celebrava o nascimento, isto é, a vida. Saíamos foliões sempre à noite, imitando os Reis Magos, que viajam guiados por uma estrela. Cantando e louvando o nascimento do Menino Deus e pedindo óbolos, renovavam a fé e a esperança pelos rincões de Cunha daquele tempo. Não havia televisão, rádio mesmo era difícil, internet, então, nem se pensava em existir… Não era só fé, mas divertimento e congraçamento comunitário. Havia também a Folia de Reis de Banda de Música, mas essa só se apresentava na cidade.

A Folia de Reis de Caixa de Cunha percorria a imensa área rural cunhense, cantando e esmolando. Paravam nas casas que tinham presépio (outra tradição cunhense), por mais rústico que fossem. E quase sempre eram mesmo. O povo era pobre em recursos materiais, mas abundava a fé a fartura de honestidade, bondade, hospitalidade, virtudes que dinheiro nenhum podia comprar. A Folia tinha os seguintes participantes: alferes, mestre-violeiro, contra-mestre, tocador de adufe, Tocador de caixa, além deles a Folia contava com os palhaços (Pai João, Catirina, Palhaço) e as pastorinhas, formada por meninas e vestidas a caráter.

Notação musical de “Visita ao Presépio”, da Folia de Reis de Cunha, feita por Alceu Maynard Araujo, 1947.

A Folia de Reis de Cunha foi estudada por Alceu Maynard Araujo, sociólogo paulista e grande folclorista. E foi ele quem popularizou a música “Visita ao Presépio”, da Folia de Reis de Cunha, muito executada e cantada por diversos intérpretes e quase nunca creditada à nossa Folia de Reis. A saudosa Inezita Barroso, por exemplo, gostava muito de cantá-la em seu programa “Viola, minha viola”, na TV Cultura (veja vídeo abaixo), mas sempre creditava assim: “recolhida por Alceu Maynard Araujo”, sem dizer onde e nem de quem o eminente sociólogo teria recolhido. É um desleixo do programa, pois o próprio Araujo deixou registrada a letra, as notas e autoria correta em dois de seus livros “Cultura Popular Brasileira” (2. ed., 1973, p. 27) e no “Canta Brasil” (1957, p. 43 – 45) e no artigo “Folia de Reis de Cunha”, que saiu na Revista do Museu Paulista, volume III, p. 424-425, 1949. A música “Vista ao Presépio” (mais conhecida pelo seu primeiro verso “Acordai quem está dormindo”) é patrimônio cultural do município de Cunha.