Paranapiacaba: origem e evolução da Serra do Mar

A Serra do Mar – a “Paranapiacaba”, na língua tupi, que significa “lugar de onde se vê o mar”, através da junção de paranã (mar), epîak (ver) e aba (lugar), conforme tradução de Frei Gaspar da Madre de Deus – não é uma cordilheira, um dobramento moderno como é o Andes. É uma cadeia de montanhas alinhadas. Não por acaso, foi entendida pelos colonizadores portugueses, tão afeitos ao Medievo, como uma muralha.

Relevo de origem complexa, sobreposição de diversos eventos geológicos marcam sua evolução. Sua estrutura geológica aponta para formação do antigo continente Pangeia (há 300 milhões de anos) e para a traumática separação da Gondwana (180 milhões de anos), que resultou no nascimento da América do Sul e da África. Esse relevo escarpado, aliás, é herança dessa separação.

Mas não só isso. O tectonismo foi intenso, de modo que a parte mais alta desse relevo antigo foi totalmente destruída e foi se depositar no fundo do mar ou na Bacia Sedimentar do Paraná. O que vemos hoje da Serra do Mar, seus pontões rochosos, é uma belíssima exposição natural de rochas graníticas que foram formadas a 30 quilômetros de profundidade. O intemperismo e os sucessivos processos erosivos foram esculpindo esse relevo, salientando as rochas mais resistentes. As rochas mais fracas não tiveram vez. Viraram sedimentos.

Ranhuras erosivas fazem parte da paisagem natural, mesmo em áreas cobertas de Mata Atlântica. São resultantes dos altos índices pluviométricos, condicionados pela proximidade com o oceano e pela altura das montanhas, que ultrapassam com folga a cota dos 1.000 metros, combinados com a declividade acentuada, por vezes abrupta, de suas escarpas. O solo raso, sustentado por lajedos, são incapazes de manter-se incólume nesses lugares. Todos esses processos geológicos recobertos por floresta tropical resultaram em uma paisagem de beleza cênica ímpar, de cartão-postal, como a mostrada acima, no município de Morretes (PR).

Duas falhas transcorrentes pré-cambrianas perlongam a Serra do Mar e seu reverso. Geólogos interpretam as escarpas da serra nesse trecho como resultado de abatimentos e basculamentos de blocos de falha. Dada a continuidade topográfica da Serra do Parati com o planalto, é provável que elas representem a parte frontal de erosão remontante da borda do planalto entre os dois maciços resistentes dos promontórios sustentados pelas rochas alcalinas da ilha de São Sebastião e o granito do Parati.

Origem e evolução da Serra da Mantiqueira e da Serra do Mar. Fonte: Revista Pesquisa FAPESP. Data: 2021.

Para o geógrafo Daniel Souza, do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP),  a Serra do Mar e da Mantiqueira foram “moldadas por incessantes movimentos da superfície e pela erosão causada por rios e pelo clima, principalmente a chuva”. O geólogo Claudio Riccomini, do Instituto de Geociências da USP, acrescenta: “além do clima, há uma forte influência dos movimentos tectônicos, mesmo nos últimos 20 mil anos, na modelagem e na erosão do relevo”. Essas serras já foram uma só, há 130 milhões de anos, quando se formaram, conforme mostra o infográfico acima. Chegaram a atingir incríveis 4 mil metros de altitude! (hoje, não chega a 3 mil…). Mas nada dura para sempre. Tremores sísmicos intensos estremeceram a ligação e o divórcio foi inevitável. Desse distanciamento surgiu o Vale do Paraíba, abertura propícia para o acúmulo de sedimentos oriundos da erosão das duas serras. Esse acúmulo gerou a chamada Bacia Sedimentar de Taubaté, importante feição geológica de rifteamento no Brasil. Há 15 milhões de anos, os rios Paraitinga e Paraibuna, que encorpavam o volume do rio Tietê, foram, finalmente, capturados por esse vale novo, mudando de rumo, e direcionando para o Rio de Janeiro, como é atualmente.

A separação dessas serras trouxe três consequências:

  • A formação de reservas de petróleo nas bacias sedimentares de Santos e Campos, localizadas no litoral dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro;
  • Uma nova configuração da rede hidrográfica regional, separando as bacias do Paraíba do Sul e a do Tietê, pelo soerguimento do chamado Alto Estrutural de Arujá;
  • Vicariância, pois a separação de comunidades de animais e plantas, favoreceu a formação de novas espécies.
Na foto, ao fundo, vê-se a Serra dos Três Picos, com altitudes que variam entre 1.500 – 1.600 metros, dentro do município de Paraty. Captura tomada da Estrada Cunha-Paraty (RJ-165).

A evolução não para. As encostas do Serra do Mar continuam erodindo, se desgastando. A serra vai se distanciando do mar, ampliando a planície costeira.

Foto de capa: mapa “Brasile Centrale” (parcial), autor: Herbet Bayer, Instituto Geographico de Agostini (1952).

Cunha, cidade das serras

Vista aérea de Cunha. Ao fundo, vê-se a Serra do Mar. Foto: Instituto Chão Caipira. Ano: 2011.

No final do século XIX e até no início do XX, Cunha era conhecida como “Cidade das Serras”. Faz jus ao epíteto. Qual fortaleza, é ladeada por três serras. Só não é inteiramente flanqueada porque o rio Paraitinga abriu um vale para se esvair. A alcunha orográfica não perdurou até nossos dias, apesar de geograficamente factual.

Serra do Mar vista da Praça do Rosário. Ano: 2010.

São as três muralhas: a Serra do Mar, a leste e a sul; a Serra da Bocaina, a norte; a Serra do Quebra-Cangalha, a noroeste. Desconheço município deste estado com mais cordilheiras em seu território. Cunha é única.

Serra da Bocaina vista do Cemitério Municipal de Cunha. Ano: 2012.

E ainda dos seus morros é possível ter uma vista esplêndida dos topos da Serra da Mantiqueira, que ao longe, ao norte, demarca o limite litosférico ante ao horizonte e ainda põe termo ao território paulista, nos contrafortes de Minas Gerais.

Serra do Quebra-Cangalha vista de Cunha. Ano: 2021.

Por isso, dizem que não há ocaso mais bonito, do que o visto desta pequena e pacata cidade. E eu, mesmo suspeito, concordo plenamente.

“O Gigante Adormecido”: a Serra da Mantiqueira vista de Cunha. Foto: Paulo Zaccaro. Data: agosto, 2012.

Situação orográfica de Cunha:

Criação: Jacuhy.

Província Sentimental

Mar de morros da Serra da Mantiqueira, Minas Gerais. Foto: Frederico T. de S. e Miranda.

Por Ribeiro Couto *

Não sei a data precisa que começou a ficar nítida esta sensação de governar uma província própria, província que não corresponde à real “divisão administrativa” dos territórios que constituem, porque uns obedecem à soberania de São Paulo, outros à de Belo Horizonte e outros à de Niterói. Por alguns anos vivi em velhas cidades do Paraíba, não as mais notórias, senão as mais obscuras, fora da estrada de ferro, as que exigiam viagens a cavalo, ao sol e à chuva (São Bento do Sapucaí, Cunha, São José do Barreiro), passando à noite em ranchos de tropeiros. Foi nessas viagens que tive a revelação do virgem cheiro da terra orvalhada, pela manhã, quando as rolinhas andam ciscando pelo chão da estrada e o pesado voo dos viras mancha de preto o verde dos pastos. A seguir, fui morar no Sul de Minas e o sortilégio foi crescendo. Mais tarde, alguns anos no estrangeiro me ensinaram a unidade profunda daqueles vales (os de serra abaixo e os de serra acima) e verifiquei, maravilhado, que tinha dentro de mim toda uma província. Podem secretarias de segurança pública e repartições do tesouro, deste ou daquele Estado, distribuir forças de polícia e fazer coletas tributárias; é dentro de mim que está o governo desses rincões. A mim é que eles obedecem. Em mim é que confiam os povos. A mim é que devem as boas chuvas e as boas colheitas. Sou eu quem constrói em cada comarca o novo edifício de cadeia, onde aliás não quero nenhum preso; a cadeia é só para enfeitar o largo principal. Acompanha-me por toda a parte essa província feliz; é o meu verdadeiro chão. Se estou fatigado ou triste, recordo, por exemplo, o bambual que esconde aos olhos da cidade de Pouso Alto o pequeno cemitério do morro; ou penso no miserável casebre em que certa madrugada tive que dormir na Rocinha, a quatro léguas de Cunha, e onde os arreios dos animais me serviram de travesseiro, (A cabocla, com um candieiro de querosene na mão, ainda foi à cozinha assar um pedaço de carne para me servir a ceia). Não há desilusão ou amargura que possa destruir estes alicerces interiores, nem fazer secar estas fontes de gratuito enternecimento. A minha província me dá forças. Nela me revejo e dela me vem sempre um aceno amigo: memória de um café tomado à porta de um rancho, um olhar bondoso, um pedaço de paisagem onde voa sempre um passarinho.

Mas com certeza foi no Sul de Minas que tomei consciência maior de uma terra “minha”. Assim como também: de uma terra da qual eu tinha o imaculado gosto de ser.

Sobretudo nas vizinhanças imediatas da Mantiqueira, o Sul de Minas é um país à parte no sistema territorial do Brasil. Mesmo nos contrafortes mais ásperos da serra, limite meridional desse país, a paisagem não resultou de convulsões telúricas: tudo foi armado por mãos meigas. O caráter dominante dessa paisagem é a doçura.

Parece que na véspera do mundo ser habitado, quando as potências divinas organizavam a natureza, aquele pedaço do planeta ficou a cargo de anjos de bom gênio. O panorama não guardou lembrança de nenhuma pessoa má, nem de nenhuma ambição torpe. As vaquinhas se espalham, no fim da tarde, pelas lombas verdes de Passa Quatro ou Itanhandu (e provocam o êxtase da surpresa rural nos veranistas metropolitanos, debruçados à janela do trem) são animais de presépio; foi um dom dos reios magos, vieram da Judeia, em barcos fenícios. Dizer utilitariamente dessas vaquinhas “gado leiteiro”, é diminuir-lhes a categoria histórica e a dignidade cristã. Sacudindo a cauda paciente em pleno campo de capim-gordura, não se defendem da picada sutil das mutucas, nem da comichão dos bernes: executam um simples movimento de advertência religiosa, para mostrar que estão vivas, que não são inanimados ornamentos de um estábulo simbólico.

O Sul de Minas começa numa grotinha fresca, entre avencas silvestres, precisamente no ponto em que há uma caixa d’água e a locomotiva para, estendendo a mangueira para beber. Capoeirões de mato húmido cobrem as perambeiras, de um lado e de outro da linha. As pessoas vão no expresso, nos vagões manchados de graxa, sentem que ficou para baixo, lá muito em baixo, o mundo impuro do calor e da ansiedade. Já não haverá, por ali acima, em cada estação, rostos congestos de caixeiros-viajantes; nem senhoras que sobem aflitas à segunda classe, abanando-se com um jornal. A vida agora funciona num plano etéreo, suspensa entre nuvens e ligeiras brumas; e se porventura há sol, é um sol que pela manhã tomou o seu autêntico banho de chuva, um sol contente e lavado com a graduação exata do indispensável teor calórico (só o suficiente para amadurecer as lavouras).

Por meio de um golpe de estado, eu completaria o Sul de Minas com a incorporação do território vizinho de serra-abaixo, até o litoral (só para que não faltasse a essa região perfeita o adminículo poético e econômico do porto do mar).

Na verdade, existe em mim toda uma vasta província, na qual não fui nascido, mas em que senti renascer. Abrange a Bocaina e a serra de Cunha (desde as praias de Parati); desce até o vale do Paraíba, entre Bananal e Taubaté; sobre pela Mantiqueira e se estende, por Minas em fora, entre Paraisópolis e Pouso Alto. Ao Norte, até onde iria meu território?

Sei quanto seria difícil, para um geógrafo ou para um ditador, estabelecer os limites desse território pessoal; haveria municípios que desejariam fazer parte dele (Campos Gerais, por exemplo, onde tenho um amigo); outros, demasiado presos à influência de Belo Horizonte, quereriam ser excluídos. Problemas graves surgiriam, como o da escolha da capital. A velha cidade de Baependi, em cujos sobrados coloniais subsiste a memória de defuntas grandezas agrícolas, reclamaria o privilégio. A cidade de Campanha apresentaria títulos de inextinguível esplendor; e Itajubá não se conformaria; o Dr. Wenceslau Braz me mandaria um portador com uma carta, expondo as razões industriais que militariam em favor da “Chicago Sul-mineira”. Finalmente, a própria cidade de Pouso Alto, com sua única rua, a sua única praça e a estrada da Estação, viria em peso, à minha presença, para recordar-me que a ela, Pouso Alto, é que devo a minha identificação sentimental com as margens do rio Verde.

Essa província nunca existirá para a nação. Tanto mais depois que às capitais interessadas chegar a notícia de tais planos. Nunca será possível dar o golpe. Já agora, quando eu for a Niterói, a Belo Horizonte ou a São Paulo, haverá pessoas vigilantes no meu encalço. A mais humilde valise será revistada; terei de explicar, quem sabe, papéis garatujados que me acompanham (sempre fico inspirado em viagem) e será difícil que as delegacias de segurança social acreditem que se tratem de poemas, exclusivamente de poemas. Quando eu for a um bar à meia-noite, tomar um chope melancólico, todo perdido em meras evocações do meu passado de promotor estadual (origem biográfica de tal obsessão), haverá um sujeito de palheta, fumando charuto, que estará tomando nota da minha atitude e dos meus passos; pensará que fui ali “fazer uma ligação”.

Não importa. A verdadeira existência de uma pátria é questão de alma. Dentro de mim serei sempre o ditador de uma província natal independente e própria, composta de territórios que eu mesmo juntei por amor, como uma criança que fez um brinquedo para ela só.

Fonte: Barro do Município”, 1956, pp. 16-18.

* Ribeiro Couto (Rui Ribeiro Couto) foi um diplomata, poeta, contista, romancista, magistrado e jornalista brasileiro. Nasceu em Santos, SP, em 12 de março de 1898, e faleceu em Paris, França, em 30 de maio de 1963. Foi o quarto ocupante da cadeira 26, da Academia Brasileira de Letras, eleito em 28 de março de 1934. Em 1924, Rui Ribeiro Couto, já então noivo de D. Ana Jacinta Pereira, natural de São Bento do Sapucaí, deixou esta bucólica cidadezinha montanhesa, onde fora delegado de polícia. Para o mesmo cargo e no mesmo ano, foi nomeado para a cidade de Cunha, onde veio residir entre março e abril do mesmo ano. Quando aqui esteve escreveu “Poemetos de Ternura e de Melancolia”, poesia, e “A cidade do Vício e da Graça”, crônicas e viagens. Em seguida, foi nomeado promotor de Justiça em São José do Barreiro, aqui no Vale do Paraíba. Entre 1926 e 1928 residiu em Pouso Alto, Minas, onde exerceu a promotoria e fez tratamento de sua precária saúde. Foi lá que escreveu essa crônica, “Província Sentimental”. Em 1928, parte para a França, passando a ocupar diversos cargos diplomáticos na Europa, chegando a ser embaixador do Brasil na antiga Iugoslávia.