
Há 15 anos, no dia 01/01/2.010, Cunha amanheceu isolada e destruída depois de uma chuva torrencial que durou 12 horas ininterruptas. A chuva começou no final da tarde do dia 31 de dezembro de 2.009 e foi até a manhã do Ano Novo. Deslizamentos de terra ocorreram em todo o município, sendo um deles fatal. Com tanta água sendo escoada, a drenagem dos rios foi insuficiente. Os seus volumes transbordaram com força, destruindo pontes, estradas, construções e tudo o mais que encontraram pela frente. Em São Luiz do Paraitinga, cidade à jusante do rio que a batizou, o Paraitinga, abastecido pelas torrentes recebidas no município de Cunha, subiu mais de 12 metros acima de seu leito normal, inundando a histórica cidade vale-paraibana, com dezenas de casarões e construções tombadas pelo Patrimônio Histórico. Os prédios de taipa derreteram, sucumbindo ante à força impetuosa da natureza. Todos assistiram inertes e estarrecidos à queda Igreja Matriz de São Luís de Tolosa, edifício centenário e imponente, que foi reconstruído recentemente.
Causas
De onde veio tanta água? Dados históricos da PCD (Plataforma de Coleta de Dados) / Estações Ambientais Automáticas do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), localizada no alto do Parque Nova Cunha, registraram no dia 1º de janeiro de 2.010, 165 mm de precipitação, o que equivale dizer que em cada metro quadrado de solo choveu cerca 165 litros de água. Dados da Estação Digital da ANA (Agência Nacional de Águas), que fica perto da ponte sobre o rio Paraitinga, na Rodovia Paulo Virgínio, registrou 174 mm de precipitação, um valor extremamente alto e raro de acontecer, que até chega a assustar até os cientistas e estudiosos do clima. Assim que toda essa água começou a descer rio baixo, o nível do rio Paraitinga só ia aumentando, deixando a população luizense em pânico, pois não sabiam de onde estava vindo tanta água, já que a chuva por lá não foi tão forte como cá. Só depois dessa tragédia, os órgãos estaduais competentes resolveram criar uma rede de coleta de dados e de prevenção integrada, facilitando a comunicação da área à montante (Cunha), com as cidades à jusante do rio, como São Luiz.

Segundo o meteorologista do CPTEC- INPE, Giovanni Dolif, a intensa precipitação que castigou a nossa região foi causada por um sistema de baixa pressão atmosférica, cujo centro estava no Atlântico, estacionado há alguns quilômetros litoral norte de São Paulo. Áreas de baixa pressão favorecem a ocorrência de chuvas. Ventos úmidos, vindos tanto do continente (desde a Amazônia) como do mar (do Atlântico), se encontraram justamente sobre nossa região, formando nuvens carregadas que acabaram se precipitando. Além do mais, o fator geomorfológico (Serra do Mar) favorece a formação de nuvens mais carregadas. Já para o renomado geógrafo brasileiro Aziz Nacib Ab’Sáber, já falecido, o evento de janeiro de 2.010 era parte de uma crise periódica de natureza climato-hidrológica de escala mais ampla que a mera convergência de ventos em determinado local, pois para ele a climatologia tropical entraria em colapso de tempos em tempos, como diz: “Este ano (2.010) foi de perturbações fortíssimas em toda a América Tropical. Concluo que houve crises regionais no Brasil Tropical-Atlântico desde Espírito Santo e Rio de Janeiro até o Nordeste de Santa Catarina, onde ainda predomina um clima tropical. Essas perturbações ocorrem de doze em doze anos ou de treze em treze anos (…) essa periodicidade é desconhecida em relação a São Luís. Mas, quando eu era menino, me lembro de ter ouvido gente falando que a cheia que ocorreu chegou até a porta do mercado”. Nesta entrevista à Rede Brasil Atual, Ab’Sáber também mencionou como agravante do colapso climático a feição do relevo, extremamente montanhosa em nossa região, um verdadeiro “mar de morros”, conforme termo que ele cunhou. Para o pesquisador, o caminho para minimizar os impactos desses colapsos passa pela educação preventiva, ressaltando que “é hora de obrigar essas cidades (Cunha, Angra dos Reis, São Luiz etc.) a terem ensino sobre a história da cidade, o sítio urbano da cidade, a periodicidade climática perigosa.” Ou seja, é preciso que cada morador conheça o seu próprio município, os seus aspectos naturais e históricos.
Consequências
Em 01 de janeiro de 2.010, a situação era crítica, devido a diversos escorregamentos, tanto na zona urbana quanto na rural, isolando a cidade, as vilas e bairros rurais. Os números do desastre climático foram os seguintes: queda de cerca de 1.000 barreiras em estradas e rodovias; destruição de 300 pontes de madeira em estrada rural; 38 desabrigados; 492 desalojados; 12.000 isolados e 6 óbitos por soterramento (Mário Penha, 46 anos, Ingrid, 35 anos, Manolo e Érica, casal com aproximadamente 65 anos, Eduardo Moron, 15 anos, e Sabrina, 12 anos), todos de uma mesma família paulistana, que possuía uma casa de veraneio no bairro da Barra do Bié, destruída por um deslizamento de terra. Houve a remoção de famílias em aproximadamente 90 residências. Além desses danos, não se contabilizaram os inúmeros estábulos, áreas de pastagem e animais mortos em virtude da enchente causada por tamanha chuva, trazendo sérios prejuízos econômicos para pecuária leiteira, principal atividade municipal. Como a situação da cidade foi amplamente divulgada pela mídia e as estradas ficaram intransitáveis, o setor turístico também teve um enorme prejuízo e, nos anos posteriores, foi absorvendo o impacto negativo. A Prefeitura de Cunha, diante de sua incapacidade responder aos danos causados pelas consequências da precipitação anormal, decretou Estado de Calamidade Pública, em 5 de janeiro. O isolamento total durou até o dia 3 de janeiro, quando a ligação com Guaratinguetá foi reestabelecida, pois as pontes da SP-171 foram parcialmente destruídas. A Prefeitura deslocou todo o seu corpo técnico e parte do seu setor de serviços para a Escola Municipal “Benedito Aguiar Sant’Anna”, prédio que foi a base das operações emergenciais daquele janeiro. O objetivo era coordenar as ações e respostas da Municipalidade de maneira sinérgica, visando apresentar uma resposta menos demorada ante à catástrofe.
Apesar de toda tragédia vivenciada, Cunha também experimentou a solidariedade das cidades vizinhas e de todo Brasil, pois inúmeras doações foram encaminhadas à cidade. Os helicópteros da Polícia Militar do Estado de São Paulo e do Comando de Aviação do Exército Brasileiro, que se mobilizaram para atuar em Cunha nos momentos mais difíceis, em muito ajudaram à população da zona rural, prestando socorro e rompendo o isolamento que preocupava a todos. A Defesa Civil estadual, bem como os excelentes institutos estaduais IG (Instituto Geológico) e IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo) deram todo o apoio técnico, administrativo e operacional possível, não só no momento emergencial (com vistorias e interdição de áreas de risco), mas principalmente posteriormente, ajudando na construção de um município menos inseguro e mais planejado (ainda um sonho). Muitos moradores de Cunha também se voluntariam e atuaram naquele momento, seja na distribuição de alimentos e medicamentos para moradores rurais, na logística das operações ou ainda no descarregamento, armazenamento, triagem e distribuição das doações recebidas.
O desastre natural serviu para reforçar o papel e a importância da Defesa Civil municipal, que foi o órgão mais atuante durante o período emergencial e de calamidade pública, prestando todo o socorro possível e não medindo esforços para que a os danos ocorridos fossem atenuados. O papel assumido pela Defesa Civil durante o momento calamitoso fez com que os moradores e órgãos municipais entendessem a importância da própria comunidade local atuar e se prevenir em relação aos riscos que podem destruir bens materiais e vidas. “Área de risco” passou a fazer parte do vocabulário cunhense e todos passaram a levar o assunto a sério. Esse evento triste e desastroso nos serviu como alerta, mostrando que nenhum lugar – nem os mais belos, como o nosso – está a salvo de eventos meteorológicos intensos e catastróficos. E que o único meio de evitar grandes danos materiais e humanos é se preparar para eles, porque cedo ou tarde acabam ocorrendo. As cicatrizes, dos movimentos de massas que ocorreram em 2.010, são visíveis ainda em nossa paisagem, servindo como lembrete, um recado da natureza para não nos deixar esquecer do fatídico desastre.
Reconstrução
Todo o mês de janeiro de 2.010 seria marcado pela ação emergencial da Prefeitura, de órgãos estaduais e da Polícia Militar e do Exército Brasileiro (presente com os seus helicópteros), um esforço conjunto na tentativa de mitigar os efeitos desastrosos do colapso climático, visando desobstruir estradas, levar medicamentos e mantimentos às comunidades isoladas e reconstruir pontes de madeira às pressas, na tentativa de reconectar os bairros rurais à sede municipal. A reconstrução das pontes, estradas e casas do município levaria ainda dois longos anos e receberia financiamento público, com a transferência de recursos estaduais e federais. As estradas foram refeitas entre os anos de 2.010/2.011, pela Companhia de Desenvolvimento Agrícola de São Paulo (CODASP), mediante convênio da Prefeitura com o Governo do Estado. Já o núcleo do CDHU – Estrada Velha, construído para atender às famílias que perderam suas casas no desastre, só foi concluído e inaugurado em 2.016.
Pode ocorrer novamente?
Desastres naturais de natureza atmosférica não são raros em Cunha. Como exemplo podemos citar a grande chuva do dia 17 para o dia 18 de dezembro de 1.973, que levou o prefeito de então José Elias Abdalla, o Zelão, a decretar estado de calamidade pública. Pontes e estradas ficaram destruídas e acabadas. Todavia, essa precipitação foi tipicamente convectiva, de modo que não se apresentou uniforme por todo o município, mas concentrou-se justamente nas cabeceiras do rio Jacuí, daí o seu impacto destrutivo. Segundo o DAEE, na Estação Pluviométrica do Cume foram registrados 73 mm, uma forte chuva, na Estação Pluviométrica da Paraibuna foram registrados 77,3 mm, mas nada se compara ao registrado na Estação Pluviométrica do Sertão do Rio Manso, com os seus alarmantes 293,5 mm anotados. O vendaval de granizo de 14 de junho de 1.987 durou apenas 5 minutos, mas acabou destruindo parcialmente 60 casas e ferindo 35 pessoas levemente. Os vários destelhamentos assustaram os moradores. Eventos climáticos extremos desse tipo demonstram que a nossa região não está livre de catástrofes naturais, pois fatores como característica do terreno e do relevo, o sistema atmosférico e a questão humana, que envolve a forma de ocupação e a ausência de planejamento e ordenamento territorial, são elementos catalisadores de tragédias climáticas. E nem sempre os prejuízos se restringem ao campo econômico, infelizmente. Geadas extremas e estiagens também costumam ocorrer em nosso município e podem acarretar muitos transtornos e danos econômicos para agropecuária local. Por isso a importância da elaboração por parte do município de um plano de contingência, para dar uma resposta rápida quando o desastre acontecer. Como é difícil saber “quando”, “o que” e “onde” ocorrerão os próximos eventos climáticos extremos, vale a máxima popular: “é melhor prevenir do que remediar”.
Fontes:
AB’SABER, Aziz Nacib. A propósito da periodicidade climato-hidrológica que vem provocando grandes crises em Santa Catarina. Estudos Avançados, São Paulo, v. 23, n. 67, p. 299-306, 2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142009000300032&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 01 Jan. 2020.
Band News. Brasil: INPE alertou sobre chuvas no Vale do Paraíba em SP. Disponível em: https://tvuol.uol.com.br/video/brasil-inpe-alertou-sobre-chuvas-no-vale-do-paraiba-em-sp-04028D1A3666C8813326
CENTRO DE PREVISÃO DE TEMPO E ESTUDOS CLIMÁTICOS (CPTEC) / INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS (INPE). Banco de Dados – Dados automáticos da Plataforma de Coleta de Dados (PCD): PCD 30885 – ESTAÇÃO: Cunha/SP Disponível em: http://sinda.crn.inpe.br/PCD/SITE/novo/site/index.php.
COMITÊ DE INTEGRAÇÃO DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO PARAÍBA DO SUL (CEIVAP). Recuperação da bacia do rio Paraitinga vai custar cerca de R$ 15 milhões. Revista Pelas Águas do Paraíba. n. 5, ano IV, nov. 2010. p. 36-37.
DEPARTAMENTO DE ÁGUAS E ENERGIA ELÉTRICA (DAEE). Banco de Dados Hidrológicos. Disponível em: http://www.hidrologia.daee.sp.gov.br/
DIOCESE DE TAUBATÉ. Paróquia São Luís de Tolosa – São Luiz do Paraitinga. Disponível em: https://diocesedetaubate.org.br/saoluisdetolosa/
G1. Soterramento em Cunha, SP, mata 5. Disponível em: http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL1432106-5605,00-SOTERRAMENTO+EM+CUNHA+SP+MATA.html
G1. Helicóptero do Exército resgata mulher que sobreviveu a deslizamento em Cunha. Disponível em: http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL1432334-5605,00-HELICOPTERO+DO+EXERCITO+RESGATA+MULHER+QUE+SOBREVIVEU+A+DESLIZAMENTO+EM+CUN.html
G1. Família morta em soterramento em Cunha é enterrada na capital paulista. Disponível em: http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL1433245-5605,00-FAMILIA+MORTA+EM+SOTERRAMENTO+EM+CUNHA+E+ENTERRADA+NA+CAPITAL+PAULISTA.html
G1. Chuva derrubou 600 barreiras e 300 pontes em Cunha, diz prefeitura. Disponível: http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL1433244-5605,00-CHUVA+DERRUBOU+BARREIRAS+E+PONTES+EM+CUNHA+DIZ+PREFEITURA.html
Giovanni Dolif – Chuva intensa em Angra, Sao Luis do Paraitinga e Cunha. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Gdx3fMqewJ0
INSTITUTO GEOLÓGICO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Instituto Geológico orienta ações em São Luiz Do Paraitinga e Cunha. Disponível em: https://www.infraestruturameioambiente.sp.gov.br/institutogeologico/2010/01/instituto-geologico-orienta-acoes-em-sao-luiz-do-paraitinga-e-cunha/
O ESTADO DE S. PAULO. Temporal em Cunha fere 20 pessoas e destrói 5 casas. Geral, 16 jun. 1987, p. 42. Disponível em: https://acervo.estadao.com.br/publicados/1987/06/16/g/19870616-34446-nac-0042-999-42-not-gghkhhh.jpg
O Globo. Turistas morrem soterrados em deslizamento de terra em Cunha, SP. Disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/turistas-morrem-soterrados-em-deslizamento-de-terra-em-cunha-sp-3075311
PREFEITURA DA ESTÂNCIA CLIMÁTICA DE CUNHA. Decreto n.º 043/73, de 18 de dezembro de 1.973.
Rede Brasil Atual. Para Ab’Saber, inundação de Paraitinga é parte de ano anômalo. Disponível em: https://www.redebrasilatual.com.br/cidades/2010/01/para-absaber-inundacao-de-paraitinga-e-parte-de-ano-anomalo-1/
UOL Notícias. Quase 2.000 permanecem isolados em Cunha (SP); Capivari (SP) tem 378 desabrigados. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/2010/01/06/ult5772u6924.jhtm
UOL Notícias. Cunha-SP decreta estado de calamidade pública. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultnot/agencia/2010/01/05/ult4469u51213.jhtm
Postagem original (Facebook):









