Cunha, ex-cidade colonial

A impressão de todos os pesquisadores e autores que escreveram sobre Cunha, até metade do século XX, era a mesma: uma cidade colonial, um rosário de casas brancas entre as montanhas.

A destruição do casario colonial foi obra recente. Operaram, em consórcio, duas frentes demolidoras: uma exógena, ideológica, gerada pelo capitalismo brasileiro, associando o passado ao atraso econômico, cujo mote foi “São Paulo não pode parar”; e a endógena, psicossocial, gerada pela mistura entre pobreza, analfabetismo e ignorância das elites locais. Essa combinação de forças do atraso pôs abaixo parte de nossa história.

O progresso, esperado, não veio. Entretanto, serviu para desfigurar uma paisagem cultural secular, transformando nosso centro urbano em uma cópia de todos os outros.

Nesta foto, pode-se perceber que, ainda em meados dos anos de 1960, Cunha conservava seu aspecto colonial. A margem sul da Rua Major Santana, por exemplo, era formada por quintais do casario central, com hortas e árvores e tudo o mais. Roças de milho, esse cereal civilizador, margeavam a cidade, mostrando que a vida urbana era mais telúrica que o “morar na roça” nos tempos atuais.

Rua Dom Lino

Rua Dom Lino, ontem (década de 1940) e hoje (2020). Fotos: Museu Francisco Veloso e Jacuhy.

A Rua Dom Lino é uma das nossas ruas centrais. Foi assim nomeada em 22 de setembro de 1.877, pela Câmara de Cunha, por ocasião da visita do Rev.mo Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho (1826 – 1894), bispo da Diocese de S. Paulo, pois o religioso ficou hospedado na Casa Paroquial, na mesma rua. O pároco de Cunha na época era o Cônego Antônio Gomes Siqueira, que, posteriormente, também emprestaria seu nome para batizar uma de nossas praças. O cônego foi uma figura importante no âmbito local, tanto no campo religioso quanto no político. Membro destacado e líder do Partido Liberal, quando ainda reinava D. Pedro II.

Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho (1826 – 1894), bispo da Diocese de S. Paulo. Imagem: Página Brazil Imperial (Facebook).

A visita do bispo durou quase 3 semanas e nesse ínterim, que V.Rev.ª contou com afamada hospitalidade cunhense, teve tempo para visitar todas as igrejas da cidade, a Capela da Boa Vista (nosso marco fundador), a vizinha Lagoinha, o distrito de Campos de Cunha, as Águas de Santa Rosa e a Fazenda Pedra Branca.

O bispo diocesano deixou a cidade em 10 de outubro, sendo acompanhado por um préstito de dezenas cavaleiros até a primeira légua do caminho. Levou, além da boa impressão dos cunhenses, uma caridosa quantia angariada pela Câmara, destinada a amenizar o flagelo da seca que castigava o Ceará, sua terra natal.

Era a Câmara de Cunha composta pelos seguintes membros, em 1.877:
– João Carlos Freire;
– Francisco Mendes Mendonça (alferes);
– Antônio Moreira da Silva Querido;
– Manoel Albino dos Santos Queiroz;
– Manoel Rodrigues da Silva;
– Antônio José Vieira (professor);
– Antônio Xavier Freire (presidente e juiz municipal).

Interessante é que o registro fotográfico mais antigo que se tem de Cunha foi feito na Dom Lino. Ele aparece no livro “A História de Cunha (1600-2010)”, do professor João Veloso, datado como de 1.868. Aliás, nesse ano, a Dom Lino ainda era chamada de Rua da Lapa. Na fotografia, de qualidade compatível com a época, aparece a torre da antiga Capela da Lapa, demolida em 1.907, e, ao fundo, o sobrado do Paço Municipal, incendiado e demolido em 1.961.

Rua da Lapa na fotografia mais antiga que se tem de Cunha. Data: 1.868. Fonte: Museu Francisco Veloso.

Pessoas, vestidas à moda do tempo, posam para a máquina de fotografia. Grande novidade era essa máquina que capturava momentos! Rua movimentada, Cunha vivia os seus últimos dias de glória. Dessa velha Cunha e desse áureo tempo quase nada restou além dessa fotografia.

Segundo pesquisa de Diogo F. Borsoi (“A paisagem das trocas: a Vila de Cunha e a formação de uma economia de abastecimento interno na transição do século XVIII para o XIX”, 2020), publicada pelo Museu Paulista, na Rua da Lapa “predominavam casas habitadas por proprietários que as utilizavam apenas quando iam à vila. Havia também oito imóveis destinados à renda de aluguel na vila (…)”. Era a rua onde ficavam as casas dos maiores fazendeiros de Cunha, que só apareciam na cidade por ocasião das festas religiosas, permanecendo esses imóveis fechados boa parte do ano.

Um desses fazendeiros da rua era o coronel Antônio José de Macedo Sampaio, vulgo “Coronel Macedo”. Ele e sua esposa, Maria Francisca de Novaes Fonseca, católicos devotos, eram os zeladores e mantenedores da Capela da Lapa. Sempre estavam à frente da Festa de Nossa Senhora da Lapa, comemorada em 15 de agosto. Tinham casa em frente à capela, na esquina da atual Travessa Paulo Virgínio, onde hoje é o restaurante “Il Pumo” e o “Armazém Arte & Sabores”. Consumiram parte de sua riqueza na conservação e ornamentação dessa capela, chegando a deixar espólios em dinheiro, em seus respectivos testamentos, para a conservação da capela; que, infelizmente, não foram suficientes para mantê-la de pé até nossos dias.

Rua Dom Lino, em 1.978. Foto: Eurindo Braga Perez. Fonte: Página Parada do Tempo (Facebook).

Sobre as ruínas da Capela da Lapa foi erguido o Mercado Municipal, em 1.913. O povo de Cunha, religioso, não viu com bons olhos essa profana troca. Por isso, por muitas décadas, o Mercado, tão lotado em outras cidades, em Cunha virou um espaço anecúmeno, perdendo até mesmo sua função.

Fontes:
“A História de Cunha”, João Veloso;
“O Cunhense” (jornal) – 1.878;
Arquivos do Museu Francisco Veloso;
“A paisagem das trocas”, Diogo Borsoi;
“Negro Político, Político Negro”, Oracy Nogueira.