Cunha, carvão e milho

Na década de 1940, a fim de conhecer o Brasil e fazer uma nova regionalização do país, o recém-fundado IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) organizou diversas expedições por todos os rincões do território nacional. Nessas expedições coletavam dados, tiravam fotos, analisavam rochas e o relevo, confeccionavam mapas e croquis, entrevistavam pessoas e, assim, obtinham um panorama geral dos lugares por onde passavam. Em um período analógico, com comunicações limitadas e anterior a era do sensoriamento remoto, essas expedições eram o meio mais eficaz de obter informações geográficas de uma porção do território. Geralmente, contavam com geógrafos, geólogos, cientistas sociais e outros profissionais de áreas afins. Uma dessas expedições passou por Cunha. Foi realizada entre os dias 29 de outubro e 2 de novembro de 1943 e foi liderada pela professora Mariam Tiomno. Partiu de Guaratinguetá, passou por Cunha e Paraty e terminou em Angra dos Reis. O relatório foi publicado no Boletim Geográfico do IBGE, em 1944. Sobre o município de Cunha foi relatado o seguinte:

“As várzeas são aproveitadas para plantio do arroz e as encostas para mandioca. O arroz também se desenvolve nas encostas por ser úmida a região. Notam-se, ainda, culturas associadas de milho e feijão. Continuando a viagem, atinge-se a fazenda d do Sr. Jose Verresqui, onde se dá a confluência do rio Cedro com o Paraitinga numa várzea larga bem cultivada. O caminho segue depois o rio Sapê, que consta na carta como rio Facão. O vale é profundo e encaixado entre as colinas. Nas encostas dominam os pastos onde ocorrem, às vêzes, capões fechados. No vale há pequenas plantações de milho, feijão e arroz. Do alto vê-se bem a grande regularidade daquela superfície de erosão muito antiga.

Croqui da Estrada Cunha-Guaratinguetá, atual Rodovia Paulo Virgínio (SP – 171), no final dos anos 1940. Autor: Carlos Borges Schmidt. Fonte: Boletim Paulista de Geografia, 1950.

Em Teodoro Cassinho passa-se para a vertente do Jacui; o antigo nível de erosão é marcado pelos seixos bem rolados vistos na margem da estrada. A vegetação apresenta-se mais abundante e exuberante. O feto arborescente surge pela 1ª vez. Encontra-se a araucária em grande quantidade. É bem observada a derrubada de árvores para produção do carvão vegetal exportado para o Rio, na razão de 3.000 sacas por mês.

O hábito de preparar a terra em ‘mutirão’ ou ‘butirão’ é aí notado. Pelo vale do rio Facão, que a estrada acompanha desde Curralinho, atinge-se Cunha. O vale apresenta-se bastante aprofundado e os sucessivos ciclos de erosão são marcados em Curralinho por níveis de seixos rolados. Nas margens do rio cultiva-se o trigo para consumo local.

As maiores produções do município são o carvão de madeira e o milho.

A sua exportação é, entretanto, pequena por ser empregado na alimentação do gado, principalmente suíno. Cêrca de 40.000 cabeças são exportadas anualmente. Dos produtos agrícolas o mais exportado é o feijão, depois a batatinha.

A produção se escoa pela estrada de Guaratinguetá. Há um comércio muito rudimentar com Parati; Cunha envia-lhe feijão e toucinho e recebe em troca peixe e parati. Êsse intercâmbio não se pode desenvolver pela carência de estradas. Cessando o movimento das tropas de Minas e São Paulo para Parati, passando por Cunha, a estrada ficou completamente abandonada não restando atualmente quase nada da mesma.

Cunha, situada sôbre um pequeno esporão, numa altitude de 960 metros, possui cêrca de 250 casas, tôdas antigas, inclusive a Igreja, e uma população de 1.100 pessoas. Goza de um clima temperado e de um regime de chuvas de verão e sêca no inverno. As chuvas vão de novembro a janeiro e são frequentemente acompanhadas de trovoadas e de fortes ventanias. A geada é aí outro fator climático importante, os seus efeitos se fazem sentir até o mês de novembro, daí não plantarem café.

Rua Dr. Casemiro da Rocha, centro de Cunha. Foto: Mário de Sampaio Ferraz. Data: 1940.

De Cunha para Parati segue-se de início pela estrada de rodagem de Tabuão, antigo caminho das tropas melhorado durante a revolução de 1932. O caminho atravessa o morro do Apertado donde se divisam dois ciclos de erosão, um cortando as camadas e formando a peneplanície e outro constituído pelo vale. Entre êles há esporões intermediários, num dos quais situa-se a cidade de Cunha.

A vegetação se caracteriza por uma espécie de cerrado conhecido com o nome de ‘carrascal’.

Vêem-se plantações de feijão que abrangem grandes áreas, pequenas culturas de arroz e campos de pastagens com capim gordura.

No bairro de São José da Boa Vista, existe uma capela aonde, nos períodos de grande sêca, os moradores vão em romaria orar para que chova.

Adiante, atinge-se o morro do Divino Mestre, numa altitude de 1.500 metros, distingue-se num 1º plano a peneplanície dissecada muito confusa. Apresenta níveis intermediários, num dos quais se vê a cidade de Cunha. Nessa peneplanície de 900 a 1.000 metros de altitude há um tipo de rocha homogênea, gnaisse-granítico, que exerce ação determinante na disposição de rêde hidrográfica, em ‘pata de ganso’. (…)”

Além do ciclo econômico do carvão, pelo qual Cunha passou e é pouco lembrado, outras dados interessantes trazidos por esse relatório são: a importância que a suinocultura para Cunha; o cultivo de arroz nas áreas de várzea, atualmente, desaparecido; a existência de manchas de Cerrado em nosso município (“carrascá”, na linguagem popular), recentemente confirmadas por uma pesquisa sobre botânica; o casario colonial da cidade ainda intacto; a relação umbilical existente entre Cunha e Paraty, complementando-se; a péssima situação da Estrada Cunha-Paraty, grande gargalo para o desenvolvimento local.

O prefeito de Cunha na época (Antonio Accacio Cursino) pediu aos geógrafos que levassem a situação dessa estrada ao conhecimento dos políticos da capital, que era o Rio de Janeiro; e por fim, a mais importante observação dessa expedição, que mudou a interpretação geomorfológica sobre o Domínio dos Mares de Morros, pois ficou claro nessa expedição que esse tipo de relevo evolui e foi dissecado ao longo do tempo pelo forte processo erosivo ao qual é submetido devido às condições climáticas tropicais.

Estrada Cunha-Paraty, em seu trecho fluminense, sem calçamento. Acervo: Prefeitura Municipal de Paraty. Data: década de 1940.

O ciclo do carvão vegetal, que se encerrou no final da década de 1960, foi responsável pela devastação dos últimos remanescentes de Mata Atlântica original em nosso município. Também foi o responsável pelo desbravamento do então Sertão do Rio Paraibuna. Havia carvoarias e serrarias onde, atualmente, é a sede do núcleo de Cunha, do Parque Estadual, no bairro da Paraibuna. Esse ciclo só foi freado e encerrado com o advento do Código Florestal, em 1965, e posteriormente, com a criação do Parque Estadual da Serra do Mar, em 1977, que não só resguardou o que restou da Mata Atlântica em Cunha, como recuperou parte da área que foi devastada, com práticas eficazes de reflorestamento. Os grandes veículos de nosso estado, como a “Folha de São Paulo” e “O Estado de São Paulo”, também foram responsáveis pela feliz finalização desse ciclo em Cunha, pois realizaram nos anos de 1960 e 1970 diversas matérias denunciando a destruição da Mata Atlântica nos sertões do Vale do Paraíba, apontando o sertão do rio Paraibuna como uma área sob ataque da sanha devastadora das madeireiras e carvoarias.

Imagem de capa: montagem ilustrativa, com fotos retiradas de banco de imagens.

Cunha, transporte e desenvolvimento

Rodovia Vice-prefeito Salvador Pacetti (SP-171), quando atravessa o bairro do Taboão. Foto: site Viagens e Caminhos. Data: 2010.

Antes mesmo de Cunha ser Cunha, os caminhos já faziam parte da história deste lugar. A antiga trilha dos Guaianases, o “caminho do Facão”, foi um dos primeiros pontos de entrada para o sertão. Um peabiru que foi amplamente utilizado pelos colonizadores. Aliás, é bem provável que o nosso antigo topônimo “Facan/Facão” seja em razão da condição desse antigo caminho, que vencia a Serra do Mar, mas era dos mais perigosos e precários.

Dizem os antigos cronistas e aventureiros que os Guaianases, primeiros a pisar neste chão, estavam sediados na Ilha Grande. Quando chegava o verão, migravam do litoral rumo ao sertão, embrenhando-se na mata, que, de tanto ser varada, acabou virando a trilha desse povo originário.

Em distância absoluta, a cidade mais próxima de Cunha é Lagoinha (vide Mapa Concêntrico de Cunha abaixo). Dista 23,6 Km. No passado, já chegou a ser distrito de Cunha. Mas somente agora estão a asfaltar a ligação entre elas, via bairro do Jaguarão. A segunda cidade mais próxima, Paraty (RJ), a 30 Km, só foi conectada decentemente a Cunha em 2016, depois de mais um século de reivindicação para o seu calçamento.

É muito pouco para uma cidade que surgiu, justamente, em função dos caminhos.

Está sob a ponte aérea Rio – São Paulo, principal fluxo aeroviário brasileiro. Movimento bem perceptível à noite, com pontos luminosos transitando no céu no sentido Leste-Oeste.

Está conectada por menos de 50 Km, via SP-171, à BR-116, principal rodovia do Brasil.

Mapa Concêntrico em Cunha (SP), apresentando algumas cidades selecionadas como referência. A equidistância entre os círculos em destaque é de 50 Km. O objetivo é mostrar a posição de Cunha entre os dois maiores conglomerados urbanos do Brasil. Além da distância entre as cidades, foram respeitadas as angulações azimutais.Data: 2022. Cartografia: Jacuhy.

Portanto, percebe-se que Cunha não está mal localizada – como sugerem certas pessoas ao tentar justificar o subdesenvolvimento municipal –, já que seu sítio urbano fica entre as duas maiores metrópoles do país; mas é mal servida pela rede rodoviária, modal de transporte predominante no Brasil. E o problema nem é a densidade dessa rede, porque só de estradas rurais o seu território é cortado por mais de 2 mil quilômetros, e, sim, a condição dessas vias. Trata-se de estradas vicinais de terra batida, com manutenção esporádica, inapropriadas ao tráfego nos dias chuvosos.

Até 2016, quando a Estrada Parque Comendador Antonio Conti (RJ-165) foi concluída, a única ligação asfaltada que o município possuía com outro lugar era com Guaratinguetá, pela Rodovia Paulo Virgínio (SP-171), inaugurada em 1967 até a cidade de Cunha. O trecho até a divisa com o estado do Rio de Janeiro foi concluído em 1984.

Sem estradas transitáveis, não há turismo nem escoamento da produção agrícola.

Cidade com clima de montanha, porém bem perto do litoral. Localização privilegiada, isso sim. Só que sem estradas, é mais uma das “cidades mortas” do velho Vale, a espera de uma via transitável que possa ressuscitá-la.

Maior acidente rodoviário de Cunha

Imagem da série “Hoje na História de Cunha”, da página “Jacuhy“, no Facebook.

Um ano chuvoso

1958, “o ano que não devia acabar”, foi muito chuvoso. Diluvial. A Estrada Cunha-Paraty não era pavimentada, nem em seu trecho paulista muito menos no fluminense, “novela” que se encerrou há poucos anos. Nem a Cunha-Guará (SP-171) ainda era asfaltada. Na época das águas, era tudo lama. Quem viveu esse tempo – que não foi meu – e está vivo para contar deve lembrar. Viajar para Cunha no verão era uma aventura. E das bem perigosas. Nem o Fusca dava jeito. Aliás, com peças importadas da Alemanha, o Fusca ainda era “Volks”. Não era popular e nem carro de pobre. Sim, o “besourinho” já foi carro de rico, daqueles que a playboyzada desfilava na Rua Augusta. Um acinte. Como uma obra de arte da indústria automobilística pode ser pilotado por gente tão cafona? Se fosse o New Beetle, dava para entender… Nem mesmo o fato de ter sido um carro feito especialmente para a Alemanha Nazi justifica. O fusquinha foi a única coisa decente que saiu de lá. A única. Até nisso o Fusca é exclusivo.

Mas essa não é uma história sobre o Fusca. É sobre um micro-ônibus lotado. E é uma tragédia. O maior acidente rodoviário que ocorreu em nossas estradas. O fato vai se apagando na memória, mas a nossa missão é não deixar esquecer. Tem histórias bonitas e tem as tragédias, no fim tudo é história. Quem já viu a cruz de pedrinhas do Morro Grande? Se não viu, é porque o DER não está roçando a margem da rodovia. Mas está lá. “Lugar assombrado”, diziam. “Morreu muita gente”, alertavam. Pelo menos era assombrado quando se passava a pé e a à noite por ali, quando a Cunha-Paraty era uma estrada fantasma. Hoje, com o vai-e-vem de carros, de mineiros e farofeiros invadindo Paraty, não sei se ali há almas penadas, sempre afoitas a barulho e luzes. Depois da meia-noite qualquer lugar é assombrado. Até o quarto da gente.

A poça de água

Jardineira da empresa Santa Teresinha, que fazia a linha Guaratinguetá-Cunha, transitando pela SP-171 antes de ser pavimentada. Foto: Charles Machado. Década de 1950.

O acidente ocorreu na manhã do dia 10 de fevereiro de 1958, no Morro Grande, local hoje assinalado por uma cruz, onde recentemente o D. E. R. realizou uma obra de contenção no talude da margem superior. O micro-ônibus (ou melhor, a jardineira) da empresa Santa Teresinha, que perfazia o itinerário Guaratinguetá-Paraty, despencou ribanceira abaixo, com 200 metros de abismo. Sete pessoas morreram e 25 ficaram feridas. Do veículo restou apenas a lataria. A carroceria desapareceu, a capota ficou a 100 metros para trás e o assoalho ficou preso ao chassi. Pelo morro abaixo, os pertences dos passageiros se espalharam, misturando-se com os cacos de vidro, sangue, malas reviradas, trapos de roupas e lama. Muita lama. Uma cena desoladora.

O motorista ao tentar desviar o micro-ônibus lotado de uma poça de água na estrada (estava chovendo muito na região e a estrada estava um lamaçal), deu forte guinada na direção. Com o movimento, o micro-ônibus bateu em uma cerca, ficando após o choque o veículo sem direção, não obedecendo ao volante. Daí segui desgovernado em direção ao precipício. Perceberam os passageiros e o motorista o que ia ocorrer e entraram em desespero. Saltou então motorista e cobrador para fora e apenas mais 2 passageiros tiveram a mesma sorte a tempo. O micro-ônibus rolou pelo acentuado declive, deixando passageiros na queda. O resgate chegou logo, mas foi difícil tirar os feridos e mortos do local, devido ao terreno escorregadio.

Ainda sobre o que motivou a queda, há uma versão diferente, apresentada ao professor Victor Amato dos Santos por seu primo Zezito Freire (José Carlos de Oliveira Freire). Zezito faleceu em dezembro de 2020, com 98 anos de idade, de Covid-19. De “lucidez invejável até o fim”, relatou por e-mail, em 27 de janeiro de 2014, o seguinte: “dentre os mortos naquele acidente [o que estamos tratando agora], o único que aconteceu, foram meus tios Jesuíno Rubem e Miloca- Emília Freire Rubem – irmã de meu pai. Tio Zezinho (assim era conhecido) casou-se e foi morar em São Luiz. Depois voltou a Paraty trazendo dois filhos. Era um bom mestre de música e último maestro que tivemos foi aluno dele. Aposentou-se e viajou com a mulher para rever a terra de sua saudade. Faleceu quando o chofer dormiu e deixou o ônibus tombar do alto do morro, já chegando a Cunha. Hoje, aqui, só existem netos dele. Os filhos homens faleceram, uma das filhas também e as outras (três) Yeda, Sildete e Nolia Vita não moram aqui.” (grifo nosso). Porém, outros motivos foram levantados na época.

A própria superlotação do coletivo não deixou de ser considerada como provável causa do acidente. No micro-ônibus estavam 34 passageiros (6 deles crianças), além do motorista e cobrador. O correspondente do “Estadão” não deixa de anotar que, embora as causas do “desastre” estivessem sendo apuradas pelo corpo técnico da Polícia Civil, era “opinião generalizada que a precariedade dos carros que a empresa [Santa Teresinha] põe a serviço da linha Cunha-Parati foi o motivo principal da lamentável ocorrência”. Obviamente, a causa maior era considerada, naquele momento, a quebra do eixo de direção, após a batida em uma cerca. Certamente, o estado do micro-ônibus não era dos melhores. O motorista foi considerado covarde e insensível ao saltar primeiro e deixar os passageiros (muitos eram mulheres e crianças) dentro do veículo, para tombar na pirambeira. Isso despertou a ira dos cunhenses.

Mortos e feridos

Morreram na hora 5 pessoas: Jesuino Castro Rubem e sua esposa Emilia Freire Rubem, Miguel Alves Moreira e Alcidio José Santana. Todos de Paraty (RJ). E João Ambrosio Mota, sitiante cunhense. Duas vítimas viriam a morrer no hospital, devido à gravidade dos ferimentos. Elas não foram identificadas nominalmente pelas reportagens. Vinte e cinco passageiros ficaram feridos, sendo 4 deles crianças. Foram todos transferidos para Santa Casa de Cunha, recém-inaugurada. Alguns em estado mais grave foram logo retransferidos para Guaratinguetá. Outros estavam mais em estado de choque do que feridos. Em Guaratinguetá, no dia 11, os feridos menos graves foram removidos para as suas respectivas cidades de origem, pois muitos deles eram do Rio de Janeiro e de outras cidades do Vale do Paraíba.

Escaparam ilesos o motorista Sinezio Aleixo, o cobrador Jeronimo Cruz e mais dois passageiros, que, quebrando o vidro de uma das janelas, saltaram do veículo antes que ele tombasse ribanceira abaixo. Ou saíram pela porta mesmo? Há versões desencontradas desse detalhe.

Em meio a tantas tristezas e lutos, fato curioso relata o professor e historiador Victor Amato dos Santos à página Jacuhy, através dos “comentários”. Escreve ele: “os dois primeiros mortos dos cinco citados na publicação são o tio Jesuíno Castro Rubem e a tia Miloca (Emília Freire Rubem, irmã do meu bisavô Crisanto Freire). Eles moravam em Paraty. Minha avó Nina Freire, sobrinha deles e prima do Zezito, sempre contava sobre a tristeza daquela situação do acidente. Ela mencionava inclusive sobre uma criança de colo que, não se sabe como, foi lançada para fora do ônibus, na queda pela ribanceira, e achada ilesa no meio do mato. O bebê chorava muito, e, graças a isso, pôde ser encontrado e resgatado.”. Uma das 6 crianças que estavam à bordo. Um milagre em meio ao desastre.

Paraty em luto

Muitas vítimas do acidente eram do município vizinho de Paraty. Naquele tempo, não havia estrada que ligava Paraty à cidade do Rio de Janeiro, a Rodovia Rio-Santos ainda era um sonho. Daí, para chegar na capital fluminense, os paratienses passavam por Cunha e iam até Guaratinguetá, para de lá seguir para o Rio.

Tão logo foram identificadas as vítimas, o prefeito de Cunha Antonio Accácio Cursino pegou o seu carro e se deslocou até Paraty para comunicar as famílias das vítimas do acidente ocorrido. Não havia linha telefônica entre as duas cidades. Nem outro meio de comunicação mais rápido.

No final da tarde chegaram em caravana a Cunha, o prefeito de Paraty, o vigário daquela localidade, os médicos e os veículos para transportar os corpos dos mortos e feridos para a cidade litorânea. Paraty enlutou-se pela tragédia.

Prisão do motorista

O delegado regional de Polícia de Guaratinguetá, dr. Wilson Souza e Silva, prendeu em flagrante o motorista Sinezio Aleixo, que tinha na época 29 anos de idade. A prisão foi mais por cautela do que por convicção, pois os fatos ainda estavam sendo apurados, mas a população de Cunha, comovida e transtornada, queria linchá-lo, culpando-o pelo acidente. Não foi possível apurar se o motorista continuou preso, se foi acusado pelo acidente ou absolvido.

“Era o dia da pessoa”

João Ambrosio, que tinha fazenda no Itacuruçá, tomou o ônibus na entrada da Catioca, menos de um quilômetro aquém do trecho onde ocorreu o acidente. Acabou sendo uma das vítimas fatais, morrendo ainda no local. Seu corpo foi transportado para Guaratinguetá, onde foi sepultado. Um infortúnio.

O batismo de fogo da Santa Casa de Cunha

Avenida Padre Rodolpho e Santa Casa de Cunha. Final da década de 1960. Foto: Museu Municipal Francisco Veloso.

A Santa Casa de Misericórdia Nossa Senhora da Conceição, inaugurada em condições insatisfatórias em agosto de 1954, viveu o seu “batismo de fogo”. Sendo o hospital mais próximo, coube a ele atender e acudir os feridos que chegavam com muitas fraturas, traumatismos e perdendo sangue. Sobre esse período da nossa Santa Casa, relata o professor João Veloso (2010, p. 358): “(…) a Santa Casa funcionou precariamente, graças à dedicação exclusiva das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, que não mediram sacrifícios ante as condições sofríveis da época, além da ajuda benfazeja de alguns cunhenses (…) permaneceu, segundo informações, sem água nem luz, um curto período de tempo [1954-1959] (…) época de muita dificuldade para a recém-inaugurada Santa Casa, o que refletia no próprio atendimento à população”.

A despeito de todas essas adversidades e precariedades, a Santa Casa não “negou fogo”. Seu corpo de médicos, enfermeiras e freiras salvaram e trataram muitos feridos. Havia apenas dois médicos em Cunha: dr. Fued Serafim e dr. Daher Pedro. E quando começou a chegar os feridos, mesmo sem recursos, atuaram com perícia, amenizando o sofrimento de uns e evitando a morte de outros.

Recebeu a Santa Casa remédios da cidade de Aparecida e um balão de oxigênio de Guaratinguetá. E alguns enfermeiros também foram enviados.

Contou a Santa Casa, como sempre, com o espírito solidário e cristão dos cunhenses, que vendo a gravidade da situação e a falta de pessoal do hospital, escalaram o Alto do Cruzeiro para prestar socorro, doar sangue e acudir os feridos que chegavam. Tal ato não passou desapercebido do correspondente enviado pelo jornal “Estadão”, que faz questão de anotar na reportagem: “Tiveram dolorosas repercussões as consequencias desse lamentavel desastre. O comercio e as repartições publicas cerraram suas portas. E a população da cidade, num belo gesto de solidariedade humana, acorreu ao local do desastre e à Santa Casa local, procurando todos, cada um a seu modo, prestar aos feridos o auxilio que fôsse possível.”. Cunha, mesmo ante à tragédia, sendo Cunha.

Consequências

A linha de ônibus de Guaratinguetá a Paraty foi suspensa após o acidente. Ônibus só voltou a circular pelo trajeto em agosto de 1958, quando a concessão da empresa Santa Teresinha foi retirada e repassada à Empresa Rodoviária São José, da família Abdalla, que colocou veículos novos para fazer a linha e enfrentar a precariedade das estradas de Cunha.

O trauma foi grande para a população local. Além da situação decrépita dos veículos de transporte coletivo que serviam aos munícipes, ficou evidente o perigo que as péssimas condições das enlameadas e alcantiladas estradas de Cunha ofereciam aos transeuntes. Por ser um risco real à vida de muitos, a necessidade de asfaltar os acessos a Cunha entrou na pauta política local. Em 1967, foi asfaltada a Rodovia Paulo Virgínio (SP-171), que interliga Cunha a Guaratinguetá. Em 1986, no governo de Franco Montoro, foram asfaltados mais 22 quilômetros de estrada (SP-171, Rodovia Vice-Prefeito Salvador Pacetti), da cidade de Cunha até a divisa com o estado do Rio de Janeiro. O trecho que faltava pavimentar para ligar a SP-171 à Estrada Parque Comendador Antonio Conti (RJ-165) foi concretizado apenas em 2016, uma obra milionária e demorada, feita pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, finalizada após longa novela de embargos e judicializações, na qual coube ao Ministério Público Federal o papel de vilão, incensando teses e argumentações ambientalistas irracionais e, por conseguinte, radicais. Uma estrada do século XVIII, a Real, que corta um Parque Nacional, o da Bocaina, criado em 1977, como compensação ambiental para o Complexo Nuclear de Angra dos Reis. Hoje vital para o turismo de Cunha, todavia não menos perigosa.

Fontes:
COM 27 passageiros, o micro-onibus desgovernado rolou pela ribanceira. Folha da Manhã. p. 11, 11 fev. 1958.
DIMINUIU o eleitorado de Cunha. O Estado de S. Paulo, p. 13, 6 ago. 1958.
GRAVE desastre de onibus em Cunha. O Estado de S. Paulo, p. 15, 12 fev. 1958.
NOTAS policiais. Folha da Manhã. p. 6, 12 fev. 1958.
Relato de Victor Amato dos Santos (músico, professor e historiador cunhense).
Relato de Zezito Freire (José Carlos de Oliveira Freire), enviado à página por Victor Amato dos Santos (a quem agradecemos a constante contribuição com o Jacuhy).
VELOSO, J. J. de O. A História de Cunha (1600-2010). Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.