O tupi antigo na hidrografia cunhense

Rio Paraibuna, no Parque Estadual da Serra do Mar. Foto: Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística. Data: 2019.

O município de Cunha é banhado por 12 rios. São eles: Paraibuna, Bonito, Paraitinga, Peixe, Jacuí, Jacuizinho, Jacuí-Mirim, Monjolo, Rio Manso, Taboão, Guaripu, Mambucaba. Estes podem ser agrupados, de uma forma sintética, em 3 bacias hidrográficas principais: Paraitinga e Paraibuna, inseridas na Microrregião Hidrográfica Alto Paraíba do Sul, são formadoras do rio Paraíba do Sul; e Mambucaba, que converge diretamente para o oceano Atlântico, tendo sua foz na vila histórica de Mambucaba, em Angra dos Reis (RJ), na Microrregião Hidrográfica da Baía da Ilha Grande. Todos os nossos rios estão inseridos na Macrorregião Hidrográfica do Atlântico Sudeste.

Mapa das Bacias Hidrográficas do Município de Cunha, elaborado por Roberto Starzynski.

Quanto à toponímia, muitos nomes de rios, ribeirões e córregos de Cunha vêm do tupi antigo, a língua indígena clássica do Brasil, a velha língua brasílica dos primeiros dois séculos do período colonial, período em que o nosso município começou a ser ocupado pelos colonizadores. Por ser algo tão pretérito, o significado original se perdeu na memória, foi esquecido com o tempo… Ou, em uma perspectiva mais histórica, fizeram-nos esquecer, porque a língua portuguesa, segundo os pesquisadores, nos foi imposta pela metrópole lusitana.

O município de Cunha é conhecido como “berço das águas”, o que evidencia a sua relevância hidrográfica para a região, porque nele está localizada a nascente do rio Paraibuna e vira um rio, de fato, o Paraitinga, ambos formadores do rio Paraíba do Sul. Este rio que flui, estrategicamente, entre as duas maiores regiões metropolitanas do Brasil, recortando a industrializada região do Vale do Paraíba.

Entretanto, a rede hidrográfica cunhense apresenta inúmeros problemas. A poluição, o assoreamento, a degradação das nascentes, a supressão de mata ciliar são ameaças às nossas águas e maculam o epíteto recebido por nosso município, condenando esse leito a secar, se nada for feito. Nossos rios precisam receber tratamento à altura da sua relevância, tanto pela população local pelos entes federativos.

Voltemos, então, à toponímia fluvial, contribuição do tupi à geografia local:

Paraitinga:

De pará + aíb/a + ting + -a, que significa: rio ruim e claro. O “ruim”, no caso, era uma designação dada aos rios que não eram navegáveis ou que possuíam poucos peixes. O rio Paraitinga nasce na Serra da Bocaina, no município de Areias, e adentra nosso município em sua parte norte. Serve como limite natural de Cunha com Areias, Silveiras, Lorena e Lagoinha. Após percorrer 87 Km em terras cunhenses, adentra, na porção oeste do nosso território, no município de Lagoinha. É o maior dos nossos rios e também a maior bacia hidrográfica (509,8 Km²), batizando uma gama de bairros rurais cunhenses com o seu nome. Tem o de Baixo, o de Cima, o dos Verreschi, o dos Gonçalves, o dos Mota, o dos Cubas, famílias originais desses arraiais. Já foi, no passado, o limite entre Cunha e Guaratinguetá. Sua planície (a mais extensa do contexto cunhense) favoreceu, antigamente, a rizicultura, e, atualmente, a pecuária leiteira.

Paraibuna:

De pará + aíb/a + un (r, s) + -a, que significa: rio ruim e escuro. O “escuro”, no caso, é uma referência à coloração de suas águas, resultado da decomposição de matéria orgânica em suas margens, que corta densa Mata Atlântica em boa parte do seu curso, atravessando o Parque Estadual da Serra do Mar. O rio Paraibuna nasce na Serra do Mar, a sudeste de Cunha, no Alto da Fruta Branca, próximo à divisa com o estado do Rio de Janeiro. Após percorrer 48 Km em terras cunhenses, adentra, na porção sul, o município de São Luiz do Paraitinga. Apesar de sua área de nascente estar degradada e ocupada por casas de veraneio, pousadas e sítios com pecuária extensiva, parte considerável de seu curso se encontra dentro de uma unidade de conservação de proteção integral, o que o mantém preservado, se comparado aos demais rios cunhenses. Sua vocação socioeconômica, ainda pouco explorada, é o ecoturismo. É afirmado, habitualmente, que sua nascente fica no bairro da Aparição; contesto tal informação, pelo fato do ribeirão do Sertão e o córrego da Vargem Grande, seus afluentes, possuírem segmento fluvial mais extenso que o ribeirão da Aparição. Aliás, situação que até o Google Maps já percebeu. Com 236,8 Km², é a terceira maior bacia hidrográfica cunhense.

Jacuí:

De îaku (aves cracídeas) + ‘y, que significa: rio dos jacus. É o maior rio totalmente cunhense. Sua bacia hidrográfica ocupa a parte central do nosso município, sendo a segunda maior em extensão, com 480,1 Km². O rio Jacuí nasce na Serra do Mar, a sudeste de Cunha, no bairro do Mato Limpo, próximo à divisa com o Rio de Janeiro. Após percorrer 64 Km dentro do nosso território, deságua, a oeste, no rio Paraitinga, no limite com o município de Lagoinha, no bairro do Pinheiro. Suas águas abastecem a cidade de Cunha, através da captação na Adutora da Pimenta. No passado (entre as décadas de 1950 e 1970), juntamente com a captação de água, funcionou no local uma pequena central hidrelétrica, que fornecia energia para a cidade de Cunha. As ruínas dessas instalações ainda estão por lá. Suas águas formam duas famosas cachoeiras: da Pimenta e do Desterro. Mesmo possuindo tamanha importância turística e para o saneamento básico, sua situação é bastante preocupante. Sua bacia está toda degradada, devido à agropecuária extensiva e rudimentar. Seu leito está solapado; seu curso, assoreado; a mata ciliar, suprimida. Para agravar essa situação, o esgoto domiciliar da cidade de Cunha, hoje uma urbe com mais de 10 mil habitantes, é despejado no Jacuí, via córrego do Rodeio, seu afluente, sem nenhum tratamento. Obviamente, que todas essas situações comprometem a fauna fluvial, além de prejudicar sobremodo a qualidade de sua água. Além da importância ambiental, o Jacuí possui relevância histórica. Em 1650, o capitão Domingos Velho Cabral obteve uma sesmaria, a mais antiga que se tem notícia em Cunha, principiando do ribeiro do “Jacoímiri”, na Borda do Campo, com uma légua de testada e meia légua para cada lado, para o caminho antigo que ia para Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá. Foi o nome do primeiro jornal de Cunha (“O Jacuhy”), que circulou na década de 1860. Por todas essas razões, batizou este blog.

Jacu, a penelope, gênero de aves craciformes que marcou a toponímia hidrográfica cunhense. Foto: Adriano Ferreira. Data: 2019.

Itaim:

De itá + ĩ, que significa: pedrinhas. Mais conhecido como “rio da Catioca”, por atravessar esse histórico bairro cunhense, o Itaim é considerado um ribeirão pelo IBGE, nossa referência. Está bastante degradado, por ter servido, desde o século XVIII, pois seu vale serviu como vetor de povoamento e ocupação do município de Cunha. Os bairros mais antigos de Cunha e as famílias pioneiras viveram nessa bacia hidrográfica, recortada pelo caminho que interligava o porto de Paraty à então Vila de Taubaté, centro irradiador de povoamento regional. Essa peculiaridade histórica marcou sua paisagem, seja pela erosão ou a presença de várias e antigas fazendas, em estilo colonial. O ribeirão Itaim nasce na Serra do Alto do Diamante, a sudoeste de Cunha, acima do bairro do Sertão dos Marianos. Após percorrer 30 Km dentro do nosso território, deságua, a oeste, no rio Paraitinga, no bairro do Itaim, no limite com o município de Lagoinha. Com cerca de 129 Km², é a segunda menor bacia hidrográfica de Cunha. Na classificação hidrográfica de Cunha, realizada no início deste século por Roberto Starzynski, pesquisador do Instituto Florestal do Estado de São Paulo, não é considerada uma bacia, estando incorporada à bacia do Paraitinga.

Guaripu:

De gûariba + pu, que significa: barulho dos bugios (guaribas). Os bugios são símios da família dos cebídeos, que costumam emitir sons altos, daí a razão do nome do rio. O rio está bem preservado e limpo, pois localiza-se dentro do Parque Nacional da Serra da Bocaina, unidade de conservação integral. No passado, às suas margens, havia um antigo caminho de tropas, que foi parcialmente calçado, que ligava Lorena, passando por Campos Novos, ao porto de Mambucaba. Historiadores afirmam que esse calçamento foi feito por escravizados africanos, durante o Ciclo do Café no Vale do Paraíba. Sua potencialidade ecoturística, quase inexplorada, é enorme. Havia, em 1854, uma barreira fiscal da Província de S. Paulo no Ribeirão da Serra, que servia para manter transitável a estrada para o porto de Mambucaba, que partia da Grota Grande, no sertão de Mambucaba, até encontrar o rio “Guarahipu”. Atualmente, o seu curso é mais usado como acesso pela população do entorno para atingir o parque, exercendo pressão sobre os recursos naturais ameaçados que lá estão, que a unidade de conservação visa preservar. O rio do Guaripu nasce na Serra do Mar, a nordeste de Cunha, próximo ao bairro da Serra do Indaiá. Após percorrer 18 Km, servindo de divisa interestadual entre São Paulo e Rio de Janeiro, deságua, a nordeste, no rio Mambucaba, entre os municípios de Cunha (SP), Paraty (RJ) e Angra dos Reis (RJ).

Mambucaba:

De mumbuka + -ba [alamorfe de -sab(a)], que significa: lugar das abelhas (meliponídeas, que são as nativas e não têm ferrão). Junto com o rio do Guaripu, forma a nossa menor bacia hidrográfica (51,5 Km²) e a única que não converge para o rio Paraíba do Sul. O rio Mambucaba nasce na Serra da Bocaina, no município de Arapeí (SP). Limita Cunha, a nordeste, com os municípios de São José do Barreiro (SP) e Angra dos Reis (RJ), por 3,7 Km. Com cotas altimétricas inferiores a 680 metros, é o ponto mais baixo de Cunha. É, com certeza, o mais inóspito. De difícil acesso, na área ainda primitiva do Parque Nacional da Serra da Bocaina, o lugar está coberto pela exuberância da Mata Atlântica, ainda intacta, escondendo belíssimas e estrondosas cachoeiras.

Jacuí-Mirim:

De îaku (aves cracídeas) + ‘y + mirĩ, que significa: riozinho dos jacus, ou, por extensão, um rio Jacuí menor, mesmo significado de outro rio cunhense: o Jacuizinho. O rio Jacuí-Mirim nasce na Serra do Mar, a leste de Cunha, no bairro das Tamancas, próximo à divisa com o estado do Rio de Janeiro. De lá, segue por 23 Km, até desaguar, na parte central de nosso município, no rio Jacuí, no bairro do Rio Abaixo. Atravessa vários bairros rurais, batizando um deles. Sua bacia, assim como as outras, se encontra degradada, devido à ocupação do solo por pastagem, utilizada pela pecuária extensiva, atividade econômica da maioria das propriedades rurais da região. Parte de seu leito, nas cabeceiras, serve como limite distrital entre Cunha e Campos de Cunha. Seu vale serviu (no passado, como caminho natural) e ainda serve – parcialmente – como rota de acesso entre Cunha e Campos de Cunha, através da Estrada Vicinal Ignácio Bebiano dos Reis.

Mapa Hidrográfico do Município de Cunha (2025), versão preliminar, do Jacuhy.

Referências:
CASTRO COELHO, Helvécio V. Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá. Revista da ASBRAP (Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia), Belo Horizonte (MG), n. 8, p. 209-216, 2001.
MILAN, Pollianna. Português à força. Gazeta do Povo, 10 dez. 2010. Disponível em: < http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/portugues-a-forca-1467uqenkefjaq64x6t28fwpa/ >, acesso em: 27 jan. 2025.
NAVARRO, Eduardo de A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo: Global, 2013.
VELOSO, João J. de O. A História de Cunha: 1600-2010: A Freguesia do Facão, a rota de exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): JAC/Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.

Mapas:
Folhas Topográficas do IBGE, escala 1: 50.000, elaboradas pela Diretoria de Geociências:
– “Cunha” (MI-2771-1), 1974.
– “Campos de Cunha” (MI-2742-3), 1974.
– “Lagoinha” (MI-2770-2), 1973.
– “Guaratinguetá” (MI-2741-4), 1982.
– “Rio Mambucaba” (MI-2742-4), 1982.
– “Ubatuba” (MI-2770-4), 1981.
– “Picinguaba” (MI-2771-3), 1974.
“Mapa das bacias hidrográficas do município de Cunha” (200-), de Roberto Starzynski.
“Bacias e Divisões Hidrográficas do Brasil” (2021), do IBGE.

O rio

Rio Jacuí, antes de formar a cachoeira do Desterro.

Ser como o rio que deflui

Silencioso dentro da noite.

Não temer as trevas da noite.

Se há estrelas no céu, refleti-las

E se os céus se pejam de nuvens,

Como o rio as nuvens são água,

Refleti-las também sem mágoa

Nas profundidades tranqüilas.

Manuel Bandeira

1 de outubro de 1958 – Inauguração da Usina Hidrelétrica da Pimenta

Arte para a série “Hoje na História de Cunha”, da página Jacuhy, no Facebook.

Do carbureto à Usina do Encontro

A iluminação pública em Cunha, segundo o professor VELOSO (2010, pp. 439-440), remonta ao último quartel do século XIX, quando foi introduzida na cidade a iluminação por carbureto. Esse sistema, bastante arcaico, perdurou até o ano de 1922, quando um grupo de empreendedores locais criaram a Empresa Melhoramentos Cunhense e assinaram um contrato com a Prefeitura para criar no município uma pequena central hidrelétrica, aproveitando os inúmeros rios e ribeirões que irrigam o território cunhense.

O curso d’água escolhido foi o rio Jacuizinho, quando corta o bairro do Encontro, aproveitando uma queda d’água natural que lá existe. Era uma das mais próximas ao centro urbano. Assim, a cidade de Cunha passou a ser iluminada por eletricidade produzida por essa pequena hidrelétrica, cujas ruínas ainda podem encontradas no mesmo bairro e onde, em 1932, durante a Revolução Constitucionalista, os combates foram intensos e sangrentos, visando o controle do local.

Entretanto, essa eletricidade fornecida tinha força máxima de 60 volts, quando a demanda já era por 110 volts. A precariedade do serviço fornecido por essa Usina levou a população de Cunha a se revoltar. Por isso, a Prefeitura resolve cassar a outorga de funcionamento da mesma, que nessa época já estava nas mãos do senhor Francisco Sanini, empresário de Guaratinguetá (VELOSO, 2010, p. 441). A revolta dos cunhenses era tanta com a luz elétrica disponível, que até um mote popular corria entre os mais sarcásticos: “Usina do Chico Saninha, o preço é arto, mas a luz fraquinha”.

Luiz da Silva, o bairro do motor

Ao assumir o controle da Empresa Melhoramentos Cunhense, a Prefeitura encontrou os mesmos desafios da iniciativa privada: os transformadores ficavam sempre sobrecarregados. Para remediar essa situação, a Prefeitura de Cunha construiu, em novembro de 1950, uma pequena Usina Térmica no bairro Luiz da Silva, para complementar o fornecimento urbano de energia elétrica. Como essa usina gerava energia através de um motor a diesel, sob responsabilidade técnica do senhor João Luiz Pedro Schneider, ficou o bairro, posteriormente, conhecido pelos cunhenses como “Bairro do Motor”, alcunha que resistiu ao desaparecimento da Usina Térmica, prevalecendo até nossos dias.

Usina Hidrelétrica da Pimenta

Mesmo com as duas usinas em funcionamento, o fornecimento de energia elétrica continuava precário e incapaz de atender a demanda da zona urbana, que era minúscula na época, quiçá da zona rural, que era gigante, povoada e ainda permanecia no breu, quando não superado pelas lamparinas a querosene e pelas velas.

A Municipalidade passa a reclamar junto ao governador uma solução para o problema da iluminação pública, à medida que observavam outras cidades ganhando suas usinas hidrelétricas. Em 1957, o Departamento de Águas e Energia Elétrica do estado de São Paulo (DAEE) realiza estudos técnicos e consegue financiamento dos cofres públicos para a construção de uma usina hidrelétrica na Cachoeira do Pimenta, uma das maiores quedas d’água da região do Vale do Paraíba. A obra se arrasta durante todo o ano de 1958, não ficando pronta para o “Centenário de Cunha”, festança promovida pela Prefeitura, em 20 de abril de 1958, para celebrar os 100 anos de elevação de Cunha à categoria de cidade, ocorrida em 20 de abril de 1858. Mas em 3 de outubro de 1958 ocorreria a eleição para o governo estadual e Jânio Quadros, governador em exercício, estava em campanha para fazer seu sucessor, o senhor Carvalho Pinto. E o jornal O Estado de S. Paulo também. O teor e os adjetivos que recheiam matéria sobre a inauguração da “Usina Hidroeletrica de Cunha” não deixam dúvidas. Portanto, podemos afirmar que foi uma obra bastante eleitoreira.

Em 1º de outubro de 1958, Cunha recebe uma comitiva enviada por Jânio Quadros para inaugurar a Usina Hidrelétrica da Pimenta, composta pelos seguintes próceres: coronel Faria Lima, ministro da Viação, como representante de Jânio; ministro Souza Lima, engenheiro Antonio G. Borba e mais uma penca de políticos da região, que pegaram carona com a comitiva e vieram acompanhar “mais essa gigantesca obra administrativa do governador Janio Quadros”. Os cunhenses, liderados pelo seu prefeito Antonio Acácio Cursino e pelo juiz de direito desta Comarca Paulo de Campos Azevedo, rumam, a cavalo, ao encontro da comitiva motorizada, acompanhados por dezenas de outros cavaleiros, a fim de saudar e dar vivas aos enviados pelo mandatário do Palácio dos Campos Elísios. O dia festivo foi regado por almoço e discursos, em clima eleitoral. A estudante Marília Fernandes da Silva saudou o coronel Faria Lima em nome de todos os cunhenses e lhe entregou um buquê de flores. Cursino, o prefeito, e o Dr. Azevedo, o juiz, discursaram. De Cunha seguiu a comitiva até o bairro do Monjolo, onde oficialmente foi inaugurada a Usina e benzida pelo padre Rodolfo Ignácio Schebesta. Retorna a comitiva à cidade e, ao arrebol, com toda a urbe às escuras, liga a chave de funcionamento o coronel Faria Lima. As lâmpadas acendem. Desfilam civicamente pelas ruas os estudantes. Cunha está iluminada.

A Usina fora construída em concreto ciclópico ao custo de Cr$ 8.500.000,00 ao orçamento. Seu vertedouro possuía 1,8m, com queda aproveitável de 56m, com tubos de 63cm. O gerador era capaz de produzir 220 KVA de energia elétrica, capacidade que poderia ser ampliada. Também foi instalada uma linha de transmissão elétrica de 13.200 de voltagem, entre a Usina e a cidade de Cunha. A esperança era que toda essa força iluminasse não só a cidade, mas os bairros rurais. Apontou a reportagem do Estadão, em 2 de outubro de 1958, que os laticínios, agroindústrias que haviam surgido na zona rural município, poderiam se beneficiar dessa obra pública. Ledo engano.

Na década de 1970, a produção energética da Usina do Pimenta já estava superada e os políticos locais já estavam correndo atrás do Governo Estadual para resolver o problema. Em reportagem de 1.970, através de seu enviado especial, o Estadão noticiava: “energia elétrica é o grande problema de Cunha”. A demanda era 1.000 KWA, mas a Usina só produzia 250 KWA e dois motores a diesel, para amenizar a precariedade, produziam 150 KWA. A Prefeitura creditava à insuficiência enérgica o êxodo rural que vinha esvaziando o município, alegando que só com energia elétrica ofertada abundantemente conseguiria a cidade se industrializar. Sim, em 1970 Cunha ainda sonhava em ser uma cidade industrial! Por aí já dá para ver como a “ideologia do progresso”, do industrialismo paulista, que embebedava as metrópoles brasileiras e que pôs abaixo os nossos casarões coloniais, foi forte e iludia até as cidades mais pobres e pequenas.

Fato é que a reclamação, cobrança e pressão política da Prefeitura junto ao governo estadual deu certo. Em 4 de outubro de 1973, a Usina Hidrelétrica da Pimenta foi desativada para sempre, os dois motores auxiliares desligados e a cidade passou a ser atendida pela Companhia Energética de São Paulo (CESP), que fez uma gambiarra, emendando a linha de eletrificação rural da empresa Light, no bairro da Rocinha, até a cidade de Cunha (VELOSO, 2010, p. 442). Por isso, os apagões eram constantes na cidade e os problemas antigos persistiram. A situação só se normalizou após a construção da subestação no bairro do Facão.

É preciso salientar que a eletrificação dos bairros rurais de Cunha ainda levaria tempo. Começou no final da década de 1970, em poucos bairros, se arrastaria pelos anos 1980 e só terminaria na segunda metade da década de 1990, com o programa “Luz no Campo”, do Governo Federal. Por isso, muitos cunhenses como eu, crescemos tomando banho de bacia. Isso quando não estava frio…

Adutora do Pimenta

Apesar de ter sido projetada para geração de energia elétrica, com a crise de abastecimento hídrico que vivia cidade de Cunha na década 1960, o rio do Monjolo logo seria alvo de estudos técnicos no sentido de suprir a demanda urbana por água. Até então a população da sede urbana se saciava com as águas do córrego Luiz da Silva, que nasce nos fundos do bairro do Motor, na divisa com o bairro do Marmeleiro. Inacreditável, se olharmos para esse córrego hoje, se arrastando sujo e fétido entre casas e ruas da cidade… Um esgoto a céu aberto.

Em 1971, o Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) inicia os estudos hidrológicos no rio Jacuí, no bairro do Monjolo, a fim de verificar a possibilidade desse curso d’água servir como manancial para cidade de Cunha. O resultado é satisfatório. Além de apresentar vazão não inferior a 200 litros/segundo, o ponto de captação está a 74,4 metros mais alto que a Estação de Tratamento de Água do Alto do Cruzeiro (o “Filtro”), possibilitando que a água chegue à cidade por gravidade. Ademais, o ponto de captação já estava construído, bastava instalar os canos. Ainda assim, com meio caminho andado, a instalação desses canos será lenta e levará 3 anos, começando em 1973 e só terminando em dezembro de 1976 (VELOSO, 2010, pp. 435-437), no final do mandato do ex-prefeito José Elias Abdalla, o Zelão (“in memorian”). Foi uma correria danada da elite agrária de Cunha que, derrotada no pleito municipal de 1976, colocará seus funcionários e carros-de-boi para escalar os morros da Estrada Velha, do Cume, do Marmeleiro, da Lajinha, do Palmeira e do Monjolo com os pesados canos, tudo para impedir que o então prefeito eleito Osmar Felippe (“in memorian”) concluísse a obra, ficasse com o mérito da finalização e recebesse os dividendos eleitorais da façanha de trazer água para Cunha. Coisas da nossa política local…

Quando começou a operar como adutora, Pimenta já havia se aposentado como usina hidrelétrica.

Entre 1992 e 1996, a Prefeitura realizou a duplicação da rede de encanamento, uma vez que a quantidade de água captada e tratada já tinha ficado insuficiente para abastecer a cidade: saciar a sede dos cunhenses de lavar carros, ruas e calçadas. Cunha tem o maior consumo per capita domiciliar de água do Vale (não deixem a Sabesp saber). São consumidos 932,9 litros em média, por dia, para cada casa ou prédio conectado à rede de abastecimento de água (IBGE, 2017). Isso é mais que o dobro de cidades como São José dos Campos e Guaratinguetá, por exemplo.

Mirante Ambiental

A Cachoeira da Pimenta, por sua beleza e tamanho, sempre foi admirada. Entre 2002 e 2003, a Prefeitura de Cunha resolveu investir no local, reaproveitando a antiga casa de máquinas da Usina Hidrelétrica, que estava abandonada desde a década de 1970 e já se encontrava em ruínas. O objetivo era criar uma infraestrutura para receber os turistas que iam se banhar nas quedas da cachoeira. Assim, a antiga casa de máquinas se transformou em uma lanchonete (“Mirante Ambiental”) com fotos, informações e parte do maquinário utilizado para geração de energia à mostra.  Uma trilha foi aberta, partindo da lanchonete até à primeira queda, ponto de captação, em cuja subida é possível apreciar as belas quedas da Pimenta. Essa infraestrutura ainda funciona no bairro do Monjolo e a Cachoeira da Pimenta continua a ser um dos pontos turísticos mais visitados, sendo que em 2006, o terreno da Prefeitura, que cobre o entorno da cachoeira, foi transformado em parque municipal por lei local, o único que Cunha possui até agora.

Rio Jacuí

O rio do Monjolo, o rio Manso, assim como outros formadores do Jacuí (rio 100% cunhense), estão morrendo… Aos poucos, mas está. O desmatamento sem controle em suas áreas de nascentes, a supressão da mata ciliar, a ocupação de suas margens e lançamento de esgotos em seu leito: tudo isso preocupa e aponta a necessidade – urgente! – do poder público fazer alguma coisa no sentido de preservá-lo. Esse manancial é um tesouro, um patrimônio ambiental do município de Cunha, só que vem sendo arruinado diante dos olhos e da inépcia poder público municipal e dos organismos de fiscalização estadual e federal. Os moradores do lugar são unânimes: como diminuiu a água da Cachoeira da Pimenta! É preciso fazer mais do que sempre foi feito, pois o “de sempre” é muito pouco, quase nada. Cuidar do abastecimento de água não é só arrumar ou trocar um cano quando estoura ou fissura, mas garantir que as gerações futuras tenham acesso a ela: na mesma quantidade de hoje e com a mesma qualidade e potabilidade. É esperar demais?

Vídeos (Acervo de Lescar Ferreira Mendes):

Fontes:
CASTRO JUNIOR, C. de S e. Cunha em 1932. São Paulo: Empresa Gráfica da “Revista dos Tribunaes”, 1935.
FESTIVAMENTE inaugurada a Usina Hidreletrica de Cunha. O Estado de S. Paulo, 2 out. 1958, p. 21.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Pesquisa Nacional de Saneamento Básico – 2017. Rio de Janeiro: IBGE, 2017. Disponível em: < https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sp/cunha/pesquisa/30/84366?localidade1=355000&localidade2=351840 >. Acesso em: 18 set. 2021.
JUNIOR, S. Só energia dará impulso a Cunha. O Estado de S. Paulo, 25 out. 1970, p. 45.
PREFEITURA MUNICIPAL DA ESTÂNCIA CLIMÁTICA DE CUNHA. Livro de Leis Municipais. Tomo V. 2000-2010.
USINA Hidreletrica de Cunha. O Estado de S. Paulo, 18 jun. 1958, p. 16.
VELOSO, J. J. de O. A História de Cunha (1600-2010): Freguesia do Facão: A rota da exploração das minas e abastecimento das tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.