Bocaininha da Boa Esperança é um dos trezentos bairros rurais de Cunha. Localizado no extremo norte do município, dentro da área rural do distrito de Campos Novos, o lugar está a mais de 1.000m de altitude. Por um vale encaixado e estreito corre o rio Paraitinga, que banha o bairro, marcando a paisagem do lugar. O Paraitinga desce, engatinhando, as grimpas do Planalto da Bocaina e adentra o território cunhense nessa região. Diáfano ainda, porém menos volumoso e mais pedregoso. Daí o porquê de seu som, constante, integrar o cenário. A estradinha, que o margeia e se esgueira entre ele e as montanhas, vai para São José do Barreiro. O limite municipal é ali pertinho, um pouco mais arriba.
Rio Paraitinga, em um trecho encachoeirado, assim que adentra o território cunhense. Foto: Bota na Lama. Data: jun. 2018.
Tudo é planalto. As exíguas planícies de inundação e terraços fluviais (várzeas) constituem a exceção. Um pouco mais ao norte, há os Campos Naturais de Altitude. Paisagem agreste e lindíssima. Única em nossa região. Merece ser visitada.
Localização do bairro no mapa de 1945, de pousos da Folia do Divino, elaborado por Alceu Maynard Araújo.
Ipês, araucárias, braquiária, franjas de capoeira descendo as encostas. Montanhas mais pontiagudas e menos bojudas diferem o relevo de lá com o nosso de cá. É mar de morros ainda, mas com ondas e cristas. Ao sopé: o capim, a cana, a estrada, o bambuzal, a ponte, o mangueiro e o sítio ao centro. Disposição de elementos que apontam para a pecuária leiteira como atividade econômica principal. Mas já foi a agricultura. E já teve até tropeiro, como o Pedro Mineiro.
A caminho da Bocaininha. Foto: Cláudio Luiz de Mello
Aspecto do relevo no bairro da Bocaininha da Boa Esperança. Foto: Cláudio Luiz de Mello.
A caminho de São José do Barreiro. Estradas, estradinhas e araucárias. Foto: Erick Sobreiro.
Como todo bairro que se preze, a comunidade da Bocaininha também possui uma igreja, orago de Santa Luzia, uma escolinha (já fechada) e a vendinha. As casas são dispersas pelo vale. Em 2002, moravam no bairro 48 famílias. Hoje, bem menos. De acordo com o Censo 2022, do IBGE, no setor censitário em que está inserido o centro do bairro, havia 110 moradores.
Capela de Santa Luzia, no bairro da Bocaininha da Boa Esperança. Foto: Sandra Gomes. Data: 2023.
Dizem os mais antigos que habitavam a região, antes dos brancos chegarem, os indígenas “Piquira”. Esse povo originário se escondia naquele sertão, fugindo da colonização, que avançava continente adentro. Resistiam à catequização, à escravização imposta pelos portugueses. O bairro tem sua origem no início do século XIX, com a formação da Fazenda Bocaininha, propriedade da família Cardoso de Miranda, de São José do Barreiro. Outra fazenda da região, que deu nome ao bairro, foi a Fazenda Bocaininha. Na década de 1920, migram para a região famílias mineiras, trazendo consigo a pecuária leiteira.
Parte da Carta Topográfica do IGC, escala 1:10.000, mostrando a topografia e o núcleo do bairro. Fonte: Instituto Geográfico e Cartográfico de S. Paulo (IGC). Data: 1978.
O bairro está a 45 Km, a nordeste, da cidade de Cunha. E a 17 Km da vila de Campos de Cunha, sede do distrito. Isolado, Bocaininha é reduto da cultura caipira, autêntica manifestação da Paulistânia. A Folia de Reis é a tradição do lugar. Seus paramentos, dança, música, reza e almoço trazem mais vida à paisagem que a natureza, generosamente, caprichou.
Folia de Reis da Bocaina – Sr. Alfredo Virgulino. Arquivo: Museu Francisco Veloso. Data: década de 1990.
Na década de 1940, a fim de conhecer o Brasil e fazer uma nova regionalização do país, o recém-fundado IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) organizou diversas expedições por todos os rincões do território nacional. Nessas expedições coletavam dados, tiravam fotos, analisavam rochas e o relevo, confeccionavam mapas e croquis, entrevistavam pessoas e, assim, obtinham um panorama geral dos lugares por onde passavam. Em um período analógico, com comunicações limitadas e anterior a era do sensoriamento remoto, essas expedições eram o meio mais eficaz de obter informações geográficas de uma porção do território. Geralmente, contavam com geógrafos, geólogos, cientistas sociais e outros profissionais de áreas afins. Uma dessas expedições passou por Cunha. Foi realizada entre os dias 29 de outubro e 2 de novembro de 1943 e foi liderada pela professora Mariam Tiomno. Partiu de Guaratinguetá, passou por Cunha e Paraty e terminou em Angra dos Reis. O relatório foi publicado no Boletim Geográfico do IBGE, em 1944. Sobre o município de Cunha foi relatado o seguinte:
“As várzeas são aproveitadas para plantio do arroz e as encostas para mandioca. O arroz também se desenvolve nas encostas por ser úmida a região. Notam-se, ainda, culturas associadas de milho e feijão. Continuando a viagem, atinge-se a fazenda d do Sr. Jose Verresqui, onde se dá a confluência do rio Cedro com o Paraitinga numa várzea larga bem cultivada. O caminho segue depois o rio Sapê, que consta na carta como rio Facão. O vale é profundo e encaixado entre as colinas. Nas encostas dominam os pastos onde ocorrem, às vêzes, capões fechados. No vale há pequenas plantações de milho, feijão e arroz. Do alto vê-se bem a grande regularidade daquela superfície de erosão muito antiga.
Croqui da Estrada Cunha-Guaratinguetá, atual Rodovia Paulo Virgínio (SP – 171), no final dos anos 1940. Autor: Carlos Borges Schmidt. Fonte: Boletim Paulista de Geografia, 1950.
Em Teodoro Cassinho passa-se para a vertente do Jacui; o antigo nível de erosão é marcado pelos seixos bem rolados vistos na margem da estrada. A vegetação apresenta-se mais abundante e exuberante. O feto arborescente surge pela 1ª vez. Encontra-se a araucária em grande quantidade. É bem observada a derrubada de árvores para produção do carvão vegetal exportado para o Rio, na razão de 3.000 sacas por mês.
O hábito de preparar a terra em ‘mutirão’ ou ‘butirão’ é aí notado. Pelo vale do rio Facão, que a estrada acompanha desde Curralinho, atinge-se Cunha. O vale apresenta-se bastante aprofundado e os sucessivos ciclos de erosão são marcados em Curralinho por níveis de seixos rolados. Nas margens do rio cultiva-se o trigo para consumo local.
As maiores produções do município são o carvão de madeira e o milho.
A sua exportação é, entretanto, pequena por ser empregado na alimentação do gado, principalmente suíno. Cêrca de 40.000 cabeças são exportadas anualmente. Dos produtos agrícolas o mais exportado é o feijão, depois a batatinha.
A produção se escoa pela estrada de Guaratinguetá. Há um comércio muito rudimentar com Parati; Cunha envia-lhe feijão e toucinho e recebe em troca peixe e parati. Êsse intercâmbio não se pode desenvolver pela carência de estradas. Cessando o movimento das tropas de Minas e São Paulo para Parati, passando por Cunha, a estrada ficou completamente abandonada não restando atualmente quase nada da mesma.
Cunha, situada sôbre um pequeno esporão, numa altitude de 960 metros, possui cêrca de 250 casas, tôdas antigas, inclusive a Igreja, e uma população de 1.100 pessoas. Goza de um clima temperado e de um regime de chuvas de verão e sêca no inverno. As chuvas vão de novembro a janeiro e são frequentemente acompanhadas de trovoadas e de fortes ventanias. A geada é aí outro fator climático importante, os seus efeitos se fazem sentir até o mês de novembro, daí não plantarem café.
Rua Dr. Casemiro da Rocha, centro de Cunha. Foto: Mário de Sampaio Ferraz. Data: 1940.
De Cunha para Parati segue-se de início pela estrada de rodagem de Tabuão, antigo caminho das tropas melhorado durante a revolução de 1932. O caminho atravessa o morro do Apertado donde se divisam dois ciclos de erosão, um cortando as camadas e formando a peneplanície e outro constituído pelo vale. Entre êles há esporões intermediários, num dos quais situa-se a cidade de Cunha.
A vegetação se caracteriza por uma espécie de cerrado conhecido com o nome de ‘carrascal’.
Vêem-se plantações de feijão que abrangem grandes áreas, pequenas culturas de arroz e campos de pastagens com capim gordura.
No bairro de São José da Boa Vista, existe uma capela aonde, nos períodos de grande sêca, os moradores vão em romaria orar para que chova.
Adiante, atinge-se o morro do Divino Mestre, numa altitude de 1.500 metros, distingue-se num 1º plano a peneplanície dissecada muito confusa. Apresenta níveis intermediários, num dos quais se vê a cidade de Cunha. Nessa peneplanície de 900 a 1.000 metros de altitude há um tipo de rocha homogênea, gnaisse-granítico, que exerce ação determinante na disposição de rêde hidrográfica, em ‘pata de ganso’. (…)”
Além do ciclo econômico do carvão, pelo qual Cunha passou e é pouco lembrado, outras dados interessantes trazidos por esse relatório são: a importância que a suinocultura para Cunha; o cultivo de arroz nas áreas de várzea, atualmente, desaparecido; a existência de manchas de Cerrado em nosso município (“carrascá”, na linguagem popular), recentemente confirmadas por uma pesquisa sobre botânica; o casario colonial da cidade ainda intacto; a relação umbilical existente entre Cunha e Paraty, complementando-se; a péssima situação da Estrada Cunha-Paraty, grande gargalo para o desenvolvimento local.
O prefeito de Cunha na época (Antonio Accacio Cursino) pediu aos geógrafos que levassem a situação dessa estrada ao conhecimento dos políticos da capital, que era o Rio de Janeiro; e por fim, a mais importante observação dessa expedição, que mudou a interpretação geomorfológica sobre o Domínio dos Mares de Morros, pois ficou claro nessa expedição que esse tipo de relevo evolui e foi dissecado ao longo do tempo pelo forte processo erosivo ao qual é submetido devido às condições climáticas tropicais.
Estrada Cunha-Paraty, em seu trecho fluminense, sem calçamento. Acervo: Prefeitura Municipal de Paraty. Data: década de 1940.
O ciclo do carvão vegetal, que se encerrou no final da década de 1960, foi responsável pela devastação dos últimos remanescentes de Mata Atlântica original em nosso município. Também foi o responsável pelo desbravamento do então Sertão do Rio Paraibuna. Havia carvoarias e serrarias onde, atualmente, é a sede do núcleo de Cunha, do Parque Estadual, no bairro da Paraibuna. Esse ciclo só foi freado e encerrado com o advento do Código Florestal, em 1965, e posteriormente, com a criação do Parque Estadual da Serra do Mar, em 1977, que não só resguardou o que restou da Mata Atlântica em Cunha, como recuperou parte da área que foi devastada, com práticas eficazes de reflorestamento. Os grandes veículos de nosso estado, como a “Folha de São Paulo” e “O Estado de São Paulo”, também foram responsáveis pela feliz finalização desse ciclo em Cunha, pois realizaram nos anos de 1960 e 1970 diversas matérias denunciando a destruição da Mata Atlântica nos sertões do Vale do Paraíba, apontando o sertão do rio Paraibuna como uma área sob ataque da sanha devastadora das madeireiras e carvoarias.
Imagem de capa: montagem ilustrativa, com fotos retiradas de banco de imagens.
O pinhão é a semente da Araucária. Cada vez mais conhecido, o pinhão tem atraído consumidores por ser um alimento sem glúten, com baixo índice glicêmico e altos teores de proteínas, fibras alimentares e amido. A semente também é rica em minerais como cobre, zinco, manganês, ferro, magnésio, cálcio, fósforo, enxofre e sódio. São encontrados ainda os ácidos graxos linoleico (ômega 6) e oleico (ômega 9), que contribuem para a redução do colesterol do sangue, ajudando na prevenção de doenças cardiovasculares.
Recorte da Folha de S. Paulo, 29 abr. 2001, noticiando a 1ª Festa do Pinhão de Cunha. Fonte: Acervo Folha.
Em Cunha, o pinhão é um atrativo turístico. Desde 2001, a Prefeitura tem realizado anualmente a Festa do Pinhão, atualmente o evento turístico local mais concorrido. Comum na região Sul, no Sudeste ele é um produto diferenciado. Não é todo lugar que tem. As araucárias ocorrem naturalmente em São Paulo apenas nas zonas de maior altitude que são, consequentemente, as mais frias. Essa espécie se desenvolve melhor em altitudes superiores a 900 metros. Assim, os pinheiros enfeitam a paisagem somente nas áreas das serras do Mar, da Mantiqueira e da Bocaina. São exceções no ambiente tropical.
Há registros que Cunha já exportava pinhão no século XVIII. Nos livros de registro da extinta Barreira do Taboão, datados do século XIX, aparece entre os itens comercializados o pinhão. Há alguns anos, a Casa de Agricultura de Cunha fez um levantamento e comprovou que o nosso município é o maior produtor de pinhão do estado de São Paulo. Em 2021, por exemplo, a produção cunhense foi de 630 toneladas. Muitos municípios famosos realizam a sua “festa do pinhão” com o pinhão que saiu de… Cunha!
Mas as araucárias são nativas de Cunha ou foram plantadas? Artigos sobre a palinologia dos Campos da Bocaina têm mostrado que elas estão na região, pelo menos, desde o final do Pleistoceno, época do período Quaternário, da era Cenozoica, do éon Fanerozoico, que está compreendida entre 2,588 milhões e 11,7 mil anos atrás, abrangendo o chamado Quaternário, caracterizada por glaciações repetidas. Ou seja, é impossível essa espécie ocorrer em Cunha por causa da intervenção humana sobre o meio, seja considerando as mãos indígenas (Puris) ou tropeiras, como já foi equivocadamente sugerido.
O Grimpeiro se destaca pela cauda alongada e por apresentar faixas negras na cabeça. Foto: Luciano Lima.
Para o biólogo Luciano Lima, que reside em Cunha, “tem uma outra coisa bem interessante que não deixa dúvidas sobre a araucária ser nativa de Cunha, a ocorrência do pássaro Grimpeiro por aqui. É uma ave com capacidade de dispersão bem limitada e que, literalmente, só vive onde tem araucária. A espécie é bem comum nas partes mais altas do município, por toda estrada do Paraibuna você a encontra”. Também conhecido como “rabo-de-espinho-da-araucária”, o Grimpeiro (Leptasthenura setaria), é uma espécie totalmente associada ao pinheiro-do-paraná.
Na verdade, a presença das araucárias no município de Cunha está associada à “Teoria dos Refúgios Florestais”, para a qual o geógrafo paulista Ab’Sáber trouxe significativas contribuições. O geógrafo sugeriu que, durante os períodos de grandes mudanças climáticas (como as glaciações do Quaternário), certas áreas funcionaram como “redutos” ecológicos, ou seja, refúgios naturais onde espécies de vegetação conseguiram sobreviver mesmo quando o clima geral se tornava desfavorável. Fazendo um recorte geográfico para o estado de São Paulo, supõem-se que, no passado, os cerrados teriam predominado sobre as áreas de matas. Nas depressões estariam as caatingas. As matas ficaram restritas aos refúgios localizados no topo das serras, que eram mais úmidos e nos “brejos” (ilhas de umidade e paisagens enclaves). Os refúgios da Serra do Mar eram faixas descontínuas junto às partes superiores das altas vertentes mais úmidas. As partes planálticas mais altas, que eram mais frias e secas, teriam facilitado a expansão das araucárias para o norte do que é hoje o Brasil, porém, mediante formações em faixas alongadas, seguindo os espigões e serranias, dotados de topos subúmidos e úmidos.
Mapa da “Cobertura Vegetal Primitiva do Estado de S. Paulo”, proposta pelo biogeógrafo Troppmair (1969). Nota-se mancha de vegetação de araucárias onde hoje seria Cunha. Cartografia: Marcelo Martinelli. Fonte: Revista Confins. Data: 2010.
A Serra do Mar, com sua altitude elevada e clima úmido e mais fresco, teria funcionado como um desses redutos durante os períodos mais secos e frios. As araucárias, que são adaptadas ao frio, encontraram nela um ambiente propício para sobreviver. Esses redutos preservaram fragmentos de vegetação original (como floresta tropical, cerrado ou caatinga), serviram como fontes de recolonização quando o clima voltou a ser mais favorável e explicam a presença de espécies isoladas em locais inesperados, como araucárias em áreas de clima tropical (de altitude), como Cunha.
Mesmo após o fim das glaciações, algumas populações de araucária permaneceram nesses refúgios, criando núcleos isolados em meio à Mata Atlântica. Isso explica por que vemos araucárias em locais como Cunha ou Campos do Jordão, fora do núcleo tradicional do sul do Brasil, de clima subtropical. A presença dessas árvores é considerada um relicto paleoclimático, uma espécie que sobreviveu às mudanças climáticas passadas e carrega a memória ecológica de outro tempo. Por isso, a paisagem que temos hoje em Cunha, para usar uma afirmação tão cara ao Ab’Sáber, é uma herança da natureza, de períodos geológicos que remetem há milhares e milhões de anos; já encerrados, mas que deixaram vestígios que ajudam a contar a história ambiental do lugar.
Aspecto do bairro rural da Aparição, em Cunha, dominado por sítios, morros e araucárias. Foto: Moara Imóveis. Data: 2024.
A Araucaria angustifólia enfrenta risco extremo de extinção. Com ciclo de vida lento e dependente de polinização pelo vento e dispersão por poucas espécies, como a gralha-azul, sua reprodução é naturalmente limitada. A intensa exploração madeireira, o desrespeito à legislação ambiental e a fragmentação de seu habitat agravaram sua situação. A fragmentação dos remanescentes florestais do ecossistema Mata das Araucárias provoca a erosão genética, reduzindo a variabilidade e aumentando a endogamia (o cruzamento entre indivíduos aparentados). Como consequência, a espécie perde capacidade de adaptação às mudanças climáticas em curso, às doenças e aos impactos humanos. Atualmente, a araucária já perdeu mais de 97% de sua área original e passou a integrar, desde 2011, a triste Lista Vermelha das espécies em extinção categorizada como “criticamente em perigo”. O pinheiro brasileiro carrega uma biodiversidade invisível, codificada em seu DNA, cuja perda é irreversível. Preservá-lo é proteger não apenas uma árvore, mas um patrimônio genético essencial à resiliência dos ecossistemas da Mata Atlântica.
As araucárias fazem parte da paisagem rural cunhense. Aspecto do bairro da Barra do J. Alves. Foto: Jacuhy. Data: 2017.
Dada a importância ambiental, cultural, paisagística e econômica das Araucárias, não resta outro caminho para Cunha a não ser preservar essa espécie. Ações nesse sentido devem ser criadas, promovidas e financiadas por todos os entes administrativos. Como já preconizou, inclusive, nosso Plano Diretor. Deve, ainda, ser tema obrigatório dentro da educação ambiental das redes de ensino públicas e privada. Só assim, a longo prazo, teremos pinhão para comer e vender; e as belíssimas araucárias verdejando pelos morros de Cunha.
Rio Paraibuna, no Parque Estadual da Serra do Mar. Foto: Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística. Data: 2019.
O município de Cunha é banhado por 12 rios. São eles: Paraibuna, Bonito, Paraitinga, Peixe, Jacuí, Jacuizinho, Jacuí-Mirim, Monjolo, Rio Manso, Taboão, Guaripu, Mambucaba. Estes podem ser agrupados, de uma forma sintética, em 3 bacias hidrográficas principais: Paraitinga e Paraibuna, inseridas na Microrregião Hidrográfica Alto Paraíba do Sul, são formadoras do rio Paraíba do Sul; e Mambucaba, que converge diretamente para o oceano Atlântico, tendo sua foz na vila histórica de Mambucaba, em Angra dos Reis (RJ), na Microrregião Hidrográfica da Baía da Ilha Grande. Todos os nossos rios estão inseridos na Macrorregião Hidrográfica do Atlântico Sudeste.
Mapa das Bacias Hidrográficas do Município de Cunha, elaborado por Roberto Starzynski.
Quanto à toponímia, muitos nomes de rios, ribeirões e córregos de Cunha vêm do tupi antigo, a língua indígena clássica do Brasil, a velha língua brasílica dos primeiros dois séculos do período colonial, período em que o nosso município começou a ser ocupado pelos colonizadores. Por ser algo tão pretérito, o significado original se perdeu na memória, foi esquecido com o tempo… Ou, em uma perspectiva mais histórica, fizeram-nos esquecer, porque a língua portuguesa, segundo os pesquisadores, nos foi imposta pela metrópole lusitana.
O município de Cunha é conhecido como “berço das águas”, o que evidencia a sua relevância hidrográfica para a região, porque nele está localizada a nascente do rio Paraibuna e vira um rio, de fato, o Paraitinga, ambos formadores do rio Paraíba do Sul. Este rio que flui, estrategicamente, entre as duas maiores regiões metropolitanas do Brasil, recortando a industrializada região do Vale do Paraíba.
Entretanto, a rede hidrográfica cunhense apresenta inúmeros problemas. A poluição, o assoreamento, a degradação das nascentes, a supressão de mata ciliar são ameaças às nossas águas e maculam o epíteto recebido por nosso município, condenando esse leito a secar, se nada for feito. Nossos rios precisam receber tratamento à altura da sua relevância, tanto pela população local pelos entes federativos.
Voltemos, então, à toponímia fluvial, contribuição do tupi à geografia local:
Paraitinga:
De pará + aíb/a + ting + -a, que significa: rio ruim e claro. O “ruim”, no caso, era uma designação dada aos rios que não eram navegáveis ou que possuíam poucos peixes. O rio Paraitinga nasce na Serra da Bocaina, no município de Areias, e adentra nosso município em sua parte norte. Serve como limite natural de Cunha com Areias, Silveiras, Lorena e Lagoinha. Após percorrer 87 Km em terras cunhenses, adentra, na porção oeste do nosso território, no município de Lagoinha. É o maior dos nossos rios e também a maior bacia hidrográfica (509,8 Km²), batizando uma gama de bairros rurais cunhenses com o seu nome. Tem o de Baixo, o de Cima, o dos Verreschi, o dos Gonçalves, o dos Mota, o dos Cubas, famílias originais desses arraiais. Já foi, no passado, o limite entre Cunha e Guaratinguetá. Sua planície (a mais extensa do contexto cunhense) favoreceu, antigamente, a rizicultura, e, atualmente, a pecuária leiteira.
Paraibuna:
De pará + aíb/a + un (r, s) + -a, que significa: rio ruim e escuro. O “escuro”, no caso, é uma referência à coloração de suas águas, resultado da decomposição de matéria orgânica em suas margens, que corta densa Mata Atlântica em boa parte do seu curso, atravessando o Parque Estadual da Serra do Mar. O rio Paraibuna nasce na Serra do Mar, a sudeste de Cunha, no Alto da Fruta Branca, próximo à divisa com o estado do Rio de Janeiro. Após percorrer 48 Km em terras cunhenses, adentra, na porção sul, o município de São Luiz do Paraitinga. Apesar de sua área de nascente estar degradada e ocupada por casas de veraneio, pousadas e sítios com pecuária extensiva, parte considerável de seu curso se encontra dentro de uma unidade de conservação de proteção integral, o que o mantém preservado, se comparado aos demais rios cunhenses. Sua vocação socioeconômica, ainda pouco explorada, é o ecoturismo. É afirmado, habitualmente, que sua nascente fica no bairro da Aparição; contesto tal informação, pelo fato do ribeirão do Sertão e o córrego da Vargem Grande, seus afluentes, possuírem segmento fluvial mais extenso que o ribeirão da Aparição. Aliás, situação que até o Google Maps já percebeu. Com 236,8 Km², é a terceira maior bacia hidrográfica cunhense.
Jacuí:
De îaku (aves cracídeas) + ‘y, que significa: rio dos jacus. É o maior rio totalmente cunhense. Sua bacia hidrográfica ocupa a parte central do nosso município, sendo a segunda maior em extensão, com 480,1 Km². O rio Jacuí nasce na Serra do Mar, a sudeste de Cunha, no bairro do Mato Limpo, próximo à divisa com o Rio de Janeiro. Após percorrer 64 Km dentro do nosso território, deságua, a oeste, no rio Paraitinga, no limite com o município de Lagoinha, no bairro do Pinheiro. Suas águas abastecem a cidade de Cunha, através da captação na Adutora da Pimenta. No passado (entre as décadas de 1950 e 1970), juntamente com a captação de água, funcionou no local uma pequena central hidrelétrica, que fornecia energia para a cidade de Cunha. As ruínas dessas instalações ainda estão por lá. Suas águas formam duas famosas cachoeiras: da Pimenta e do Desterro. Mesmo possuindo tamanha importância turística e para o saneamento básico, sua situação é bastante preocupante. Sua bacia está toda degradada, devido à agropecuária extensiva e rudimentar. Seu leito está solapado; seu curso, assoreado; a mata ciliar, suprimida. Para agravar essa situação, o esgoto domiciliar da cidade de Cunha, hoje uma urbe com mais de 10 mil habitantes, é despejado no Jacuí, via córrego do Rodeio, seu afluente, sem nenhum tratamento. Obviamente, que todas essas situações comprometem a fauna fluvial, além de prejudicar sobremodo a qualidade de sua água. Além da importância ambiental, o Jacuí possui relevância histórica. Em 1650, o capitão Domingos Velho Cabral obteve uma sesmaria, a mais antiga que se tem notícia em Cunha, principiando do ribeiro do “Jacoímiri”, na Borda do Campo, com uma légua de testada e meia légua para cada lado, para o caminho antigo que ia para Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá. Foi o nome do primeiro jornal de Cunha (“O Jacuhy”), que circulou na década de 1860. Por todas essas razões, batizou este blog.
Jacu, a penelope, gênero de aves craciformes que marcou a toponímia hidrográfica cunhense. Foto: Adriano Ferreira. Data: 2019.
Itaim:
De itá + ĩ, que significa: pedrinhas. Mais conhecido como “rio da Catioca”, por atravessar esse histórico bairro cunhense, o Itaim é considerado um ribeirão pelo IBGE, nossa referência. Está bastante degradado, por ter servido, desde o século XVIII, pois seu vale serviu como vetor de povoamento e ocupação do município de Cunha. Os bairros mais antigos de Cunha e as famílias pioneiras viveram nessa bacia hidrográfica, recortada pelo caminho que interligava o porto de Paraty à então Vila de Taubaté, centro irradiador de povoamento regional. Essa peculiaridade histórica marcou sua paisagem, seja pela erosão ou a presença de várias e antigas fazendas, em estilo colonial. O ribeirão Itaim nasce na Serra do Alto do Diamante, a sudoeste de Cunha, acima do bairro do Sertão dos Marianos. Após percorrer 30 Km dentro do nosso território, deságua, a oeste, no rio Paraitinga, no bairro do Itaim, no limite com o município de Lagoinha. Com cerca de 129 Km², é a segunda menor bacia hidrográfica de Cunha. Na classificação hidrográfica de Cunha, realizada no início deste século por Roberto Starzynski, pesquisador do Instituto Florestal do Estado de São Paulo, não é considerada uma bacia, estando incorporada à bacia do Paraitinga.
Guaripu:
De gûariba + pu, que significa: barulho dos bugios (guaribas). Os bugios são símios da família dos cebídeos, que costumam emitir sons altos, daí a razão do nome do rio. O rio está bem preservado e limpo, pois localiza-se dentro do Parque Nacional da Serra da Bocaina, unidade de conservação integral. No passado, às suas margens, havia um antigo caminho de tropas, que foi parcialmente calçado, que ligava Lorena, passando por Campos Novos, ao porto de Mambucaba. Historiadores afirmam que esse calçamento foi feito por escravizados africanos, durante o Ciclo do Café no Vale do Paraíba. Sua potencialidade ecoturística, quase inexplorada, é enorme. Havia, em 1854, uma barreira fiscal da Província de S. Paulo no Ribeirão da Serra, que servia para manter transitável a estrada para o porto de Mambucaba, que partia da Grota Grande, no sertão de Mambucaba, até encontrar o rio “Guarahipu”. Atualmente, o seu curso é mais usado como acesso pela população do entorno para atingir o parque, exercendo pressão sobre os recursos naturais ameaçados que lá estão, que a unidade de conservação visa preservar. O rio do Guaripu nasce na Serra do Mar, a nordeste de Cunha, próximo ao bairro da Serra do Indaiá. Após percorrer 18 Km, servindo de divisa interestadual entre São Paulo e Rio de Janeiro, deságua, a nordeste, no rio Mambucaba, entre os municípios de Cunha (SP), Paraty (RJ) e Angra dos Reis (RJ).
Mambucaba:
De mumbuka + -ba [alamorfe de -sab(a)], que significa: lugar das abelhas (meliponídeas, que são as nativas e não têm ferrão). Junto com o rio do Guaripu, forma a nossa menor bacia hidrográfica (51,5 Km²) e a única que não converge para o rio Paraíba do Sul. O rio Mambucaba nasce na Serra da Bocaina, no município de Arapeí (SP). Limita Cunha, a nordeste, com os municípios de São José do Barreiro (SP) e Angra dos Reis (RJ), por 3,7 Km. Com cotas altimétricas inferiores a 680 metros, é o ponto mais baixo de Cunha. É, com certeza, o mais inóspito. De difícil acesso, na área ainda primitiva do Parque Nacional da Serra da Bocaina, o lugar está coberto pela exuberância da Mata Atlântica, ainda intacta, escondendo belíssimas e estrondosas cachoeiras.
Jacuí-Mirim:
De îaku (aves cracídeas) + ‘y + mirĩ, que significa: riozinho dos jacus, ou, por extensão, um rio Jacuí menor, mesmo significado de outro rio cunhense: o Jacuizinho. O rio Jacuí-Mirim nasce na Serra do Mar, a leste de Cunha, no bairro das Tamancas, próximo à divisa com o estado do Rio de Janeiro. De lá, segue por 23 Km, até desaguar, na parte central de nosso município, no rio Jacuí, no bairro do Rio Abaixo. Atravessa vários bairros rurais, batizando um deles. Sua bacia, assim como as outras, se encontra degradada, devido à ocupação do solo por pastagem, utilizada pela pecuária extensiva, atividade econômica da maioria das propriedades rurais da região. Parte de seu leito, nas cabeceiras, serve como limite distrital entre Cunha e Campos de Cunha. Seu vale serviu (no passado, como caminho natural) e ainda serve – parcialmente – como rota de acesso entre Cunha e Campos de Cunha, através da Estrada Vicinal Ignácio Bebiano dos Reis.
Mapa Hidrográfico do Município de Cunha (2025), versão preliminar, do Jacuhy.
Referências: CASTRO COELHO, Helvécio V. Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá. Revista da ASBRAP (Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia), Belo Horizonte (MG), n. 8, p. 209-216, 2001. MILAN, Pollianna. Português à força. Gazeta do Povo, 10 dez. 2010. Disponível em: < http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/portugues-a-forca-1467uqenkefjaq64x6t28fwpa/ >, acesso em: 27 jan. 2025. NAVARRO, Eduardo de A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo: Global, 2013. VELOSO, João J. de O. A História de Cunha: 1600-2010: A Freguesia do Facão, a rota de exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): JAC/Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.
Mapas: Folhas Topográficas do IBGE, escala 1: 50.000, elaboradas pela Diretoria de Geociências: – “Cunha” (MI-2771-1), 1974. – “Campos de Cunha” (MI-2742-3), 1974. – “Lagoinha” (MI-2770-2), 1973. – “Guaratinguetá” (MI-2741-4), 1982. – “Rio Mambucaba” (MI-2742-4), 1982. – “Ubatuba” (MI-2770-4), 1981. – “Picinguaba” (MI-2771-3), 1974. “Mapa das bacias hidrográficas do município de Cunha” (200-), de Roberto Starzynski. “Bacias e Divisões Hidrográficas do Brasil” (2021), do IBGE.
Imagem de satélite da tríplice fronteira: Cunha, Guaratinguetá, Lagoinha, no bairro do Rio do Peixe. Fonte: Google Earth.
O bairro
A palavra “bairro” vem sendo usada desde o século X. Sua origem etimológica é controversa, provavelmente ibérica. Dizem que vem do árabe “bárri” (isto é, “exterior”) e este do árabe clássico بري (barrī), que significa “selvagem”. Segundo o Houaiss, é a “porção de território povoado nas cercanias de uma cidade; povoado, arraial, distrito”. Para a geografia, trata-se de “organizações rurais dispersas, estruturadas por grupos de vizinhança, e marcadas por uma consciência coletiva de pertencimento, emanada na convivência diária do homem do campo com seus parentes, vizinhos e parceiros”.
Localização do bairro, a extremo noroeste do município de Cunha. Cartografia: Jacuhy.
O Rio do Peixe é um bairro rural, um entre tantos do Vale do Paraíba paulista – exceto por uma característica – estar localizado entre três municípios: Cunha, Guaratinguetá e Lagoinha. Os moradores, por uma questão de proximidade, se identificam como lagoinhenses. A parte cunhense está no extremo noroeste do nosso município, longe da sede, portanto.
Capela de Santa Luzia do Rio do Peixe, localizada no município de Cunha, é o centro religioso da comunidade rural. Foto: Google Street View.
Os moradores expressam sua devoção na capelinha de Santa Luzia, padroeira do bairro, que é atendida pelos padres de Lagoinha. O predomínio da pecuária leiteira hoje é incontestável. Pastos e mais pastos, com manchas de eucalipto. No começo do século XX, a produção do bairro era escoada por tropas, sendo levada até o Rancho da Pedreira, para ser comercializada em Guaratinguetá. A lavoura de milho e feijão, associada à suinocultura e outras feituras caipiras, eram o sustento das famílias, sítios e fazendas. A vida girava em torno de um calendário agrícola, a exemplo de outros bairros de Cunha e região. Mas as transformações vivenciadas ao longo do século XX impulsionaram a pecuária, sobretudo a leiteira. A chegada dos mineiros, o êxodo rural, o aposento das tropas, a inviabilidade econômica das lavouras em uma ecologia dominada por montanhas íngremes… O Rio do Peixe se adequou às imposições econômicas.
Em direção a Cunha, pela SP-153. Vista do Rio do Peixe. Foto: Google Street View.
Atualmente, o bairro é atravessado por uma estrada asfaltada, um luxo que chegou tarde (no final do século XX). A rodovia João Martins Corrêa (SP-153) liga a cidade de Lagoinha ao bairro da Rocinha, em Guaratinguetá, conectando-se à rodovia Paulo Virgínio (SP-171). Isso abriu um leque de oportunidades econômicas para o bairro, não só com a valorização dos imóveis rurais, mas também com o turismo rural. Casas de veraneio e acomodações alugáveis foram erguidas.
O rio
Trajeto do rio do Peixe, da nascente à foz. Fonte: Carta Topográfica do IBGE.
O rio do Peixe, curso d’água, é um dos muitos afluentes do rio Paraitinga. Nasce na serra da Embira, que é uma das variações toponímicas da serra do Quebra-Cangalha, no bairro do Córrego da Onça, município de Lagoinha. A nascente, assim como o bairro, também se situa em tríplice fronteira: Lagoinha, Guaratinguetá, Aparecida. A altitude supera até os 1.500m. Uma das nascentes, inclusive, é perto do topo do pico da Embira, que com seus 1.541m de altitude, é o ponto culminante da Quebra-Cangalha e do município de Lagoinha.
De lá, o rio do Peixe marcha para o oeste, encachoeirando-se serra abaixo, até alcançar o bairro da Santa Rita. Rumando na mesma direção, alcança o pequeno vale encaixado que batizou. Daí em diante, seu curso natural serve de limite entre Cunha e Guaratinguetá, desenhando nosso território até a altura do bairro Retiro das Palmeiras, de onde, convertendo-se para o sul, vai desaguar no Paraitinga, no bairro do Jaguarão.
O rio do Peixe, em trecho encachoeirado no município de Lagoinha. Foto: Danilo de Paula. Data: 2022.
Esses vales, como o rio do Peixe, embora modestos, são, no contexto do Domínio Morfoclimático dos Mares de Morros, vias naturais de comunicação e ocupação, favorecendo o assentamento humano. Foram, desde tempos imemoriais, preferidos por indígenas, bandeirantes, tropeiros e sesmeiros. Ao se constituir as fazendas, núcleos originários de muitos bairros rurais, procuravam sempre instalar-se nessas planuras exíguas, nessas baixadas que permitiam explorar a motricidade hídrica, tão útil outrora e ainda agora. Por isso, quase todo sítio de bairro rural cunhense localiza-se nessas acanhadas planícies fluviais.
As linhas
Desse modo, muitas vezes, os limites de determinado bairro se confundem com os limites fisiográficos da paisagem, porque o bairro “é um lugar, uma área qualquer, com características mais ou menos próprias”, podendo ser “um vale, uma cabeceira ou nascente de algum ribeirão, uma praia (…) É o povo que lhe dá o nome e determina, com limites mais ou menos imprecisos, a área abrangida pelo mesmo”. Mas, dificilmente, os bairros se confundem com os limites intermunicipais.
Vídeo com imagens aéreas do Rio do Peixe, nas proximidades da tríplice fronteira, feito pelo canal Guará Vídeo Drone, em 2023.
Os limites políticos e territoriais estabelecidos pelo Estado pouco importam. São formalidades cartoriais. O cotidiano é regido pelas relações humanas, pelo dinamismo econômico, pela solidariedade vicinal e por heranças culturais e históricas, que remontam às primeiras famílias que ali se estabeleceram. Estar em uma tríplice fronteira não se sobrepõe a fatos sociais de maior envergadura. Antes de serem desse ou daquele município, os moradores se identificam e se sentem pertencentes ao bairro do Rio do Peixe.
Antiga escola rural do bairro do Rio do Peixe, em ruínas, em meio à braquiária. Símbolo do êxodo rural. Foto: Google Street View.
O torrão precede o território, tal como o lar precede o Estado-Nação. Um bairro rural se sustenta por laços que linhas imaginárias jamais poderão confundir.
Referências: Bairro rural-bairro urbano: um revisão conceitual, artigo de Bruno Maia Halley, publicado na GEOUSP – Espaço e Tempo, em 2014. Cartas topográficas “Lagoinha” e “Guaratinguetá”, do IBGE, com primeira edição em 1973. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, publicado em 2001. Google Earth e Google Street View, de onde foram tiradas as imagens e usados como fontes de consulta. Negro Político, Político Negro – A Vida do Doutor Alfredo Casemiro da Rocha, de Oracy Nogueira, 1992.
Rodovia Vice-prefeito Salvador Pacetti (SP-171), quando atravessa o bairro do Taboão. Foto: site Viagens e Caminhos. Data: 2010.
Antes mesmo de Cunha ser Cunha, os caminhos já faziam parte da história deste lugar. A antiga trilha dos Guaianases, o “caminho do Facão”, foi um dos primeiros pontos de entrada para o sertão. Um peabiru que foi amplamente utilizado pelos colonizadores. Aliás, é bem provável que o nosso antigo topônimo “Facan/Facão” seja em razão da condição desse antigo caminho, que vencia a Serra do Mar, mas era dos mais perigosos e precários.
Dizem os antigos cronistas e aventureiros que os Guaianases, primeiros a pisar neste chão, estavam sediados na Ilha Grande. Quando chegava o verão, migravam do litoral rumo ao sertão, embrenhando-se na mata, que, de tanto ser varada, acabou virando a trilha desse povo originário.
Em distância absoluta, a cidade mais próxima de Cunha é Lagoinha (vide Mapa Concêntrico de Cunha abaixo). Dista 23,6 Km. No passado, já chegou a ser distrito de Cunha. Mas somente agora estão a asfaltar a ligação entre elas, via bairro do Jaguarão. A segunda cidade mais próxima, Paraty (RJ), a 30 Km, só foi conectada decentemente a Cunha em 2016, depois de mais um século de reivindicação para o seu calçamento.
É muito pouco para uma cidade que surgiu, justamente, em função dos caminhos.
Está sob a ponte aérea Rio – São Paulo, principal fluxo aeroviário brasileiro. Movimento bem perceptível à noite, com pontos luminosos transitando no céu no sentido Leste-Oeste.
Está conectada por menos de 50 Km, via SP-171, à BR-116, principal rodovia do Brasil.
Mapa Concêntrico em Cunha (SP), apresentando algumas cidades selecionadas como referência. A equidistância entre os círculos em destaque é de 50 Km. O objetivo é mostrar a posição de Cunha entre os dois maiores conglomerados urbanos do Brasil. Além da distância entre as cidades, foram respeitadas as angulações azimutais.Data: 2022. Cartografia: Jacuhy.
Portanto, percebe-se que Cunha não está mal localizada – como sugerem certas pessoas ao tentar justificar o subdesenvolvimento municipal –, já que seu sítio urbano fica entre as duas maiores metrópoles do país; mas é mal servida pela rede rodoviária, modal de transporte predominante no Brasil. E o problema nem é a densidade dessa rede, porque só de estradas rurais o seu território é cortado por mais de 2 mil quilômetros, e, sim, a condição dessas vias. Trata-se de estradas vicinais de terra batida, com manutenção esporádica, inapropriadas ao tráfego nos dias chuvosos.
Até 2016, quando a Estrada Parque Comendador Antonio Conti (RJ-165) foi concluída, a única ligação asfaltada que o município possuía com outro lugar era com Guaratinguetá, pela Rodovia Paulo Virgínio (SP-171), inaugurada em 1967 até a cidade de Cunha. O trecho até a divisa com o estado do Rio de Janeiro foi concluído em 1984.
Sem estradas transitáveis, não há turismo nem escoamento da produção agrícola.
Cidade com clima de montanha, porém bem perto do litoral. Localização privilegiada, isso sim. Só que sem estradas, é mais uma das “cidades mortas” do velho Vale, a espera de uma via transitável que possa ressuscitá-la.
Arte feita para a série #HojeNaHistóriaDeCunha, da página Jacuhy, no Facebook.
Foram os antigos caminhos que cortavam a região a causa do povoamento. Havia o “Caminho das Boiadas” ou “Estrada da Bocaina”. Surgiu para não destruir o Caminho do Ouro oficial, pela Serra do Facão, pois o gado, em seu transitar, vai socavando com suas patas e destruindo a estrada. Assim, o gado era tocado por outro caminho. O Caminho das Boiadas saía de Guaratinguetá ou Lorena, passava pelos campos da Bocaina e alcançava o porto de Mambucaba ou Angra dos Reis, dependendo do rumo que tomava. Posteriormente (séc. XIX), esse caminho seria utilizado e calçado para o transporte do café. Mais que uma conexão entre o planalto e o litoral, foram esses caminhos vetores de ocupação e colonização.
No final do século XVIII, algumas famílias paulistas e fluminenses conseguiram sesmarias no vale do Paraitinga e nos contrafortes da Bocaina. Eram os Fialho, os Galvão dos Santos (Carmo), os Gomes Siqueira, os Ayres dos Reis, os Vaz da Silva, os França Mota, os Rodrigues da Silva, os Mariano Rodrigues, os Santos Pinto, os Pinto dos Santos, os Pinto Leite, os Cardoso de Miranda, os Marques, os Galvão Freire, os Almeida, os Pereira, os Moraes, os Lopes dos Santos, os Siqueira França, os Albano da Silva, os Müller etc. Terra boa, ainda ínvia. Vão povoando e abrindo passagem. De vez em quando ainda viam, esses pioneiros, os Puris cortando, apressadamente, aquelas florestas intactas. Caminhos foram se abrindo, novas famílias chegando e desmatando. A mata caía onde novos sítios eram erguidos. Por volta de 1.820 já se registra 400 almas, entre brancos e escravos. Denominava-se “Bocaina”, apenas. Em 1.859, Manoel Lopes dos Santos (D’Assunção) edifica a primeira capela da redondeza, orago de Nossa Senhora dos Remédios. Por esse tempo, ganha notoriedade a Fazenda da Serra, no bairro da Guabiroba. Era propriedade de Maria do Carmo dos Santos, viúva do Alferes José Gomes dos Santos Pinto e casada em segundas núpcias com Luiz Pereira Paes de Almeida. Latifundiária e rica, bancou boa parte da edificação da capela. Como centro religioso da redondeza, em torno da capela brota um povoado: Campos Novos. Povoado é um termo que significava à época “pequeno aglomerado rural ou urbano, sem autonomia administrativa; lugar ou sítio no qual já se formou uma pequena população ou um pequeno núcleo de habitantes.” (SEADE, 1995).
Croqui da vila de Campos de Cunha, distrito do município de Cunha. Atentar para o diminuto arruamento. Fonte: Instituto Geográfico e Cartográfico do Estado de São Paulo (IGC). Data: maio de 1940.
Vivia a região um enorme crescimento econômico proporcionado pela riqueza do café, que ia modificando a paisagem. Respingo da pujança econômica do médio Vale do Paraíba no planalto. “Campos”, devido aos campos de altitude da Serra da Bocaina, e “Novos”, porque a ocupação do Distrito era mais recente do que o restante do município. Campos Novos vingou à margem de um (Lorena – Mambucaba) das dezenas de caminhos que conectavam o vale produtor aos portos de exportação. Por isso, pulsou no ritmo regional: viveu o apogeu e a decadência da cafeicultura valeparaibana. Depois veio a fonte de água mineral (na década de 1910), depois a pecuária leiteira (década de 1940) … O turismo ainda é uma promessa, pois o potencial de Campos de Cunha é grande demais para seguir ainda inexplorado.
A região passa por um rápido crescimento econômico e populacional. Até que em 8 de março de 1.872, o povoado de Nossa Senhora dos Remédios de Campos Novos de Cunha se torna um Distrito de Paz, pela Lei Municipal nº. 5. Assim, passa a contar com uma autoridade administrativa nomeada pela Vila de Cunha especialmente para o lugar. Um Distrito era uma “divisão territorial e administrativa em que certa autoridade administrativa, judicial ou fiscal exerce sua jurisdição” (SEADE, 1995).
Em 11/09/1873, a capela passa a ser paróquia, com vigário próprio nomeado. Dessa forma, torna-se de fato Freguesia de Nossa Senhora dos Remédios de Campos Novos de Cunha, pois só se tornava freguesia se fosse paróquia, isto é, tivesse um padre regular atuando na igreja. O primeiro que chegou a Campos Novos para a missão foi o padre italiano Nicolau Polito Derosa (“Padre Derosa”). O termo “freguesia” se refere a: “circunscrição eclesiástica que forma a paróquia; sede de uma igreja paroquial, que servia também, para a administração civil; categoria oficial institucionalmente reconhecida a que era elevado um povoado quando nele houvesse uma capela curada ou paróquia na qual pudesse manter um padre à custa destes paroquianos, pagando a ele a côngrua anual (…)” (SEADE, 1995).
Na divisão administrativa referente ao ano de 1911 já consta o Distrito de “Campos Novos de Cunha” como pertencente à Comarca de Cunha. Esse topônimo foi simplificado para “Campos de Cunha” apenas, na lei de divisão administrativa de 1938, permanecendo assim até os dias atuais. Mas para o cunhense ainda é “Campos Novos”.
Em 1912, o Barão da Bocaina compra a fazenda onde estava as fontes de águas minerais, conhecidas desde o século XIX. Seu projeto era construir uma nova cidade no local, uma estância hidromineral seguindo o exemplo de Campos do Jordão, que fora um projeto seu. E bem-sucedido. Com a morte do Barão, os planos são abandonados. Na década de 1970, a fazenda é comprada pelo italiano Ghisleni Giulio. Seu projeto era criar um loteamento, seguindo, modestamente, os planos do Barão. Não consegue vender os lotes, então decide envasar e vender a água mineral. A qualidade das “Águas Virtuosas Santa Rosa” conquista o mercado regional, mas na década de 1990 o envasamento é suspenso. Em 2021, a água mineral volta a ser vendida com o nome de “Serras de Cunha”, uma marca da Águas Prata Ltda.
Entre as décadas de 1920-1950, muitas famílias mineiras (os Fagundes, os Gonçalves etc.) migram para o município de Cunha, inclusive Campos de Cunha, atraídas pelo baixo preço das terras. Aqui desenvolvem a pecuária leiteira e, posteriormente, a pecuária de corte. Hoje, Cunha é a maior produtora de leite do estado. Então, Campos de Cunha se torna famoso pela qualidade de seus queijos e por sua produção de leite. Até pouco tempo, o Distrito contava com 2 grandes laticínios e outros artesanais espalhados pela zona rural, as fabriquetas.
Antiga fotografia capturada na vila de Campos de Cunha, possivelmente da década de 1940, postada no grupo “Memória Cunhense” (Facebook).
Nos anos de 1970-1980, devido ao abandono do Distrito pelas administrações municipais, cresce entre os moradores o desejo de emancipar-se de Cunha. Ademais, Campos de Cunha sempre manteve mais ligação com Lorena e Silveiras do que com a sede municipal. O pleito dos moradores é levantado pela SADICAC (Sociedade de Amigos do Distrito de Campos de Cunha) e recebe apoio dos deputados da região. Em 1991 é aprovado a realização de um plebiscito pela Assembleia Legislativa de São Paulo para votar a emancipação do Distrito de Campos da Cunha. Todavia, mudanças nas normas estaduais para emancipação de municípios, concernente à autossuficiência econômica, adia o sonho de Campos de Cunha.
É uma longa história, bem resumida pelo poeta e cantor Celso Galvão “…mas o lugar cresceu/ o tempo passou/ as porteiras se abriram / o progresso chegou/ Uma estrada novinha/ e a freguesia no meio da serra aflorou (…) uma gente que sonha e constrói para o futuro uma linda cidade/ na certeza de que/ a união e a fé/ é o caminho e verdade…”. Hoje, Campos de Cunha celebra 150 anos de elevação a Distrito. Parabéns a todos os moradores: da vila, da Bocaina e de todos os bairros rurais. Felicitação que estendo aos que se encontram dispersos por outras paragens.
Campos de Cunha em dois tempos: na década de 1980, na foto superior; na inferior, em 2016. Crescimento da mancha e adensamento urbano. Fotos: Página “Lá em Campos Novos” (Facebook).
Referências: CUNHA, M. W. V. da. O Povoamento no Município de Cunha. Anais do IX Congresso Brasileiro de Geografia, v. II, p. 641-49, Florianópolis (SC), 1944. FUNDAÇÃO SISTEMA ESTADUAL DE ANÁLISE DE DADOS (SEADE). Memória das estatísticas demográficas: definições. Disponível em: < http://produtos.seade.gov.br/produtos/500anos/index.php?tip=defi >. Acesso em 8 mar. 2022. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Cidades: Cunha (SP): História e fotos. Disponível em: < https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sp/cunha/historico >. Acesso em 8 mar. 2022. VELOSO, J. J. de O. A História de Cunha – 1600 – 2010 – Freguesia do Facão: A rota da exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.
Música homenageando Campos de Cunha, composta e interpretada por Celso Galvão.
Vista aérea de Cunha. Ao fundo, vê-se a Serra do Mar. Foto: Instituto Chão Caipira. Ano: 2011.
No final do século XIX e até no início do XX, Cunha era conhecida como “Cidade das Serras”. Faz jus ao epíteto. Qual fortaleza, é ladeada por três serras. Só não é inteiramente flanqueada porque o rio Paraitinga abriu um vale para se esvair. A alcunha orográfica não perdurou até nossos dias, apesar de geograficamente factual.
Serra do Mar vista da Praça do Rosário. Ano: 2010.
São as três muralhas: a Serra do Mar, a leste e a sul; a Serra da Bocaina, a norte; a Serra do Quebra-Cangalha, a noroeste. Desconheço município deste estado com mais cordilheiras em seu território. Cunha é única.
Serra da Bocaina vista do Cemitério Municipal de Cunha. Ano: 2012.
E ainda dos seus morros é possível ter uma vista esplêndida dos topos da Serra da Mantiqueira, que ao longe, ao norte, demarca o limite litosférico ante ao horizonte e ainda põe termo ao território paulista, nos contrafortes de Minas Gerais.
Serra do Quebra-Cangalha vista de Cunha. Ano: 2021.
Por isso, dizem que não há ocaso mais bonito, do que o visto desta pequena e pacata cidade. E eu, mesmo suspeito, concordo plenamente.
“O Gigante Adormecido”: a Serra da Mantiqueira vista de Cunha. Foto: Paulo Zaccaro. Data: agosto, 2012.
Rio Paraíba do Sul, quando cruza o município de Cruzeiro (SP), com a Serra da Mantiqueira ao fundo. Fonte: Wikipédia. Data: 2014.
A porção paulista do rio Paraíba do Sul (também chamada de Alto Paraíba do Sul) ocupa uma área de drenagem de 14.444 Km², onde vivem 2,1 milhões de pessoas, abrangendo 34 municípios de nossa região. A bacia de drenagem de um rio, segundo Teixeira et al. (2009, p. 308), inclui todos os afluentes que deságuam na drenagem principal e eventuais lagos associados a esse sistema, ela é separada das bacias de drenagem vizinhas por divisores de água (elevações topográficas), como as serras do Mar, da Bocaina, Mantiqueira e Quebra-Cangalha, por exemplo
Dentro dessa região hidrográfica há 16 unidades de conservação, com destaque para os núcleos do Parque Estadual da Serra do Mar (PESM) e o Parque Nacional da Serra da Bocaina (PNSB), recentemente tombado como Patrimônio da Humanidade. Ambas as unidades são de proteção integral. Todas essas unidades de conservação visam preservar as seguintes vegetações: Floresta Ombrófila Densa, Floresta Estacional Semidecidual, Floresta Ombrófila Mista Alto Montana, Campos de Altitude e Floresta Ombrófila Mista. A área ocupada com vegetação natural remanescente corresponde a 3.846 Km², o que equivale a 26,5% da área de drenagem da bacia.
Mapa mostrando o trecho paulista da Bacia Hidrográfica do Paraíba do Sul. Fonte: Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos. Data: 2015.
O rio Paraíba do Sul é formado pela confluência dos rios do Paraibuna, que nasce no município de Cunha (SP), no bairro da Aparição; e do Paraitinga, que nasce no topo da Serra da Bocaina, no município de Areias (SP). A junção dos cursos d’água ocorre onde hoje é a área alagada da Usina Hidrelétrica de Paraibuna, pertencente à Companhia Energética de São Paulo (CESP), localizada entre os municípios paulistas de Natividade da Serra, Paraibuna e Redenção da Serra. Da nascente na Serra da Bocaina até a foz em Atafona, município de São João da Barra, no norte do estado do Rio de Janeiro, o Paraíba do Sul realiza um percurso de 1.137 km de extensão, até alcançar o Oceano Atlântico. Seus principais afluentes no trecho paulista são: Paraibuna, Paraitinga e Jacuí (formadores); Jaguari, Uma, Buquira, Ferrão, Embaú, Piquete, Bocaina, Pitangueiras e Itagaçaba (tributários).
Imagem de satélite da foz do Paraíba do Sul, mostrando o seu delta assimétrico dominado por ondas, formado pelo acúmulo de sedimentos ao longo de milhares de anos. Imagem: Divisão de Sensoriamento Remoto – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Data: 2019. Fonte: Flickr.
As principais atividades econômicas desenvolvidas são a agropecuária (rizicultura, pecuária leiteira e de corte, milho etc.), indústria e pesquisa tecnológica (automobilística e aeroespacial), química e alimentícia (laticínios, principalmente), o turismo (religioso, ecológico, de montanha, cultural etc.), comércio e serviços e mineração de areia. A maioria dos municípios que estão inseridos dentro da bacia hidrográfica é pobre e vulnerável socioeconomicamente, com a exceção de São José dos Campos, Guararema, Jacareí e Aparecida (SEADE, 2018), que foram classificados e. Índice Paulista de Responsabilidade Social (IPRS) como dinâmicos, isto é, municípios com índice elevado de riqueza e bons níveis nos indicadores sociais (longevidade e escolaridade médio /alto). Os municípios que são cortados pela Serra do Mar e da Bocaina apresentam os piores indicadores sociais da região, como é o caso de Cunha.
Outros indicadores ambientais: 99,7% dos resíduos sólidos são destinados a aterros sanitários adequados; 91,1% do esgoto urbano é coletado, porém, apenas 63,9% é tratado; a redução da carga orgânica poluidora do esgoto doméstico foi de apenas 40,2%; a demanda total (superficial e subterrânea) corresponde a apenas 10,7% da vazão do rio Paraíba do Sul, no trecho paulista, o que mostra uma baixa pressão sobre os recursos hídricos disponíveis; dos 21 pontos de coleta de água de rios da bacia para análise, 4 foram qualificados como ótimos, 18 como bons e apenas 1 como regular, o que favorece a proteção da vida aquática.
Rio Paraíba do Sul na proximidade de sua nascente, na Serra da Bocaina. Imagem: Marco Cruz. Data: 2011. Fonte: YouTube.
Por estar localizado entre as duas maiores metrópoles do país, o rio Paraíba do Sul sofre com a poluição de suas águas, seja pelo esgoto doméstico ou pelo industrial. Além disso, boa parte de suas cabeceiras, onde estão as nascentes, estão desmatadas e degradadas. Todavia, trata-se de um rio de suma importância social: abastece mais de 14,2 milhões de pessoas, pois parte de suas águas são desviadas para a bacia hidrográfica do rio Guandu, com a finalidade de gerar energia e abastecer a população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Outros usos de suas águas são para irrigação (na rizicultura no Vale do Paraíba paulista, principalmente), geração de energia hidrelétrica e diluição de esgotos, este é uma das principais fontes de poluição do rio Paraíba do Sul, sobretudo nos trechos que cruzam as áreas urbanas. A vazão média do rio Paraíba do Sul, na divisa com o estado do Rio de Janeiro, é de 217 m³/s e a vazão mínima é de 72 m³/s, ou seja, cerca de um terço da vazão média. A situação é preocupante, pois só neste século o rio Paraíba do Sul já passou por duas crises hídricas, a primeira em 2004 e a última entre 2014 e 2016, atingindo sua fase de maior escassez em 2015. Nessas crises, as vazões diminuem muito, devido à baixa precipitação, causando impactos nos níveis de armazenamento dos reservatórios e, consequentemente, na irrigação, na geração de energia e no abastecimento de água para a população. A precipitação média no trecho paulista da bacia é de 1.385 mm ao ano. Devido à escassez hídrica e alta demanda das regiões metropolitanas do entorno, a água do Paraíba tem sido alvo de disputa entre as unidades federativas. Por isso e pela sua relevância ambiental, projetos que objetivem recuperar o rio – da nascente até a foz – são para ontem.
Vídeo com imagens de drone da foz do rio Paraíba do Sul, no norte fluminense. Fonte: YouTube / Canal Macaé Drone. Data: 2021.
Referências:
AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO (ANA). Paraíba do Sul. Disponível em: < https://www.gov.br/ana/pt-br/sala-de-situacao/paraiba-do-sul/paraiba-do-sul-saiba-mais >. Acesso em: 19 out. 2021. FUNDAÇÃO SEADE. Índice Paulista de Responsabilidade Social. São Paulo: Fundação Seade, 2018. Disponível em: < http://www.iprs.seade.gov.br/ >. Aceso em 19 out. 2021. RIO PARAÍBA DO SUL. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2021. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Rio_Para%C3%ADba_do_Sul&oldid=62208470 >. Acesso em: 19 out. 2021. SÃO PAULO (ESTADO). Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE). Comitê de Bacias Hidrográficas do Rio Paraíba do Sul (CBH-PS). Capacitação de agentes no processo de gestão de recursos hídricos em atividades de educação ambiental. Taubaté (SP): CBH-PS, 2009. SÃO PAULO (Estado). Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos. Guia do Sistema Paulista de Recursos Hídricos. 3. ed. São Paulo: SSRH, 2015. TEIXEIRA, W. et al. (org.). Decifrando a Terra. 2. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2009
Pedra Grande da Serra da Bocaina. Foto: Pousada Joaninha.
Localização: Está localizada no bairro do Campo da Bocaina, zona rural de Cunha (SP). Está totalmente localizada dentro do território cunhense, mais especificamente dentro do território do distrito de Campos de Cunha, na região fronteiriça com o município de Silveiras (SP). As coordenadas geográficas do lugar, obtida pelo Google Maps, são as seguintes: 22°49’16.1″S; 44°46’05.3″W.
Localização da Pedra Grande, município de Cunha (SP). Cartografia: Jacuhy.
Altitude: É variável, conforme o produto cartográfico, site geoespacial ou SIG utilizado. Assim, é no:
a) IBGE: 1.800 metros. b) IGC: 1.807 metros. c) Google Maps: 1.780 metros. d) Google Earth: 1.810 metros.
Altimetria, cobertura do solo e localização da Pedra Grande, em carta do IGC, escala 1:10.000. Recorte e edição: Jacuhy.
História: Quando os portugueses começaram a colonizar a região do Vale do Paraíba, nos fins do século XVI e início do século XVII, a região da Serra da Bocaina foi um dos últimos refúgios dos indígenas (Puris) que resistiram à catequização e ao aldeamento. No século XVIII, com a descoberta de ouro em Minas, a região é recortada por caminhos alternativos à Estrada Real, aproveitando as trilhas indígenas que já havia pelas galerias e descampados. Da atual cidade de Lorena (SP), antiga Hepacaré, partiam rotas para o gado e para ouro desviado e furtado (descaminhos), visando alcançar o porto de Mambucaba (RJ), desviando das barreiras alfandegárias e postos de fiscalização e controle. No século XIX viveu o Vale o ciclo do café. As rotas serranas foram reativadas, visando escoar a produção até o porto mais próximo. Como as garoupas (município do “fundo do Vale”) foram pródigas na produção, tropeiros atravessavam a Serra com suas tropas abarrotadas de café, almejando chegar à Mambucaba ou Angra dos Reis (RJ). Nesse tempo, de muito trabalho e escravidão nas fazendas da região, a Bocaina forneceu boqueirões e grutas para formação de quilombos de negros fugidos e resistentes à escravidão. Nos anos de 1940, desenvolveu-se naquelas bandas a pecuária extensiva de leite e corte, agravando processos erosivos e levando a destruição da flora local. Com solo pobre, a agricultura nunca foi o forte da área. Nos anos de 1970 surgiu o Parque Nacional da Serra da Bocaina, demonstrando a importância ecológica e a consequente necessidade de preservar a região, estrategicamente localizada entre as duas maiores metrópoles do país, São Paulo e Rio de Janeiro. Ali por perto, em Angra dos Reis (RJ), nos anos de 1970, durante o Regime Militar, começa a instalação da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto (CNAAA), complexo formado por 3 usinas nucleares, projeto para lá de polêmico e muito criticado por ambientalistas. Da década de 1990 em diante, com o advento do turismo na região, a Serra da Bocaina começou a ser explorada pela sua beleza paisagística, pelo clima de altitude e pela vegetação diversificada e esplendida, onde a Mata Atlântica incorpora elementos naturais de áreas subtropicais.
A cidade de Cunha, aos pés da Serra do Alto do Diamante, vista desde a Pedra Grande. Foto: Pousada Joaninha.
Meio físico: A Pedra está localizada na Serra da Bocaina, em lugar marcado pelo clima tropical de altitude, porém bem mais frio e úmido que o entorno, devido à altitude superior e à proximidade com o mar. As temperaturas ficam na média anual inferior a 17°C e com verão brando. Durante os meses de inverno, principalmente junho e julho, ocorrem temperaturas inferiores a 0° C, ocasionando geadas. Está inserida na bacia hidrográfica do rio Paraitinga, sendo uma região de cabeceira e nascentes. O solo da região é típico de região serrana, sendo o cambissolo húmico. A vegetação é de campos de altitude, as matas ficam concentradas apenas nos fundos dos vales. Nos campos de altitude há a predominância de espécies herbáceas e arbustivas. Conforme a altitude diminui, tem-se a dominância de espécies arbóreas que formam uma mata característica da Floresta Ombrófila Mista Alto Montana, com a presença de Araucárias. As unidades geológicas que afloram na região pertencem ao Terreno Embu. Essa entidade tectônica é constituída por rochas metamórficas e ígneas, em sua maioria com idades proterozoicas (formadas há 2,5 bilhões a 542 milhões de anos). A Pedra em si, do ponto de vista geológico, é um afloramento de Metagranitóide Porfirítico, exercendo controle sobre morfologia do entorno, se destacando no relevo devido a sua resistência à alteração intempérica.
Aspecto da Pedra Grande e entorno. Foto: EcoValeTur.
Parque: Apesar de estar na Serra da Bocaina, a Pedra Grande não está inserida dentro do Parque Nacional da Serra da Bocaina, unidade de conservação de proteção integral. Assim, não há controle de visitação ao local, o que pode ser bastante danoso ao ecossistema do lugar. Não há nenhuma estrutura física para atender a demanda de visitantes e nem qualquer tipo de fiscalização pelo poder público. O descarte de lixo feito de maneira inapropriada no local ou mesmo as fogueiras, acendidas pelos esporádicos acampamentos, podem causar poluição ou queimadas acidentais, colocando em risco o rico e diferenciado ecossistema da Bocaina, considerado por muitos cientistas um refúgio ecológico.
Mapa concêntrico da Pedra Grande da Bocaina. Notar a proximidade com Campos de Cunha. Elaboração: Jacuhy.
Ecoturismo: Por estar no topo das escarpas da Serra da Bocaina, a Pedra é um excelente mirante, de onde se pode avistar a Mantiqueira, a cidade de Cunha, parte do Vale do Paraíba, a Serra do Mar e da Quebra-Cangalha e até alguns pontos da Costa Verde fluminense. A beleza cenográfica do lugar é de tirar o fôlego. A exploração turística do mirante já vem sendo feita. Passeios de moto, de bicicleta (mountain bike), a pé (trekking), a cavalo, de carro (off-road) têm a Pedra como paragem (camping) ou percurso. O município de Silveiras já explora turisticamente a Pedra, conforme é possível observar nas suas peças de divulgação turística. No entanto, cabe a Cunha saber aproveitar também o mirante da Pedra Grande, já que é parte de seu território, incluindo-o em seu mapa turístico e como um dos destinos a ser visitado pelos viajantes que aqui chegam ou passam. A inclusão desse mirante contribuirá com o próprio desenvolvimento turístico do distrito de Campos de Cunha. Mas é preciso pensar e planejar formas não predatórias de turismo no lugar.
Vídeo da Pedra feito pela empresa EcoValeTur. Data: 12 de jul. de 2019.
Acesso: A Pedra pode ser acessada por estrada de terra batida, tanto pelo município de Silveiras (SP), via bairro dos Macacos (Colinas), como por Cunha, via bairro da Bocaina. O acesso mais comum e mais recomendado, devido às condições da estrada, é por Silveiras. Pela facilidade de acesso, muitas pessoas confundem a localização da Pedra, colocando-a dentro do município de Silveiras, quando na verdade está dentro de Cunha, conforme pode ser visto nos recortes cartográficos que acompanham esta postagem. Esse Embaraço é reforçado ainda, porque a Pedra está muito próxima à divisa intermunicipal. Equívocos desse tipo ocorrem com frequência com morros em áreas ou próximos de limites territoriais. Veja o que ocorre, p. ex., com a Pedra Macela, na divisa entre Cunha e Paraty (RJ).
Pedra Grande e Serra da Bocaina. Foto: Emil Davidson. Data: maio de 2019. Fonte: Google Maps.
Outras informações: a) No Google Maps, Pedra Grande já aparece como “Trilha de Caminhada”, porém com “plus code” (56JH+7F Silveiras, São Paulo) localizado em Silveiras, possivelmente cadastrado no site pela ECOVALETUR. b) Não temos nenhuma informação sobre as condições de trafegabilidade no momento, das estradas que levam à Pedra Grande; entretanto, convém salientar, que nunca foram boas e não são recomendadas para carros de passeio. c)“Bocaina” é vocábulo de origem tupi, disso não há dúvida; todavia seu significado é controverso. Uma das acepções é: “lugar onde há fontes de água”, derivando de bocá, “irromper”, e ynhã, “fonte, ou jorro d’água”. Talvez seja esse o porquê da Serra apresentar um inexistente lago nas representações cartográficas coloniais, setecentistas; tomando, certamente, os cartógrafos, por fidedigna a tradução literal do vocábulo indígena. No entanto, de fato o termo faz jus à condição hidrográfica da Serra, pois nela nasce o rio Paraitinga, principal formador do rio Paraíba do Sul.
Situação da Pedra Grande, em recorte feito na carta do IBGE, escala 1:50.000. Edição: Jacuhy.
Referências: AB’SÁBER, Aziz Nacib. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003. ECOVALETUR. Pedra Grande da Bocaina (roteiro). Disponível em: < https://ecovaletur.com.br/roteiro/pedra-grande-da-bocaina/ >. Acesso em: 2 mai. 2021. GOOGLE MAPS. Disponível em: < https://www.google.com.br/…/@-22.8211891…/data=!3m1!1e3 >. Acesso em: 2 mai. 2021. IBGE. Campos de Cunha. Rio de Janeiro: IBGE, 1974. 1 carta topográfica, color., 4465 x 3555 pixels, 5,50 MB, jpeg. Escala 1:50.000. Projeção UTM. Datum horizontal: marégrafo Imbituba, SC, Datum vertical: Córrego Alegre, MG. Folha SF-23-Z-A-IV-3, MI: 2742-3. Disponível em: < https://biblioteca.ibge.gov.br/…/GEB…/SF-23-Z-A-IV-3.jpg >. Acesso em: 25 nov. 2020. INSTITUTO GEOGRÁFICO E CARTOGRÁFICO (IGC). Ribeirão dos Criminosos. São Paulo: Governo do Estado de S. Paulo – Sec. de Economia e Planejamento: Plano Cartográfico do Estado de S. Paulo / Coordenadoria de Divisão Regional / Divisão de Geografia, 1978. Escala 1:10.000. Projeção UTM. Datum horizontal: marégrafo Imbituba, SC, Datum vertical: Córrego Alegre, MG. Carta SF-23-Z-A-IV-3-NE-D, Folha: 074/135. PREFEITURA MUNICIPAL DE SILVEIRAS. Silveiras, Terra do Tropeiro. Vídeo de divulgação. Letra e música: Celso Galvão. Data da postagem do vídeo: 21 de fev. de 2019. Disponível em: < https://youtu.be/CzMOTWIEja8 >. Acesso em: 20 out. 2020. POUSADA JOANINHA. Passeios. Disponível em: < https://www.pousadadajoaninha.com.br/passeios.php >. Acesso em 26 out. 2020. REIS, Paulo Pereira dos. O indígena do Vale do Paraíba: apontamentos históricos para o estudo dos indígenas do Vale do Paraíba paulista e regiões circunvizinhas. Coleção Paulística, v. 16. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1979. ROMARIZ, Dora de Amarante. Biogeografia: conceitos e temas. São Paulo: Scortecci, 2008. SÃO PAULO (Estado). Secretaria do Meio Ambiente, Instituto Florestal. Mapa pedológico do Estado de São Paulo: revisado e ampliado. Marcio Rossi. São Paulo: Instituto Florestal, 2017. 118p. : il. color ; mapas. 42×29,7 cm. Disponível em: < http://www.iflorestal.sp.gov.br >. Acesso em: 1 mai. 2021. SOARES, Arthur Távora de Mello. Mapeamento Geológico, Análise Estrutural e Metamorfismo nasproximidades de Campos de Cunha, São Paulo. Monografia de Graduação em Geologia. Orientadores: Julio Cezar Mendes, Rodrigo Vinagre. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro / Instituto de Geociências / Departamento de Geologia, 2018. Disponível em: < http://hdl.handle.net/11422/4254 >. Acesso em: 2 mai. 2021. TIBIRIÇÁ, Luiz Caldas. Dicionário de topônimos brasileiros de origem Tupi. São Paulo: Traço, 1985. TOLEDO, Francisco Sodero. Estradas Reais: O Caminho Novo da Piedade. Campinas, SP: Editora Alínea, 2009.
Vídeo do canal “Girando na Vida” sobre a Pedra Grande. Data: 18 de mai. de 2020.
Faço aqui algumas breves considerações sobre a cartografia turística do município de Cunha e as regionalizações impostas pela Secretaria de Turismo de São Paulo e pelo Ministério do Turismo.
Cartografia
Mapa Turístico da Estância Climática de Cunha. Ano: 2009. Fonte: Prefeitura de Cunha (SP).
Esse mapa turístico de Cunha vem sendo reproduzido e impresso pela Prefeitura, com algumas alterações, desde o início deste século. Foi criado pelo designer cunhense Wagner Oliveira. Sem dúvida, é muito bonito e elegante, mas peca nos aspectos cartográficos. Prevalece os aspectos estéticos sobre os técnicos. A cidade de Cunha, como se nota, está ampliada e o restante que do plano, que cobre o município, está em escala menor. Esse tipo de representação acarreta muitas distorções e gera confusão em que lê esse mapa. Geralmente, quando se amplia parte de uma peça cartográfica, a representação em escala maior aparece fora do plano geral, no canto e/ou destacada, a fim de chamar a atenção e não iludir quem realiza a leitura. Ademais, os pontos turísticos de Cunha, diferente de Campos do Jordão, por exemplo, não estão concentrados no perímetro urbano, mas dispersos pela nossa extensa área rural. Desse modo, ainda que o objetivo dessa técnica seja permitir a localização dos pontos turísticos e empreendimentos turísticos dentro da cidade, acaba atrapalhando a localização dos lugares similares que estão na zona rural, já que, como escrevi, Cunha não tem seus pontos e empreendimentos turísticos concentrados na zona urbana. A falta de uma escala mais próxima à realidade, sobretudo nos trechos rurais, tem gerado muitas frustrações nos turistas que se guiam por esse mapa, quando percorrem os roteiros que haviam traçado.
Mapa Turístico da Estância Climática de Cunha. Ano: 2015. Fonte: CunhaTur.
Outro problema é a quantidade de informações que são apresentadas e representadas. Como o número de empreendimentos turísticos em nosso município vem aumentando a cada ano, à medida em que esses mapas são atualizados, ficam cada vez mais poluídos e carregados, o que compromete a leitura e a estética da peça gráfica. A solução pode estar na seleção das informações fornecidas ou na criação de um mapa digital para o turismo cunhense, através de um aplicativo para smartphone, por exemplo. Com os mapas digitais não só a atualização pode ser feita de maneira mais rápida e econômica, como a quantidade de informações pode ser resolvida com a criação de camadas selecionáveis, onde o próprio usuário pode decidir o que ele quer ver e localizar.
Mapa Turístico da Estância Climática de Cunha. Ano: 2019. Fonte: Prefeitura de Cunha (SP).
Regionalizações
Cunha era uma estância climática desde 1948. Foi a primeira do estado, antes até de Campos do Jordão. Na verdade, era para ser estância hidromineral devido às fontes da “Águas Virtuosas de Santa Rosa”. Mas, por pressões políticas de alguns deputados federais, insuflados pelos municípios que já gozavam desse “status” e acesso ao orçamento estadual, acabou se tornando uma estância climática (VELOSO, 1995, p. 12). Nessa batalha de Cunha atuaram dois políticos da época: deputado estadual Sebastião Carneiro da Silva (PSD), grande batalhador das causas valeparaibanas, e o governador Ademar de Barros (PSP), ex-combatente do serviço médico do Exército Constitucionalista, tendo servido na frente de Cunha. Na década de 1940, o dr. João Lellis Vieira, cunhense “da gema” e articulista do jornal “Correio Paulistano”, aproveitava o espaço que tinha para provocar Campos do Jordão, exclamando que Cunha, ao contrário daquela estância da Mantiqueira, era “climatericamente a Suíça Brasileira!”. Puro bairrismo. E um monólogo inócuo. Em nada abalou a reputação de Campos do Jordão, construída pelo próprio governo estadual, visando massagear o ego e ofertar um “plano B” para as quatrocentonas falidas, que já não dispunham de bufunfa para visitar a Suíça (de verdade) …
Mapa da Tipologia Turística das Estâncias Paulistas. Ano: 2017. Fonte: Companhia Paulista de Eventos e Turismo.
Em 2015, o artigo 7º, da Lei Complementar nº 1.261 do estado de São Paulo, que “Estabelece condições e requisitos para a classificação de Estâncias e de Municípios de Interesse Turístico e dá providências correlatas”, prescreveu que “os municípios classificados por lei como Estâncias Balneárias, Hidrominerais, Climáticas e Turísticas passam a ser classificados como Estâncias Turísticas, sem prejuízo da utilização da terminologia anteriormente adotada, para efeito de divulgação dos seus principais atrativos, produtos e peculiaridades.” Assim, ainda que a Prefeitura de Cunha mantivesse a divulgação do título de “Estância Climática”, oficialmente passou a ser “Estância Turística”. Na parte que interessa à Municipalidade, o acesso à verba extra do orçamento estadual para fomentar o turismo local, nada mudou. Portanto, nenhum estardalhaço foi gerado. A questão que se pôs a partir de então foi como o Governo Estadual organizaria e enquadraria os municípios turísticos.
Mapa dos Segmentos Turísticos no Estado de S. Paulo. Ano: 2017. Fonte: Companhia Paulista de Eventos e Turismo.
Em um primeiro momento, a Secretaria de Turismo estadual lançou um documento para orientar as prefeituras sobre as mudanças ocorridas por força da nova lei. Assim, naquele momento, São Paulo estava dividido turisticamente em 15 macrorregiões e subdividido em 34 regiões turísticas englobando todos os 645 municípios paulistas (SÃO PAULO, 2015). Cunha pertencia à “Macrorregião do Vale do Paraíba” e à “Região Turística do Vale do Paraíba e Serras”. Basicamente, a Secretaria seguiu a regionalização histórica já existente, sem inventar moda. No mesmo documento, ao aprofundar a regionalização, a Secretaria criou os “Circuitos Turísticos”, uma sub-regionalização das regiões turísticas. Cunha, por sua vez, integrava, simultaneamente, o “Circuito Cultura Caipira”, junto com outros municípios do Alto Vale, e o “Roteiro do Vale Histórico”, junto com os municípios do “garoupas”. Essa regionalização era bastante condizente com a realidade e a história local, valorizando os aspectos culturais de Cunha e adjacências.
Cunha foi inserida dentro do segmento histórico e cultural, com destaque por sua cerâmica de alta temperatura nacionalmente conhecida. Fonte: Companhia Paulista de Eventos e Turismo. Ano: 2017.
A referida Lei Complementar reconhecia 13 segmentos de turismo: Social; Ecoturismo; Cultural; Religioso; Estudos e de Intercâmbio; de Esportes; de Pesca; Náutico; de Aventura; de Sol e Praia; de Negócios e Eventos; Rural; de Saúde. Sendo que Cunha estava segmentada dentro de uma região de turismo cultural, cuja definição, dada pela mesma lei é a que segue: “compreende as atividades turísticas relacionadas à vivência do conjunto de elementos significativos do patrimônio histórico e cultural e dos eventos culturais, valorizando e promovendo os bens materiais e imateriais da cultura”. Ainda que não seja a melhor para descrever o turismo cunhense era mais condizente que o enquadramento dado, por exemplo, ao turismo religioso, que é definido assim: “configura-se pelas atividades turísticas decorrentes da busca espiritual e da prática religiosa em espaços e eventos relacionados às religiões institucionalizadas, independentemente da origem étnica ou do credo”. Entretanto, a partir de 2017, Cunha passou a integrar a “Região Turística da Fé”, junto com Aparecida, Cachoeira Paulista, Guaratinguetá etc. mesmo não sendo um centro de peregrinação religiosa como esses municípios.
Mapa dos Circuitos Turísticos Paulistas. Ano: 2016. Fonte: Secretaria de Turismo do Estado de São Paulo.
O que se vê é que nem o próprio Governo conseguiu superar a utilização e categorização das estâncias (turísticas, climáticas e hidrominerais), ainda que oficialmente tenha sido proscrita. O termo “municípios turísticos” ou “estância turística” ainda não foi plenamente assimilado pelas pastas estaduais. E muito menos pelos municípios, empresários, guias e população em geral. Por óbvios motivos políticos e eleitorais, em 2016, uma lei estadual criou a categoria “Municípios de Interesse Turístico”, ampliando em mais 140 o número de municípios paulistas com acesso ao filão orçamentário para “incrementar o turismo”.
Interessante notar que até no site desenvolvido pelas prefeituras da Região Turística da Fé, a foto de Cunha na página inicial é a única não remete à religião ou às igrejas, apresentando a foto de uma das dezenas de cachoeiras do município na chamada da página inicial. Ainda que as festas religiosas de Cunha sejam seculares e possam atrair turistas, elas são expressões de fé da população local e não um evento de cunho turístico. São manifestações de fé genuínas e não eventos comerciais de fundo religioso. Talvez a única exceção dentro dessas manifestações seja a Festa de Sá Mariinha das Três Pontes, em cujo lugar há até um pequeno centro de apoio ao romeiro, mas ainda assim são romeiros de Cunha e adjacências que vistam o local, ou seja, devotos da própria região e que estão no mesmo meio cultural. Diferentemente de Aparecida, Cachoeira Paulista e Guaratinguetá, que são centros nacionais do Catolicismo, e atraem fiéis até de outros países e em contingentes impensáveis para as festas religiosas de Cunha.
A descrição para caracterização da Região Turística da Fé é ambígua. Vejamos: “A Região Turística da Fé se destaca como uma das mais belas do país, está localizada no eixo Rio x São Paulo entre as Serras da Mantiqueira, da Bocaina e do Mar. São 08 municípios no Vale do Paraíba que estão unidos pelo desenvolvimento do turismo regional: Aparecida, Cachoeira Paulista, Canas, Cunha, Guaratinguetá, Lorena e Piquete. Com um grande número de santuários e belezas naturais a região proporciona uma experiência única de fé, contemplação e atividades turísticas em meio das lindas paisagens de serras e rios nos mais variados tipos de turismo e seus atrativos: turismo religioso, turismo rural, turismo cultural, de esportes, de aventura, ecoturismo, negócios e eventos, náutico e gastronômico.” (grifo meu) (REGIÃO TURÍSTICA DA FÉ, 2020). Como se nota, não se sabe ao certo qual o tipo de turismo a desenvolver, porque uma coisa é atrair e acolher romeiros e outra coisa é desenvolver o ecoturismo. No encontro que culminou em um estatuto para os municípios integrantes da RT da Fé, afirmou-se que: “(…) muitos projetos possam acontecer na Rota da Fé, tanto focando a religiosidade regional, como investimentos na infraestrutura (…)” (grifo meu) (PREFEITURA DE APARECIDA, 2019). Ora, como Cunha focar seu investimento em eventos religiosos, se quase todas suas festas turísticas são laicas e comerciais?
Mapa das Regiões Turísticas do Estado de São Paulo. É o que está em vigor. Cunha aparece em outra região turística. Fonte: Secretaria de Turismo do Estado de S. Paulo. Ano: 2017.
Praticamente quase todos os tipos de turismo praticados no Brasil são citados como a ser desenvolvido pela Região Turística da Fé. É claro que a diversificação das atividades turísticas é desejável, mas no caso parece que os mentores municipais estão meio perdidos quanto aos objetivos e metas a serem traçadas. Ter colocado Cunha no meio desses municípios engrossou o caldo da confusão, sem dúvida. Quem dá enfoque em tudo acaba não priorizando nada. Não há nenhum elemento caracterizador, ainda que o turismo religioso preceda os demais e seja citado “um grande número de santuários”, para logo em seguida já destacar as “belezas naturais”, que uma caracterização tão genérica, que pode aparecer na descrição da maioria das regiões turísticas do mundo. O fato é que Cunha não conta com santuários e nem é visitada por motivos religiosos. Na página de Cunha, no site da Região Turística da Fé, até são citadas as festas religiosas, mas os destaques são para os campos de lavandas, cachoeiras e às festas ligadas ao clima serrano. Faria mais sentido, penso eu, alocar Cunha na região vizinha, do “Rios do Vale”, que engloba parte dos municípios do Alto Vale do Paraíba. Pelo menos em nosso território nasce o rio Paraibuna, no bairro da Aparição, e ganha corpo o rio Paraitinga, que desce da Serra da Bocaina. Associar a beleza natural a alguma ação contemplativa de fé em nosso município é um grande disparate, a menos que Cunha tenha algum centro de peregrinação xamânica e ninguém nos avisou de nada…
Não se pode criar regionalizações em gabinetes, desconsiderando a história e desenvolvimento de cada lugar. Canetadas de políticos não devem preceder e prevalecer sobre o trabalho científico de geógrafos e turismólogos.
Considerações finais
Atualmente, a maior parte das pessoas que visitam Cunha utiliza para encontrar os destinos almejados as plataformas cartográficas digitais, como o Google Maps (por exemplo), por serem mais simples, acessíveis e atualizadas. Acessíveis até certo ponto, convenhamos, já que em uma boa parte da zona rural de Cunha não há sinal de celular e, consequentemente, de internet. Entretanto, ainda que venha caindo em desuso e estejam condenados, os mapas turísticos impressos de Cunha precisam equilibrar os aspectos artísticos e técnicos na sua apresentação, tornando-se um instrumento de localização mais útil a quem se destina: os turistas.
Com relação à regionalização turística a que Cunha foi submetida, compete à Prefeitura, através de seu corpo técnico, e ao Conselho Municipal de Turismo de Cunha (COMTUR) questionar esse enquadramento alheio à realidade do turismo local: ao seu desenvolvimento e história, à sua tipologia e às potencialidades que apresenta. Inclusive, o planejamento turístico estadual aponta que um dos objetivos estratégicos para o setor é “promover a atuação articulada de agentes públicos e privados na implantação de empreendimentos e produtos turísticos nacionais ou internacionais, que aproveitem as vocações e potencialidades dos municípios e regiões do Estado de São Paulo.” (SÃO PAULO, 2020, p. 37). E ainda, no mesmo documento, estabelece que o “incentivo e valorização das iniciativas que fortaleçam a identidade local e regional dos destinos turísticos” e a modernização e ampliação das “estratégias de marketing e comunicação de destinos, produtos e serviços turísticos ofertados no Estado de São Paulo nos níveis municipal, regional, nacional e internacional” (SÃO PAULO, 2020, pp. 44-45) são estratégias prioritárias para fomentar o turismo paulista na próxima década. Trata-se de uma regionalização totalmente deslocada, no tempo e no espaço. E que pode comprometer nosso desenvolvimento turístico se for seguida e houver direcionamento de investimentos.
Cunha viveu nesse primeiro quinquênio da pavimentação completa da rodovia que liga a cidade a Paraty (RJ) um crescimento nunca visto do seu turismo. O fluxo cada vez maior de pessoas que se dirige às praias da Costa Verde fluminense e para o Litoral Norte paulista transformou nossas montanhas em vitrine e propaganda ininterrupta do lugar. É um outdoor vivo e verdadeiro dos dois lados da pista da rodovia SP-171. Entretanto, é preciso planejar e aprimorar as atividades turísticas que acontecem aqui, para gere renda e traga benefícios para todos os cunhenses e que seja sustentável, ecologicamente e financeiramente, nas próximas décadas.
Vídeo sobre a então Estância Climática de Cunha, produzido pela Aprecesp (Associação das Prefeituras das Cidades Estância do Estado de São Paulo), em 2012.
Estudo coordenado por Carlos Cesar Ronquim, engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Territorial, apontou que a área ocupada por eucalipto no Vale do Paraíba, em sua porção paulista, saltou de 35.200 hectares em 1.985 para 113.600 hectares em 2.015, ocupando uma área equivalente ao município de São José dos Campos, o segundo maior de nossa região. Um aumento de 323% ao longo de 30 anos. Em 1.985, 2,5% da área total da nossa região estava ocupada por eucaliptos. Em 2.015, esse percentual chegava aos 8,1%da total área do Vale do Paraíba paulista. Esse aumento se reflete na paisagem regional. Todos os habitantes adultos do Vale, os nativos daqui pelo menos, já perceberam esse aumento explicito e visível nos seus lugares e municípios, principalmente a partir das primeiras décadas do século XXI. Seria o eucalipto o novo café?
Mapa do uso e ocupação do solo do Vale do Paraíba paulista em 1985. Autores: RONQUIM e COCHARSKI. Fonte: EMBRAPA, 2016.
O aumento da área ocupada pela silvicultura de eucalipto foi acompanhado pela queda das áreas ocupadas por pastagem, solo exposto e atividades agrícolas, conforme pode ser verificado nos mapas que ilustram este artigo. A área ocupada por pastagem ainda ocupa a liderança, com 652.600 hectares, correspondendo em termos relativos a 46,7% do total. Todavia, há 30 anos correspondia a cerca de 68% da área total da região, o que demonstra o quanto o ambiente natural estava degradado pela pecuária e agricultura extensiva tradicional. A área com solo exposto sofreu uma ligeira queda, caindo de 3,7% para 3,3% em 2.015, uma diminuição de 5.500 hectares. É uma constatação positiva, pois a exposição do solo é um agravante ambiental, porque geralmente desencadeia processos erosivos, lixiviação etc. Por fim, a área ocupada por atividades agrícolas também retraiu, saindo de 51.300 hectares em 1.985 para 36.500 em 2.015. Em termos relativos ocupava 3,6% da área total e em 2.015 passou a ocupar 2,6%. Forte indicar que o ciclo agrícola do Vale está em franco declínio, incapaz de concorrer com outras áreas do Brasil, onde impera uma agricultura mecanizada, com produção em larga escala e voltada à exportação.
O retraimento das áreas de pasto e plantação foi sucedido por um aumento da ocupação por matas nativas. Um salto de 249.500 hectares em 1.985 para 455.200 hectares em 2.015. Assim, a cobertura florestal sobre a nossa região aumentou de 17,8% em 1.985 para 32,6% em 2015. Uma constatação auspiciosa e que indica que nem só de más notícias vive a Mata Atlântica. Com o progressivo aumento regional das taxas de urbanização, a área ocupada por construções também aumentou de 38.500 hectares para 63.600 hectares, chegando a uma ocupação de 4,6% da área total do Vale em 2.015. O aumento da mancha urbana das urbes valeparaibanas se dá pelo crescimento da população citadina e pelo forte êxodo rural, que ainda não se esgotou em nossa região. Esvaziam-se os campos; incham-se as cidades. Um reflexo da situação nacional em escala regional.
Mapa do uso e ocupação do solo do Vale do Paraíba paulista em 2015. Autores: RONQUIM e COCHARSKI. Fonte: EMBRAPA, 2016
O esvaziamento do campo valeparaibano paulista pode ser um dos fatores que levou ao aumentou da cobertura de mata nativa, indicando uma regeneração dos pastos sujos que, em 1985, correspondiam a 390.600 hectares, ou 27,9% da área total regional. A queda da quantidade das áreas agrícolas também se relaciona com o declínio da agricultura familiar na região e ao êxodo rural. Além do mais, principalmente nos municípios do Alto Vale do Paraíba, as propriedades agrícolas têm adquirido novas funções. Muitas se converteram em sítios de veraneio para pessoas advindas da Região Metropolitana de São Paulo. Outras têm se convertido em lugares para consumo do espaço, com a incipiente, mas promissora atividade turística regional (com exceção de Campos do Jordão, que já é um polo turístico há muitas décadas), com as práticas ecoturismo e turismo rural, que valorizam a existência de mata nativa e torna esse tipo de cobertura do solo um fator de agregação de valor. Há também um aumento da patrulha da Polícia Militar Ambiental, mas essa ação repressiva nunca gerou consciência, apenas medo e desconfiança, além de dividendos para o Estado, com as pesadas multas que aplicam.
O avanço do eucalipto se dá no mesmo contexto, mas parece ser causa do êxodo e não consequência. Essa cultura comercial avança no rastro de estagnação econômica deixado pelas atividades ligadas à agricultura familiar e à pecuária extensiva, cada vez menos lucrativas e cada vez mais inviáveis para as pessoas da roça. É impossível os agricultores e pecuaristas do Alto Vale, adeptos de técnicas rudimentares, competirem com os agricultores e pecuaristas de outras regiões do Brasil, que incorporam técnicas modernas, mecânicas e automatizadas na produção. Diante desse cenário, há um barateamento da propriedade agrícola regional, tornando-a interessante às grandes empresas de papel e celulose do Brasil, pois a região possui uma excelente localização, possui vasta malha rodoviária e está entre as duas maiores metrópoles do país e relativamente próxima aos centros industriais e aos portos. Uma vez adquiridas, sempre de vários proprietários do mesmo bairro e ao mesmo tempo, com intuito de pressionar – de forma covarde – os mais proprietários mais resistentes, ocorre a expulsão da população local, pondo fim à existência do bairro rural. Cria-se um verdadeiro “deserto verde”, levando a antiga propriedade familiar, passada de geração a geração, e que atendia ao mercado local e às necessidades familiares, a atender às demandas do mercado internacional, se articulando e se organizando a partir de uma lógica exógena e desvinculada totalmente do lugar. A celulose é um dos produtos de exportação do Brasil e sua venda tem sido destinada principalmente para a Rep. Popular da China, EUA e Países Baixos. Não é à toa que na vizinha São Luiz do Paraitinga (SP) já existe um movimento local de resistência ao avanço desenfreado da eucaliptocultura, causadora de impactos ambientais, sociais e na saúde do povo da roça, devido ao uso indiscriminado de formicidas e outros agrotóxicos em larga escala.
Afinal, quem realmente ganha com o avanço das plantações de eucalipto? A população do lugar eu sei que não é. Para os boias-frias, que são contratados de maneira precária por empresas terceirizadas a fim de realizar o plantio, o controle de pragas e a limpeza dos pés de eucalipto, eu aposto que não também. Já a Votorantim Celulose e Papel (VCP) e a Suzano Papel e Celulose eu tenho certeza que sim. Quem mais?
Ou as saúvas acabam com os eucaliptos, ou as empresas de eucalipto vão acabar com todo universo caipira da região. Vida longa às saúvas!
Pedra do Frade, no bairro do Sertãozinho. Foto: Alessandro Ferraz.
1. Localização:
Está localizada no bairro do Sertãozinho, zona rural do município Cunha (SP). Possui um paredão de 80 metros de altura (IGC, 1978). Está a 14 quilômetros da sede urbana municipal em distância absoluta. As coordenadas geográficas da Pedra, obtidas pelo SIG on-line DataGEO, do Sistema Ambiental Paulista, são as seguintes: 23º10’23.7″S; 45º02’51.1″W (Datum: Sirgas 2000).
Localização da Pedra do Frade no município de Cunha. Cartografia: Jacuhy.
2. Altitude:
Varia conforme o produto cartográfico, site geoespacial ou SIG utilizado. Assim, tem-se:
na carta do IBGE: 1.220 metros.
na carta do IGC: 1.246 metros.
no software Google Earth: 1.233 metros.
A Pedra do Frade está a 1.246 metros de altitude. Fonte: IGC.
3. História:
A Pedra do Frade está dentro do sítio do Frade, propriedade do Sr. José Wagner e pertenceu às terras da fazenda do Sr. Décio Mariano Leite, que era filho de Crispim Mariano Leite e neto do capitão Joaquim Mariano de Toledo, povoador da região. Tem esse nome, segundo a tradição oral, porque na época da escravidão morava um frade no local, que a usava como refúgio, pois era defensor dos escravizados. Segundo dizem, há em um dos lados da Pedra a entrada para uma gruta, que serviu como abrigo para o frade e para os seus protegidos, que fugiam dos horrores da escravidão. Um frade é um religioso católico, não necessariamente um clérigo, que pertence a uma ordem religiosa mendicante. Diferente dos monges, os frades não ficavam tão enclausurados nos mosteiros, mas exerciam seu ministério junto ao povo. São notórios defensores dos pobres e oprimidos.
Pedra do Frade e o Alto do Diamante. Foto: Jorge Prudente. Arte: Jacuhy.
É muito difícil atestar a veracidade sobre a existência desse frade, mas relatos como esse são repassados pelos moradores locais ao longo do tempo. Há um fundo de verdade por trás de todos eles. A escravidão foi uma triste realidade no município de Cunha desde os tempos coloniais. No século XIX, por exemplo, quase metade da população de Cunha era formada por negros escravizados. A Pedra do Frade está próxima ao bairro da Catioca, primitiva zona de ocupação e povoamento do município de Cunha (VELOSO, 2010). Região privilegiada e propícia à colonização, pois estava situada no caminho que ligava a Freguesia do Facão (Cunha) à Vila de Taubaté. Assim, foi desde o século XVIII toda fatiada em sesmarias. Muitas fazendas surgiram na região da Catioca. Poucas permaneceram até hoje, como é o caso da Fazenda Sant’Anna, um testemunho de uma época pretérita. Mesmo se o relato não passar de mito e lenda, é certo que na região da Pedra do Frade houve escravidão e que muitos negros, como forma de resistir à opressão, fugiam e procuravam abrigo em lugares remotos.
Em 1933, o terreno no qual está a Pedra do Frade foi arrolado no espólio do capitão Joaquim Mariano de Toledo (“Quim Mariano”), maior fazendeiro de Cunha no início do século XX, com a seguinte descrição: “(…) i) – Três partes de terras no lugar denominado ‘Frade’ (…)” (VELOSO, 2010, p. 251). Os moradores do bairro do Sertãozinho figuraram entre os primeiros moradores de Cunha a se converterem ao metodismo, ainda nas primeiras décadas do século XX.
Aspecto do relevo da região. Foto: Adilson Toledo.
A Pedra do Frade é um prolongamento da Serra do Alto do Diamante e se encontra em uma região de Cunha onde as montanhas com os cumes pedregosos embelezam ainda mais a paisagem rural. Mas por que Alto do Diamante? Do ponto de vista geológico é muitíssimo improvável encontrar essas pedras preciosas em Cunha. Porém, por estar sobre o embasamento cristalino, há grande ocorrência de pedras de quartzo nas terras cunhenses. Essas pedras eram antigamente confundidas com diamantes ou consideradas como indícios de que haveria diamantes no lugar. Daí a crença popular de que poderia haver diamantes naqueles outeiros, onde brotam quartzos de variados aspectos e cores. Outros afirmam que o lajedo de gnaisse, após uma chuva ou garoa, tendo ficado molhado, tem brilho intenso como diamante, ao refletir a luz do Sol. Parece que os afloramentos rochosos marcaram a toponímia local. É muito provável, por exemplo, que o bairro do Itambé, vizinho do Sertãozinho, tenha recebido esse nome em razão do aspecto da Serra do Alto do Diamante. Itambé é topônimo (litotopônimo, no caso) de origem tupi (“itá-aimbé”) e significa “pedra pontuda e afiada” ou “pedra de amolar”,podendo, por extensão, ser traduzido como “borda; beira; precipício” (NAVARRO, 2013). Seria uma possível referência ao afloramento rochoso do Alto do Diamante? Vejam as fotos e tirem suas conclusões.
Aspecto do Alto do Diamante. Foto: Jorge Prudente.
4. Meio físico:
A Pedra do Frade, bem como todo o território cunhense, está inserida dentro do Domínio Morfoclimático dos Mares de Morros, possuindo as seguintes características:
a) Hidrografia: a Pedra exerce a função de divisor de águas, separando as microbacias do ribeirão do Limão e a do ribeirão das Abóboras, ambos tributários do ribeirão Itaim, que deságua no rio Paraitinga, na divisa com Lagoinha (SP). No sopé da face noroeste da Pedra nasce o córrego dos Peros (IBGE, 1974).
b)Climatologia: ocorre o tropical de altitude típico, com suas estações bem definidas, podendo ocorrer geada no inverno. Entretanto, essa região localizada em uma área serrana é mais úmida do que boa parte do município, devido à altitude e à proximidade com a Serra do Mar, sendo comum a ocorrência de eventos orográficos (garoa, serração) de manhã ou na parte da tarde.
c)Vegetação: no passado pré-colonial, era a região coberta por Mata Atlântica. Atualmente o entorno da Pedra está ocupado por pastagens, em função da atividade pecuária que se desenvolve no lugar. Na proximidade topo do encontra-se uma pequena mancha de Floresta Ombrófila Densa em estágio médio (SÃO PAULO, 2020). No topo da Pedra, entre as lascas seixosas que se desprenderam do monólito, brotam flores rupestres, o que ressalta a beleza do lugar.
d)Geologia: área de contato das entidades tectono-estratigráficas Terrenos Embu e Terreno Serra do Mar, formada há 587 milhões de anos, durante a Era Neoproterozoica (CPRM, 2006). A geotecnia aponta ser o local sujeito a alta suscetibilidade a escorregamentos (naturais e induzidos), com rochas cristalinas no embasamento (NAKAZAWA; FREITAS; DINIZ, 1994). Há o predomínio de rochas ígneas plutônicas. Registra-se a ocorrência dos seguintes tipos de rochas: gnaisse, biotita, granito, monzogranito, migmatito, xisto, metapelito, quartzito, meta-arenito etc. A região está inserida no maciço do Corpo Granito Natividade da Serra (IPT, 2010).
e)Geomorfologia: está dentro da unidade morfoestrutural do Cinturão Orogênico do Atlântico, mais especificamente no Planalto do Paraitinga-Paraibuna. A Pedra em si é um penedo granítico, fruto da erosão diferencial e resultado do ataque dos agentes exógenos sobre o relevo. A Pedra está passando por um processo de esfoliação esferoidal. Do ponto de vista topográfico é a Pedra um esporão, um interrompimento da declividade da linha de crista da Serra do Alto do Diamante. Esta serra chega a atingir em seu cume a altitude de 1.640 metros. O relevo da região é todo orientando pela litografia, sendo o bairro do Sertãozinho um vale em “v”, aninhado entre dois esporões lançados do maciço central da Serra do Alto do Diamante. A Pedra do Frade é apresentada no Mapa Geomorfológico do Município de Cunha (IPT, 2010) como parte integrante das serras alongadas, com morros altos e fortemente ondulados.
f)Pedologia: o solo predominante é o cambissolo háplico (SÃO PAULO, 2007), ocorrendo ainda em associação com os latossolos amarelo e vermelho-amarelo típico. Ambos são distróficos. Apresenta textura média, é argiloso e típico de relevo fortemente ondulado, com profundidade variável de pouco até muito profundo.
Pedra do Frade, hipsometria e vizinhança. Fonte: IBGE.
5. Ecoturismo:
Apresenta enorme potencial, porém ainda permanece inexplorada. Além de ser um mirante fascinante, nela pode se desenvolver atividades como: montanhismo, rapel, trekking, mountain bike etc. As formações rochosas e altas montanhas do entorno são um espetáculo que merece ser apreciado por mais pessoas.
Pastagens dominam o entorno da Pedra do Frade. Foto: Alessandro Ferraz.
6. Acesso:
Antes de tudo, é importante ressaltar que a Pedra está em propriedade particular, sendo assim, o acesso até ela necessita de anuência prévia dos proprietários.Para chegar até o local, deve-se seguir pelos seguintes caminhos:SP – 171 (Rodovia Vice-Prefeito Salvador Pacetti, de Cunha até a divisa com o estado do Rio de Janeiro), em asfalto, por 3,3 Km, daí entra à direita e segue pela Estrada Municipal Benedito Galvão de França (Cunha – Catioca), em terra batida, por 10,3 Km; daí entra à esquerda e segue pela estrada que interliga o bairro das Abóboras ao bairro do Jericó, em terra batida, por 0,5 Km, daí entra à direita, subindo e seguindo pela Estrada do Limão/Sertãozinho, em terra batida, por 6,3 Km até a entrada da trilha que dá acesso à Pedra, que está à esquerda da estrada. É um caminho de tropa frequentado pelos íncolas locais, que liga o bairro do Sertãozinho ao bairro do Sertão dos Marianos, do outro lado da cadeia de montanhas. Da estrada do Sertãozinho segue-se por trilha, em direção ao Sertão dos Marianos, subida a pique, por 1,4 Km.
Imagem de satélite da Pedra do Frade. Fonte: EMPLASA, 2010.
c) Não temos nenhuma informação sobre as condições de trafegabilidade, no momento, da estrada que leva à Pedra do Frade.
d) O presente artigo contou com informações valiosas fornecidas pelas seguintes pessoas Sr. Jorge Prudente (sitiante no bairro do Sertãozinho), Sr. Adilson Galvão (quem sugeriu esta publicação) e pela guia turística Sra. Edna Maria. Nosso agradecimento a eles.
Bairro do Sertãozinho. Foto: Adilson Toledo.
8. Fotos:
Adilson Toledo, Alessandro Ferraz e Jorge Prudente.
9. Referências:
AB’SÁBER, A. N. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.
COMPANHIA DE PESQUISA DE RECURSOS MINERAIS (CPRM). Mapa geológico do estado de São Paulo. Escala 1:750:000. Breve descrição das unidades litoestratigráficas aflorantes no estado de São Paulo. São Paulo: CPRM, 2006.
GUERRA, A. T. Dicionário geológico-geomorfológico. 8. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 1993.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Lagoinha. Rio de Janeiro: IBGE, 1974. 1 carta topográfica, color., 4465 x 3555 pixels, 5,50 MB, jpeg. Escala 1:50.000. Projeção UTM. Datum horizontal: marégrafo Imbituba, SC, Datum vertical: Córrego Alegre, MG. Folha SF-23-Y-D-III-2, MI: 2770-2. Disponível em: < https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/mapas/GEBIS%20-%20RJ/SF-23-Y-D-III-2.jpg >. Acesso em: 18 jun. 2021.
INSTITUTO GEOGRÁFICO E CARTOGRÁFICO (IGC). Sertão. São Paulo: Governo do Estado de S. Paulo – Sec. de Economia e Planejamento: Plano Cartográfico do Estado de S. Paulo / Coordenadoria de Divisão Regional / Divisão de Geografia, 1978. Escala 1:10.000. Projeção UTM. Datum horizontal: marégrafo Imbituba, SC, Datum vertical: Córrego Alegre, MG. Carta SF-23-Y-D-III-2-SE-D, Folha: 083/131.
INSTITUTO DE PESQUISAS TECNOLÓGICAS (IPT). Esboço geológico do município de Cunha. Escala 1:50.000. São Paulo: IPT, 2010.
NAKAZAWA, V. A.; FREITAS, C. G. L.; DINIZ, N. C. Carta Geotécnica do Estado de São Paulo. Escala 1:500.000. São Paulo: Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), 1994.
NAVARRO, E. de A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo: Global, 2013.
ROMARIZ, Dora de Amarante. Biogeografia: conceitos e temas. São Paulo: Scortecci, 2008.
SÃO PAULO (Estado). Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente. Mapa pedológico do Estado de São Paulo: revisado e ampliado. São Paulo: Instituto Florestal (IF), 2017. 118p. : il. color ; mapas. 42×29,7 cm. Disponível em: <http://www.iflorestal.sp.gov.br >. Acesso em: 1 mai. 2021.
______. DataGEO – Sistema Ambiental Paulista: Infraestrutura de Dados Espaciais Ambientais do Estado de São Paulo (IDEA-SP). Disponível em: < https://datageo.ambiente.sp.gov.br/app/?ctx=DATAGEO >. Acesso em: 1 jun. 2021.
VELOSO, J. J. de O. A História de Cunha: 1600-2010 – Freguesia do Facão – A rota da exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.
Mapa concêntrico mostrando os pontos de referência próximos à Pedra do Frade. Cartografia: Jacuhy.
Mapas não são apenas registros geográficos. Com o passar dos anos, tornam-se importantes artefatos históricos, memórias feitas de papel e tinta de certas configurações locais, regionais e mundiais que nunca mais serão as mesmas. Por isso, todo projeto que disponibiliza acervos de mapas na rede para acesso público contribui para resgatar parte da história de nosso mundo.
Mapa climático do mundo, mostrando a distribuição das raças humanas e os reinos animal e vegetal. Data: 1.893. Fonte: Arquivo Digital da Biblioteca Pública de Nova Iorque.
Um exemplo recente foi dado pela Biblioteca Pública de Nova Iorque, que disponibilizou na internet para download e sob uma licença Creative Commons sua coleção de mais de 20 mil mapas, todos em alta resolução. As cartas podem ser acessadas na plataforma Map Warper. A coleção conta com registros elaborados do século 16 às primeiras décadas do século 20 que retratam a Europa, a América do Sul e os Estados Unidos, além, é claro, de uma grande coleção de mapas da própria ‘grande maçã’.
“Festa de Santa Rosalia, padroeira dos negros”. Autor: Rugendas. Data: 1835. Fonte: The New York Public Library Digital Collections
Não apenas mapas estão presentes no acervo digital da Biblioteca Pública de Nova Iorque. Ela conta também com muitas ilustrações, quadros e fotos em domínio público, todas disponíveis para serem baixadas, inclusive retratando o nosso país.
Após três séculos de colonização e ocupação no município de Cunha, o mapa representa as áreas florestais e de campos de altitude que sobraram. Excluindo as áreas de proteção integral do Parque Estadual da Serra do Mar e do Parque Nacional da Serra da Bocaina, percebe-se que muito pouco restou. A agricultura rudimentar e a pecuária extensiva, atividades econômicas históricas de nosso município, foram as responsáveis pelo desmatamento e degradação do lugar chamado “berço das águas”, devido ao grande número de nascentes. A boa notícia é que na última década a Mata Atlântica mostrou recuperação, aumentando a área florestada do município. Consciência ambiental ou refuncionalização das propriedades rurais de Cunha, que estão deixando ser agrícolas?
Certamente a refuncionalização das propriedades rurais, seja pelo turismo em ascensão ou pelo aumento das casas de veraneio de “gente de fora”, tem um impacto considerável nessa boa notícia. A recuperação florestal ocorre em virtude desse novo caráter nas propriedades rurais de Cunha, pois na agropecuária o valor do terreno está na capacidade produtiva, o que acarreta na retirada da mata para formação de pastagem ou para aragem do solo. Já para os veranistas, o valor do terreno está na beleza paisagística ou ainda na quantidade de nascentes que possui. Descarto a ideia de que as “pessoas de fora” tenham mais consciência ecológica do que as pessoas da roça de Cunha, pois a relação com terra se dá de forma desigual, impossibilitando qualquer conclusão. Enquanto para o veranista paulistano ou de outra cidade grande o terreno é usado apenas um local de descanso e lazer, para o caipira cunhense é meio de subsistência, lugar de trabalho, onde retira o seu sustento e de sua família, daí muitas vezes a necessidade da exploração intensiva do terreno íngreme e do solo pouco fértil. Outras diferenças sociais, como grau de instrução, seguramente ajudam a entender sujeitos de “mundos” distintos e as relações que estabelecem com o meio ambiente.
A fiscalização feita pela Polícia Militar Ambiental está mais intensiva na região nos últimos anos. Mas como ela é muito pontual, sozinha não ajuda a entender o fenômeno, embora tenha lá a sua contribuição para diminuição do desmatamento.
Outras conclusões do Inventário Florestal:
O município com maior área (dentro da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul paulista) de vegetação remanescente é Cunha com 35.048 ha., correspondendo a 26,3% de sua superfície;
Constata-se que a vegetação remanescente está dividida em 2.723 fragmentos, sendo 2.122, com área de até 10 ha.; 350, com 10-20 ha.; 171, com 20-50 há.; 53, com 50-100 há.; 20, com 100-200 há. e 7 fragmentos com área superior a 200 ha.;
No município de Cunha também existem expressivas áreas protegidas por Unidades de Conservação – 11.041ha. (8,3%).
Assim, verifica-se a importância da preservação privada, aquela feita por cada proprietário de terra, na conjuntura municipal. Isso, por conseguinte, gera áreas preservadas fragmentadas e aponta para necessidade da criação de corredores ecológicos, a fim de que os pontilhados verdes possam ser conectados e a restituição do ecossistema original possa ser mais efetiva
SÃO PAULO / INSTITUTO FLORESTAL. Inventário florestal da vegetação natural do Estado de São Paulo. São Paulo: Secretaria do Meio Ambiente / Instituto Florestal: Imprensa Oficial, 2005.
SILVA, R. F. B. et al. Land changes fostering Atlantic Forest transition in Brazil: Evidence from the Paraíba Valley. The Professional Geographer. 2016.