
Por João Lellis Vieira
Não se pôde falar em berço, que não venha logo a mente a caminha do bebê, com balanço ou fixo, de pau a pique ou dourada, conforme a bolsa dos respectivos genitores. A propósito: o Ilustrado dr. Laurindo Minhoto, velho professor e advogado, hoje em sua tebaida de Tatuí, conversava sobre essa história de se escrever “progenitor” como pai da criança, quando o termo exato, em boa linguagem e com vistas ao purismo gramatical, é “genitor”, que gera…
Estávamos em sua esplendida residência, em meio a livros, dicionários etc., no dia em que fomos representar s. exc. o sr. dr. Mario Lins, ilustre Secretario da Educação e Saúde Pública, no banquete das normalistas.
E o notável mestre, prosseguindo na sua explanação, latinista que é, insistia: Veja você, seu Lellis, “progenitor” e avô, isto é, pai do pai e não pai da gente! Explique isso numa das suas crônicas.
“Fiat voluntas tua”, seja feita a sua vontade. (S. Mateus, cap. XXII, v. 42). Por isso, obedeçamos ao mestre quando escrevemos: pai não é “progenitor”, é avô; pai é “genitor”. Confere. Toque o trole.
Fechado o parêntesis, voltemos ao berço. Berço e também a santa terrinha, onde se deixou o “imbigo” e onde se abriu o olhinho marreco pela primeira vez. Haja o cabra nascido em Caixa-Pregos ou Cascos de Rolha, seja o que for o povoado que lhe ouviu primeiramente o nhé… nhé… nhé… nhé… grande, pequeno, bonito, feio, atrasado ou progressista, ele o deve amar entranhadamente!
Pode ser que algum filho ingrato despreze o seu torrão, mas fique desde já acentuado, que no mínimo não é grande coisa… Sim! Urge cultuar a sua terra, porque é uma prova de bons sentimentos, de sensibilidade afetiva e de caráter eréctil. Para nós, sujeitinho pernóstico, que esconde o solo do seu nascimento, por ser uma terrinha modesta, simples, sem progressos e outros animais ferozes, não vale duas pitadas. Passe de largo. Até logo, oh coisa!
Estamos, nesta altura da crônica, seguindo para a invicta Cunha, a santa terrinha, como dizem saudosamente os portugueses, lembrando a poesia das suas aldeias e o encanto das suas paisagens.
Vamos lá passar um dia, domingo. Matar um pouco as saudades. Viemos dali com 10 anos, já se vão 51 janeiros puxadótes. Ha pouco ainda estivemos revendo os panoramas indescritíveis das suas visões serranas. É uma encantadora maravilha de clima. Um assombro de frutas as mais europeias, desde a cereja às nozes.
Povo admiravelmente bom. Criaturas que tiram a camisa do corpo para servir. Espírito simples, sem o artificio das máscaras móveis, sem fingimento dos gestos estudados. Concordia nos homens. Paz nas famílias. Tranquilidade nas almas.
Se alguma vez, uma ou outra divergência se assinala entre as ótimas pessoas do lugar, logo o ramo de oliveira se estende sobre os pequeninos desentendimentos e a vida prossegue no ritmo harmônico da melhor união de vistas.
Em 1937, nossa última visita a joia da Mantiqueira, chamada Cunha, recordamos saudosamente o “tempo será, de missiocó, laranja da China, tabaco em pó, quem é o mais durão, sou eu só só”… Depois, a tal de angina pectoris deu de brincar com a crônica, (mas levou no côco, foi-se! que a barreu! e isto porque a paquera era e é cunhense, rija, da boa) e só agora podemos dar um pulozinho aquele presépio que Nosso Senhor perpetuamente construiu nos picos da serra Quebra-Cangalha.
Quanta coisa linda e evocativa temos para ver e recordar na santa terrinha! O Cruzeiro, que o padre Bartholomeu Taddei, há 50 anos, plantou no Alto da Cadeia; o chafariz (ainda o mesmo) que o saudoso dr. Casimiro da Rocha inaugurou fazendo jorrar o líquido… que “pau d’água” não bebe; a chácara pitoresca do ilustre cunhense Juca Pereira; a casa do Chico Mendes, que acordava a população às 5 da manhã, tocando tambor numa caixa de querosene; a residência, com terraços, do inesquecível João José Vaz; o mercado antigo (quitanda) onde havia coqueiros magníficos com os devidos coquinhos amarelinhos; a Cachoeira, a Várzea do Gouvêa, a chácara da Calina, a chácara do Juca Bangu, o Bexiga, a chácara do Zé Joaquim, o sobrado do vigário padre Gomes, notável por suas pinturas internas representando episódios heroicos do Paraguai; a Igreja da Lapa, que caiu; a Igreja do Remédio, que também não existe mais; a capela de S. José, o Taboão, a escola do Rocambole, a fazenda Rio Abaixo, o sítio do Ladislau… Como tudo isto tem um sabor “irredutível ao verbo”, na frase de Eça de Queiroz!
E as festas de S. João, as fogueiras, a folia, a bandeira do Divino, os tocadores de viola, pandeiro, rufo… Havia um deles, um tal Claudio, turuna nas rufadas! E o “Império” com distribuição de cartuchos de doce. E a Semana Santa, todos de preto…
Vinham de outros lugares dois padres para ajudar o cônego Siqueira, um deles, o padre Velludo, com uns lenços de rapé muito molhados, estendidos na janela… pra enxugar!
E o “Tôco”, o cachorro do vigário, sempre ao lado do inesquecível sacerdote!
Vamos, rumo a Cunha, passar em revista, pela memória, todo esse tempo que não se apaga, corram os anos ou “carequem-se” as… cabeleiras!
Bendita sejas tu, oh terra do paraíso, onde se perpetua a saúde, onde se ouvem as harpas do heroísmo, cantando eternamente os salmos da vitória!

João Lellis Vieira nasceu em Cunha, a 15 de julho de 1880, e faleceu na cidade de São Paulo, a 5 de junho de 1949. Foi jornalista, historiador, cronista e poeta. Chegou a dirigir a Repartição do Arquivo Público do Estado de S. Paulo e o Departamento Municipal de Cultura da Prefeitura de São Paulo. Ajudou a criar o personagem “Juca Pato”, o qual se tornou o nome e o troféu do prêmio “Intelectual do Ano”, concedido anualmente pela União Brasileira de Escritores (UBE). O personagem Juca Pato, que personificava a frustração da classe média paulistana, foi imortalizado pelo chargista Belmonte. Esta crônica, “Rumo ao berço”, foi publicada no jornal “Correio Paulistano”, em 9 de março de 1941.