A jardineira, a praça da Matriz e a vagarosidade da vida

Cunha era um mundo à parte. A indiferença dos cunhenses para tudo o que era “de fora” era a regra. Isolada pela geografia, marcada por uma economia autóctone e de subsistência, o município margeou o século XX. Com sua ânsia pelo progresso e por suas agitações várias, o século XX chegou tarde em Cunha. Foi atingida, sim, pelas ideologias do tempo, mas tarde, no último quartel do século passado. Providencial atraso para muitas tradições, que aqui resistiram, mas inútil para os casarões de taipa e pau-a-pique, que sucumbiram em nome do progresso, das “modernas” e insossas casas e prédios de alvenaria. A praça da Matriz atual é outra coisa. Mesmo tombada e centro da vida social, não se iguala a que foi demolida. A praça era sinônimo de cidade.

Alguém pode comentar: “Nossa, Cunha parecia Paraty!” Sim, parecia mesmo. Todos os que aqui passaram – e deixaram suas impressões escritas – foram unânimes em sentenciar sobre o aspecto urbano colonial de Cunha. Cidade colonial sobre o outeiro, compacta, esbranquiçada, avistada de longe. Emilio Willems, que aqui esteve em 1945, observou: “Quase todos os prédios da cidade alta [da praça] são antigos, tendo alguns deles mais de cem anos. Casas térreas na maioria, apresentam elas, na sua arquitetura externa, o aspecto comum das pequenas cidades brasileiras do século XIX (…) na cidade alta não há mais de uma dúzia de prédios construídos nos últimos dez anos. Alguns destoam consideravelmente da arquitetura tradicional, mas, a despeito de todas as diferenças que os distinguem dos prédios vizinhos, a homogeneidade estética da cidade, vista como um todo, não foi quebrada”.

Aquele foi o tempo das jardineiras. Das estradas de terra e barro nos dias de verão. No inverno; de poeira. O sociólogo Emilio Willems no livro “Cunha – Tradição e Transição em uma cultura rural do Brasil” (1947) registrou a seguinte informação: “Até 1932 as famílias locais viajavam em carro de boi levando dois dias para percorrer os 49 quilômetros entre Cunha e Guaratinguetá. Os homens usavam o cavalo, mas fazer a viagem num único dia era considerado um tanto penoso. Atualmente, em tempo seco, a jardineira leva três horas para ir de uma cidade à outra. O automóvel percorre a mesma distância em uma hora e meia, mas em dias chuvosos, a estrada torna-se quase intransitável para veículos motorizados”.

Em 1932, em razão do conflito que se desenrolou nestas paragens, a estrada entre Cunha e Guaratinguetá foi arrumada e tornou-se transitável. Um legado positivo da guerra civil, que tantas desgraças nos trouxe. Ainda que a viagem fosse uma verdadeira saga. Sobretudo quando chovia. Maria de Lourdes Andrade Noronha, que foi professora no bairro do Monjolo, em 1948, relata, em seu romance “Desencontro” (1971), alguns contratempos vividos nesse trajeto: “O céu despejava água quase ininterruptamente. Por toda parte, alagadiços e estragos nas plantações. As professoras de sítio ficaram retidas uns dias em cidades vizinhas, até que as jardineiras de Cunha [chamada de Santo Antônio da Serra no romance] voltassem a circular pelas estradas então, intransitáveis (…). Depois de uns dias de sol, a empresa Rodoviária publicou que seus carros subiriam as serras sem maior perigo para os passageiros. A jardineira foi mal lotada com alguns viajantes de casas comerciais, poucos sitiantes e meia dúzia de professoras. Viagem de interrupções para desatolar daqui, contornar por lá, ou fazer descer os passageiros quando o terreno não oferecesse garantias. Assim mesmo ia tudo relativamente bem, porque isso não era surpresa. Só uma preocupação bailava em cada cabeça: recomeçara a chover. As águas do rio voltariam a subir até o instante em que tivessem de atravessá-lo. (…) Ao chegarmos a Cunha, comentavam as passageiras, nossa jardineira será alvo de desusada curiosidade por estar a cidade alheada do resto do mundo há vários dias. A previsão foi decepcionante. A gente do lugar, os ‘cunheiros’ como eram apelidados por troça, pelos habitantes de cidades vizinhas, não deram a menor importância à complicada viagem daqueles que vinham Ihes trazer algo para suas necessidades materiais e intelectuais: os representantes de firmas comerciais, as professorinhas de roça e o Correio. Na realidade os ‘cunheiros’ que assistiram ao desembarque dos viajantes estremunhados, quiseram apenas constatar, com os próprios olhos, se a empresa Rodoviária havia restabelecido o tráfego com esse punhado de gente e bagagens, que em verdade, conseguira transpor o rio. Com a chuvarada de todos os verões estavam acostumados a isso, e desta vez parece, nem ligaram aos jornais e à correspondência, amarrados com cuidado nas cabeças das cavalgaduras. Possivelmente porque não esperavam mais por elas, ou por acharem que vinha tudo velho, como alimento preparado há dias”.

É a crônica de uma época. Finda, mas inolvidável. Uma viagem pode ser esquecida, mas uma viagem em que se faz o transbordo no lombo de mula, porque a ponte submergiu alagada, não. Foi o tempo dos percalços, com sua pobreza e carestia. Todavia, um tempo em que a vida era vivida sem pressa. Parece que havia mais tempo para se viver tudo com a intensidade necessária, tempero indispensável para transformar dias comuns em momentos inesquecíveis.

O capitão-general Lobo de Saldanha e sua passagem pela Freguesia do Facão, em 1775

Representação ilustrativa do Governador Lobo de Saldanha, gerada por IA.

O relato vem da época que Cunha era Facão. Século XVIII, portanto. Feito pelo Capitão General Martim Lopes Lobo de Saldanha, que foi o 10º Governador da Capitania de São Paulo, de 14 de maio de 1775 a 15 de março de 1782.

Partiu de Lisboa e chegou ao Rio de Janeiro, centro da administração colonial. Do Rio navegou até Paraty. Daí até aqui, o Facão. E daqui em direção à capital, São Paulo. Viagem difícil. Uma aventura, deveras.

Tanto que, para sorte nossa, resolveu anotar. A carta narrando a viagem foi destinada a D. Luís de Almeida Portugal Soares de Alarcão de Eça Melo e Silva Mascarenhas (1729–1790), 2º. Marquês do Lavradio, Vice-rei do Brasil entre 1769 e 1778.

De sua passagem pela Freguesia do Facão, entre 3 e 5 de junho de 1775, consta o seguinte:

“No dia 2 de Junho dormi ao pé da serra, em caza do Souza, e no dia 3 subi a serra, o mais do tempo a pé pelo impraticável caminho, e vim dormir á Apparição; no dia 4 fomos ouvir Missa ao Facão e dormir na caza de José Alz’. No dia 5 ouvi Missa na Parahytinga e dormir á Rocinha, ao pé do morro; nessa noute e na manhã do dia 6 que vim dormir a Guaratinguetá, me acompanhou uma trovoada grande, com m.ta chuva.”

Deste curto relato, podemos extrair as seguintes informações históricas:

  • O porto de Paraty era a principal rota de entrada para S. Paulo e para o Sertão, ainda no último quartel do século XVIII.
  • A péssima condição da Estrada Cunha-Paraty (Estrada Real – Caminho Velho), cuja intransitabilidade era notória e temida por todos os viajantes. Basta observar que a comitiva do futuro governador gastou um dia inteiro, de cedo até a noite, dos Penha até a Aparição, tendo que escalar a serra mais a pé do que montado.
  • O bairro da Aparição, também muito recorrente na memória dos viajantes, era um pouso de tropas, lugar de descanso para os caminhantes que superavam a Serra do Facão.
  • O Facão já era uma freguesia (da Vila de S. A. de Guaratinguetá). Orago à Nossa Senhora da Conceição, com vigário próprio e missas regulares. Numa dessas, que o futuro governador assistiu, foi celebrada pelo padre Floriano da Silva Toledo (segundo lista dos párocos de Cunha elaborada por Carlos da Silveira, em 1906). Floriano era filho de Luiz da Silva Porto, fundador da capela da Boa Vista.
  • José Alz’., citado na descrição, morador do Facão, com casa no largo da Matriz, era José Alves (ou Álvarez) de Oliveira, português de Aveiro. Veio a falecer em Cunha em 1792. Foi casado com Margarida da Silva do Amaral, natural de Paraty. Mudou-se para Cunha, com sua família, por volta de 1742. Foi um dos assinantes do termo de ereção da Vila de Cunha, em 1785. Seus descendentes estão, hoje, assinando Querido e Alves de Oliveira como sobrenome.
  • A ocorrência de missa na capela de Nossa Senhora Sant’Anna do Paraitinga (conhecida como “Capela da Santaninha” ou “Santana Velha”). Ficava no bairro do Campo Belo. Foi construída entre 1736 e 1740. Dos registros mais antigos sobre ela, consta um batizado realizado em 1752. Ligada intimamente ao tropeirismo e ao fluxo que dele vem, conhece também a decadência após a abertura da estrada de ferro que ligou São Paulo à Corte, em 1877. No século XX, fica em ruínas, sendo demolida no ano de 1947. A atual capela de Santana do Paraitinga foi inaugurada em 1964; já a Capela de Santaninha, no Campo Belo, foi reconstruída no ano 2000. O Paraitinga, como se nota, também foi pouso de tropeiro.
  • A existência da Rocinha, hoje área urbana isolada de Guaratinguetá, originada de um antigo rancho de tropeiros.

O governo de Lobo de Saldanha, cuja memória a historiografia paulista tratou de execrar, foi marcado pelas tensões geopolíticas no sul da colônia, os litígios e os conflitos com os espanhóis pela região do Rio da Prata. Por ser militar, administrou bem essa questão, arregimentando tropas, formando batalhões, guarnecendo as fronteiras, defendendo as terras do Império Lusitano. Entretanto, inapto politicamente, arrumou muitas encrencas com o clero e com Câmara de São Paulo. Muitas vezes agindo passionalmente, arregimentou ainda muitos inimigos entre a elite e os historiadores locais, razão pela qual sua memória póstuma foi anatematizada.

Antes de encerrar a missiva, depois de experenciar a travessia pelos caminhos da Capitania, Lobo de Saldanha promete:

“Estou da esperança de povoar o sertão desta Capitania e da de V. Exª., para que nos seja mais fácil a comunicação pelo Paraty de terra.”

Preocupado com questões geopolíticas e picuinhas políticas, ficou na promessa a melhoria das vias terrestres de comunicação da Capitania de S. Paulo. Relatos posteriores, tanto do século XVIII quanto do XIX, reforçam a saga que era transitar entre Cunha e Paraty.

Ou ainda é?

Referências:
ARCHIVO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Publicação official de documentos interessantes para a história e costumes de S. Paulo: correspondencia de Martim Lopes Lobo de Saldanha (1775-1777). Vol. XLII. São Paulo: Escola Typographica Salesiana, 1903.
BARBIO, Marcelo. Uma teia de famílias. Disponível em: <https://marcelobarbio.net.br/pafg538.htm#12544>. Acesso em 23 jul. 2024.
BORSOI, Diogo Fonseca. A paisagem das trocas: a Vila de Cunha e a formação de uma economia de abastecimento interno na transição do século XVIII para o XIX. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, São Paulo, v. 28, p. 1–56, 2020.
LEITE, Lorena. Déspota, tirano e arbitrário: o governo de Martim Lopes Lobo de Saldanha na capitania de São Paulo (1775-1782). 2013. Dissertação (Mestrado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. Disponível em: http://www.teses.usp.br/…/8/8137/tde-31102013-105747/. Acesso em: 23 jul. 2024.
VELOSO, João J. de O. A História de Cunha (1600-2010): Freguesia do Facão – A rota da exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha / JAC gráfica e editora, 2010.

Um bairro em três municípios

Imagem de satélite da tríplice fronteira: Cunha, Guaratinguetá, Lagoinha, no bairro do Rio do Peixe. Fonte: Google Earth.

O bairro

A palavra “bairro” vem sendo usada desde o século X. Sua origem etimológica é controversa, provavelmente ibérica. Dizem que vem do árabe “bárri” (isto é, “exterior”) e este do árabe clássico بري (barrī), que significa “selvagem”. Segundo o Houaiss, é a “porção de território povoado nas cercanias de uma cidade; povoado, arraial, distrito”. Para a geografia, trata-se de “organizações rurais dispersas, estruturadas por grupos de vizinhança, e marcadas por uma consciência coletiva de pertencimento, emanada na convivência diária do homem do campo com seus parentes, vizinhos e parceiros”.

Localização do bairro, a extremo noroeste do município de Cunha. Cartografia: Jacuhy.

O Rio do Peixe é um bairro rural, um entre tantos do Vale do Paraíba paulista – exceto por uma característica – estar localizado entre três municípios: Cunha, Guaratinguetá e Lagoinha. Os moradores, por uma questão de proximidade, se identificam como lagoinhenses. A parte cunhense está no extremo noroeste do nosso município, longe da sede, portanto.

Capela de Santa Luzia do Rio do Peixe, localizada no município de Cunha, é o centro religioso da comunidade rural. Foto: Google Street View.

Os moradores expressam sua devoção na capelinha de Santa Luzia, padroeira do bairro, que é atendida pelos padres de Lagoinha. O predomínio da pecuária leiteira hoje é incontestável. Pastos e mais pastos, com manchas de eucalipto. No começo do século XX, a produção do bairro era escoada por tropas, sendo levada até o Rancho da Pedreira, para ser comercializada em Guaratinguetá. A lavoura de milho e feijão, associada à suinocultura e outras feituras caipiras, eram o sustento das famílias, sítios e fazendas. A vida girava em torno de um calendário agrícola, a exemplo de outros bairros de Cunha e região. Mas as transformações vivenciadas ao longo do século XX impulsionaram a pecuária, sobretudo a leiteira. A chegada dos mineiros, o êxodo rural, o aposento das tropas, a inviabilidade econômica das lavouras em uma ecologia dominada por montanhas íngremes… O Rio do Peixe se adequou às imposições econômicas.

Em direção a Cunha, pela SP-153. Vista do Rio do Peixe. Foto: Google Street View.

Atualmente, o bairro é atravessado por uma estrada asfaltada, um luxo que chegou tarde (no final do século XX). A rodovia João Martins Corrêa (SP-153) liga a cidade de Lagoinha ao bairro da Rocinha, em Guaratinguetá, conectando-se à rodovia Paulo Virgínio (SP-171). Isso abriu um leque de oportunidades econômicas para o bairro, não só com a valorização dos imóveis rurais, mas também com o turismo rural. Casas de veraneio e acomodações alugáveis foram erguidas.

O rio

Trajeto do rio do Peixe, da nascente à foz. Fonte: Carta Topográfica do IBGE.

O rio do Peixe, curso d’água, é um dos muitos afluentes do rio Paraitinga. Nasce na serra da Embira, que é uma das variações toponímicas da serra do Quebra-Cangalha, no bairro do Córrego da Onça, município de Lagoinha. A nascente, assim como o bairro, também se situa em tríplice fronteira: Lagoinha, Guaratinguetá, Aparecida. A altitude supera até os 1.500m. Uma das nascentes, inclusive, é perto do topo do pico da Embira, que com seus 1.541m de altitude, é o ponto culminante da Quebra-Cangalha e do município de Lagoinha.

De lá, o rio do Peixe marcha para o oeste, encachoeirando-se serra abaixo, até alcançar o bairro da Santa Rita. Rumando na mesma direção, alcança o pequeno vale encaixado que batizou. Daí em diante, seu curso natural serve de limite entre Cunha e Guaratinguetá, desenhando nosso território até a altura do bairro Retiro das Palmeiras, de onde, convertendo-se para o sul, vai desaguar no Paraitinga, no bairro do Jaguarão.

O rio do Peixe, em trecho encachoeirado no município de Lagoinha. Foto: Danilo de Paula. Data: 2022.

Esses vales, como o rio do Peixe, embora modestos, são, no contexto do Domínio Morfoclimático dos Mares de Morros, vias naturais de comunicação e ocupação, favorecendo o assentamento humano. Foram, desde tempos imemoriais, preferidos por indígenas, bandeirantes, tropeiros e sesmeiros. Ao se constituir as fazendas, núcleos originários de muitos bairros rurais, procuravam sempre instalar-se nessas planuras exíguas, nessas baixadas que permitiam explorar a motricidade hídrica, tão útil outrora e ainda agora. Por isso, quase todo sítio de bairro rural cunhense localiza-se nessas acanhadas planícies fluviais.

As linhas

Desse modo, muitas vezes, os limites de determinado bairro se confundem com os limites fisiográficos da paisagem, porque o bairro “é um lugar, uma área qualquer, com características mais ou menos próprias”, podendo ser “um vale, uma cabeceira ou nascente de algum ribeirão, uma praia (…) É o povo que lhe dá o nome e determina, com limites mais ou menos imprecisos, a área abrangida pelo mesmo”. Mas, dificilmente, os bairros se confundem com os limites intermunicipais.

Vídeo com imagens aéreas do Rio do Peixe, nas proximidades da tríplice fronteira, feito pelo canal Guará Vídeo Drone, em 2023.

Os limites políticos e territoriais estabelecidos pelo Estado pouco importam. São formalidades cartoriais. O cotidiano é regido pelas relações humanas, pelo dinamismo econômico, pela solidariedade vicinal e por heranças culturais e históricas, que remontam às primeiras famílias que ali se estabeleceram. Estar em uma tríplice fronteira não se sobrepõe a fatos sociais de maior envergadura. Antes de serem desse ou daquele município, os moradores se identificam e se sentem pertencentes ao bairro do Rio do Peixe.

Antiga escola rural do bairro do Rio do Peixe, em ruínas, em meio à braquiária. Símbolo do êxodo rural. Foto: Google Street View.

O torrão precede o território, tal como o lar precede o Estado-Nação. Um bairro rural se sustenta por laços que linhas imaginárias jamais poderão confundir.

Referências:
Bairro rural-bairro urbano: um revisão conceitual, artigo de Bruno Maia Halley, publicado na GEOUSP – Espaço e Tempo, em 2014.
Cartas topográficas “Lagoinha” e “Guaratinguetá”, do IBGE, com primeira edição em 1973.
Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, publicado em 2001.
Google Earth e Google Street View, de onde foram tiradas as imagens e usados como fontes de consulta.
Negro Político, Político Negro – A Vida do Doutor Alfredo Casemiro da Rocha, de Oracy Nogueira, 1992.

Maior acidente rodoviário de Cunha

Imagem da série “Hoje na História de Cunha”, da página “Jacuhy“, no Facebook.

Um ano chuvoso

1958, “o ano que não devia acabar”, foi muito chuvoso. Diluvial. A Estrada Cunha-Paraty não era pavimentada, nem em seu trecho paulista muito menos no fluminense, “novela” que se encerrou há poucos anos. Nem a Cunha-Guará (SP-171) ainda era asfaltada. Na época das águas, era tudo lama. Quem viveu esse tempo – que não foi meu – e está vivo para contar deve lembrar. Viajar para Cunha no verão era uma aventura. E das bem perigosas. Nem o Fusca dava jeito. Aliás, com peças importadas da Alemanha, o Fusca ainda era “Volks”. Não era popular e nem carro de pobre. Sim, o “besourinho” já foi carro de rico, daqueles que a playboyzada desfilava na Rua Augusta. Um acinte. Como uma obra de arte da indústria automobilística pode ser pilotado por gente tão cafona? Se fosse o New Beetle, dava para entender… Nem mesmo o fato de ter sido um carro feito especialmente para a Alemanha Nazi justifica. O fusquinha foi a única coisa decente que saiu de lá. A única. Até nisso o Fusca é exclusivo.

Mas essa não é uma história sobre o Fusca. É sobre um micro-ônibus lotado. E é uma tragédia. O maior acidente rodoviário que ocorreu em nossas estradas. O fato vai se apagando na memória, mas a nossa missão é não deixar esquecer. Tem histórias bonitas e tem as tragédias, no fim tudo é história. Quem já viu a cruz de pedrinhas do Morro Grande? Se não viu, é porque o DER não está roçando a margem da rodovia. Mas está lá. “Lugar assombrado”, diziam. “Morreu muita gente”, alertavam. Pelo menos era assombrado quando se passava a pé e a à noite por ali, quando a Cunha-Paraty era uma estrada fantasma. Hoje, com o vai-e-vem de carros, de mineiros e farofeiros invadindo Paraty, não sei se ali há almas penadas, sempre afoitas a barulho e luzes. Depois da meia-noite qualquer lugar é assombrado. Até o quarto da gente.

A poça de água

Jardineira da empresa Santa Teresinha, que fazia a linha Guaratinguetá-Cunha, transitando pela SP-171 antes de ser pavimentada. Foto: Charles Machado. Década de 1950.

O acidente ocorreu na manhã do dia 10 de fevereiro de 1958, no Morro Grande, local hoje assinalado por uma cruz, onde recentemente o D. E. R. realizou uma obra de contenção no talude da margem superior. O micro-ônibus (ou melhor, a jardineira) da empresa Santa Teresinha, que perfazia o itinerário Guaratinguetá-Paraty, despencou ribanceira abaixo, com 200 metros de abismo. Sete pessoas morreram e 25 ficaram feridas. Do veículo restou apenas a lataria. A carroceria desapareceu, a capota ficou a 100 metros para trás e o assoalho ficou preso ao chassi. Pelo morro abaixo, os pertences dos passageiros se espalharam, misturando-se com os cacos de vidro, sangue, malas reviradas, trapos de roupas e lama. Muita lama. Uma cena desoladora.

O motorista ao tentar desviar o micro-ônibus lotado de uma poça de água na estrada (estava chovendo muito na região e a estrada estava um lamaçal), deu forte guinada na direção. Com o movimento, o micro-ônibus bateu em uma cerca, ficando após o choque o veículo sem direção, não obedecendo ao volante. Daí segui desgovernado em direção ao precipício. Perceberam os passageiros e o motorista o que ia ocorrer e entraram em desespero. Saltou então motorista e cobrador para fora e apenas mais 2 passageiros tiveram a mesma sorte a tempo. O micro-ônibus rolou pelo acentuado declive, deixando passageiros na queda. O resgate chegou logo, mas foi difícil tirar os feridos e mortos do local, devido ao terreno escorregadio.

Ainda sobre o que motivou a queda, há uma versão diferente, apresentada ao professor Victor Amato dos Santos por seu primo Zezito Freire (José Carlos de Oliveira Freire). Zezito faleceu em dezembro de 2020, com 98 anos de idade, de Covid-19. De “lucidez invejável até o fim”, relatou por e-mail, em 27 de janeiro de 2014, o seguinte: “dentre os mortos naquele acidente [o que estamos tratando agora], o único que aconteceu, foram meus tios Jesuíno Rubem e Miloca- Emília Freire Rubem – irmã de meu pai. Tio Zezinho (assim era conhecido) casou-se e foi morar em São Luiz. Depois voltou a Paraty trazendo dois filhos. Era um bom mestre de música e último maestro que tivemos foi aluno dele. Aposentou-se e viajou com a mulher para rever a terra de sua saudade. Faleceu quando o chofer dormiu e deixou o ônibus tombar do alto do morro, já chegando a Cunha. Hoje, aqui, só existem netos dele. Os filhos homens faleceram, uma das filhas também e as outras (três) Yeda, Sildete e Nolia Vita não moram aqui.” (grifo nosso). Porém, outros motivos foram levantados na época.

A própria superlotação do coletivo não deixou de ser considerada como provável causa do acidente. No micro-ônibus estavam 34 passageiros (6 deles crianças), além do motorista e cobrador. O correspondente do “Estadão” não deixa de anotar que, embora as causas do “desastre” estivessem sendo apuradas pelo corpo técnico da Polícia Civil, era “opinião generalizada que a precariedade dos carros que a empresa [Santa Teresinha] põe a serviço da linha Cunha-Parati foi o motivo principal da lamentável ocorrência”. Obviamente, a causa maior era considerada, naquele momento, a quebra do eixo de direção, após a batida em uma cerca. Certamente, o estado do micro-ônibus não era dos melhores. O motorista foi considerado covarde e insensível ao saltar primeiro e deixar os passageiros (muitos eram mulheres e crianças) dentro do veículo, para tombar na pirambeira. Isso despertou a ira dos cunhenses.

Mortos e feridos

Morreram na hora 5 pessoas: Jesuino Castro Rubem e sua esposa Emilia Freire Rubem, Miguel Alves Moreira e Alcidio José Santana. Todos de Paraty (RJ). E João Ambrosio Mota, sitiante cunhense. Duas vítimas viriam a morrer no hospital, devido à gravidade dos ferimentos. Elas não foram identificadas nominalmente pelas reportagens. Vinte e cinco passageiros ficaram feridos, sendo 4 deles crianças. Foram todos transferidos para Santa Casa de Cunha, recém-inaugurada. Alguns em estado mais grave foram logo retransferidos para Guaratinguetá. Outros estavam mais em estado de choque do que feridos. Em Guaratinguetá, no dia 11, os feridos menos graves foram removidos para as suas respectivas cidades de origem, pois muitos deles eram do Rio de Janeiro e de outras cidades do Vale do Paraíba.

Escaparam ilesos o motorista Sinezio Aleixo, o cobrador Jeronimo Cruz e mais dois passageiros, que, quebrando o vidro de uma das janelas, saltaram do veículo antes que ele tombasse ribanceira abaixo. Ou saíram pela porta mesmo? Há versões desencontradas desse detalhe.

Em meio a tantas tristezas e lutos, fato curioso relata o professor e historiador Victor Amato dos Santos à página Jacuhy, através dos “comentários”. Escreve ele: “os dois primeiros mortos dos cinco citados na publicação são o tio Jesuíno Castro Rubem e a tia Miloca (Emília Freire Rubem, irmã do meu bisavô Crisanto Freire). Eles moravam em Paraty. Minha avó Nina Freire, sobrinha deles e prima do Zezito, sempre contava sobre a tristeza daquela situação do acidente. Ela mencionava inclusive sobre uma criança de colo que, não se sabe como, foi lançada para fora do ônibus, na queda pela ribanceira, e achada ilesa no meio do mato. O bebê chorava muito, e, graças a isso, pôde ser encontrado e resgatado.”. Uma das 6 crianças que estavam à bordo. Um milagre em meio ao desastre.

Paraty em luto

Muitas vítimas do acidente eram do município vizinho de Paraty. Naquele tempo, não havia estrada que ligava Paraty à cidade do Rio de Janeiro, a Rodovia Rio-Santos ainda era um sonho. Daí, para chegar na capital fluminense, os paratienses passavam por Cunha e iam até Guaratinguetá, para de lá seguir para o Rio.

Tão logo foram identificadas as vítimas, o prefeito de Cunha Antonio Accácio Cursino pegou o seu carro e se deslocou até Paraty para comunicar as famílias das vítimas do acidente ocorrido. Não havia linha telefônica entre as duas cidades. Nem outro meio de comunicação mais rápido.

No final da tarde chegaram em caravana a Cunha, o prefeito de Paraty, o vigário daquela localidade, os médicos e os veículos para transportar os corpos dos mortos e feridos para a cidade litorânea. Paraty enlutou-se pela tragédia.

Prisão do motorista

O delegado regional de Polícia de Guaratinguetá, dr. Wilson Souza e Silva, prendeu em flagrante o motorista Sinezio Aleixo, que tinha na época 29 anos de idade. A prisão foi mais por cautela do que por convicção, pois os fatos ainda estavam sendo apurados, mas a população de Cunha, comovida e transtornada, queria linchá-lo, culpando-o pelo acidente. Não foi possível apurar se o motorista continuou preso, se foi acusado pelo acidente ou absolvido.

“Era o dia da pessoa”

João Ambrosio, que tinha fazenda no Itacuruçá, tomou o ônibus na entrada da Catioca, menos de um quilômetro aquém do trecho onde ocorreu o acidente. Acabou sendo uma das vítimas fatais, morrendo ainda no local. Seu corpo foi transportado para Guaratinguetá, onde foi sepultado. Um infortúnio.

O batismo de fogo da Santa Casa de Cunha

Avenida Padre Rodolpho e Santa Casa de Cunha. Final da década de 1960. Foto: Museu Municipal Francisco Veloso.

A Santa Casa de Misericórdia Nossa Senhora da Conceição, inaugurada em condições insatisfatórias em agosto de 1954, viveu o seu “batismo de fogo”. Sendo o hospital mais próximo, coube a ele atender e acudir os feridos que chegavam com muitas fraturas, traumatismos e perdendo sangue. Sobre esse período da nossa Santa Casa, relata o professor João Veloso (2010, p. 358): “(…) a Santa Casa funcionou precariamente, graças à dedicação exclusiva das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, que não mediram sacrifícios ante as condições sofríveis da época, além da ajuda benfazeja de alguns cunhenses (…) permaneceu, segundo informações, sem água nem luz, um curto período de tempo [1954-1959] (…) época de muita dificuldade para a recém-inaugurada Santa Casa, o que refletia no próprio atendimento à população”.

A despeito de todas essas adversidades e precariedades, a Santa Casa não “negou fogo”. Seu corpo de médicos, enfermeiras e freiras salvaram e trataram muitos feridos. Havia apenas dois médicos em Cunha: dr. Fued Serafim e dr. Daher Pedro. E quando começou a chegar os feridos, mesmo sem recursos, atuaram com perícia, amenizando o sofrimento de uns e evitando a morte de outros.

Recebeu a Santa Casa remédios da cidade de Aparecida e um balão de oxigênio de Guaratinguetá. E alguns enfermeiros também foram enviados.

Contou a Santa Casa, como sempre, com o espírito solidário e cristão dos cunhenses, que vendo a gravidade da situação e a falta de pessoal do hospital, escalaram o Alto do Cruzeiro para prestar socorro, doar sangue e acudir os feridos que chegavam. Tal ato não passou desapercebido do correspondente enviado pelo jornal “Estadão”, que faz questão de anotar na reportagem: “Tiveram dolorosas repercussões as consequencias desse lamentavel desastre. O comercio e as repartições publicas cerraram suas portas. E a população da cidade, num belo gesto de solidariedade humana, acorreu ao local do desastre e à Santa Casa local, procurando todos, cada um a seu modo, prestar aos feridos o auxilio que fôsse possível.”. Cunha, mesmo ante à tragédia, sendo Cunha.

Consequências

A linha de ônibus de Guaratinguetá a Paraty foi suspensa após o acidente. Ônibus só voltou a circular pelo trajeto em agosto de 1958, quando a concessão da empresa Santa Teresinha foi retirada e repassada à Empresa Rodoviária São José, da família Abdalla, que colocou veículos novos para fazer a linha e enfrentar a precariedade das estradas de Cunha.

O trauma foi grande para a população local. Além da situação decrépita dos veículos de transporte coletivo que serviam aos munícipes, ficou evidente o perigo que as péssimas condições das enlameadas e alcantiladas estradas de Cunha ofereciam aos transeuntes. Por ser um risco real à vida de muitos, a necessidade de asfaltar os acessos a Cunha entrou na pauta política local. Em 1967, foi asfaltada a Rodovia Paulo Virgínio (SP-171), que interliga Cunha a Guaratinguetá. Em 1986, no governo de Franco Montoro, foram asfaltados mais 22 quilômetros de estrada (SP-171, Rodovia Vice-Prefeito Salvador Pacetti), da cidade de Cunha até a divisa com o estado do Rio de Janeiro. O trecho que faltava pavimentar para ligar a SP-171 à Estrada Parque Comendador Antonio Conti (RJ-165) foi concretizado apenas em 2016, uma obra milionária e demorada, feita pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, finalizada após longa novela de embargos e judicializações, na qual coube ao Ministério Público Federal o papel de vilão, incensando teses e argumentações ambientalistas irracionais e, por conseguinte, radicais. Uma estrada do século XVIII, a Real, que corta um Parque Nacional, o da Bocaina, criado em 1977, como compensação ambiental para o Complexo Nuclear de Angra dos Reis. Hoje vital para o turismo de Cunha, todavia não menos perigosa.

Fontes:
COM 27 passageiros, o micro-onibus desgovernado rolou pela ribanceira. Folha da Manhã. p. 11, 11 fev. 1958.
DIMINUIU o eleitorado de Cunha. O Estado de S. Paulo, p. 13, 6 ago. 1958.
GRAVE desastre de onibus em Cunha. O Estado de S. Paulo, p. 15, 12 fev. 1958.
NOTAS policiais. Folha da Manhã. p. 6, 12 fev. 1958.
Relato de Victor Amato dos Santos (músico, professor e historiador cunhense).
Relato de Zezito Freire (José Carlos de Oliveira Freire), enviado à página por Victor Amato dos Santos (a quem agradecemos a constante contribuição com o Jacuhy).
VELOSO, J. J. de O. A História de Cunha (1600-2010). Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.

José Luiz Pasin (1939 – 2008), um intelectual iluminado

Professor José Luiz Pasin: um mestre generoso, uma mente brilhante. Foto: Centro UNISAL.

De História foi o grande professor. Entusiasmado e cativante, profundo conhecedor do tempo que passou e que, nas suas aulas, parecia nunca passar… Foi testemunha ocular de tudo que falava? Um viajante do tempo com quem tivemos a honra de conviver, aprender, absorver? Havia um “que” de magia que nos envolvia em sua exposição… Das suas aulas, a única coisa que não trazíamos eram anotações sobre o conteúdo. “Não podemos perder tempo com anotações”, dizia o mestre. Falava com tanta propriedade e com tanto brilho nos olhos, que nos arremessava em uma espécie de túnel do tempo imaginativo e nos colocava à mesa das velhas fazendas vale-paraibanas, a observar o cotidiano duro dos negros nos terreirões e o vai-e-vem dentro da Casa Grande. Eloquente em suas ideias e explanações. Democrático e cortês na escuta. Educador exímio, cativou uma geração inteira de estudantes a se apaixonar pelo seu Vale do Paraíba. E me incluo entre os tais.

Da minha janela na Roseira Velha, quando eu abro de manhã, eu faço meu diálogo com o mundo. É indiferente morar em Roseira Velha, Rio de Janeiro, Londres, Paris ou Roma; tudo é muito relativo. O que importo é o que faço no espaço onde moro; é a minha relação diária com as pessoas e com a cultura. Eu sempre digo que o meu país, antes de tudo é o Vale do Paraíba, inserido no Brasil. Estas fronteiras geográficas, estas raízes, que constituem a Serra da Mantiqueira, de um lado, e a Serra do Mar, do outro, elas impelem a minha caminhada e eu não saberia viver fora deste Vale do Paraíba“.

Pasin, em entrevista de 1987

Um vulto, um ícone a circular pelos corredores da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, sua segunda casa. Um idealista, um sonhador, crente que foi no potencial dos jovens para construção de um mundo melhor. Mais que de Humanas, um humanista por formação e de coração. História Regional foi sua praia, além de Paraty. Mestre em História do Brasil. O Vale do Paraíba, sua pátria (dizia ele), foi mais que um objeto de pesquisa: uma causa sagrada. E dela foi sumo sacerdote por décadas. Um apologista da nossa importância, por vezes ignorada. Criador do Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV), rebento que emergiu após o primeiro simpósio de história regional que promoveu, lá nos idos de 1972. Da cultura regional foi o defensor, o incentivador. Ajudou a fundar museus, arquivos públicos e a tombar imóveis, sobrados e fazendas. Ativista cultural e provocador. Um espírito inconformado e contestador, sujeito suspeito e subversivo para as autoridades que inventaram os Anos de Chumbo. Acabou preso no 5º Batalhão de Infantaria Leve de Lorena. Mas muito mais foi amado e querido. E por todos que tiveram o prazer de conhecê-lo: amigos, alunos, colegas, empresários, conhecidos e até pelos políticos.

Ruth Guimarães e Professor Pasin, dois ícones da cultura valeparaibana. Foto: Botelho Netto.

Um legítimo cavalheiro que levava luz aonde ia, com bom humor, simpatia, cordialidade. Foi ecologista quando isso ainda era novidade. Para ele, já naquele tempo, o cuidar do ambiente era uma questão ética. E olha que ninguém se preocupava com aquecimento global… Abnegado, um verdadeiro mecenas, a colocar suas posses e bens em favor das grandes causas de seu tempo e suas: luta pela preservação ambiental e pela memória e história do Vale do Paraíba. Um intelectual completo e, ao mesmo tempo, um signo de contrariedade a esse tipo, pois sempre foi uma pessoa amável e simpática.

Monarquista convicto, porque via no antigo regime fonte de legitimidade, identidade e apreço histórico. Na política foi do Partido Verde, um defensor das minorias e da socialdemocracia. Estudou os indígenas, os negros, os tropeiros, os pobres, as mulheres, a classe média, os barões do café do Vale de ontem. Sua sociabilidade e generosidade não se restringia ao trato, também adentrava no seu campo de estudo.

“Eu fiz o curso de História nos anos 60, me formei em 1962, na Faculdade Salesiana de Lorena, considerada, na época, uma instituição universitária de renome nacional. Como acontecia nas universidades do país, havia uma necessidade de se discutir a realidade brasileira, os problemas sociais, reforma agrária, situação da classe operária, da universidade… tudo isso já repercutia aqui, na Faculdade Salesiana”.

Pasin, em entrevista de 2004

Fez da sua Fazenda Boa Vista, em Roseira, reserva ecológica e faculdade. Um espaço de educação ambiental. Procurou viver aquilo que acreditava e pregava. Coerência foi a sua marca registrada.

Zé, como era chamado, tinha luz no nome. E teve luz na vida. E mesmo mais de uma década sem ele, um feixe irradia sobre todos os que debruçam na pesquisa histórica regional, pois ainda é fonte indispensável. E de tanta luz que esparramou, iluminou uma geração inteira de jovens estudantes de História, ávidos em desvendar os meandros, as circunstâncias históricas pretéritas. E esse lume não cessará tão logo.

“Eu tenho procurado ao longo da minha vida ser coerente. As coisas que eu penso, as coisas que eu digo, principalmente nas salas de aula, nos cursos que eu ministro, nas conferências, nas entrevistas e nas atitudes em relação à minha própria vida. Então, eu parto da ideia de que a minha vida é dedicada aos movimentos culturais e aos movimentos ambientalistas”.

Pasin, em entrevista de 1987

Paulista, natural de Aparecida, havia adquirido uma casa em Cunha pouco antes de morrer, vitimado por câncer. O Zé tinha a simplicidade dos caipiras e a sofisticação dos aristocratas. Queria descansar entre as montanhas e sentir o gostoso frio dos Mares de Morros. Todavia, o infortúnio não o permitiu e o nosso amigo Zé partiu. Deixando, além de muita saudade, uma vasta herança a todos nós: a imprescindível bibliografia histórica da nossa região. Lê-la é perpetuar a sua memória, honrar a sua vida de valor.

É, Zé, quero acreditar que você, agora um espírito iluminado, ainda caminha entre nós ou pela Estrada Real. Que habita, encantado, os velhos casarões que você lutou para que continuassem em pé, assombrando o descaso, a indiferença e os demolidores que se atreverem. Você sempre estará de alguma forma entre nós, com a mesma personalidade forte e presença marcante que tinha nas conversas, nos convivas, saraus, aulas, palestras, lançamentos de livros, coquetéis, conferências, escarafunchando arquivos empoeirados, criando coisas novas para preservar coisas antigas… E sempre com um largo sorriso.

José Luiz Pasin foi mais que um intelectual das letras e ideias. Engajou-se nos movimentos de preservação do patrimônio histórico, arquitetônico, cultural e ambiental do Vale do Paraíba. Foto: Botelho Netto.

Zé, Zé Luiz, professor Pasin, você fez História em todos os sentidos.

Com gratidão e admiração eterna, de um dos seus muitos ex-alunos.

No Centro UNISAL, de Lorena, Pasin, enquanto professor universitário, formou gerações de professores e historiadores da nossa região. Foto: Centro UNISAL – Lorena.

José Luiz Pasin (Aparecida – SP, 27 de agosto de 1939 – Guaratinguetá – SP, 11 de janeiro de 2008), foi um historiador, pedagogo, escritor, poeta, articulista e professor brasileiro. Confira abaixo um pouco da sua brilhante trajetória intelectual.

Instituições e organizações em que atuou:
Instituto de Estudos Valeparaibanos (IEV)
Centro Universitário Salesiano de São Paulo (Centro UNISAL) – Lorena
Professor de História de escolas públicas e de colégios privados do Vale do Paraíba
Museu Frei Galvão – Guaratinguetá
Academia Paulista de História
Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo
Colégio Brasileiro de Genealogia
Instituto Histórico e Artístico de Paraty
Instituto Genealógico Brasileiro
União Brasileira de Escritores
Conselho Regional de Museologia do Estado de São Paulo (COREM)

Núcleo de Pesquisa Regional do Centro UNISAL
Faculdades Integradas “Teresa D’Ávila” (FATEA) – Lorena
Faculdade de Roseira (FARO) – Roseira

Revista e jornais para quem escreveu:
Revista Ângulo
Folha de São Paulo
Valeparaibano

Prêmios recebidos:
Prêmio Cultural “Eugênia Sereno” – 2001
Prêmio de História Regional – 2001

Livros e monografias (levantamento parcial) de sua autoria:
Os Ciclos Econômicos do Vale do Paraíba (1962)
Poetas de Guaratinguetá (1974)
Algumas notas para a história do Vale do Paraíba: desbravamento e povoamento (1977)

Poetas de Aparecida (1978)
O Visconde de Guaratinguetá (1979)
Guaratinguetá: tempo e memória (1983)
Vale do Paraíba: ontem e hoje (1988)

Pasin: cem anos de uma família italiana no Brasil (1988)
Panorama da Literatura do Vale do Paraíba (1995)
O Instituto de Estudos Valeparaibanos e a preservação do Patrimônio Ambiental e Cultural do Vale do Paraíba (1999)
Barões do Café: titulares do Império no Vale do Paraíba Paulista (2001)
A Jornada da Independência (2002)
O Outro Euclides: o engenheiro Euclides da Cunha no Vale do Paraíba, 1902-1903 (2002)
Vale do Paraíba: a Estrada Real, Roteiros & Caminhos (2004)
Catálogo da sala Euclides da Cunha (2005)
Vale do Paraíba: história e cultura (2007)

Fontes:
ALMEIDA, D. A. de. Seis anos sem o Prof. Pasin, um dos maiores historiadores do Vale do Paraíba, 10 jan. 2014. Disponível em: < https://unisal.br/seis-anos-sem-o-prof-pasin-um-dos-maiores-historiadores-do-vale-do-paraiba/ >. Acesso em: 29 set. 2021.
ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE SÃO PAULO (ALESP). Requerimento de pesar pelo falecimento de José Luiz Pasin. Autor: Deputado Aloísio Vieira. Partido: PDT. Ano: 2008. Disponível em: < https://view.officeapps.live.com/op/view.aspx?src=https%3A%2F%2Fwww.al.sp.gov.br%2Fspl%2F2008%2F02%2FPropositura%2F11034233_775638_propositura_RequerimentodePesar_775638%255B1%255D.doc&wdOrigin=BROWSELINK >. Acesso em: 29 set. 2021.
BASTOS, M. Instituto de Estudos Valeparaibanos cuida do Patrimônio Ambiental do Vale. 2019. Disponível em: < http://unisal.br/hotsite/recicle/instituto-de-estudos-valeparaibanos-cuida-do-patrimonio-ambiental-do-vale/ >. Acesso em: 29 set. 2021.
CARLOS, E. O Prócer da História. 8 abr. 2018. Disponível em: < http://redescobrindoovale.blogspot.com/2018/04/o-procer-da-historia.html >. Acesso em: 29 set. 2021.
ENTREVISTA com José Luiz Pasin. O Lince. Ano 2, n. 20, ago. 2008. Disponível em: < http://www.jornalolince.com.br/2008/ago/entrevista/pasin.php >. Acesso em: 29 set. 2021.
INSTITUTO DE ESTUDOS VALEPARAIBANOS (IEV). Sobre. Disponível em: < http://iev.org.br/sobre >. Acesso em: 29 set. 2021.
SINDICATO DE HOTÉIS, BARES, RESTAURANTES E SIMILARES DE APARECIDA E VALE HISTÓRICO (SP) – SINHORES. Morre o Historiador José Luiz Pasin, 11 jan. 2008. Disponível em: < http://sinhoresaparecida.blogspot.com/2008/01/morre-o-historiador-jos-luiz-pasin-11.html >. Acesso em: 29 ago. 2021.

15 de setembro de 1785 – Cunha conquista sua independência política

Arte ilustrativa sobre a separação territorial que se fez em 1.785. Cunha desmembrava de Guaratinguetá e se tornava vila e município. Fonte: Jacuhy. Série: Hoje na História de Cunha

Em 15 de setembro de 1.785, a Freguesia de Nª. Sª. da Conceição do Facão se emancipava politicamente da Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá, constituindo-se a partir de então em município. Mudou de status e também de nome, passando a se denominar Vila de Nossa Senhora da Conceição de Cunha, uma homenagem ao Governador da província de São Paulo na época, Capitão-General Francisco da Cunha e Meneses, o que sugere que o nobre militar português teve um papel decisivo no processo que culminou em nossa independência política e administrativa, que – certamente – sofreu forte oposição da elite guaratinguetaense, que não queria a secessão de uma de suas mais prósperas freguesias. Como uma vila do Estado do Brasil, colônia ultramar do Reino de Portugal, a elite cunhense foi incumbida de construir a Câmara, composta pelos “homens bons” (isto é, os ricos) e responsável pela administração da vila (o cargo de prefeito é invencionice republicana), a Cadeia Pública e o Pelourinho, símbolo do domínio português. Assim, estaria composta a organização do poder local, necessário para o funcionamento da vila dentro do sistema colonial. No Auto de Ereção da Vila de Cunha consta como motivos da criação da nova vila a numerosa população (para época) e a grande distância de Guaratinguetá, que dificultava o funcionamento da Justiça e do Governo Civil na Freguesia do Facão.

Antigo sobrado onde funcionava a Câmara, Fórum, Cadeia Pública (no térreo) e Prefeitura (com o advento do regime republicano). O velho sobrado, erguido no final do século XVIII, com grossas paredes de taipa de pilão, foi consumido por um incêndio criminoso em 1.961, levando consigo toda a documentação histórica de Cunha. Condenado e em ruínas, foi demolido. Hoje, no local, há a Delegacia de Polícia de Cunha. Foto: Arquivo do Museu Municipal Francisco Veloso. Data: década de 1.940.

O Auto de Ereção da Vila de Cunha foi muito celebrado pelos cunhenses. Assim que foi lido pelas autoridades, foi levado à Igreja Matriz, onde ficou exposto em frente ao Santíssimo Sacramento, sendo abençoado pelo vigário da paróquia. Toda a elite agrária se fez presente, juntamente com demais membros da sociedade local. A emancipação foi recebida com grande contentamento por todos.

Segundo pesquisa de VELOSO (2010), as autoridades constituídas da Vila de Cunha em 1.791 eram: Antonio José de Macedo – JUIZ ORDINÁRIO; José Borges dos Santos – VEREADOR; Antonio Monteiro de Gouvêa – VEREADOR; e Luiz Manoel de Andrade – PROCURADOR.

Cunha foi a primeiro município a se desmembrar de Guaratinguetá e será seguida por Lorena, três anos depois, em 1.788. Ao todo foram dezesseis desmembramentos (consequentes e subsequentes) da Vila originária. Os últimos municípios a se desmembrarem do que foi o antigo território da Vila de S. Antônio de Guaratinguetá foram Potim e Arapeí (de Bananal), ambos em 1.991.

Recentemente, em 2.017, após várias audiências públicas, a Câmara de Cunha retificou a data de aniversário do município, abandonando o tradicional 20 abril, e adotando o 19 de março como data festiva, alusão à fundação do município, tomando como marco a construção da Capela de Jesus, Maria e José da Boa Vista, em 1.724. A retificação da celebração anual vinha sendo concitada pelo professor João Veloso em artigos publicados no “Jornal da Montanha” desde o início da década de 2.010. Entretanto, a sugestão só vai ganhar força após o aparecimento do grupo “Memória Cunhense”, no Facebook. Ali, em meio as postagens de fotos e fatos, a ideia vai repercutir e ganhar apoiadores, desejosos que o equívoco histórico fosse sanado. No começo do ano de 2.017, o professor, músico e historiador Victor Amato dos Santos tomaria a frente das audiências públicas, subsidiado e apoiado pelo próprio professor Veloso, explanando as razões e a necessidade da retificação da data de comemoração. O 15 de setembro de 1.785, data da emancipação política-administrativa, evento comemorado de praxe em outros municípios, será preterido em virtude do 19 de março de 1.724, data adotada como fundação do município. Houve quem discordasse desta data e preferisse aquela, porém a maioria da edilidade votou favorável à retificação para o dia 19 de março. O Projeto de Lei foi sancionado pelo Executivo Municipal, na íntegra, vigorando desde então.

Fontes:
Fundação SEADE. Desmembramento dos Municípios Paulistas. Disponível em: http://www.seade.gov.br/visualizacao/desmembramentosp/. Acesso em 13 de set. de 2019.
VELOSO, J. J. de O. A História de Cunha: 1600-2010. pp. 274-277.

Postagem feita originalmente na página Jacuhy, em 15 set. 2019, na série “Hoje na História de Cunha”.