Bocaininha da Boa Esperança é um dos trezentos bairros rurais de Cunha. Localizado no extremo norte do município, dentro da área rural do distrito de Campos Novos, o lugar está a mais de 1.000m de altitude. Por um vale encaixado e estreito corre o rio Paraitinga, que banha o bairro, marcando a paisagem do lugar. O Paraitinga desce, engatinhando, as grimpas do Planalto da Bocaina e adentra o território cunhense nessa região. Diáfano ainda, porém menos volumoso e mais pedregoso. Daí o porquê de seu som, constante, integrar o cenário. A estradinha, que o margeia e se esgueira entre ele e as montanhas, vai para São José do Barreiro. O limite municipal é ali pertinho, um pouco mais arriba.
Rio Paraitinga, em um trecho encachoeirado, assim que adentra o território cunhense. Foto: Bota na Lama. Data: jun. 2018.
Tudo é planalto. As exíguas planícies de inundação e terraços fluviais (várzeas) constituem a exceção. Um pouco mais ao norte, há os Campos Naturais de Altitude. Paisagem agreste e lindíssima. Única em nossa região. Merece ser visitada.
Localização do bairro no mapa de 1945, de pousos da Folia do Divino, elaborado por Alceu Maynard Araújo.
Ipês, araucárias, braquiária, franjas de capoeira descendo as encostas. Montanhas mais pontiagudas e menos bojudas diferem o relevo de lá com o nosso de cá. É mar de morros ainda, mas com ondas e cristas. Ao sopé: o capim, a cana, a estrada, o bambuzal, a ponte, o mangueiro e o sítio ao centro. Disposição de elementos que apontam para a pecuária leiteira como atividade econômica principal. Mas já foi a agricultura. E já teve até tropeiro, como o Pedro Mineiro.
A caminho da Bocaininha. Foto: Cláudio Luiz de Mello
Aspecto do relevo no bairro da Bocaininha da Boa Esperança. Foto: Cláudio Luiz de Mello.
A caminho de São José do Barreiro. Estradas, estradinhas e araucárias. Foto: Erick Sobreiro.
Como todo bairro que se preze, a comunidade da Bocaininha também possui uma igreja, orago de Santa Luzia, uma escolinha (já fechada) e a vendinha. As casas são dispersas pelo vale. Em 2002, moravam no bairro 48 famílias. Hoje, bem menos. De acordo com o Censo 2022, do IBGE, no setor censitário em que está inserido o centro do bairro, havia 110 moradores.
Capela de Santa Luzia, no bairro da Bocaininha da Boa Esperança. Foto: Sandra Gomes. Data: 2023.
Dizem os mais antigos que habitavam a região, antes dos brancos chegarem, os indígenas “Piquira”. Esse povo originário se escondia naquele sertão, fugindo da colonização, que avançava continente adentro. Resistiam à catequização, à escravização imposta pelos portugueses. O bairro tem sua origem no início do século XIX, com a formação da Fazenda Bocaininha, propriedade da família Cardoso de Miranda, de São José do Barreiro. Outra fazenda da região, que deu nome ao bairro, foi a Fazenda Bocaininha. Na década de 1920, migram para a região famílias mineiras, trazendo consigo a pecuária leiteira.
Parte da Carta Topográfica do IGC, escala 1:10.000, mostrando a topografia e o núcleo do bairro. Fonte: Instituto Geográfico e Cartográfico de S. Paulo (IGC). Data: 1978.
O bairro está a 45 Km, a nordeste, da cidade de Cunha. E a 17 Km da vila de Campos de Cunha, sede do distrito. Isolado, Bocaininha é reduto da cultura caipira, autêntica manifestação da Paulistânia. A Folia de Reis é a tradição do lugar. Seus paramentos, dança, música, reza e almoço trazem mais vida à paisagem que a natureza, generosamente, caprichou.
Folia de Reis da Bocaina – Sr. Alfredo Virgulino. Arquivo: Museu Francisco Veloso. Data: década de 1990.
Na década de 1940, a fim de conhecer o Brasil e fazer uma nova regionalização do país, o recém-fundado IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) organizou diversas expedições por todos os rincões do território nacional. Nessas expedições coletavam dados, tiravam fotos, analisavam rochas e o relevo, confeccionavam mapas e croquis, entrevistavam pessoas e, assim, obtinham um panorama geral dos lugares por onde passavam. Em um período analógico, com comunicações limitadas e anterior a era do sensoriamento remoto, essas expedições eram o meio mais eficaz de obter informações geográficas de uma porção do território. Geralmente, contavam com geógrafos, geólogos, cientistas sociais e outros profissionais de áreas afins. Uma dessas expedições passou por Cunha. Foi realizada entre os dias 29 de outubro e 2 de novembro de 1943 e foi liderada pela professora Mariam Tiomno. Partiu de Guaratinguetá, passou por Cunha e Paraty e terminou em Angra dos Reis. O relatório foi publicado no Boletim Geográfico do IBGE, em 1944. Sobre o município de Cunha foi relatado o seguinte:
“As várzeas são aproveitadas para plantio do arroz e as encostas para mandioca. O arroz também se desenvolve nas encostas por ser úmida a região. Notam-se, ainda, culturas associadas de milho e feijão. Continuando a viagem, atinge-se a fazenda d do Sr. Jose Verresqui, onde se dá a confluência do rio Cedro com o Paraitinga numa várzea larga bem cultivada. O caminho segue depois o rio Sapê, que consta na carta como rio Facão. O vale é profundo e encaixado entre as colinas. Nas encostas dominam os pastos onde ocorrem, às vêzes, capões fechados. No vale há pequenas plantações de milho, feijão e arroz. Do alto vê-se bem a grande regularidade daquela superfície de erosão muito antiga.
Croqui da Estrada Cunha-Guaratinguetá, atual Rodovia Paulo Virgínio (SP – 171), no final dos anos 1940. Autor: Carlos Borges Schmidt. Fonte: Boletim Paulista de Geografia, 1950.
Em Teodoro Cassinho passa-se para a vertente do Jacui; o antigo nível de erosão é marcado pelos seixos bem rolados vistos na margem da estrada. A vegetação apresenta-se mais abundante e exuberante. O feto arborescente surge pela 1ª vez. Encontra-se a araucária em grande quantidade. É bem observada a derrubada de árvores para produção do carvão vegetal exportado para o Rio, na razão de 3.000 sacas por mês.
O hábito de preparar a terra em ‘mutirão’ ou ‘butirão’ é aí notado. Pelo vale do rio Facão, que a estrada acompanha desde Curralinho, atinge-se Cunha. O vale apresenta-se bastante aprofundado e os sucessivos ciclos de erosão são marcados em Curralinho por níveis de seixos rolados. Nas margens do rio cultiva-se o trigo para consumo local.
As maiores produções do município são o carvão de madeira e o milho.
A sua exportação é, entretanto, pequena por ser empregado na alimentação do gado, principalmente suíno. Cêrca de 40.000 cabeças são exportadas anualmente. Dos produtos agrícolas o mais exportado é o feijão, depois a batatinha.
A produção se escoa pela estrada de Guaratinguetá. Há um comércio muito rudimentar com Parati; Cunha envia-lhe feijão e toucinho e recebe em troca peixe e parati. Êsse intercâmbio não se pode desenvolver pela carência de estradas. Cessando o movimento das tropas de Minas e São Paulo para Parati, passando por Cunha, a estrada ficou completamente abandonada não restando atualmente quase nada da mesma.
Cunha, situada sôbre um pequeno esporão, numa altitude de 960 metros, possui cêrca de 250 casas, tôdas antigas, inclusive a Igreja, e uma população de 1.100 pessoas. Goza de um clima temperado e de um regime de chuvas de verão e sêca no inverno. As chuvas vão de novembro a janeiro e são frequentemente acompanhadas de trovoadas e de fortes ventanias. A geada é aí outro fator climático importante, os seus efeitos se fazem sentir até o mês de novembro, daí não plantarem café.
Rua Dr. Casemiro da Rocha, centro de Cunha. Foto: Mário de Sampaio Ferraz. Data: 1940.
De Cunha para Parati segue-se de início pela estrada de rodagem de Tabuão, antigo caminho das tropas melhorado durante a revolução de 1932. O caminho atravessa o morro do Apertado donde se divisam dois ciclos de erosão, um cortando as camadas e formando a peneplanície e outro constituído pelo vale. Entre êles há esporões intermediários, num dos quais situa-se a cidade de Cunha.
A vegetação se caracteriza por uma espécie de cerrado conhecido com o nome de ‘carrascal’.
Vêem-se plantações de feijão que abrangem grandes áreas, pequenas culturas de arroz e campos de pastagens com capim gordura.
No bairro de São José da Boa Vista, existe uma capela aonde, nos períodos de grande sêca, os moradores vão em romaria orar para que chova.
Adiante, atinge-se o morro do Divino Mestre, numa altitude de 1.500 metros, distingue-se num 1º plano a peneplanície dissecada muito confusa. Apresenta níveis intermediários, num dos quais se vê a cidade de Cunha. Nessa peneplanície de 900 a 1.000 metros de altitude há um tipo de rocha homogênea, gnaisse-granítico, que exerce ação determinante na disposição de rêde hidrográfica, em ‘pata de ganso’. (…)”
Além do ciclo econômico do carvão, pelo qual Cunha passou e é pouco lembrado, outras dados interessantes trazidos por esse relatório são: a importância que a suinocultura para Cunha; o cultivo de arroz nas áreas de várzea, atualmente, desaparecido; a existência de manchas de Cerrado em nosso município (“carrascá”, na linguagem popular), recentemente confirmadas por uma pesquisa sobre botânica; o casario colonial da cidade ainda intacto; a relação umbilical existente entre Cunha e Paraty, complementando-se; a péssima situação da Estrada Cunha-Paraty, grande gargalo para o desenvolvimento local.
O prefeito de Cunha na época (Antonio Accacio Cursino) pediu aos geógrafos que levassem a situação dessa estrada ao conhecimento dos políticos da capital, que era o Rio de Janeiro; e por fim, a mais importante observação dessa expedição, que mudou a interpretação geomorfológica sobre o Domínio dos Mares de Morros, pois ficou claro nessa expedição que esse tipo de relevo evolui e foi dissecado ao longo do tempo pelo forte processo erosivo ao qual é submetido devido às condições climáticas tropicais.
Estrada Cunha-Paraty, em seu trecho fluminense, sem calçamento. Acervo: Prefeitura Municipal de Paraty. Data: década de 1940.
O ciclo do carvão vegetal, que se encerrou no final da década de 1960, foi responsável pela devastação dos últimos remanescentes de Mata Atlântica original em nosso município. Também foi o responsável pelo desbravamento do então Sertão do Rio Paraibuna. Havia carvoarias e serrarias onde, atualmente, é a sede do núcleo de Cunha, do Parque Estadual, no bairro da Paraibuna. Esse ciclo só foi freado e encerrado com o advento do Código Florestal, em 1965, e posteriormente, com a criação do Parque Estadual da Serra do Mar, em 1977, que não só resguardou o que restou da Mata Atlântica em Cunha, como recuperou parte da área que foi devastada, com práticas eficazes de reflorestamento. Os grandes veículos de nosso estado, como a “Folha de São Paulo” e “O Estado de São Paulo”, também foram responsáveis pela feliz finalização desse ciclo em Cunha, pois realizaram nos anos de 1960 e 1970 diversas matérias denunciando a destruição da Mata Atlântica nos sertões do Vale do Paraíba, apontando o sertão do rio Paraibuna como uma área sob ataque da sanha devastadora das madeireiras e carvoarias.
Imagem de capa: montagem ilustrativa, com fotos retiradas de banco de imagens.
A Serra do Mar – a “Paranapiacaba”, na língua tupi, que significa “lugar de onde se vê o mar”, através da junção de paranã (mar), epîak (ver) e aba (lugar), conforme tradução de Frei Gaspar da Madre de Deus – não é uma cordilheira, um dobramento moderno como é o Andes. É uma cadeia de montanhas alinhadas. Não por acaso, foi entendida pelos colonizadores portugueses, tão afeitos ao Medievo, como uma muralha.
Relevo de origem complexa, sobreposição de diversos eventos geológicos marcam sua evolução. Sua estrutura geológica aponta para formação do antigo continente Pangeia (há 300 milhões de anos) e para a traumática separação da Gondwana (180 milhões de anos), que resultou no nascimento da América do Sul e da África. Esse relevo escarpado, aliás, é herança dessa separação.
Mas não só isso. O tectonismo foi intenso, de modo que a parte mais alta desse relevo antigo foi totalmente destruída e foi se depositar no fundo do mar ou na Bacia Sedimentar do Paraná. O que vemos hoje da Serra do Mar, seus pontões rochosos, é uma belíssima exposição natural de rochas graníticas que foram formadas a 30 quilômetros de profundidade. O intemperismo e os sucessivos processos erosivos foram esculpindo esse relevo, salientando as rochas mais resistentes. As rochas mais fracas não tiveram vez. Viraram sedimentos.
Serra do Marumbi – Km 60. Foto: Arthur Wischral. Data: 1928. Fonte: Instituto Moreira Salles (IMS).
Ranhuras erosivas fazem parte da paisagem natural, mesmo em áreas cobertas de Mata Atlântica. São resultantes dos altos índices pluviométricos, condicionados pela proximidade com o oceano e pela altura das montanhas, que ultrapassam com folga a cota dos 1.000 metros, combinados com a declividade acentuada, por vezes abrupta, de suas escarpas. O solo raso, sustentado por lajedos, são incapazes de manter-se incólume nesses lugares. Todos esses processos geológicos recobertos por floresta tropical resultaram em uma paisagem de beleza cênica ímpar, de cartão-postal, como a mostrada acima, no município de Morretes (PR).
Duas falhas transcorrentes pré-cambrianas perlongam a Serra do Mar e seu reverso. Geólogos interpretam as escarpas da serra nesse trecho como resultado de abatimentos e basculamentos de blocos de falha. Dada a continuidade topográfica da Serra do Parati com o planalto, é provável que elas representem a parte frontal de erosão remontante da borda do planalto entre os dois maciços resistentes dos promontórios sustentados pelas rochas alcalinas da ilha de São Sebastião e o granito do Parati.
Origem e evolução da Serra da Mantiqueira e da Serra do Mar. Fonte: Revista Pesquisa FAPESP. Data: 2021.
Para o geógrafo Daniel Souza, do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP), a Serra do Mar e da Mantiqueira foram “moldadas por incessantes movimentos da superfície e pela erosão causada por rios e pelo clima, principalmente a chuva”. O geólogo Claudio Riccomini, do Instituto de Geociências da USP, acrescenta: “além do clima, há uma forte influência dos movimentos tectônicos, mesmo nos últimos 20 mil anos, na modelagem e na erosão do relevo”. Essas serras já foram uma só, há 130 milhões de anos, quando se formaram, conforme mostra o infográfico acima. Chegaram a atingir incríveis 4 mil metros de altitude! (hoje, não chega a 3 mil…). Mas nada dura para sempre. Tremores sísmicos intensos estremeceram a ligação e o divórcio foi inevitável. Desse distanciamento surgiu o Vale do Paraíba, abertura propícia para o acúmulo de sedimentos oriundos da erosão das duas serras. Esse acúmulo gerou a chamada Bacia Sedimentar de Taubaté, importante feição geológica de rifteamento no Brasil. Há 15 milhões de anos, os rios Paraitinga e Paraibuna, que encorpavam o volume do rio Tietê, foram, finalmente, capturados por esse vale novo, mudando de rumo, e direcionando para o Rio de Janeiro, como é atualmente.
A separação dessas serras trouxe três consequências:
A formação de reservas de petróleo nas bacias sedimentares de Santos e Campos, localizadas no litoral dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro;
Uma nova configuração da rede hidrográfica regional, separando as bacias do Paraíba do Sul e a do Tietê, pelo soerguimento do chamado Alto Estrutural de Arujá;
Vicariância, pois a separação de comunidades de animais e plantas, favoreceu a formação de novas espécies.
Na foto, ao fundo, vê-se a Serra dos Três Picos, com altitudes que variam entre 1.500 – 1.600 metros, dentro do município de Paraty. Captura tomada da Estrada Cunha-Paraty (RJ-165).
A evolução não para. As encostas do Serra do Mar continuam erodindo, se desgastando. A serra vai se distanciando do mar, ampliando a planície costeira.
Foto de capa: mapa “Brasile Centrale” (parcial), autor: Herbet Bayer, Instituto Geographico de Agostini (1952).
Vista da zona fronteiriça entre Cunha e São Luiz. Foto: Sítio Cotinga. Data: Maio de 2017.
Cunha, em função do tamanho do território (1.407,250 km²), limita-se com 10 municípios.
A sudoeste de nosso município se encontra o limite com São Luiz do Paraitinga, mais precisamente com o distrito de São Pedro da Catuçaba. Uma área pioneira no povoamento do município de Cunha. Os topônimos tupis dos bairros de lá corroboram esse pioneirismo, essa antiguidade: Catioca, Itambé, Itacuruçá, Itaim etc. A vila da Catuçaba, antigo povoado de São Pedro, também é de origem tupi (“katu” – bom + “sab(a)” – lugar = “lugar bom”). Distrito luizense desde 1944, Catuçaba hoje é a referência urbana daquela região cercada de antigas fazendas e bairros rurais que abrange, além do próprio município de São Luiz, Cunha e Lagoinha.
Vales encaixados, em “V”, dominam a região. Foto: Pilatus Expedições. Data: 2011.
O limite é todo terrestre. A linha divisória (e imaginária) segue por cerca de 28 quilômetros, partindo de Lagoinha até encontrar o limite com Ubatuba. Parte é permeável; outra, não. A parte permeável, onde há intercâmbio, fica ao norte, nas proximidades com Lagoinha. Há duas ligações por estrada de terra batida. Nem sempre estão em boas condições de trafegabilidade, por falta de manutenção periódica das municipalidades. Uma das ligações, via Fazenda Sant’Anna, é pelo bairro do Mato Dentro (Cunha) até alcançar o bairro do Chapéu Grande (São Luiz do Paraitinga). A outra ligação é pelo bairro do Ferraz (Cunha), que segue por um vale, até alcançar os contrafortes da Serra do Campo Grande e dobrar no bairro do Pinga (São Luiz do Paraitinga).
Mar de Morros: as montanhas que servem como limite entre Cunha e São Luiz. Foto: Michel Salazar.
Criado em 1977, o Parque Estadual da Serra do Mar impermeabilizou a parte sul da região fronteiriça, já no Planalto do Paraibuna. Por ser uma unidade de conservação de proteção integral, a ocupação humana ali, que era rarefeita, foi sendo progressivamente restrita e banida, regenerando em Mata Atlântica as áreas ocupadas e as trilhas abertas de outrora. Nas cercanias tinha até bairro conhecido: Sertão do Palmital. Inexistente atualmente, vencido pelo avanço da floresta tropical.
Serra do Campo Grande: aspecto. Foto: Rodrigo Leite Massiere. Data: 201[?].
O morro pedregoso mostrado na foto desta postagem está a 1.580 metros de altitude. A Serra do Campo Grande em alguns pontos chega superar os 1.600 metros. Por isso, ali a fisionomia é diferente do entrelaçado esverdeado de árvores, arbustos, cipós e plantas da Mata Atlântica característica. A altitude moldou nova fisionomia. É domínio de um ecossistema chamado de “campos de altitude” que, segundo a biogeografia, a despeito das controvérsias sobre sua origem, são típicos dos pontos mais elevados dos sistemas serranos do sudeste brasileiro, que se soergueram principalmente durante o período geológico do Terciário. Um delicado relicto escondido no topo da serra, tal qual na Serra da Bocaina. Fez bem o governo estadual em determinar a preservação daquela área, através de unidade de conservação.
Alto do Diamante. Foto: Alessandra Ramos. Arte e dados sobre a foto: Jacuhy.
As velhas fazendas que compõem a paisagem cultural daquelas bandas; as que sobraram, diga-se; são mais uma evidência que foi por ali que começou a ocupação do nosso município. A mais soberba, exemplo do neoclássico rural paulista, a Fazenda Sant´Anna fica por perto. Mas são as modestas, ecléticas por questões de pobreza, que podem ser vistas com mais frequência. São janelas para um tempo que já se foi… Muitas estão abandonadas, atestando a mudança dos ciclos econômicos que fizeram a riqueza e a história. Perderam a função dentro da organização espacial que emergiu no século passado. A pecuária de corte e leite, atividade agora predominante, é causadora de despovoamento, de êxodo rural. Desoladas, à mercê do tempo, as fazendas acabam virando taperas. E por fim, ruínas.
Fazenda do Mato Dentro quando ainda estava em pé. Hoje, está em ruínas. Foto: Pilatus Expedições. Data: 2011.
Mais que laços culturais, religiosos e genealógicos em comum, essa região de fronteira, no entorno da Serra do Campo Grande (também chamada de “Alto do Diamante”), se constitui em uma paisagem bastante interessante. Ainda está vivo o folclore caipira em suas diversas manifestações, sobretudo nas folias, bandeiras e pousos da Festa do Divino Espírito Santo, festa ontológica dessa gente paulista há mais de quatrocentos anos.
Parte da Carta Topográfica “Lagoinha”, do IBGE, mostrando o limite entre os dois municípios, o desenho e a altimetria do relevo local.
Os limites municipais são meras convenções do Estado, visando garantir ordenamento territorial, criar jurisdição. A paisagem cultural, filha que é da história viva, supera todas as artificialidades. Ali é tudo uma gente só, um mesmo lugar.
Referências: Google Earth, Google Maps, A História de Cunha: 1600-2010 (João Veloso), IBGE (Cidades, Cartas Topográficas, Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos – CNEFE), Dicionário de Tupi Antigo (Eduardo Navarro), Terra Paulista: histórias, arte, costume (CENPEC), A Passarinhóloga (blog), As transformações na arquitetura rural paulista pré-moderna (Marcelo G. Augusto).
Publicação original (Facebook):
Observação: Este texto, após ser compartilhado em nossa página no Facebook, obteve um excelente alcance. E surgiram alguns questionamentos sobre o conceito de fronteira, na forma como utilizei no título. Pois, atualmente, o termo fronteira tem sido usado para designar a linha divisória entre países; entre unidades federativas, seria divisa; entre municípios (como no caso), limite. Essa informação vem sendo ventilada, inclusive, em páginas de Geografia. Mas é meramente semântica; não conceitual, como se faz sugerir. Tal distinção não encontra eco nos autores clássicos da Geografia. “Fronteira”, para Raffestin (1993), é uma zona (geográfica) camuflada em linha. Portanto, como conclui Ferrari (2014), “o limite não é visível fora do mapa, mas é justificado pelo marco de fronteira simbolizando a linha, enquanto a fronteira é uma zona geográfica, um espaço que pode, conseqüentemente, criar relações que ultrapassem o limite[…]”. Sugestões de leitura sobre o assunto: RAFFESTIN, Claude. Por uma Geografia do Poder. São Paulo: Ática, 1993. FERRARI, M. AS NOÇÕES DE FRONTEIRA EM GEOGRAFIA. Perspectiva Geográfica, [S. l.], v. 9, n. 10, 2014. Disponível em: https://e-revista.unioeste.br/index.php/pgeografica/article/view/10161. Acesso em: 18 nov. 2024.
Cunha vista da Serra da Bocaina. Foto: Pedro Máximo. Data: 2011.
A cidade de Cunha vista da Pedra Grande, na Serra da Bocaina, próxima à divisa com Silveiras. Está a 34 quilômetros em distância absoluta, na direção sudoeste. O interessante dessa perspectiva é que aparece a Serra do Alto do Diamante ao fundo, que está a cerca de 55 quilômetros de distância da Pedra Grande. Após essa serra, temos ainda o bairro do Sertão do Palmital e mais cerca de 5 Km (em termos absolutos) de terras cunhenses até se chegar ao limite com São Luís do Paraitinga, divisa formada com cotas altimétricas inferiores ao do Alto do Diamante e vertente do rio Paraibuna. A foto na perspectiva noroeste-sudoeste revela um pouco da extensão de nosso município, maior do Vale do Paraíba e o único no estado circundado por três 3 serras principais (além de outras ramificações), como é o caso do Alto do Diamante, do Alto Grande e do Campo Grande. Todas com picos ultrapassando os 1600 metros de altitude.
Cunha vista da Pedra Grande. Cotas altimétricas do IBGE (1973). Edição: Jacuhy.
O bairro Sertão do Palmital, ainda em 1970, completamente isolado de Cunha. Os moradores se serviam, quando podiam, de São Luiz do Paraitinga, via distrito de São Pedro da Catuçaba. Mesmo assim por trilhas acessíveis apenas a pé ou a cavalo.
Parte da carta hipsométrica das três serras. Fonte: IBGE, 1973.
Um dos morros da Serra desperta a nossa atenção por sua feição cônica, se assemelhando a um vulcão, o que obviamente não é e nem nunca foi. Trata-se de dois morros na verdade, mais pontiagudos e altos que os vizinhos que observados de longe, revelam esse contorno diferente. Essa Serra, aliás, pode ser melhor observada do Morro Grande, vide as fotos da “Estalagem Shambala” ou do loteamento recentemente aberto “Alpes de Cunha”.
Alto do Diamante e Campo Grande. Vista da Estalagem Shambala. Data: 2022.
Os morros que circundam a cidade de Cunha, e que parecem altos, praticamente se aplainam ante a imponência da Serra do Mar, que, como uma muralha, cerca o município nos limites de sudoeste a nordeste.
Vista da Serra do Campo Grande. Foto: Guto Felipe. Data: 2022.
Todo esse “Mar de Morros” é obra de milhões de anos de processos erosivos contínuos, consequência da ação do clima tropical sobre o relevo. As paisagens que temos hoje são heranças que a natureza nos legou e que devemos preservar para a posteridade.
Vista da Serra do Alto do Diamante. Foto: Rodrigo Leite. Data: 2012.
Por isso, o desmatamento incontrolável que nossa região passou nos últimos cem anos preocupa. Não só pelo aumento dos movimentos de massa e os riscos que eles trazem à segurança das pessoas e animais, além dos prejuízos, mas pela perda dos solos, um problema grave e ainda pouco abordado e tratado em Cunha. Sem solo não há agricultura, pecuária e nem vida. A aceleração dos processos erosivos e a retirada ilegal de mata ciliar levam ao assoreamento dos cursos d’água e ao desaparecimento da fauna fluvial. A retirada de mata no topo dos morros leva ao sumiço dos vertedouros. Toda ação humana gera algum impacto ambiental que, mais cedo ou mais tarde, acarretará algum impacto social.
O pouco que restou da nossa Mata Atlântica foi resultado da ação impositiva do Estado, que interveio na década de 1.970 para impedir o desaparecimento completo da cobertura vegetal, com a criação de duas unidades de conservação de proteção integral: Parque Nacional da Serra da Bocaina e Parque Estadual da Serra do Mar. Nunca partiu de nós, cunhenses, o devido cuidado com meio ambiente. É muito provável que sem as unidades de conservação, o pouco de verde que ainda restou já teria virado carvão, moirão, palanque, esteio, móveis, pasto etc. Até o nosso linguajar valida a visão antiecológica de ver árvores e matas como um problema. Chamamos de “pasto sujo” aquele que contém árvores e capoeirões espalhados pela herdade.
O desenvolvimento do turismo surge como uma esperança. Ao retirar do setor primário o sustento de muitas famílias e realocá-lo no terciário, ameniza a pressão sobre os recursos naturais do município. Ademais, a paisagem natural ou regenerada deixa de ser um “pasto sujo” e passa a ser valorizada. Valorizada no sentido financeiro mesmo, pois o turismo é uma atividade econômica que promove o consumo do espaço e das paisagens. Desde que não seja predatório ou privilégio de alguns empreendedores, o turismo pode ser uma das saídas para Cunha.
A pergunta que fica é: o que deixaremos para as futuras gerações? Mais do que esperar do Estado e atribuir responsabilidades a outrem, sempre é bom fazer um exercício de reflexão pessoal, focado na nossa ação no mundo. Cabe a nós, enquanto comunidade, buscar alternativas econômicas sustentáveis.
Referências: AB’SÁBER, Aziz N. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. 5 ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008. CRUZ, Rita de C. A. da. Introdução à geografia do turismo. 2. ed. São Paulo: Roca, 2003. IBGE. Lagoinha: região sudeste do Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 1973. 1 carta topográfca, color., 4465 × 3555 pixels, 5,50 MB, jpeg. Escala 1:50.000. Projeção UTM. Datum horizontal: marégrafo Imbituba, SC, Datum vertical: Córrego Alegre, MG. Folha SF 23-Y-D-III-2. O ESTADO DE S. PAULO. Palmital, um bairro isolado. 4 out. 1970, p. 42. SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996. VELOSO, João J. de O. O ambiente natural cunhense. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 1996.
Vista aérea de Cunha. Ao fundo, vê-se a Serra do Mar. Foto: Instituto Chão Caipira. Ano: 2011.
No final do século XIX e até no início do XX, Cunha era conhecida como “Cidade das Serras”. Faz jus ao epíteto. Qual fortaleza, é ladeada por três serras. Só não é inteiramente flanqueada porque o rio Paraitinga abriu um vale para se esvair. A alcunha orográfica não perdurou até nossos dias, apesar de geograficamente factual.
Serra do Mar vista da Praça do Rosário. Ano: 2010.
São as três muralhas: a Serra do Mar, a leste e a sul; a Serra da Bocaina, a norte; a Serra do Quebra-Cangalha, a noroeste. Desconheço município deste estado com mais cordilheiras em seu território. Cunha é única.
Serra da Bocaina vista do Cemitério Municipal de Cunha. Ano: 2012.
E ainda dos seus morros é possível ter uma vista esplêndida dos topos da Serra da Mantiqueira, que ao longe, ao norte, demarca o limite litosférico ante ao horizonte e ainda põe termo ao território paulista, nos contrafortes de Minas Gerais.
Serra do Quebra-Cangalha vista de Cunha. Ano: 2021.
Por isso, dizem que não há ocaso mais bonito, do que o visto desta pequena e pacata cidade. E eu, mesmo suspeito, concordo plenamente.
“O Gigante Adormecido”: a Serra da Mantiqueira vista de Cunha. Foto: Paulo Zaccaro. Data: agosto, 2012.
Foto: Amanda Motta / Instagram. Local: Cunha – SP.
Cunha está dentro da área de “core” ou nuclear do Domínio Morfoclimático dos “Mares de Morros” Florestados, porque sua paisagem corresponde a uma área típica e contínua de relevo mamelonizado, em que uma sucessão de morros com cumes bem arredondados se estende até o horizonte, apresentando um formato de meias-laranjas, lembrando, assim, o aspecto de agitação das ondas marítimas. Uma área nuclear é aquela que melhor apresenta as características representativas de um respectivo domínio. O conceito de domínio morfoclimático foi desenvolvido pelo geógrafo Aziz Nacib Ab’Saber, natural aqui do Vale, de São Luís do Paraitinga, e já falecido, infelizmente. Ab’Saber estabeleceu uma classificação para os diversos ambientes macroecológicos existentes no território brasileiro, ajudando a entender melhor as paisagens de nosso imenso país. Os domínios morfoclimáticos são grandes conjuntos do espaço geográfico identificados através do resultado das inter-relações entre os elementos da paisagem, tais como: relevo, clima, solo e vegetação. A inter-relação desses quatro elementos, mais a ação antrópica (do homem) sobre o espaço, transformando as paisagens naturais constantemente, faz com que surja paisagens e sistemas ambientais diferentes por todo país.
Mapa mostrando a localização e distribuição dos domínios morfoclimáticos pelo Brasil.
O geógrafo luizense aponta que o Domínio dos Mares de Morros é a região brasileira sujeita aos mais fortes processos erosivos e aos mais intensos movimentos de massa, o que coloca esse domínio paisagístico como suspeito a ocorrer desastres naturais, daí a necessidade de todos os municípios inseridos dentro desse contexto geomorfológico de ter uma Defesa Civil atuante e preparada.
O domínio dos mares de morros é o meio físico mais complexo e difícil do país em relação às construções e ações humanas […] é difícil o encontro de sítios urbanizáveis […] como igualmente difícil é a abertura de estradas e sua conveniente conservação.
AB’SÁBER, 2003, p. 62
Florestados no passado, com Mata Atlântica e bosques de Araucárias (Campos do Jordão, Serra da Bocaina), trata-se, atualmente, de um ambiente bastante desflorestado e degradado. Salvo dentro das unidades de conservação, que felizmente surgiram no domínio a partir da década de 1970. Unidade paisagística situada entre os três maiores centros urbanos do país: São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, esse meio físico foi intensamente ocupado, povoado e desgastado, seja pela cafeicultura, pela pecuária de corte e mais recentemente pela silvicultura de exportação.
Fonte: AB’SÁBER, A. N. Os Domínios de Natureza no Brasil: Potencialidades Paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.