Geada em Cunha

Geada no bairro do Sítio, zona rural de Cunha, SP. Data: 20 de julho de 2021. Foto: Monike Mar / Santo Bule Cerâmica.

A geada é um fenômeno climático que, frequentemente, ocorre no inverno de Cunha. Apesar de ser bastante conhecida, tanto pelos moradores locais (que sofrem com ela) como pelos turistas (que a adoram), esse fenômeno natural gera muita confusão. Eis algumas: “Geada é a mesma coisa que neve?”, “A geada cai do céu de madrugada?”, “Por que só ocorre geada em dias de céu límpido?”, “Por que cai a temperatura depois da chuvarada?”, “Pode nevar algum dia em Cunha?”, … Procuramos, resumidamente, responder algumas dessas indagações e/ou confusões:

Qual a diferença entre neve e geada?

Há muita confusão entre os dois termos. O cristal da neve é igual ao cristal da geada, daí a confusão. Muitos ainda dizem que “a geada caiu”, o que é totalmente falso. Geada não cai; flocos de neve, sim. A diferença fundamental entre a neve a geada está na origem de cada fenômeno atmosférico. Geada é fenômeno da superfície, do chão; enquanto que a neve é um fenômeno das nuvens, das partes mais altas. Neve nada mais é do que uma chuva congelada, já a geada é o orvalho congelado. Para ocorrer neve a temperatura deve estar abaixo de 0ºC, da superfície até as nuvens, tem que ter umidade para que os flocos caíam sem evaporar, ou seja, tem que ter nuvens no céu, tem que haver uma chuva, porque a neve é uma forma de precipitação. Já a geada vem do orvalho. A umidade da superfície sofre um congelamento muito rápido (geralmente após a temperatura cair abaixo de 5ºC) pela ação dos ventos frios (geada advectiva) ou pela perda de calor (geada radiativa). Para haver geada não pode ter nuvens no céu — para haver neve, é necessário tê-las.

Um boneco de neve da Deep Web (rs). Um meme invernal (ou infernal? rs). Made in Cunha. Foto original: Rosa Cruvinel.

Pode nevar em Cunha?
Pode, mas é uma probabilidade muito remota. Por isso, não há registros históricos de que tenha caído neve em nosso município. Apesar do relevo cunhense ser planáltico e de uma parte considerável do município estar acima dos mil metros de altitude, chegando nos pontos mais altos a mais de 1.800 metros de altitude, apenas essa condição altimétrica não basta para ocorrer neve. Em Campos do Jordão, por exemplo, cidade na Serra da Mantiqueira e com maior altitude do que Cunha, já chegou a bater os congelantes -7,2°C no inverno de 1988, e ainda assim não caiu neve alguma. Há outras condições geográficas que pesam muito mais na ocorrência desse fenômeno meteorológico:

1. Latitude. Cunha está entre os paralelos 22º S e 23º S, ou seja, acima da do Trópico de Capricórnio (23,5º S) e dentro da zona intertropical (mais quente) e, consequentemente, fora da zona temperada (mais fria e com maior probabilidade de neve). Na zona tropical, as massas de ar polar (que se desprendem do Polo Sul, no nosso caso) não chegam com tanta força.

2. Clima. O clima de Cunha é o tropical de altitude, isto é, temos seis meses quentes e com chuvas e seis meses secos e frios. Ou seja, justamente os meses mais frios (junho, julho e agosto) são os meses mais secos, com chuvas escassas. Como já foi escrito acima, para ocorrer neve é preciso ter nuvem e precipitação (chuva) e como nosso inverno é seco, acaba tornando a possibilidade de queda de neve ainda mais rara ainda de acontecer. Já na Região Sul, de clima subtropical e com chuvas bem distribuídas ao longo do ano, as possibilidades de nevar no inverno são muitos maiores do que aqui.

3. Massas de ar. As quedas das temperaturas do ar no Brasil acontecem devido ao deslocamento por nosso território de massas de ar que tem origem na Antártica, no Polo Sul. Para ocorrer a neve, a incursão de ar frio precisa adentrar diversas camadas da atmosfera, não permanecendo apenas na superfície, mas precisa resfriar abaixo de zero do chão até as altas nuvens. Mas à medida em que essas massas polares se deslocam em direção à zona tropical, vão perdendo intensidade e capacidade de resfriar as diversas camadas da atmosfera. No caso de uma massa de ar frio realmente intensa avançar sobre o estado de SP, juntamente com áreas de chuva, as regiões mais propícias para a ocorrência de neve seriam o extremo sul paulista, na divisa com o Paraná e a Região da Serra da Cantareira, que já teve neve em alguns eventos no século XX. Mesmo na Serra da Mantiqueira, que chega perto dos 3 mil metros, a probabilidade é remota. Quanto mais longe do Polo Sul, menos chance de nevar. E Cunha está muito mais longe da região polar (7.450 Km da Igreja Matriz até o Polo Sul) do que os estados do Sul ou mesmo da parte sul de São Paulo.

Por que, frequentemente, há queda na temperatura do ar depois de chover?

Geralmente, o que é frio não é a frente fria, como ouvimos no rádio ou na TV, mas, sim, a massa de ar frio que vem logo em seguida da frente fria. A frente fria é uma região de transição entre duas massas de ar (uma quente, à frente, e outra fria, na traseira), nessa região de transição e contato entre as massas de ar ocorre precipitação (chuva). Então, assim que passa a chuva, chega a massa de ar frio, que derruba as temperaturas. Há a seguinte sucessão: massa de ar quente (temperaturas aumentam) → frente fria, isto é, zona de transição de massas de ar (chuvas) → massa de ar frio (temperaturas caem).

Por que só ocorre geada quando o céu está limpo?

Porque quando o céu está limpo, sem nuvens, a superfície da Terra perde energia (calor) para a atmosfera, causando assim o resfriamento do chão, o que leva ao congelamento do orvalho. Geralmente, ocorre quando o ar está frio e seco, como no inverno cunhense, com a presença de vento calmo e temperaturas inferiores a 0°. Esse tipo de geada é chamado de radiativa. O outro tipo, mais raro de ocorrer em Cunha, é a geada advectiva, que acontece quando se tem a entrada de uma intensa massa de ar frio, que levam a significativas quedas de temperatura a partir de seus ventos frios e constantes, com temperaturas muito baixas durante muitas horas seguidas.

Geada, turismo e agropecuária

Para os turistas, sobretudo para aqueles que gostam de aproveitar o friozinho do inverno cunhense, a geada é uma maravilha, um atrativo a mais e chega a encher os olhos dos mais corajosos, que bravamente abandonam a coberta, acordando cedinho para apreciá-la no terreiro. Cunha é uma estância climática paulista, que tem no turismo de montanha a sua característica fundamental, portanto é natural que aproveite bem os “prazeres” dessa estação. Por outro lado, como é um município onde a atividade agropecuária é muito forte, a geada pode trazer vários prejuízos. As culturas de climas tropicais e subtropicais são as mais muitos afetadas por esse fenômeno, pois têm pouca resistência à baixa temperatura. A horticultura, por exemplo, é devastada por esse fenômeno meteorológico. Também mata as pastagens, as gramíneas e os capins, que são a base da alimentação do gado local. A geada não só pode prejudicar a planta e seus frutos, mas o solo também, queimando a superfície em que toca, quando muito fria.

A geada, no passado, já marcou a economia cunhense. Enquanto os demais municípios do Vale prosperavam com grandes plantações de café, os produtores cunhenses se viram obrigados a continuar plantando milho e feijão, para ceva do porco e abastecimento das demais localidades, já que as geadas em Cunha eram tão intensas que inviabilizavam qualquer grande plantação de café, cultura bastante sensível ao congelamento. Assim, Cunha entrou para história como um dos poucos municípios do Vale em que a cafeicultura não vingou.

E nem vamos entrar aqui nas questões socioeconômicas, pois muitos moradores carentes da cidade e da roça (principalmente) sofrem com o frio nessa época do ano, porque não possuem cobertor suficiente e nem agasalhos para se aquecer no frio invernal. O que é beleza para uns, é desgraça para outros…

Fontes:

Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC)
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) – AgroMet
Google Earth
Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG/USP)
Instituto Nacional de Meteorologia (INMET)
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)
Meteorópole (blog de Meteorologia)
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