Aspecto do centro histórico de Paraty, penetrando o Atlântico. Famosa, entre tantas coisas, pela sua pinga. Data: 1961. Foto: IPHAN.
Anedotas populares são pequenos relatos ou histórias curtas, geralmente engraçadas, que fazem parte da tradição oral de um povo. Elas costumam ter personagens típicos e abordam situações do cotidiano com humor, ironia ou malícia.
Circulam de boca em boca, muitas vezes sem autoria conhecida, reforçando a tradição oral.
Podem carregar ensinamentos, fatos e críticas sociais ou apenas têm o intuito de fazer rir. Costumam ser simples e diretas, com um desfecho inesperado ou cômico. Variam de região para região, incorporando o jeito de falar e os costumes locais.
O universo caipira é pródigo em anedotas. São parte importante da cultura popular e sempre aparecem em rodas de conversa, programas de rádio, livros de causos ou apresentações humorísticas, servindo, inclusive, como fontes para a História.
Algumas se elevaram tanto na cultura popular, que viraram matéria poética e musical, como no poema abaixo e no vídeo acima.
Farinha, pinga e fumo, três produtos coloniais dos mais consumidos. Suruí (Magé), Paraty e Baependi, três localidades históricas, que, pela qualidade daquilo que faziam, ganharam fama no imaginário e no gosto popular. Em 1925, o escritor modernista Oswald de Andrade (1890-1954) publicou o livro “Pau-Brasil”, seu primeiro de poesias, em que aparece o seguinte poema:
RELICÁRIO No baile da Corte Foi o Conde d’Eu quem disse Pra Dona Benvinda Que farinha da Suruí Pinga de Parati Fumo de Baependi Ê comê bebê pitá e caí
Neste poema, Oswald de Andrade interpreta o Brasil através de uma linguagem coloquial, contrastando o luxo da corte com a vida popular, para criar um efeito humorístico. O poeta ainda utiliza a gradação de verbos como “comê”, “bebê”, “pitá” e “caí” como uma afronta à norma culta da língua portuguesa, para intensificar o humor e a crítica social, valorizando o jeito de falar dos caipiras, das pessoas da roça. Ao se valer de uma linguagem informal e cheia de oralidade, aproxima a escrita da língua falada, para dialogar com o povo e romper com a formalidade do academicismo da época. O Modernismo no Brasil, em sua fase inaugural, buscou renovar a arte e a cultura do país valorizando a identidade nacional. Os olhares e as penas daqueles modernistas estavam voltadas para os sertões, para o interior, para o Brasil profundo e ignorado.
Ser moderno (para Oswald de Andrade) era ser caipira. Autenticidade é tudo.
“Sim, na roça o polvilho se faz a coisa alva: mais que o algodão, a garça, a roupa na corda. Do ralo às gamelas, da masseira às bacias, uma polpa se repassa, para assentar, no fundo da água e leite, azulosa — o amido — puro, limpo, feito surpresa”.
Conto “Substância”, de João Guimarães Rosa
Tem sido uma grata surpresa essa nova fase do Museu Francisco Veloso. Assumindo a sua função primordial, que é a pedagógica, de abrir seus espaços para contar e deixar que o povo de Cunha conte suas histórias. É nessa perspectiva que desde o dia 19 de julho de 2025 abriu suas portas para receber a exposição “Das Gamelas: corpo, memória, farinha”, que celebra os saberes ancestrais, a mandioca, o barro, a farinha e a força feminina no território local.
Figurino da personagem “Maria Exita”, usado pela artista e dançarina Dalila D’Cruz. Foto: Jacuhy. Data: 2025.
A idealizadora da exposição é Dalila D’Cruz, artista visual, professora, atriz e dançarina, que atualmente reside em Cunha. A ideia, segundo ela, nasceu do seu encantamento com o conto “Substância”, de Guimarães Rosa, sobretudo com a personagem “Maria Exita”, mulher e arquétipo, figura central do conto. “Maria Exita” vai trabalhar na fazenda “Samburá”, em uma casa de farinha, no sertão mineiro. Ali prepara o polvilho, a substância alimentar e necessária. Tarefa árdua, que consome o tempo de muitos; mas que por ser difícil de se fazer, guarda tanta beleza e muitos saberes em seu fabrico. No conto, Guimarães Rosa, com sua maestria, faz um paralelo entre a vida de “Maria Exita” e a fabricação do polvilho. O interesse de Dalila pela personagem vem dos seus tempos de teatro, quando trabalhou em uma peça o livro “Primeiras Histórias”, de Guimarães Rosa, e justamente o conto que ela mais gostou (“Substância”) não entrou. Daí veio o seu interesse de estudá-lo pela dança. A atual exposição é o prolongamento desse interesse, do seu encantamento com arte de fazer farinha de “Maria Exita”.
A artista e idealizadora da exposição Dalila D’Cruz posa segurando a gamela. Foto: Jacuhy. Data: 2025.
Em Cunha, Dalila foi para o campo em busca dessas muitas “Marias Exitas”, que residem pelo extenso território rural cunhense. Silenciadas em suas casas de farinha, em seus monjolos, mexendo os seus tachos, esparramando farinha em suas gamelas, fazendo história… E encontrou. Assuntando aqui e acolá, juntamente com a equipe do Museu Francisco Veloso (Dina, Maiara, Izabel, Isabelle, Andreas e Thales), percorreram eles os lugares e as memórias das casas de farinha da Dona Neusa & Seu Derly, de Dona Zico, de Dona Antônia, de Dona Joana, do Seu Zico, da Dona Nê & Seu Jair Rosa, de Dona Nadir e até de Seu Zé Pedro, este cunhense radicado em Ubatuba… Não só de mandioca, mas de milho principalmente. Farinha de milho de monjolo. Ou só farinha de monjolo. Por que a preferência local por esse cereal americano? Vem de longe. Para o historiador Sérgio Buarque de Holanda, a farinha de milho era a preferida dos colonos paulistas, tanto em razão de a planta “se ajustar melhor aos hábitos peculiares à gente de serra acima” (o milharal podia ser colhido em apenas 4 meses) como pela produção em maior escala se comparada à da mandioca.
Uma homenagem às casas de farinha de Cunha. Foto: Jacuhy. Data: 2025.
Por isso, “Das Gamelas” (o título vem de um trecho do conto, já citado acima) é um projeto cultural que une tradição e inovação. Foi inspirada nas casas de farinha e visa transformar memória e ancestralidade em arte viva, conectando o público à cultura popular de forma sensorial e poética, inspirando aqueles que dela participam. A exposição tem recebido muitos visitantes, sobretudo alunos, de todas as faixas etárias, das diversas escolas de Cunha. Mais de 500 estudantes cunhenses já visitaram a exposição. Desse modo, o Museu assume o seu caráter pedagógico, educativo, ao propor aos estudantes uma experiência de valorização do passado (material e imaterial), dos saberes tradicionais, da realidade local, a um público, paradoxalmente, marcado pela conexão excessiva com espaços digitais e desconexão com lugar onde vivem. Seguindo nesse percurso formativo e educativo, o Museu tem promovido durante as quartas-feiras, após às 18h, rodas de conversa e leituras do conto “Substância”, de Guimarães Rosa, realizando encontros entre palavra e prática, tradição e território. Momento de literatura enriquecida e contextualizada pelas memórias locais.
Um olhar, novos encantamentos. Foto: Dina Zélia Chimello. Data: 2025.
Dalila apresenta a gamela aos alunos de Cunha. Foto: Dina Zélia Chimello. Data: 2025.
Alunos se reencontram com a história local, através da farinha. Foto: Dina Zélia Chimello. Data: 2025.
Dalila conversa com as crianças sobre a exposição. Foto: Dina Zélia Chimello. Data: 2025.
O gesto das mulheres da terra, nos seus ofícios, é movimento. É criatividade, poesia, tradição e história. Porque farinha não é só comida; é história. É memória e brasilidade. É o pão nosso de cada dia das faixas tropicais, porque foi o “primeiro conduto alimentar brasileiro pela extensão e continuidade nacional”. É o alimento, por excelência, dos sertões, como aponta o historiador potiguar Câmara Cascudo:“(…) mais conhecidas no emaranhado dos caminhos exploradores. A farinha indispensável era a explicação única. Comida para todos, portugueses e mazombos, a indiada fiel, fosse qual fosse o nível social participante.”. A explicação para a presença única desse alimento entre as gentes do interior vem do geógrafo Caio Prado Júnior. Diz ele: “pelas qualidades nutritivas da farinha, adaptabilidade da sua cultura a qualquer terreno e excepcional rusticidade, a mandioca, introduzida pela tradição indígena, foi universalmente adotada pela colonização como gênero básico de alimentação; e assim se perpetuou até nossos dias. É certamente a maior contribuição que nos trouxe a cultura indígena.” Como bem colocado no título “A Raiz Que Nos Fez Nação”, livro da autoracachoeirense Evelym Landim, a mandioca (aipim, macaxeira) é um dos pilares da cultura alimentar e da identidade brasileira.
Entrevista de Dalila D’Cruz ao “CANAL39 -TURISMO E CULTURA”, no YouTube, sobre a exposição “Das Gamelas”.
Quando, nos anos de 1940, o sociólogo Alceu Maynard Araújo, esteve realizando pesquisas junto aos agricultores de Cunha para o seu livro “Ciclo agrícola: calendário religioso e magias ligadas à plantação”, percebeu que a farinha fazia parte da alimentação básica do cunhense. Estava em todos os momentos. Cedo e à tarde, misturada com café ou com ovos na forma de farofa; na hora do almoço e da janta, misturada com feijão e torresmo ou engrossando e encorpando a quirera. Em Cunha, a farinha, por excelência, era de milho, cereal basilar. Mas havia também a produção de farinha de mandioca, em menor escala. Quando havia falta dessa farinha, recorria-se aos tropeiros, que a buscavam na vizinha Paraty, grande produtora e com uma farinha de mandioca com qualidade superior à de Cunha.
Outro ponto de encontro entre a exposição e a história é valorização que faz dos instrumentos usados na fabricação da farinha, itens indispensáveis à indústria doméstica, essa característica marcante do tempo colonial que ainda existe pelos sertões do nosso país. Gamelas, prensas, ralos… Objetos atravessados pela história, que estão imbricados na formação do povo brasileiro, como anota Sérgio Buarque de Holanda: “(…) vários instrumentos alienígenas se adaptarão também à necessidade de se prepararem para o consumo os produtos nativos de maior procura, aparecendo, assim, a prensa e o ralo de metal para a mandioca, o monjolo para pelar e pilar milho (…)”. São peças que, ao lado das memórias e saberes, ajudam a entender o nosso passado, pois são legados culturais. Essa exposição, antes de tudo, valoriza o jeito caipira de ser do cunhense.
Ralo caipira. Uma das peças da exposição. Foto: Jacuhy. Data: 2025.
A poeta caipira Adélia Prado certa vez escreveu: “a coisa mais fina do mundo é o sentimento”. O grande tema do conto de Guimarães Rosa é o da importância da essência, da “substância”. Dentro da construção da narrativa, percebe-se que a grande essência é o amor, essa substância fina como o polvilho, sentimento nobre e tão presente na vida e no ofício dessas “Marias Exitas”, que a exposição “Das gamelas” trouxe a lume. E não existe coisa mais alva, mais limpa e mais pura para um museu que dar voz e vez às pessoas simples da roça, historicamente esquecidas. O Jacuhy parabeniza o Museu Francisco Veloso, pela abertura e exposição, e a artista Dalila D’Cruz, pela sensibilidade e idealização “Das gamelas”. Cunha merece.
A exposição, que começou dia 19 de julho, vai até o dia 30 de setembro de 2025. Entrada franca. Não perca!
Localização do Museu Francisco Veloso (Google Maps):
Foto de capa: Dalila D’Cruz apresenta a exposição aos alunos cunhenses. Foto: Dina Zélia Chimello. 2025.