Museu de Cunha realiza exposição “Das Gamelas: corpo, memória, farinha”

“Sim, na roça o polvilho se faz a coisa alva: mais que o algodão, a garça, a roupa na corda. Do ralo às gamelas, da masseira às bacias, uma polpa se repassa, para assentar, no fundo da água e leite, azulosa — o amido — puro, limpo, feito surpresa”.

Conto “Substância”, de João Guimarães Rosa

Tem sido uma grata surpresa essa nova fase do Museu Francisco Veloso. Assumindo a sua função primordial, que é a pedagógica, de abrir seus espaços para contar e deixar que o povo de Cunha conte suas histórias. É nessa perspectiva que desde o dia 19 de julho de 2025 abriu suas portas para receber a exposição “Das Gamelas: corpo, memória, farinha”, que celebra os saberes ancestrais, a mandioca, o barro, a farinha e a força feminina no território local.

Figurino da personagem “Maria Exita”, usado pela artista e dançarina Dalila D’Cruz. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

A idealizadora da exposição é Dalila D’Cruz, artista visual, professora, atriz e dançarina, que atualmente reside em Cunha. A ideia, segundo ela, nasceu do seu encantamento com o conto “Substância”, de Guimarães Rosa, sobretudo com a personagem “Maria Exita”, mulher e arquétipo, figura central do conto. “Maria Exita” vai trabalhar na fazenda “Samburá”, em uma casa de farinha, no sertão mineiro. Ali prepara o polvilho, a substância alimentar e necessária. Tarefa árdua, que consome o tempo de muitos; mas que por ser difícil de se fazer, guarda tanta beleza e muitos saberes em seu fabrico. No conto, Guimarães Rosa, com sua maestria, faz um paralelo entre a vida de “Maria Exita” e a fabricação do polvilho. O interesse de Dalila pela personagem vem dos seus tempos de teatro, quando trabalhou em uma peça o livro “Primeiras Histórias”, de Guimarães Rosa, e justamente o conto que ela mais gostou (“Substância”) não entrou. Daí veio o seu interesse de estudá-lo pela dança. A atual exposição é o prolongamento desse interesse, do seu encantamento com arte de fazer farinha de “Maria Exita”.

A artista e idealizadora da exposição Dalila D’Cruz posa segurando a gamela. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Em Cunha, Dalila foi para o campo em busca dessas muitas “Marias Exitas”, que residem pelo extenso território rural cunhense. Silenciadas em suas casas de farinha, em seus monjolos, mexendo os seus tachos, esparramando farinha em suas gamelas, fazendo história… E encontrou. Assuntando aqui e acolá, juntamente com a equipe do Museu Francisco Veloso (Dina, Maiara, Izabel, Isabelle, Andreas e Thales), percorreram eles os lugares e as memórias das casas de farinha da Dona Neusa & Seu Derly, de Dona Zico, de Dona Antônia, de Dona Joana, do Seu Zico, da Dona Nê & Seu Jair Rosa, de Dona Nadir e até de Seu Zé Pedro, este cunhense radicado em Ubatuba… Não só de mandioca, mas de milho principalmente. Farinha de milho de monjolo. Ou só farinha de monjolo. Por que a preferência local por esse cereal americano? Vem de longe. Para o historiador Sérgio Buarque de Holanda, a farinha de milho era a preferida dos colonos paulistas, tanto em razão de a planta “se ajustar melhor aos hábitos peculiares à gente de serra acima” (o milharal podia ser colhido em apenas 4 meses) como pela produção em maior escala se comparada à da mandioca.

Uma homenagem às casas de farinha de Cunha. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

Por isso, “Das Gamelas” (o título vem de um trecho do conto, já citado acima) é um projeto cultural que une tradição e inovação. Foi inspirada nas casas de farinha e visa transformar memória e ancestralidade em arte viva, conectando o público à cultura popular de forma sensorial e poética, inspirando aqueles que dela participam. A exposição tem recebido muitos visitantes, sobretudo alunos, de todas as faixas etárias, das diversas escolas de Cunha. Mais de 500 estudantes cunhenses já visitaram a exposição. Desse modo, o Museu assume o seu caráter pedagógico, educativo, ao propor aos estudantes uma experiência de valorização do passado (material e imaterial), dos saberes tradicionais, da realidade local, a um público, paradoxalmente, marcado pela conexão excessiva com espaços digitais e desconexão com lugar onde vivem. Seguindo nesse percurso formativo e educativo, o Museu tem promovido durante as quartas-feiras, após às 18h, rodas de conversa e leituras do conto “Substância”, de Guimarães Rosa, realizando encontros entre palavra e prática, tradição e território. Momento de literatura enriquecida e contextualizada pelas memórias locais.

O gesto das mulheres da terra, nos seus ofícios, é movimento. É criatividade, poesia, tradição e história. Porque farinha não é só comida; é história. É memória e brasilidade. É o pão nosso de cada dia das faixas tropicais, porque foi o “primeiro conduto alimentar brasileiro pela extensão e continuidade nacional”. É o alimento, por excelência, dos sertões, como aponta o historiador potiguar Câmara Cascudo:“(…) mais conhecidas no emaranhado dos caminhos exploradores. A farinha indispensável era a explicação única. Comida para todos, portugueses e mazombos, a indiada fiel, fosse qual fosse o nível social participante.”. A explicação para a presença única desse alimento entre as gentes do interior vem do geógrafo Caio Prado Júnior. Diz ele: “pelas qualidades nutritivas da farinha, adaptabilidade da sua cultura a qualquer terreno e excepcional rusticidade, a mandioca, introduzida pela tradição indígena, foi universalmente adotada pela colonização como gênero básico de alimentação; e assim se perpetuou até nossos dias. É certamente a maior contribuição que nos trouxe a cultura indígena.” Como bem colocado no título “A Raiz Que Nos Fez Nação”, livro da autora cachoeirense Evelym Landim, a mandioca (aipim, macaxeira) é um dos pilares da cultura alimentar e da identidade brasileira.

Entrevista de Dalila D’Cruz ao “CANAL39 -TURISMO E CULTURA”, no YouTube, sobre a exposição “Das Gamelas”.

Quando, nos anos de 1940, o sociólogo Alceu Maynard Araújo, esteve realizando pesquisas junto aos agricultores de Cunha para o seu livro “Ciclo agrícola: calendário religioso e magias ligadas à plantação”, percebeu que a farinha fazia parte da alimentação básica do cunhense. Estava em todos os momentos. Cedo e à tarde, misturada com café ou com ovos na forma de farofa; na hora do almoço e da janta, misturada com feijão e torresmo ou engrossando e encorpando a quirera. Em Cunha, a farinha, por excelência, era de milho, cereal basilar. Mas havia também a produção de farinha de mandioca, em menor escala. Quando havia falta dessa farinha, recorria-se aos tropeiros, que a buscavam na vizinha Paraty, grande produtora e com uma farinha de mandioca com qualidade superior à de Cunha.

Outro ponto de encontro entre a exposição e a história é valorização que faz dos instrumentos usados na fabricação da farinha, itens indispensáveis à indústria doméstica, essa característica marcante do tempo colonial que ainda existe pelos sertões do nosso país. Gamelas, prensas, ralos… Objetos atravessados pela história, que estão imbricados na formação do povo brasileiro, como anota Sérgio Buarque de Holanda: “(…) vários instrumentos alienígenas se adaptarão também à necessidade de se prepararem para o consumo os produtos nativos de maior procura, aparecendo, assim, a prensa e o ralo de metal para a mandioca, o monjolo para pelar e pilar milho (…)”. São peças que, ao lado das memórias e saberes, ajudam a entender o nosso passado, pois são legados culturais. Essa exposição, antes de tudo, valoriza o jeito caipira de ser do cunhense.

Ralo caipira. Uma das peças da exposição. Foto: Jacuhy. Data: 2025.

A poeta caipira Adélia Prado certa vez escreveu: “a coisa mais fina do mundo é o sentimento”. O grande tema do conto de Guimarães Rosa é o da importância da essência, da “substância”. Dentro da construção da narrativa, percebe-se que a grande essência é o amor, essa substância fina como o polvilho, sentimento nobre e tão presente na vida e no ofício dessas “Marias Exitas”, que a exposição “Das gamelas” trouxe a lume. E não existe coisa mais alva, mais limpa e mais pura para um museu que dar voz e vez às pessoas simples da roça, historicamente esquecidas. O Jacuhy parabeniza o Museu Francisco Veloso, pela abertura e exposição, e a artista Dalila D’Cruz, pela sensibilidade e idealização “Das gamelas”. Cunha merece.

A exposição, que começou dia 19 de julho, vai até o dia 30 de setembro de 2025. Entrada franca. Não perca!

Localização do Museu Francisco Veloso (Google Maps):

Foto de capa: Dalila D’Cruz apresenta a exposição aos alunos cunhenses. Foto: Dina Zélia Chimello. 2025.

Entrevista com o professor Victor Amato dos Santos

Montagem sobre foto de Chayeni Fiorelli.

O professor Victor Amato dos Santos é figura conhecida e querida no cenário cultural cunhense. Uns o conhecem por ser o maestro da União Musical Cunhense, a banda de Cunha, que sempre se faz presente nas nossas festas cívicas e religiosas. Outros recordam dele na Banda Furiosa, com as marchinhas que alegravam os foliões nas tardes de Carnaval. E tem aqueles que acompanham as suas postagens no grupo “Memória Cunhense”, no Facebook. Ele está sempre publicando um texto ou nota sobre algum cunhense inolvidável, sobre alguma tradição da nossa gente ou algum dobrado ou samba de sua autoria. O Victor é professor de Língua Portuguesa na Escola Estadual Paulo Virgínio. Trabalha diariamente com a escrita. E foi assim, escrevendo, que ele nos presenteou com dois livros: “A História do Carnaval de Cunha”, em 2012, e a “A História da Música em Cunha”, em 2014. São obras que vêm do seu interesse por história e são frutos do seu amor por Cunha. Por isso, estamos no aguardo da terceira. Será que sai? Para responder essa e outras perguntas, pedi que nos concedesse uma entrevista. Ele é incentivador antigo do Jacuhy, quando ainda estávamos no ninho. E ele, prontamente e gentilmente, nos atendeu.

Jacuhy: Primeiramente, Victor, eu agradeço a sua boa vontade em conceder esta entrevista, tirando um tempinho das suas merecidas férias.  É sempre uma honra contar com o seu apoio e parceria, pois você é uma referência para todos nós que amamos, lutamos e defendemos a História e as Tradições de Cunha. E é sobre isso que gostaria de começar a nossa conversa. Em 1971, o antropólogo estadunidense Robert W. Shirley lançou o livro “O fim de uma tradição” (depois, em 1977, traduzido para o português pelo professor João Veloso), fruto das pesquisas de campo realizadas por ele em Cunha, na década de 1960. A conclusão a que ele chegou foi de que o fim das tradições de Cunha era iminente, em virtude do êxodo rural, do avanço da industrialização e do fim do isolamento de Cunha, rompido pela popularização da mídia eletrônica, pelas ligações rodoviárias e pelos projetos estatais de integração. Você, como agente cultural e estudioso do assunto, olhando em 2023 para a conclusão do antropólogo Shirley, como a enxerga? Acertou? Equivocou-se? E ainda sobre o assunto, qual é a situação dos grupos tradicionais e folclóricos de Cunha atualmente?

Victor: Primeiramente, agradeço as suas considerações a meu respeito. Seu empenho no sentido de aprofundamento sobre as pesquisas já realizadas sobre Cunha é admirável!

Sobre a questão levantada, graças a Deus Shirley se equivocou em relação às previsões de desaparecimento da cultura cunhense, apresentadas em “O Fim de uma Tradição”.

Cunha, como poucos lugares, soube receber as novidades do mundo atual, mas sem deixar para trás as suas raízes mais profundas dos antigos costumes, muitos ainda dos tempos da formação da Povoação oficial e da Fundação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Facão. Estão aí as festas de São José da Boa Vista, de São Benedito, do Divino e da Padroeira; o carnaval de rua; a tradicional Semana Santa; o boneco do Judas; as folias de Reis (da cidade e da zona rural) e do Divino Espírito Santo; as congadas (moçambiques); os violeiros; o jongo; a banda de música – que já tem quase dois séculos de existência –; os benzedores; os artesãos e ceramistas; dentre outras manifestações de cultura e de religiosidade popular de não menor importância que as citadas. Vivíssimas no presente, comprovam em plenitude o que afirmo aqui. Esses elementos são aquilo que verdadeiramente atrai o turista para o nosso Município, aliados à paisagem natural exuberante de que dispomos e da qual, responsavelmente, temos o prazer de desfrutar.

Aliás, como um dos que trabalham dentro desse círculo das tradições cunhenses, ainda não vi acontecer qualquer trabalho de resgate de manifestações culturais do nosso município, mas sim um grande empenho de todos os líderes e membros de cada respectivo agrupamento cultural em mantê-los em pleno vigor – só deve ser resgatado aquilo que foi perdido; e, graças a Deus novamente, não tivemos perdas nesse sentido por aqui!

A banda União Musical Cunhense no topo da Pedra Marcela, em 2013, na gravação da música “Aqui é o meu lugar”, tema da TV Vanguarda. Foto: Bethânia Fochi.

Jacuhy: Em novembro de 2021, você surpreendeu a todos anunciando o fim da participação da Banda Furiosa, que alegrava os foliões com suas marchinhas, no carnaval de Cunha. Sua decisão, segundo o que escreveu, foi motivada pelo cumprimento do papel educativo que Banda Furiosa buscava exercer nos 15 anos que participou do carnaval, formando, nas suas palavras, uma “geração que soubesse brincar o carnaval sem os excessos que o caracterizam (…) dar espaço para o encontro saudável entre gerações (crianças, pais, avós e bisavós), que só demonstraram Educação, alegria inocente, satisfação e afins para compartilhar.”. Acrescentou, ainda, que seus problemas de saúde dificultavam muito o seu serviço à frente da Banda. Esse foi um adeus definitivo ou temporário do carnaval? A Banda Furiosa vai continuar abrilhantando as festividades cívicas e religiosas do município? Quais são os desafios que a Banda Furiosa enfrenta para manter-se viva e atuante, como tem sido desde sua formação?

Victor: Há de se diferenciar, primeiro, a banda de música da cidade – que já é quase bicentenária – do conjunto Banda Furiosa, criado por mim em 2005 para realizar as matinês no carnaval cunhense.

Se o conjunto carnavalesco encerrou suas atividades por ter, como expliquei, atingido o propósito para o qual foi criado, a banda de música tradicional – hoje União Musical Cunhense — encontra-se em pleno funcionamento, e espero que assim continue por muitos e muitos anos.

Não posso deixar de mencionar que todos os que nos dedicamos aos trabalhos à frente de cada grupo da tradição e da cultura de Cunha nos vemos, frequentemente, diante e nas mãos de pessoas que têm tudo para nos dar o devido apoio; mas, em incontáveis vezes, elas se deixam levar pelo orgulho, pela vaidade, pela inveja e pela ganância, o que nos traz desmotivação pelos desgastes desnecessários pelos quais nos vemos obrigados a passar. Com a Banda Furiosa não foi diferente. Foi também por isso que decidi encerrar suas atividades no carnaval de Cunha.

Na União Musical Cunhense, que atualmente tem participado mais e de forma gratuita das festividades da Igreja Católica local, enquanto eu fizer parte da mesma e tiver condições para tanto, estarei a ensinar os princípios da Arte Musical para crianças e jovens, com a intenção de realizar a necessária reposição de elementos, para a preservação deste que é o grupo musical mais antigo de Cunha. Sou o nono maestro nesses quase duzentos anos de existência da nossa banda de música, e já formei inúmeros músicos, com a colaboração do meu amigo Tonico Capítulo, nesses meus já 35 anos de atuação como multi-instrumentista, professor de Música e maestro. Deus continue a me conceder a saúde e a orientação necessárias para continuar esses trabalhos.

Marchinha da Banda Furiosa, de autoria de Victor Amato dos Santos. Vídeo cedido pelo entrevistado.

Jacuhy: Depois de muitos anos trabalhando nas secretarias das escolas por onde passou, você retornou para sala de aula, atuando com professor de Língua Portuguesa. Essa volta quase que coincidiu com um momento importante para a rede estadual aqui em Cunha, que foi a adesão de todas as escolas ao programa de tempo integral. Como você vê esse programa? Quais são suas expectativas em relação a ele?

Victor: Sabe, nunca trabalhei especificamente em secretaria de escola nesse período em que tive de, contrariado, me afastar, por questões de saúde, das atividades em sala de aula: organizei ricos acervos de multimídia; pintei faixas divisórias de vagas em estacionamento interno de escola; tendo a devida formação para tanto, fiz diversos trabalhos de encanador e de eletricista; desentupi redes sanitárias; montei salas de leitura; ajudei em secretaria e em cozinha (manutenção de equipamentos e de instalações, com o devido conhecimento técnico); e, principalmente, atendi ao professor João Veloso em suas atividades histórico-culturais e às Redes Pública (Municipal e Estadual) e Particular de Educação em nosso Município. Isso sem deixar a nossa banda de música para trás, e também atendendo a muitos pedidos das Secretarias Municipais de Educação e de Turismo e Cultura.

Por isso é que tenho me sentido bastante cansado, física e mentalmente.

Quanto ao PEI (Programa de Ensino Integral), este continua a ser observado por mim. Não tenho ainda opinião formada sobre os resultados que ele poderá trazer à população cunhense. É preciso que eu trabalhe, como professor de Língua Portuguesa, mais este ano de 2023 nesse projeto do Estado de São Paulo, para que as devidas observações sejam feitas e, desse modo especificamente, eu possa continuar o meu aprimoramento como profissional da Educação.

Capas dos livros de história de Cunha lançados pelo professor Victor Amato dos Santos.

Jacuhy: Em 2017, você esteve coordenou o movimento que buscava retificar a data de aniversário de Cunha, estabelecendo o dia 19 de março de 1724 como data de fundação do município. Tanto o Legislativo quanto o Executivo Municipal acolheram a mudança proposta, visto que foi amplamente embasada em fontes históricas e corroborada pelo livro “A História de Cunha: 1600 – 2010” e pelo próprio autor, o professor João Veloso. Algumas pessoas na época não gostaram e protestaram pelas redes sociais, dizendo que era uma questão irrelevante. Por que você insistiu para que ocorresse essa retificação? O que Cunha ganhou com essa mudança?

Victor: Foi um esforço sobre-humano o que fiz para que fosse aprovada, pelo Legislativo e pelo Executivo Municipais, a necessária retificação da data histórica da Fundação de Cunha e as consequentes adaptações, com base na tese mais que coerente do Professor João Veloso, publicada em 2010 sob o título “A História de Cunha – 1600-2010 – A Rota de Exploração das Minas e Abastecimento das Tropas”.

A saúde frágil do nosso historiador João Veloso já dava sinais de que ele não estaria mais por muito tempo entre nós; daí ser necessária, para que ele fosse reconhecido oficialmente em vida pelo seu trabalho, uma ação urgente, que foi respaldada pelo então prefeito Rolien Garcia e pela maioria dos vereadores daquele período – como você sabe, houve quem votasse contra a retificação… –; além do auxílio de colaboradores da causa, como você mesmo, o Joás Ferreira de Oliveira, a maioria dos colegas de trabalho das escolas públicas e particulares do nosso Município e, principalmente, da maioria da população cunhense.

Isso agregou maior valor histórico, cultural, social e antropológico a Cunha, o que se reflete nitidamente nos aspectos que dão embasamento ao movimento em torno do turismo, ao qual Cunha tem se dedicado com afinco nessas últimas três décadas.

Enfim, tudo foi posto no devido lugar, para que, com o respaldo das pesquisas do Professor João Veloso, pudesse ser devidamente preservado.

Em família: Victor e os integrantes da Banda Furiosa, sempre alegrando as tardes do Carnaval de Cunha.

Jacuhy: Com a retificação e o estabelecimento do ano de 1724 como data de fundação, aproximou-se de todos nós a comemoração dos 300 anos de fundação de Cunha, afinal, 2024 é ano que vem. O que você espera, em termos de eventos, em relação a essa comemoração? Qual seria o maior presente para Cunha nesse tricentenário?

Victor: O movimento em torno das comemorações do Tricentenário de Fundação de Cunha já deveria estar acontecendo intensamente, com o envolvimento de todos os setores da sociedade local.

Para tanto, a Paróquia Nossa Senhora da Conceição, sob o comando do Padre Fábio Nogueira de Sá e com bastante auxílio de minha parte, já promoveu a restauração da imagem de Nossa Senhora da Conceição do Facão, e também   das imagens da Sagrada Família da Boa Vista; isso sem contar as restaurações de templos históricos como a Capela da Boa Vista (o “Berço” de Cunha), a matriz e a igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito.

Ainda em forma de lei municipal, há uma “receita” para serem desenvolvidos todos os atos necessários a uma comemoração à altura da data tão importante a todos nós. Espero que a legislação municipal correspondente seja cumprida plenamente, para que tudo saia como tão importante momento exige.

A banda União Musical Cunhense presente na Procissão das Bandeiras, na Festa do Divino Espírito Santo de Cunha, em 2018. Foto: Chayeni Fiorelli.

Jacuhy: Em seu livro “A História da Música em Cunha”, escrito junto com o professor João Veloso, lançado em 2014, você demonstra que existe uma tradição musical muito antiga – e rica – em Cunha. No início do século XXI, você participou e ajudou a implementar um projeto de educação musical na Escola Estadual Paulo Virgínio, que foi um sucesso e rendeu frutos. Alguns integrantes da Banda, por exemplo, foram formados no projeto. Sabendo da importância da formação musical para crianças e jovens para dar continuidade a essa tradição cunhense, existe a viabilidade de um projeto similar aquele que foi implantado há 20 anos ser implantado em alguma escola de Cunha? Quais contribuições o ensino de música pode trazer para aprendizagem dos alunos?

Victor: Depois do período a que você se refere – ano 2001 –, já houve formação de outros vários integrantes, mas na garagem da minha casa – que por certo tempo, foi usada como sala de ensaios e de aulas de Música –; e, a partir de 2011, na atual sede da banda (atrás do cinema).

A formação de novos músicos é um processo contínuo, que tem de ocorrer pelo menos a cada quinquênio; ou então a banda entra em decadência por falta de componentes e se encaminha para a extinção. Nunca cobrei um centavo sequer de quem aprendeu Música comigo nessas últimas três décadas em que me dedico à manutenção plena da nossa banda de música. E já está chegando a hora de eu formar uma nova turma de músicos, com o auxílio, na parte prática, dos membros mais antigos da banda. Talvez essa parte teórica inicial seja ministrada ainda este ano por mim na disciplina Eletivas, do PEI, mas ainda não estou certo disso.

Dobrado João Veloso, de autoria de Victor Amato dos Santos, tocado pela banda União Musical Cunhense. Homenagem feita ao professor João Veloso em 2017.

Jacuhy: Foi uma grande perda para Cunha o falecimento do professor e historiador João José de Oliveira Veloso, ocorrido em 30 de novembro de 2020. Ele foi um mestre para todos nós. Você, como amigo e admirador do professor João Veloso, foi a pessoa que mais lutou para que ele tivesse o merecido reconhecimento em vida, fazendo tudo o que estava em seu alcance. Qual é o principal legado deixado pelo professor João Veloso? O que o Centro de Cultura e Tradição de Cunha, o Museu Municipal Francisco Veloso e o COMPHACC (Conselho Municipal do Patrimônio Histórico Artístico e Cultural de Cunha), entidades criadas por ele, podem fazer para tentar preencher a lacuna que a ausência do professor provocou, dando continuidade ao trabalho do João Veloso?

Victor: Acima dos resultados que o Professor João Veloso conseguiu atingir através das pesquisas que realizou durante aproximadamente 5 décadas, creio que o maior legado deixado por ele é o amor incondicional por Cunha.

Sua ausência física deixou incontestavelmente uma lacuna muito difícil de ser preenchida, uma vez que esse preenchimento exige não só habilidades intelectuais, mas também uma paixão sadia por esse nosso “Mar de Morros”, tal qual a que ele sempre soube cultivar e preservar intacta dentro de si.

Vê-lo reconhecido em vida e tão emocionado com tal atitude, esse foi um dos maiores presentes que os meus olhos já puderam contemplar. Sou muito feliz e grato a Deus por isso.

Quanto aos trabalhos do Museu Francisco Veloso e do Centro de Tradição e Cultura de Cunha, tive de me afastar temporariamente dos mesmos, por conta das minhas atividades profissionais, que se intensificaram com a chegada do PEI à EE Paulo Virgínio, onde trabalho. Mas creio que tudo esteja correndo bem por lá. Estão em boas mãos, principalmente nas das funcionárias, sempre tão dedicadas e muito bem formadas pela convivência de décadas com o Professor João Veloso.

João Veloso, Victor e integrantes da banda União Musical Cunhense no lançamento do livro “A História da Música em Cunha”. Data: 2014. Foto: Geraldo Magela Tannus.

Jacuhy: Victor, você já publicou dois livros sobre a História de Cunha (“A História do Carnaval de Cunha”, 2012; “A História da Música em Cunha”, 2014) e contribuiu com um de poemas (“Poetas de Cunha”, 2007, organizado pelo saudoso professor Ernesto Veloso dos Santos). Tem sido um colaborador assíduo do grupo “Memória Cunhense”, no Facebook, sempre trazendo biografias de cunhenses inesquecíveis. Nós, seus leitores e admiradores, podemos esperar mais um trabalho seu? Se sim, pretende escrever um trabalho de cunho memorialista/biográfico ou publicar os seus poemas?

Victor: Tenho mais materiais que, com o tempo, eu gostaria de transformar em livros para publicá-los. Mas meu tempo tem sido muito restrito a outras obrigações que me prendem de certa forma. E ainda existe a questão do alto valor monetário exigido para se fazer essas edições. Ou seja: é preciso tempo e dinheiro suficientes, para que sejam produzidos trabalhos de qualidade. Nesse sentido, nunca fiz nada que fosse descartável em minha vida. Tudo o que produzi é permanente, visando ao bem-estar de gerações e gerações. Então, se tudo der certo nesse sentido de novas publicações, é desse modo que deverá acontecer.

Jacuhy: Muito obrigado por sua entrevista e colaboração com a nossa página e blog.

Data da entrevista: 28 de janeiro de 2023.

Inger Enkvist – crítica à pedagogia crítica

Inger Enkvist, no escritório da sua casa, no centro de Lund (Suécia). Foto: Evan Pantiel. Fonte: El País.

Inger Enkvist (Värmland, Suécia, 1947) é uma pedagoga sueca. Começou sua carreira como professora do ensino secundário e agora é catedrática emérita de espanhol na Universidade de Lund, uma das cidades mais antigas da Suécia, com uma das universidades mais importantes deste país nórdico. Centrou sua pesquisa na obra de Mario Vargas Llosa e Juan Goytisolo, e escreveu ensaios sobre os filósofos José Ortega y Gasset, Miguel de Unamuno e María Zambrano. Publicou vários livros sobre pedagogia (como se pode conferir na lista abaixo da entrevista) e centenas de artigos, além de ter assessorado o Governo sueco no assunto. Suas ideias pedagógicas se contrapõem aos pressupostos do socioconstrutivismo. Para Enkvist, essa “nova pedagogia”, cada vez mais reinante nas escolas de formação de professores, é um erro. Defende a necessidade de voltar a uma escola mais tradicional, onde se destaquem a disciplina, o esforço e a autoridade do professor. E critica a ideia de tratar a escola como uma fábrica de alunos em série, visando competir com outros colégios para subir nos rankings mundiais. Confira abaixo a entrevista que a pedagoga concedeu ao jornal El País.

EL PAÍSComo recorda sua escola?

Enkvist: Era pública e tradicional. Não tenho más recordações. Talvez houvesse algumas aulas chatas, mas às vezes a vida é assim. Os alunos chegavam na hora e não havia conflitos com os professores. A Suécia me deu uma educação gratuita e de qualidade.

EL PAÍSOs tempos mudaram. Continua valendo a disciplina daquela época?

Enkvist: A relação entre pais e filhos se baseia mais do que nunca nas emoções. Temos uma vida mais fácil, e queremos que nossos filhos também a tenham. Mas a escola deve estar consciente de que sua tarefa principal continua sendo formar os jovens intelectualmente. A escola não pode ser uma creche, nem o professor um psicólogo ou um assistente social.

EL PAÍSQual deve ser a finalidade do ensino infantil?

Enkvist: Deve ser muitas coisas, mas sua tarefa principal é dar uma base intelectual. Dar conhecimentos aos jovens, prepará-los para o mercado de trabalho, transmitir-lhes uma cultura e proporcionar-lhes uma ideia da ordem social, porque a escola é a primeira instituição com a qual as crianças se deparam, e é importante que vejam que há algumas regras, que o professor é a autoridade e que é preciso respeitar tanto ele como os colegas.

EL PAÍSMas a tecnologia torna mais difícil controlar crianças hiperestimuladas.

Enkvist: Sempre houve dificuldades na aprendizagem. Há 50 anos, era o fato de precisar andar uma hora para chegar ao colégio, ou oferecer refeições nutritivas. Hoje se trata da enorme quantidade de estímulos. O novo desafio é controlar o acesso ao celular e ao computador para que se concentrem. As escolas que proíbem o celular fazem bem. Em casa, os pais devem vigiar o tempo de uso da tecnologia. Proibir é muito difícil, porque se criam conflitos, mas um pai moderno deve saber dizer “não”. Deve resistir.

EL PAÍS – Há pedagogos que afirmam que a escola tradicional é chata e educa crianças submissas, e que é preciso aprender a aprender.

Enkvist: A escola é um lugar para aprender a pensar sobre a base dos dados. Isso de insistir em aprender a aprender sem falar antes de aprendizagem é uma falsidade, porque não podemos pensar sem pensar em algo. Sem dados não há com o que começar a pensar.

EL PAÍSA escola não deveria ser um lugar onde se divertir?

Enkvist: A satisfação na escola deve estar vinculada ao conteúdo: entrar numa aula e que lhe contém algo que você não sabia. Mas é preciso saber que, para entender algo novo, é necessário fazer um esforço. Além disso, é fundamental que o professor nos ensine a ler e como nos comportar. É impossível aprender bem sem que haja ordem na sala de aula. Essa é a base principal: comportamento, leitura e avaliação pelo conhecimento.

EL PAÍS – O que opina da tendência de pôr almofadas na sala de aula para que os alunos se deitem?

Enkvist: Isso é enganar os jovens. Para aprender a escrever, uma criança precisa sentar-se bem, olhar para frente, ter lápis e papel, concentrar-se… aprender pode ser um prazer, mas, insisto, exige um esforço e um trabalho. É preciso dizer isso às crianças. Se não, estamos enganando-as. Tocar violino, por exemplo, não é fácil. Exige muita prática. Os estudos do psicólogo sueco Anders Ericsson mostraram que é necessário um esforço prolongado para melhorar em algo. Para ser bom em algo você tem que se dedicar 10.000 horas. E precisa fazê-lo de forma consciente e trabalhar com um professor. Sua pesquisa avaliza a ideia tradicional de uma escola baseada no esforço do aluno, sob a orientação de um professor.

EL PAÍSHá quem diga que não é preciso decorar porque tudo está no Google.

Enkvist: Essa é outra falsidade. O Google é uma ferramenta genial. É de grande ajuda para os adultos, porque sabemos o que procuramos. Mas, para quem não sabe nada, o Google não serve de nada. Há intelectuais que andam por aí dizendo que estudar geografia não foi útil. Acredito que se esqueceram de como e quanto aprenderam na escola. Afirmar essas coisas é uma falta de honradez com os jovens. E menosprezar a importância em si da vida intelectual do aluno.

EL PAÍSEm que consiste a nova pedagogia que você critica?

Enkvist: A nova pedagogia é um pensamento que se vê por toda parte no Ocidente. A Suécia a adotou nos anos sessenta. Consiste, por exemplo, na pouca gradação das notas, por isso muitos pensam que não há razão para estudar muito se isso não for se refletir no histórico escolar. Dá-se muita importância à iniciativa do aluno, trabalha-se em equipe e, ao mesmo tempo em que as provas desaparecem, aparecem os projetos e o uso das novas tecnologias. Em geral, parece que se vai à escola para fazer atividades, não para trabalhar e estudar. Dá-se mais ênfase ao social que ao intelectual. Acho que é um erro. Por um lado, os alunos com mais capacidade não desenvolvem todo o seu potencial e, por outro, os que têm uma menor curiosidade natural por aprender não avançam. Além disso, muitos gostos são adquiridos, como a história, a leitura e a música clássica. No começo podem parecer chatos, mas, se alguém insistir para que tenhamos um primeiro contato, é possível que acabemos gostando. Atualmente, muitos jovens escolhem sem terem conhecido e, claro, escolhem o fácil.

EL PAÍSA Espanha é um dos países da OCDE que dedica mais horas à lição de casa. Isso tem alguma utilidade?

Enkvist: Quando a jornada é muito longa, como na Espanha, não faz sentido. Se um aluno está cansado, a lição de casa não melhora o seu rendimento. É preciso buscar um número ideal de aulas pela manhã, quando a criança está mais acordada, dar-lhe um tempo de descanso e, à tarde, talvez uma tarefa de revisão do que fez durante aquele dia. Um bom exemplo é a Finlândia, onde os alunos entram às oito da manhã e saem às duas da tarde, incluindo o almoço; exceto às quintas-feiras, quando saem às quatro da tarde.

EL PAÍSQuando criança, você era uma grande leitora. Como despertar esse prazer se uma criança não está interessada?

Enkvist: Era uma leitora compulsiva. Ninguém teve de insistir para que eu pegasse um livro. Mas há crianças que precisam disso. Talvez no começo seja necessário forçá-las um pouco, encorajá-las para que se tornem leitoras de lazer. Como se faz isso da escola? Comprar bons livros para a biblioteca e recomendar um a cada sexta-feira. Um aluno pode contar o que leu naquela semana. Fazer pequenas competições para ver quem leu mais. Medir como o seu vocabulário aumenta. E explicar que a leitura lhes permitirá, quando adultos, um melhor desenvolvimento. Se os alunos começam a ler, quase todos descobrirão que é um prazer. Mas eles precisam de horas. Calcula-se que na maioria dos países se dedicam 400 horas à aprendizagem da leitura na escola primária. Para ser um bom leitor, são necessárias 4.000 horas. É impossível ter tanto tempo na aula. Eles têm de fazer isso em casa. O que os pais podem e devem fazer é ler com os filhos: apoiar a leitura e servir de modelo.

EL PAÍSMas as humanidades estão perdendo peso.

Enkvist: Dizem que o amanhã será dominado pela tecnologia e pelas ciências naturais, e que o que é histórico não é importante. Além disso, as provas do PISA [Programa Internacional de Avaliação de Estudantes], um conjunto de exames organizados pela OCDE para avaliar as competências de alunos de 15 anos em ciências, matemática e leitura] não levam em conta as humanidades porque é difícil comparar esses conhecimentos entre países, então a vontade de competição os leva a dar mais ênfase às matérias que fazem parte do PISA e negligenciar as outras. Tanto a escola quanto a família devem dar mais ênfase às humanidades.

EL PAÍSA visão do PISA é a de uma escola que deveria funcionar como uma empresa?

Enkvist: A OCDE é uma organização econômica e analisa a educação a partir dessa perspectiva. O que o PISA não revela é se existe uma boa atmosfera na sala de aula, se bons princípios de trabalho são inculcados, se as ciências humanas, as ciências sociais, as matérias estéticas como arte e música, que são essenciais, são bem ensinadas. O PISA é uma prova muito específica que analisa algumas coisas. As escolas e os países deveriam defender que eles ofereçam muito mais do que isso.

EL PAÍS – Em seus livros, você aponta a Finlândia como um dos grandes modelos.

Enkvist: A educação na Finlândia foi tradicional, embora há dois anos o Governo tenha lançado um programa mais parecido com o da Suécia, porque meu país tem um desempenho escolar inferior, mas tem um comportamento econômico superior e criou empresas de tecnologia como Spotify e Skype. O Governo finlandês parece pensar que com um pouco de desordem suas escolas serão mais criativas. Não acredito nisso.

EL PAÍS – A Finlândia era tradicional? Não há exames no ensino obrigatório nem os havia antes dessa reforma que você menciona.

Enkvist: É preciso repensar a fobia aos exames. O exame ajuda a se concentrar em um objetivo. Que em tal dia você tem de saber esses conhecimentos. Um bom professor ensina coisas aos alunos, revisa com eles e faz algumas provas. E constroem outros ensinamentos sobre o que já foi aprendido, então esses conhecimentos voltam a aparecer mais tarde. Não faz um exame sobre algo sem importância. Com a prova final acontece a mesma coisa. É um objetivo claro. Ajuda a ter uma visão global.

EL PAÍS – Na Finlândia não se compara tanto as escolas, o que é comum na Espanha. É assim?

Enkvist: Na Finlândia continuam com a tradição de confiar nos professores. Quando existe um controle estatal do desempenho e se fazem comparações entre as escolas, o ambiente se deteriora. Para os professores, gera estresse e rancor em relação a quem te controla.

EL PAÍS – Como deve ser um bom professor?

Enkvist: Responsável e bem formado. Deve acreditar no poder do conhecimento. Não se é bom professor apenas pelo que se sabe sobre a matéria, nem só porque sabe conquistar os alunos. É preciso combinar ambos os elementos: atrair os alunos para a matéria para ensiná-la adequadamente. É preciso recrutar professores excelentes em que alunos, pais e autoridades possam confiar. E a menos que haja uma situação grave, devemos deixá-los trabalhar.

EL PAÍS – Como foi sua experiência na sala de aula?

Enkvist: O aluno tem de respeitar as instruções do professor, fazer as lições de casa e, por exemplo, não mentir. Antes, mentir era muito grave. Agora parece que não acontece nada. Vi jovens que inventam motivos para justificar por que não fizeram um trabalho, que escrevem de forma pouco legível para gerar dúvidas ou discutem o tempo todo com os professores. Sei o quão desagradável é que um aluno tente mentir para você. Vi isso no ensino médio e na universidade. Quando um professor sente que não é respeitado, que tentam enganá-lo, todas as relações de ensino se rompem.

EL PAÍSO que fazer com as crianças que incomodam e não deixam os outros trabalharem?

Enkvist: Isso é um tabu. É considerado pouco democrático. Diz-se que devemos dar uma oportunidade a todos. Mas o que acontece quando uma criança problemática não deixa os outros trabalharem, quando se fala com ela e com os pais, mas não se corrige? É preciso colocá-lo em um grupo separado para ver se percebe e muda.

EL PAÍS – E as crianças que se esforçam, mas não atingem o nível?

Enkvist: Elas podem ter aulas de reforço. E podemos oferecer itinerários diferentes, como no caso de Cingapura.

EL PAÍSE repetir de ano?

Enkvist: Fazer repetir uma criança às vezes serve e às vezes não, porque cada um é diferente. Gosto do sistema de Cingapura, onde o lema é que cada criança pode atingir seu nível ótimo. Existem diferentes maneiras de conseguir isso: uma maneira, digamos, normal e outra, expressa. A segunda inclui mais conteúdos em menos tempo. Há quem diga que é menos democrático, mas creio que, pelo contrário, é mais democrático porque convém à criança, à família e ao Estado. E há menos evasão escolar, um problema muito mais grave.

EL PAÍSNão está aprendendo também por imitação? Ou seja, os alunos adiantados podem puxar aqueles que ficam para trás?

Enkvist: Funciona quando o grupo tem um bom nível e um bom professor. E se aqueles que têm de se integrar são poucos e querem fazê-lo. Se não, o que geralmente acontece é que aqueles que não querem trabalhar arrastam os outros.

EL PAÍS – O bilinguismo que combina inglês e espanhol prolifera nas escolas espanholas. Você matricularia seus filhos em uma dessas escolas?

Enkvist: Primeiramente, eu analisaria outras opções. Aprender inglês é bom, mas é preciso perguntar o que deixamos de aprender de outras matérias. Tenho dúvidas. Acredito que se pode aprender bem inglês com algumas horas de aula sem sacrificar outros conhecimentos, como por exemplo, as ciências. Na Suécia, as aulas de inglês só começam aos 9 ou 10 anos.

Livros publicados no Brasil:
Repensar a educação (2014)
Educação: Guia para perplexos (2019)

Educação: Guia completo (2019)
A boa e a má educação: exemplos internacionais (2020)
O Complexo Ofício do Professor: Conselhos para uma Educação de Qualidade (2021)

Fonte:
GALINDO, C. Entrevista com Inger Enkvist. El País Brasil, 25 jul. 2018. Disponível em: < https://brasil.elpais.com/brasil/2018/07/17/actualidad/1531826084_917865.html >. Acesso em 4 out. 2021.