Arte do Jacuhy para a série #HojeNaHistóriaDeCunha. Foto: Cemitério de Cunha, década de 1970. Fonte: Arquivo do Museu Francisco Veloso.
O Cemitério de Cunha foi inaugurado em 7 de abril de 1868, após mais de uma década de dedicação da Câmara Municipal. Angariar fundos naquele tempo não era fácil. A ação dos administradores locais em prol de um descanso seguro e asséptico aos mortos começou em meados do século XIX. O arcaico hábito de enterrar defuntos no interior de capelas e igrejas vinha sendo questionado pelas autoridades sanitárias do Império.
Entretanto, convém lembrar que essa honra de ser sepultado no interior dos templos sagrados era facultada às elites locais. Aos pobres e remediados, era oferecido o adro da Igreja Matriz. Sim, a praça já foi cemitério. Por isso, no início da década de 1990, quando a Praça da Matriz passou por uma de suas inúmeras reformas, foram encontradas ossadas e vestígios de antigas sepulturas.
Aliás, o jazigo refletia a condição social do falecido. Nem depois de morto se escapava da segregação de uma sociedade estamental. Aos escravizados era destinado o chão seco das fazendas e sítios em que trabalhavam. Os condenados à forca eram enterrados dentro de suas celas, na Cadeia Pública. Por isso, quando o antigo sobrado que sediava a Cadeia, Câmara e Prefeitura foi incendiado, em 1961, na base de suas ruínas foram encontrados muitos restos mortais. Os pobres da zona rural eram enterrados na beira das estradas ou ao lado das capelas locais, dando origem a muitas santa-cruzes, que podem ser encontradas até hoje pelas estradas de Cunha.
Um fato curioso e até anedótico aconteceu quando a Câmara de Cunha concluiu as obras do Cemitério. Tudo estava planejado para o começo de abril, dia 5, um domingo. Todavia, uma vez pronto, faltava a sua razão de existir: cadáveres. Não havia. Ninguém estava morrendo em Cunha naqueles idos. Os ricos, visando manter seu privilégio, queriam continuar sendo sepultados nas igrejas; os pobres e escravizados, por questão de custo e logística, continuavam a ser enterrados na roça. Cidade com pouca população, seria difícil encontrar algum finado ajustado ao calendário político. Foi aí que tiveram a ideia de emprestar um defunto de Paraty, cidade vizinha sempre afligida pelas moléstias tropicais. E de lá trouxeram o primeiro morto, inaugurando, assim, a necrópole municipal.
Cemitério de Cunha em cartão-postal da década de 1970. Fonte: Museu Francisco Veloso.
Uma década após a inauguração peculiar, o Cemitério Municipal finalmente pôde ser devidamente ocupado. Em 1878, a epidemia de varíola varreu o município de Cunha, ceifando muitas vidas. A famigerada e temida peste bubônica, desgraçadamente, povoou o campo-santo de sepulturas.
Em 23 de julho de 1971, o senhor José Oliveira Pinto resolveu se esconder na antiga capela do Cemitério, fugindo de uma forte chuva que atingia a cidade. Uma descarga elétrica atingiu a capela, ceifando sua vida e danificando a estrutura do secular velório.
Vista da Praça São Paulo, da Casa da Agricultura de Cunha e do Cemitério Municipal. Foto: Gislene Gomes. Data: 1978.
Em 20 de abril de 1973, a Prefeitura entregou um Cemitério Municipal remodelado e reformado à população, com um belo gramado à frente e uma estátua de Cristo, com o braço direito levantado, sinalizando sua bênção ao povo de Cunha.
Referência: “A história de Cunha: 1600-2010”, de João José de Oliveira Veloso.
Na foto: Os tropeiros Deti da Praia e Zé do Barreiro, no Bairro do Encontro – Cunha (SP) Foto: Instituto Chão Caipira, 2010.
Cunha adentrou o século XXI no lombo das tropas. Em sua primeira década, ainda era comum encontrar tropas e tropeiros pelas estradas de terra do município. Pelo preço, pela escassez ou pela limitação do transporte automotivo, incapaz de superar as perambeiras de Cunha. O futuro chegou nas cangalhas.
Hoje, tudo isso é raridade…
As tropas conduziram, por quase três séculos, a história de nossa terra. Dos facãozenses de outrora (os cunhenses de hoje), o historiador Carlos da Silveira chegou a dizer: “era uma gente tão dada à economia tropeira, que sobre eles podemos dizer que acompanhavam o tropel das bestas, seguindo o chacoalhar do cincerro”. Essa procissão estradeira de muares ainda transita no nosso subconsciente, mesmo desarraigados de nossas ancestralidades, dos seus ofícios e vivências.
A versatilidade desse meio de transporte era um diferencial. Os jacás alceados levavam de tudo: criança, cachorro, leite, milho, feijão, porco, toucinho, abóboras, mantimentos outros e artefatos dos mais diversos. Os tropeiros, mais que levar e trazer mercadorias, espalhavam notícias e recados, favoreciam os negócios, esparramavam novas ideias.
A saga tropeira foi a própria vida do mundo rural cunhense, o ânimo que permitiu ao caipira sobreviver e resistir, com seu rosário de tradições, à ideologia da modernidade e do progresso a todo custo.
Foi um tempo difícil, penoso, de pouca riqueza e muito trabalho; mas quem viveu, dele sente saudade. E muito daquilo que se forjou naqueles idos, carregamos conosco como herança cultural.
Foto: Fernando Cobbos. Local: Casa que pertenceu à Sá Mariinha, bairro das Três Pontes, município de Cunha (SP).
Não havia pedreiros. Todo mundo “dava uma mão”. A obra era erguida em mutirão. Juntava o bairro, avisava a vizinhança, o povo vinha e cada um fazia uma parte.
Em geral, esse evento construtivo antecedia os preparativos para o casório. Em pouco tempo, lá estava: toda branquinha, uma casinha coberta de telha ou sapé, aguardando para ser a sede de um novo lar. Casa de pau a pique, de taipa de mão, de taipa de sopapo, de taipa de sebe, barreada.
Nossos avós e pais, muito certamente, aprenderam a andar em seu chão batido e dormiram em seus quartos. Apertados, porque as famílias eram numerosas. Amontoados, porque faltavam esteiras e camas. O dinheiro era curto. A mobília, pouca e funcional. O chão da sala, espaço destinado às visitas, era coberto de tapete de tiras de trapos. Enfeite caipira, um terror para quem tinha alergia. Na cozinha, o fogão a lenha, soltando fumaça, escurecendo e preservando a madeira. Na chapa, bule com café quente. Café torrado em casa. Meu Deus, eu ainda sou capaz de sentir o cheiro que recendia pelo terreiro! As memórias olfativas são estranhas e íntimas demais. Evocam pessoas queridas que já se foram…
Em cada canto dos vales de Cunha havia dúzias delas. Como contas de um rosário, acompanhando as estreitas linhas do relevo mais plano, margeando os “corguinhos”. Tempo em que a maioria das pessoas morava na roça. Gente de fibra, forjada no sol da limpa de milho e feijão. Gente criadeira. Couve no canteiro, galinha no terreiro, porco no chiqueiro, vaca no mangueiro.
Seus materiais eram sustentáveis antes disso virar moda. Madeira, água, argila, taguatinga, cipó, bambu, sapé, terra e pedra. Textura irregular, revelando rusticidade, simplicidade. O bambu, como as veias, sobressaindo do barro. Taquara e madeira entrelaçadas com cipó. Barro batido e moldado a muitas mãos. União difícil de destruir. Janelas: disformes, assimétricas, contidas… para defesa? Verdadeira fortaleza.
Depois de feitas e arrumadinhas, eram relicários níveos em meio ao verde das hortas e milharais. Já foram parte da paisagem rural cunhense. Por isso, tantos bairros cunhenses chamados “Tapera”, “Taperinha”… Hoje, são raras.
Casinha de pau a pique. Quando todos se vão, quando tudo se acaba… vira tapera. Mas, barreada e caiada, habitada, cabia de tudo: uma família inteira e todas as coisas boas do mundo.
Após a derrota de S. Paulo, na Revolução de 1932, o isolamento político de Alfredo Casemiro da Rocha, perrepista histórico, foi completo. Era o ocaso do velho político, líder inconteste em nossa região e grande benfeitor de Cunha. Até toma ciência das agitações políticas de maio de 1933, na eleição para a Assembleia Nacional Constituinte no Brasil, porém, assiste de longe e acabrunhado. Seus amigos e correligionários estavam exilados e apeados do poder.
Convite para a Missa de Sétimo Dia do Dr. Casemiro da Rocha, publicado no jornal O ESTADO DE S. PAULO, em 06 jan. de 1934, p. 10.
Em 16 de dezembro de 1933, o interventor federal em S. Paulo Armando de Sales Oliveira o nomeia prefeito de Cunha. E este foi o seu último cargo público. Termina onde começou. Desde a vitória da Revolução de 1930, Cunha tivera três alcaides. Nenhum deles durou. Aceita a missão o velho comandante, como forma de gratidão ao povo de Cunha.
Igreja de Santo Antônio, na Praça do Patriarca, em São Paulo, onde foi celebrada a Missa de Sétimo Dia do Dr. Casemiro da Rocha. Foto: Museu Paulista. Data: circa. 1927.
Noite do dia 26 de dezembro. Ressaca de Natal. No Clube Recreativo Cunhense, Alfredo joga baralho com seus amigos. A certa altura, Alfredo tem um mal súbito e cai no chão junto com suas cartas. Ali mesmo o acode o dr. Carlos Borges Âncora da Luz, médico e amigo. Diagnóstico: broncopneumonia. É carregado até a sua casa. Os remédios ministrados não surtem efeito. Falece no dia 29 de dezembro de 1933, sendo o seu velório e cortejo um dos maiores que Cunha já presenciou. Por ironia do destino, faleceu da doença em que era mestre em tratar e que tanta gente ajudou a sarar.
Esse foi o obituário publicado no jornal “A Gazeta”:
“DR. ALFREDO CASIMIRO DA ROCHA Deu-se hontem, em Cunha, o fallecimento do dr. Alfredo Casimiro da Rocha, prefeito municipal daquella localidade. O velho e estimado político, que gozava de grande prestígio em Cunha e em todas as localidades do antigo 3º districto eleitoral, contava 76 annos de edade, tendo nascido em São Salvador da Bahia, a 4 de março de 1856. Aos seis annos de edade, iniciou seus estudos no antigo Collegio Abilio, ahi fazendo os preparatorios. Matriculou-se na Faculdade de Medicina de sua terra natal, em 1870, frequentando primeiramente o curso de pharmacia e depois o curso medico, e diplomando-se em 15 de dezembro de 1877. Um anno depois de formado, veiu para o Estado de São Paulo, fixando residencia na cidade de Cunha. Foi eleito presidente da Camara Municipal dessa cidade em 1883, pelo Partido Republicano, que alli organizou, começando, então, a sua carreira politica, que foi sempre agitada. Concorreu a diversas eleições como candidato do Partido Republicano, conseguindo representar o seu Partido, em varias occasiões, quer na Assembléa Provincial, que na Assembléa Geral. Voltou para a Camara Estadual na legislatura de 1907-1909. De 1913 a 1924 foi sempre reeleito pelo seu districto, onde era, tambem, acatado chefe politico. Foi eleito senador a 25 de abril de 1925, por 111.870 votos, na vaga aberta com a renuncia do dr. Oscar de Almeida, e reeleito por 71.462 votos, na renovação do terço do Senado, a 24 de fevereiro de 1928. Fez parte da Commissão de Instrucção Publica e Hygiene do Senado, onde exerceu o seu mandato até á victoria da revolução de outubro de 1930. *** O dr. Casimiro da Rocha deixa viuva d. Maria do Carmo Rodrigues Rocha e os seguintes filhos: dr. Alfredo Casemiro Rocha Filho, 2º escripturario da Secretaria de Educação; Augusto Casemiro da Rocha, estudante; Evangelina Adelia da Rocha, residente em Cunha, e os enteados sr. Carivaldo Pinto, agente do imposto de consumo em Poços de Caldas; Juarez Pinto, guarda-livros nesta Capital e d. Adalgiza Pinto, professora em Cunha.”
Fonte: “A Gazeta”, São Paulo, 30 dez. 1933. Foto: Alfredo Casemiro da Rocha com o seu filho Augusto, então com 17 anos. Foto tirada em 1933, em Cunha, no quintal da casa do dr. Casemiro, que ficava no Largo da Matriz. Sobre essa fotografia, legendou Oracy Nogueira, biógrafo do médico e político: “Note-se o semblante angustiado de Alfredo, que passava por uma das fases mais difíceis de sua vida”. Publicação original: https://www.facebook.com/Jacuhy/posts/pfbid0vx7Fi9Y35q72aic5J3WxqZspG5VMZdGgYcHyAKLXsK4SMjqNPAg1MfGh28uYDHVil
Arte do Jacuhy para a série #HojeNaHistóriaDeCunha, da nossa página no Facebook.
Em 12 de abril de 1878 chegava a Cunha, com o intuito de fixar residência, o médico baiano Dr. Alfredo Casemiro da Rocha, proveniente de São Paulo, em companhia do jornalista e bacharel cunhense Benedicto Velloso d’Oliveira e Silva. Acometido de afecção pulmonar, foi convencido por Benedicto Velloso a vir para Cunha, para que o clima salubre das montanhas exercesse sobre sua moléstia efeito terapêutico. Quando chegou, logo percebeu ser o único médico residente em Cunha, razão que o leva a abrir um consultório imediatamente na cidade. No último quartel do século XIX, Cunha já estava entrando em fase de decadência econômica, devido ao esgotamento da pujança cafeeira do Vale e à Estrada de Ferro Central do Brasil, que tornou impraticável o caminho Guaratinguetá-Paraty. Por isso, desde logo anunciou: “consulta grátis aos pobres”. Sua benevolência o tornaria notório e em pouco tempo ganhou a simpatia e amizade dos cunhenses. Um ano após a sua chegada, foi eleito vereador pelo Partido Liberal. Como médico, fazia mais caridade que para as contas. Na política defendeu a causa republicana, fundando o Clube Republicano de Cunha, e a causa abolicionista, atuando na libertação de muitos escravos da cidade. Em 1883, já filiado ao Partido Republicano Paulista (PRP), chegou à presidência da Câmara Municipal. Mesmo sofrendo preconceito por ser negro (no início), não se abateu e se impôs (pela sua formação e benevolência) ante a elite local, a qual ele passou a integrar e liderar. Em 1911 foi um dos precursores, junto com prefeito Coronel João Olympio, na criação do primeiro hospital de Cunha, a Santa Casa de Misericórdia Sagrado Coração de Jesus, que funcionou onde é hoje o restaurante Jeca Grill, na rua que se chamava Direita e hoje leva o seu nome. Republicano de primeira hora, com o advento do novo regime, logo estaria ocupando postos políticos e se tornando em um dos líderes do Partido Republicano Paulista (PRP), o principal partido da Primeira República. Em 1913 liderou a construção do Grupo Escolar. Em 1918 estava nos leitos improvisados de Cunha combatendo a gripe espanhola. Em 1933 foi nomeado prefeito de Cunha, uma cidade arrasada economicamente pela Revolução do ano anterior. Mas ocupou o cargo por poucos dias, falecendo em 29 de dezembro do mesmo ano, para tristeza de todos. Sua ascensão política e seu amor Cunha, terra que adotou como sua e ajudou como pôde, fez dele uma figura marcante na História de Cunha e querido por todos. Além de ser um ótimo político, sempre foi alguém preocupado com o bem comum e em ajudar a cidade que o acolheu.
Fontes: NOGUEIRA, Oracy. Negro político, político negro: a vida do doutor Alfredo Casemiro da Rocha, parlamentar da “República Velha”. São Paulo: Edusp, 1992. VELOSO, João J. de O. A História de Cunha – Freguesia do Facão – A rota de exploração das Minas e abastecimento das tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010, pp. 353-354.
Foto: Alfredo Casemiro da Rocha, aos 22 anos de idade, posando com sua tese de doutoramento, intitulada: “Do diagnóstico e tratamento do beribéri”, na Faculdade de Medicina da Bahia, em Salvador (BA), no começo do ano de 1.878. Foto extraída do livro do “Negro político, político negro”, de Oracy Nogueira, p. 43. Foto provavelmente cedida pela família ao autor.
Rua Dom Lino, ontem (década de 1940) e hoje (2020). Fotos: Museu Francisco Veloso e Jacuhy.
A Rua Dom Lino é uma das nossas ruas centrais. Foi assim nomeada em 22 de setembro de 1.877, pela Câmara de Cunha, por ocasião da visita do Rev.mo Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho (1826 – 1894), bispo da Diocese de S. Paulo, pois o religioso ficou hospedado na Casa Paroquial, na mesma rua. O pároco de Cunha na época era o Cônego Antônio Gomes Siqueira, que, posteriormente, também emprestaria seu nome para batizar uma de nossas praças. O cônego foi uma figura importante no âmbito local, tanto no campo religioso quanto no político. Membro destacado e líder do Partido Liberal, quando ainda reinava D. Pedro II.
Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho (1826 – 1894), bispo da Diocese de S. Paulo. Imagem: Página Brazil Imperial (Facebook).
A visita do bispo durou quase 3 semanas e nesse ínterim, que V.Rev.ª contou com afamada hospitalidade cunhense, teve tempo para visitar todas as igrejas da cidade, a Capela da Boa Vista (nosso marco fundador), a vizinha Lagoinha, o distrito de Campos de Cunha, as Águas de Santa Rosa e a Fazenda Pedra Branca.
O bispo diocesano deixou a cidade em 10 de outubro, sendo acompanhado por um préstito de dezenas cavaleiros até a primeira légua do caminho. Levou, além da boa impressão dos cunhenses, uma caridosa quantia angariada pela Câmara, destinada a amenizar o flagelo da seca que castigava o Ceará, sua terra natal.
Era a Câmara de Cunha composta pelos seguintes membros, em 1.877: – João Carlos Freire; – Francisco Mendes Mendonça (alferes); – Antônio Moreira da Silva Querido; – Manoel Albino dos Santos Queiroz; – Manoel Rodrigues da Silva; – Antônio José Vieira (professor); – Antônio Xavier Freire (presidente e juiz municipal).
Interessante é que o registro fotográfico mais antigo que se tem de Cunha foi feito na Dom Lino. Ele aparece no livro “A História de Cunha (1600-2010)”, do professor João Veloso, datado como de 1.868. Aliás, nesse ano, a Dom Lino ainda era chamada de Rua da Lapa. Na fotografia, de qualidade compatível com a época, aparece a torre da antiga Capela da Lapa, demolida em 1.907, e, ao fundo, o sobrado do Paço Municipal, incendiado e demolido em 1.961.
Rua da Lapa na fotografia mais antiga que se tem de Cunha. Data: 1.868. Fonte: Museu Francisco Veloso.
Pessoas, vestidas à moda do tempo, posam para a máquina de fotografia. Grande novidade era essa máquina que capturava momentos! Rua movimentada, Cunha vivia os seus últimos dias de glória. Dessa velha Cunha e desse áureo tempo quase nada restou além dessa fotografia.
Segundo pesquisa de Diogo F. Borsoi (“A paisagem das trocas: a Vila de Cunha e a formação de uma economia de abastecimento interno na transição do século XVIII para o XIX”, 2020), publicada pelo Museu Paulista, na Rua da Lapa “predominavam casas habitadas por proprietários que as utilizavam apenas quando iam à vila. Havia também oito imóveis destinados à renda de aluguel na vila (…)”. Era a rua onde ficavam as casas dos maiores fazendeiros de Cunha, que só apareciam na cidade por ocasião das festas religiosas, permanecendo esses imóveis fechados boa parte do ano.
Um desses fazendeiros da rua era o coronel Antônio José de Macedo Sampaio, vulgo “Coronel Macedo”. Ele e sua esposa, Maria Francisca de Novaes Fonseca, católicos devotos, eram os zeladores e mantenedores da Capela da Lapa. Sempre estavam à frente da Festa de Nossa Senhora da Lapa, comemorada em 15 de agosto. Tinham casa em frente à capela, na esquina da atual Travessa Paulo Virgínio, onde hoje é o restaurante “Il Pumo” e o “Armazém Arte & Sabores”. Consumiram parte de sua riqueza na conservação e ornamentação dessa capela, chegando a deixar espólios em dinheiro, em seus respectivos testamentos, para a conservação da capela; que, infelizmente, não foram suficientes para mantê-la de pé até nossos dias.
Rua Dom Lino, em 1.978. Foto: Eurindo Braga Perez. Fonte: Página Parada do Tempo (Facebook).
Sobre as ruínas da Capela da Lapa foi erguido o Mercado Municipal, em 1.913. O povo de Cunha, religioso, não viu com bons olhos essa profana troca. Por isso, por muitas décadas, o Mercado, tão lotado em outras cidades, em Cunha virou um espaço anecúmeno, perdendo até mesmo sua função.
Fontes: “A História de Cunha”, João Veloso; “O Cunhense” (jornal) – 1.878; Arquivos do Museu Francisco Veloso; “A paisagem das trocas”, Diogo Borsoi; “Negro Político, Político Negro”, Oracy Nogueira.
Arte da página do Jacuhy para a série “Hoje na História de Cunha”. Ilustração de: Felipe Zuñiga.
Há 70 anos, em 22 de agosto de 1.954, era inaugurado o atual prédio da Santa Casa de Misericórdia Nossa Senhora da Conceição de Cunha.
Por ser uma benfeitoria da Igreja Católica, no dia da festa de Pentecostes de 1.943, é criada a “Associação Beneficente Nossa Senhora da Conceição”, que ficaria encarregada de edificar uma “casa hospitalar que será intitulada Santa Casa de Misericórdia Nossa Senhora da Conceição”. Funcionou, provisoriamente, na rua Dom Lino, nº 13, até a construção da atual unidade hospitalar. Liderou os católicos locais nessa empreitada o enérgico padre Séptimo Ramos Arantes. A reunião que decidiu a construção do hospital ocorreu em 13 de junho de 1.943.
Vista do Alto do Cruzeiro, em 1966. Santa Casa se destacando na paisagem. Foto: Robert W. Shirley. Fonte: Museu Francisco Veloso.
Os preparativos para a construção se iniciaram em 1.947, com a aquisição do terreno no Alto do Cruzeiro, através de permuta.
Estiveram liderando a comissão de construção o padre Rodolfo Ignácio Schebesta, provedor da Santa Casa e pároco local, e o Sr. José Rodrigues de Andrade (Zequinha Almada), prefeito de Cunha e tesoureiro da administração da Santa Casa, que se destacou nessa empreitada pelo seu empenho em construir um hospital para nossa cidade. A cerimônia de benção do novo prédio foi concorrida, contando com a presença de autoridades, benfeitores e cunhenses de todos os bairros.
Vale lembrar que não foi o primeiro hospital de Cunha. Antes dela existiu a “Santa Casa de Misericórdia Sagrado Coração de Jesus”, inaugurada em 1.911, no tempo do Dr. Casemiro da Rocha, médico renomado e político influente. Esse primeiro hospital foi obra do ex-prefeito de Cunha Coronel João Olympio Rodrigues de Andrade, do Partido Republicano Paulista. A primeira Santa Casa ficava na Rua Direita (atual Rua Dr. Casemiro da Rocha), onde hoje é o Restaurante Jeca Grill. Sem recursos e estrutura adequada, não durou muito; mas serviu à população cunhense enquanto funcionou, principalmente durante a pandemia da chamada Gripe Espanhola, em 1.918, e até vítimas de acidentes aéreos. Pilotos da fase pioneira da avião nacional, que buscavam, arriscando-se, inaugurar a ponte aérea Rio – São Paulo.
Funcionários e funcionárias da Santa Casa de Cunha reunidos na porta de entrada. Data: década de 1980. Foto: Paulo Henrique de Campos Reis.
Nesses setenta anos, o prédio atual da Santa Casa, no bairro do Alto do Cruzeiro, foi ampliado e reformado várias vezes e continua a ser o único espaço hospitalar de Cunha, atendendo diariamente a população da roça e da cidade e até de outros lugares.
Por ser o único hospital público de Cunha, acaba, muitas vezes, recebendo uma demanda superior à sua estrutura. Referência regional no quesito higiene e limpeza, nossa Santa Casa precisa receber mais recursos das autoridades constituídas, para aprimorar e melhorar seu atendimento.
A Santa Casa de Cunha, em foto mais atual, cuidando da saúde dos cunhenses há 50 anos. Foto: Victor Amato dos Santos.
Fonte: João José de Oliveira Veloso, “A História de Cunha”, pp. 357-358. Ilustração: Atelier Adamas – Felipe Zuñiga.
Cartão-postal da Agência dos Correios de Cunha. Década de 1980. A Praça Cônego Siqueira em destaque.
Assim era a Praça Cônego Siqueira, no Centro de Cunha, em foto de cartão-postal dos Correios, na década de 1.980. Aquele charme típico de cidade interiorana, que só as do velho Vale Paraíba têm. Dois fuscas e um jipe azul parado no meio da rua, para uma prosa do condutor. Antigo e singular costume esse… À noite, aos sábados e domingos, era um movimento só: circular, até perder a conta, no adro da Matriz. Quem nunca deu “uma vorta na praça”, não é mesmo? Diversão dos cunhenses de então.
A vida, como percebe-se, seguia na santa paz. Saudade de tudo isso, do que era o nosso presente e hoje já virou história.
No início do século XXI, a praça foi toda remodelada. Era a urbanização turística sendo implementada; uma nova etapa da economia cunhense, alterando o espaço urbano da pequena Cunha. Hoje, é mais um centro de eventos, de estética duvidosa.
O turismo cobra um preço caro. Consome até a alma dos lugares.
O tempo das tropas. “Comboio de diamantes passando pelo Catete”. Gravura de Johann Moritz Rugendas. Data: 1.835. Fonte: Wikipédia.
“Boca do Sertão”. Mais do que um topônimo arcaico, designação primeira do que viria a ser a atual Cunha, é uma evidência de posição geográfica. Privilegiada, na época, pois sinaliza o vestíbulo para o Sertão. Ponto de afluência de gentes, em um mundo ainda inóspito. Pois o Sertão é mais do que uma situação geográfica ou região. É todo um imaginário, em que o lendário e o factual se entrelaçam, confundindo-se. Condição básica para organização de expedições das mais arriscadas. Aguça os desejos de riqueza fácil. Suscita a ganância, norteando ambições.
Minas descoberta. Os emboabas saem vitoriosos. Riqueza e opulência para Portugal. Cunha, agora Facão, se aproveita da drenagem do ouro colonial para a Metrópole. O fluxo constante de tropas por seus morros funcionaliza e viabiliza sua existência como parada obrigatória antes do porto de Paraty. Surgem capelas, pousos e povoados ao longo do caminho para Minas, chamado atualmente de “Caminho Velho da Estrada Real”.
Desenvolver sua colônia não era a prioridade da Coroa Portuguesa. O lucro e a riqueza, sim. Em 1.699, uma Carta-Régia chega ao Rio de Janeiro, destinada ao governador da capitania Artur de Sá Menezes. A missiva ordena: encurtar a distância entre a região mineradora e o porto de escoamento, evitando, assim, os desvios e descaminhos. Recebe a empreitada o bandeirante Garcia Rodrigues Paes, filho de Fernão Dias. Em 1.700 a rota está traçada; em 1.707, concluída. O novo trajeto economizava dois meses de viagem, desviando de Paraty, do Facão e do Vale do Paraíba paulista; jogando nossa região na fímbria do fluxo econômico. Era o “Caminho Novo de Garcia Rodrigues Paes”. Em 1.710, a Casa de Fundição, sediada em Paraty, é transferida de lá por ordem da Coroa. Em 1.725, inicia-se, com grande dificuldade, a abertura do chamada Caminho Novo da Piedade, conectando o Vale Paraíba paulista ao fluminense, evitando o transporte do ouro e outras mercadorias pela Baía da Ilha Grande, sempre assaltada por piratas, abrindo a opção de uma via terrestre para o Rio de Janeiro. É o golpe de misericórdia no “Caminho Velho”.
É o primeiro baque econômico de Cunha. Muitas vezes esquecido pelos historiadores, mas lembrado pelo genealogista Carlos da Silveira: “Entretanto em decadência, com a abertura do ‘Caminho Novo, da Freguesia da Piedade ao Rio de Janeiro’, Cunha tornou-se terra de emigração, visto como as velhas e tradicionais famílias, que ali se expandiram durante o século XVIII, começaram a não encontrar meios fáceis de subsistência, ou de prosperidade, no município recém criado (1785) […] Examinando-se a zona do ‘Caminho Novo’, fica o espírito logo preso à quantidade de habitantes, emigrados de Cunha, que procuraram maior conforto nas glebas marginais da via que as altas autoridades administrativas entenderam de abrir…”.
Na década de 1.830, a lavoura de café desbanca a indústria açucareira no Vale do Paraíba. Um novo surto econômico, que faria a glória do Império, mas edificado sobre os horrores da escravidão, se esparrama pela região. Cunha, por proximidade e ligação, dele se beneficiaria largamente. Não como terra produtora. Porque essa “Boca do Sertão” está demasiada elevada para a empresa do café. O relevo impõe um clima menos tropical que o requerido. Com a altitude vem o frio – sobretudo no inverno – e, com o frio, as geadas, a peste branca das lavouras. A mesma geografia que favorecera, agora impõe restrição.
Negros colhendo café em plantação no Sudeste do Brasil, no século XIX. Ilustração de: Getty Images.
Cunha se especializa na produção de cereais e de toucinho. Economia complementar – e fundamental – à grande lavoura cafeeira, que se limitava a uma monocultura voltada à exportação, quase que ignorando o plantio de gêneros alimentícios de primeira necessidade. Em 1836, a Vila de Cunha comercializava os seguintes produtos: toucinho (maior produtora provincial, com 8.905 arrobas), milho, feijão, azeite de amendoim, fumo, arroz, farinha de mandioca, gado cavalar e vacum e café (produção minúscula, com 50 arrobas). O toucinho era vendido, em parte, para a capital do Império, conforme aponta os registros da Barreira do Taboão, e o restante seguia para as cidades vizinhas. É um comércio vantajoso para Cunha, pois o toucinho, além de ser amplamente consumido e ter saída no mercado interno, é relativamente fácil de transportar e é uma forma de agregar valor ao milho e ao porco, através da ceva.
Época áurea, de fato, foi essa. As vilas da região se elevam à categoria de cidade. Um status urbano que Cunha alcança em 20 de abril de 1.858. Cunha não experimenta o mesmo fausto de suas vizinhas, detentoras de numerosas fazendas de café e produção. Mas usufrui dessa riqueza, cujo reflexo é percebido na sua vida urbana. Vem dessa época os sobrados que ainda restam na cidade. A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, monumento em que a elite local se projeta, é ampliada e ganha mais uma torre. Surge a imprensa, as primeiras escolas, uma sociedade literária e até grupo de teatro. Todavia, como disse Lobato, o progresso é nômade.
Fazenda Sant’Anna, próxima à divisa com Lagoinha (SP). Construída entre 1.840 e 1.861, na fase áurea de Cunha, era propriedade do Coronel José Domingues de Castro. Foto: Vito Marino. Data: 2015.
No último quartel do século XIX, a produção cafeeira da região entra em crise, um desfecho natural da sua frágil estrutura econômica, sacudida após a Abolição da Escravatura. Motta Sobrinho dá o diagnóstico: “Os vícios de estruturação não foram sanados, no decorrer do século, nem a técnica de tratar a terra, que acabou conhecendo a exaustão prematura. A erosão nos morros fazia baixar a produtividade dos cafezais”. A oeste de São Paulo, novas frentes agrícolas cafeeiras eram abertas. Mais modernas – na estrutura e organização – e férteis, foram deixando o Vale para trás.
A crise é regional. Atinge, de forma mais intensa, as regiões produtoras e, por tabela, as circunvizinhas. Ao estudar o tema, Pierre Monbeig lança o seu olhar de geógrafo sobre a questão: “Durante mais de um século, Cunha conservou sua função de pouso, que só terminou com a construção da ferrovia São Paulo – Rio de Janeiro e o desenvolvimento do porto de Santos, eclipsando os pequenos portos coloniais”. E sentencia: “Cunha foi uma vítima do café”. Mais até que as áreas produtoras, pois estas, em 1.877, foram recortadas pela ferrovia que unia São Paulo ao Rio de Janeiro e puderam, posteriormente, se reerguer. Cunha se marginalizou e se isolou, distanciada que foi da nova artéria econômica: a Estrada de Ferro Dom Pedro II. Com o advento do novo meio de transporte, o tempo das tropas inicia o seu ocaso. As estradas que Cunha possuía perdem sua função e manutenção, sendo relegadas. A Câmara de Cunha reage, enviando dezenas de ofícios à Assembleia Provincial clamando pela conservação das estradas. Clama no deserto, pois essas vias perderam sua importância econômica e a Assembleia está com seus ouvidos e interesses voltados para o oeste. Servidos de uma logística lenta e superada, os produtores cunhenses não conseguem mais escoar a produção na velocidade dos trens, que agora é o padrão, e perdem mercado. Cunha vira uma comunidade isolada, autossuficiente, com pouco contato com o exterior. Passa a sobreviver de uma agricultura de subsistência, rústica e familiar, permeada de relações de produção pré-capitalistas, semelhantes a que existiram na era feudal.
É o segundo baque econômico de Cunha. Decadência e isolamento. Este servirá para conservar modos de vida rurais e práticas culturais arcaicas, que tanto despertaram o interesse dos cientistas sociais, no século XX. Mais um caso de “preservação pela pobreza”. Um lugar que manteve suas práticas culturais não porque se orgulhava delas (pelo contrário), mas, sim, porque não pode se livrar, pois o progresso que queria não chegou a tempo e a contento.
A partir daí, Cunha viverá o sonho de voltar a ser o que era, buscando no passado a consolação para a sua penúria. O escritor Monteiro Lobato, observador mordaz e de pena afiada, tão bem captou, na época, o espírito dessas cidades mortas do Vale do Paraíba: “Ali tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito. Umas tantas cidades moribundas arrastam um viver decrepito, gasto em chorar na mesquinhez de hoje as saudosas grandezas de dantes”. Confiando a um meio de transporte a sua salvação, Cunha almejará, ainda no final do século XIX, a construção de um ramal ferroviário, interligando-a a Guaratinguetá e Paraty, na esperança de reativar o fluxo dos velhos tempos. Em prol da concretização desse projeto batalhou, nas tribunas e nos orçamentos, o Dr. Casemiro da Rocha, influente político regional. Sem sucesso. A ferrovia, como se sabe, nunca saiu do papel. Foi sempre e apenas um projeto. Mas isso é assunto para outra hora.
Referências: LOBATO, Monteiro. Cidades mortas. 23. ed. São Paulo: Brasiliense, 1982. MONBEIG, Pierre. Novos estudos de geografia humana brasileira. São Paulo: Difel, 1957. MÜLLER, Daniel P. Ensaio d’um quadro estatístico da província de São Paulo: ordenado pelas leis provinciais de 11 de abril de 1836 e 10 de março de 1837. 3. ed., fac-similada. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1978. NOGUEIRA, Oracy. Negro político, político negro: a vida do doutor Alfredo Casemiro da Rocha, parlamentar da “República Velha”. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1992. SANCHES, Fábio de O.; TOLEDO, Francisco S.; PRUDENTE, Henrique A. Estrada Real: o caminho do ouro. Lorena (SP): Editora Santuário, 2006. SILVEIRA, Carlos da. Subsídios genealógicos. São Paulo: Instituto Genealógico Brasileiro, 1942. SOBRINHO, Alves M. A civilização do café (1820-1920). 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1978. VELOSO, João J. de O. A História de Cunha (1600 – 2010): Freguesia do Facão: a rota da exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha, 2010.
Representação ilustrativa do Governador Lobo de Saldanha, gerada por IA.
O relato vem da época que Cunha era Facão. Século XVIII, portanto. Feito pelo Capitão General Martim Lopes Lobo de Saldanha, que foi o 10º Governador da Capitania de São Paulo, de 14 de maio de 1775 a 15 de março de 1782.
Partiu de Lisboa e chegou ao Rio de Janeiro, centro da administração colonial. Do Rio navegou até Paraty. Daí até aqui, o Facão. E daqui em direção à capital, São Paulo. Viagem difícil. Uma aventura, deveras.
Tanto que, para sorte nossa, resolveu anotar. A carta narrando a viagem foi destinada a D. Luís de Almeida Portugal Soares de Alarcão de Eça Melo e Silva Mascarenhas (1729–1790), 2º. Marquês do Lavradio, Vice-rei do Brasil entre 1769 e 1778.
De sua passagem pela Freguesia do Facão, entre 3 e 5 de junho de 1775, consta o seguinte:
“No dia 2 de Junho dormi ao pé da serra, em caza do Souza, e no dia 3 subi a serra, o mais do tempo a pé pelo impraticável caminho, e vim dormir á Apparição; no dia 4 fomos ouvir Missa ao Facão e dormir na caza de José Alz’. No dia 5 ouvi Missa na Parahytinga e dormir á Rocinha, ao pé do morro; nessa noute e na manhã do dia 6 que vim dormir a Guaratinguetá, me acompanhou uma trovoada grande, com m.ta chuva.”
Deste curto relato, podemos extrair as seguintes informações históricas:
O porto de Paraty era a principal rota de entrada para S. Paulo e para o Sertão, ainda no último quartel do século XVIII.
A péssima condição da Estrada Cunha-Paraty (Estrada Real – Caminho Velho), cuja intransitabilidade era notória e temida por todos os viajantes. Basta observar que a comitiva do futuro governador gastou um dia inteiro, de cedo até a noite, dos Penha até a Aparição, tendo que escalar a serra mais a pé do que montado.
O bairro da Aparição, também muito recorrente na memória dos viajantes, era um pouso de tropas, lugar de descanso para os caminhantes que superavam a Serra do Facão.
O Facão já era uma freguesia (da Vila de S. A. de Guaratinguetá). Orago à Nossa Senhora da Conceição, com vigário próprio e missas regulares. Numa dessas, que o futuro governador assistiu, foi celebrada pelo padre Floriano da Silva Toledo (segundo lista dos párocos de Cunha elaborada por Carlos da Silveira, em 1906). Floriano era filho de Luiz da Silva Porto, fundador da capela da Boa Vista.
José Alz’., citado na descrição, morador do Facão, com casa no largo da Matriz, era José Alves (ou Álvarez) de Oliveira, português de Aveiro. Veio a falecer em Cunha em 1792. Foi casado com Margarida da Silva do Amaral, natural de Paraty. Mudou-se para Cunha, com sua família, por volta de 1742. Foi um dos assinantes do termo de ereção da Vila de Cunha, em 1785. Seus descendentes estão, hoje, assinando Querido e Alves de Oliveira como sobrenome.
A ocorrência de missa na capela de Nossa Senhora Sant’Anna do Paraitinga (conhecida como “Capela da Santaninha” ou “Santana Velha”). Ficava no bairro do Campo Belo. Foi construída entre 1736 e 1740. Dos registros mais antigos sobre ela, consta um batizado realizado em 1752. Ligada intimamente ao tropeirismo e ao fluxo que dele vem, conhece também a decadência após a abertura da estrada de ferro que ligou São Paulo à Corte, em 1877. No século XX, fica em ruínas, sendo demolida no ano de 1947. A atual capela de Santana do Paraitinga foi inaugurada em 1964; já a Capela de Santaninha, no Campo Belo, foi reconstruída no ano 2000. O Paraitinga, como se nota, também foi pouso de tropeiro.
A existência da Rocinha, hoje área urbana isolada de Guaratinguetá, originada de um antigo rancho de tropeiros.
O governo de Lobo de Saldanha, cuja memória a historiografia paulista tratou de execrar, foi marcado pelas tensões geopolíticas no sul da colônia, os litígios e os conflitos com os espanhóis pela região do Rio da Prata. Por ser militar, administrou bem essa questão, arregimentando tropas, formando batalhões, guarnecendo as fronteiras, defendendo as terras do Império Lusitano. Entretanto, inapto politicamente, arrumou muitas encrencas com o clero e com Câmara de São Paulo. Muitas vezes agindo passionalmente, arregimentou ainda muitos inimigos entre a elite e os historiadores locais, razão pela qual sua memória póstuma foi anatematizada.
Antes de encerrar a missiva, depois de experenciar a travessia pelos caminhos da Capitania, Lobo de Saldanha promete:
“Estou da esperança de povoar o sertão desta Capitania e da de V. Exª., para que nos seja mais fácil a comunicação pelo Paraty de terra.”
Preocupado com questões geopolíticas e picuinhas políticas, ficou na promessa a melhoria das vias terrestres de comunicação da Capitania de S. Paulo. Relatos posteriores, tanto do século XVIII quanto do XIX, reforçam a saga que era transitar entre Cunha e Paraty.
Ou ainda é?
Referências: ARCHIVO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Publicação official de documentos interessantes para a história e costumes de S. Paulo: correspondencia de Martim Lopes Lobo de Saldanha (1775-1777). Vol. XLII. São Paulo: Escola Typographica Salesiana, 1903. BARBIO, Marcelo. Uma teia de famílias. Disponível em: <https://marcelobarbio.net.br/pafg538.htm#12544>. Acesso em 23 jul. 2024. BORSOI, Diogo Fonseca. A paisagem das trocas: a Vila de Cunha e a formação de uma economia de abastecimento interno na transição do século XVIII para o XIX. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, São Paulo, v. 28, p. 1–56, 2020. LEITE, Lorena. Déspota, tirano e arbitrário: o governo de Martim Lopes Lobo de Saldanha na capitania de São Paulo (1775-1782). 2013. Dissertação (Mestrado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. Disponível em: http://www.teses.usp.br/…/8/8137/tde-31102013-105747/. Acesso em: 23 jul. 2024. VELOSO, João J. de O. A História de Cunha (1600-2010): Freguesia do Facão – A rota da exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha / JAC gráfica e editora, 2010.
Imagem de satélite da tríplice fronteira: Cunha, Guaratinguetá, Lagoinha, no bairro do Rio do Peixe. Fonte: Google Earth.
O bairro
A palavra “bairro” vem sendo usada desde o século X. Sua origem etimológica é controversa, provavelmente ibérica. Dizem que vem do árabe “bárri” (isto é, “exterior”) e este do árabe clássico بري (barrī), que significa “selvagem”. Segundo o Houaiss, é a “porção de território povoado nas cercanias de uma cidade; povoado, arraial, distrito”. Para a geografia, trata-se de “organizações rurais dispersas, estruturadas por grupos de vizinhança, e marcadas por uma consciência coletiva de pertencimento, emanada na convivência diária do homem do campo com seus parentes, vizinhos e parceiros”.
Localização do bairro, a extremo noroeste do município de Cunha. Cartografia: Jacuhy.
O Rio do Peixe é um bairro rural, um entre tantos do Vale do Paraíba paulista – exceto por uma característica – estar localizado entre três municípios: Cunha, Guaratinguetá e Lagoinha. Os moradores, por uma questão de proximidade, se identificam como lagoinhenses. A parte cunhense está no extremo noroeste do nosso município, longe da sede, portanto.
Capela de Santa Luzia do Rio do Peixe, localizada no município de Cunha, é o centro religioso da comunidade rural. Foto: Google Street View.
Os moradores expressam sua devoção na capelinha de Santa Luzia, padroeira do bairro, que é atendida pelos padres de Lagoinha. O predomínio da pecuária leiteira hoje é incontestável. Pastos e mais pastos, com manchas de eucalipto. No começo do século XX, a produção do bairro era escoada por tropas, sendo levada até o Rancho da Pedreira, para ser comercializada em Guaratinguetá. A lavoura de milho e feijão, associada à suinocultura e outras feituras caipiras, eram o sustento das famílias, sítios e fazendas. A vida girava em torno de um calendário agrícola, a exemplo de outros bairros de Cunha e região. Mas as transformações vivenciadas ao longo do século XX impulsionaram a pecuária, sobretudo a leiteira. A chegada dos mineiros, o êxodo rural, o aposento das tropas, a inviabilidade econômica das lavouras em uma ecologia dominada por montanhas íngremes… O Rio do Peixe se adequou às imposições econômicas.
Em direção a Cunha, pela SP-153. Vista do Rio do Peixe. Foto: Google Street View.
Atualmente, o bairro é atravessado por uma estrada asfaltada, um luxo que chegou tarde (no final do século XX). A rodovia João Martins Corrêa (SP-153) liga a cidade de Lagoinha ao bairro da Rocinha, em Guaratinguetá, conectando-se à rodovia Paulo Virgínio (SP-171). Isso abriu um leque de oportunidades econômicas para o bairro, não só com a valorização dos imóveis rurais, mas também com o turismo rural. Casas de veraneio e acomodações alugáveis foram erguidas.
O rio
Trajeto do rio do Peixe, da nascente à foz. Fonte: Carta Topográfica do IBGE.
O rio do Peixe, curso d’água, é um dos muitos afluentes do rio Paraitinga. Nasce na serra da Embira, que é uma das variações toponímicas da serra do Quebra-Cangalha, no bairro do Córrego da Onça, município de Lagoinha. A nascente, assim como o bairro, também se situa em tríplice fronteira: Lagoinha, Guaratinguetá, Aparecida. A altitude supera até os 1.500m. Uma das nascentes, inclusive, é perto do topo do pico da Embira, que com seus 1.541m de altitude, é o ponto culminante da Quebra-Cangalha e do município de Lagoinha.
De lá, o rio do Peixe marcha para o oeste, encachoeirando-se serra abaixo, até alcançar o bairro da Santa Rita. Rumando na mesma direção, alcança o pequeno vale encaixado que batizou. Daí em diante, seu curso natural serve de limite entre Cunha e Guaratinguetá, desenhando nosso território até a altura do bairro Retiro das Palmeiras, de onde, convertendo-se para o sul, vai desaguar no Paraitinga, no bairro do Jaguarão.
O rio do Peixe, em trecho encachoeirado no município de Lagoinha. Foto: Danilo de Paula. Data: 2022.
Esses vales, como o rio do Peixe, embora modestos, são, no contexto do Domínio Morfoclimático dos Mares de Morros, vias naturais de comunicação e ocupação, favorecendo o assentamento humano. Foram, desde tempos imemoriais, preferidos por indígenas, bandeirantes, tropeiros e sesmeiros. Ao se constituir as fazendas, núcleos originários de muitos bairros rurais, procuravam sempre instalar-se nessas planuras exíguas, nessas baixadas que permitiam explorar a motricidade hídrica, tão útil outrora e ainda agora. Por isso, quase todo sítio de bairro rural cunhense localiza-se nessas acanhadas planícies fluviais.
As linhas
Desse modo, muitas vezes, os limites de determinado bairro se confundem com os limites fisiográficos da paisagem, porque o bairro “é um lugar, uma área qualquer, com características mais ou menos próprias”, podendo ser “um vale, uma cabeceira ou nascente de algum ribeirão, uma praia (…) É o povo que lhe dá o nome e determina, com limites mais ou menos imprecisos, a área abrangida pelo mesmo”. Mas, dificilmente, os bairros se confundem com os limites intermunicipais.
Vídeo com imagens aéreas do Rio do Peixe, nas proximidades da tríplice fronteira, feito pelo canal Guará Vídeo Drone, em 2023.
Os limites políticos e territoriais estabelecidos pelo Estado pouco importam. São formalidades cartoriais. O cotidiano é regido pelas relações humanas, pelo dinamismo econômico, pela solidariedade vicinal e por heranças culturais e históricas, que remontam às primeiras famílias que ali se estabeleceram. Estar em uma tríplice fronteira não se sobrepõe a fatos sociais de maior envergadura. Antes de serem desse ou daquele município, os moradores se identificam e se sentem pertencentes ao bairro do Rio do Peixe.
Antiga escola rural do bairro do Rio do Peixe, em ruínas, em meio à braquiária. Símbolo do êxodo rural. Foto: Google Street View.
O torrão precede o território, tal como o lar precede o Estado-Nação. Um bairro rural se sustenta por laços que linhas imaginárias jamais poderão confundir.
Referências: Bairro rural-bairro urbano: um revisão conceitual, artigo de Bruno Maia Halley, publicado na GEOUSP – Espaço e Tempo, em 2014. Cartas topográficas “Lagoinha” e “Guaratinguetá”, do IBGE, com primeira edição em 1973. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, publicado em 2001. Google Earth e Google Street View, de onde foram tiradas as imagens e usados como fontes de consulta. Negro Político, Político Negro – A Vida do Doutor Alfredo Casemiro da Rocha, de Oracy Nogueira, 1992.
O outono tinha acabado de começar. Um dos verões mais chuvosos da história foi aquele da temporada de 1966/1967, no Sudeste Brasileiro. A cidade de Caraguatatuba foi uma das atingidas por tanta precipitação, com deslizamentos que provocaram a morte de 450 pessoas, devastando a cidade do litoral norte paulista. Cunha, muito embora não tenha sofrido, também viveu uma temporada chuvosa. O Paraíba do Sul extravasava, inundando as cidades do seu Vale.
Tudo começou com um estrondo. Trovão? Impossível, o tempo estava bom naquele 22 de março de 1967. Em seguida, o tremor. Panelas areadas e penduradas tilintando. Quadros caindo. Paredes trincando. A água na bacia de banho começou a se mexer. Não durou mais que 3 segundos, mas o susto foi grande. Como disseram: “parecia uma vertigem, uma tontura”. Não, não era vertigem. Era a crosta terrestre se acomodando. Passava das 21h30 da noite de uma quarta-feira e as famílias de Cunha já se preparavam para ir deitar-se. Muitos foram dormir com medo e sem entender nada.
Exceto na cidade. Relata o jornalista da Folha de São Paulo: “Em Cunha repetiu-se a história [de outras cidades do Vale]: o estouro, que ninguém sabe explicar, o tremor e depois a cidade em pânico”. A Polícia Militar teve que intervir para garantir “a ordem” e botar o povo, com medo, para dentro de casa.
Intensidade
Manchete do jornal Folha de São Paulo noticiando o ocorrido, 23 mar. 1967. Fonte: Acervo Folha.
No dia seguinte, pela manhã, o rádio anunciou: “a terra tremeu no Vale do Paraíba”. O epicentro foi em Cunha. Os sismógrafos da USP mediram o sismo e foi aferida uma magnitude de 4,1 na escala Richter. Em aspectos gerais, um tremor ligeiro, de baixa intensidade; mas para os padrões brasileiros, cuja estrutura se assenta no interior da placa tectônica Sulamericana, é muito. Na Escala de Mercalli-Sieberg, o sismo de Cunha foi classificado na intensidade VII, ou seja, “Muito forte”, com os seguintes efeitos perceptíveis: “Caem muitas chaminés. Há estragos limitados em edifícios de boa construção, mas importantes e generalizados nas construções mais frágeis. Facilmente perceptível pelos condutores de veículos automóveis em trânsito. Desencadeia pânico geral nas populações”.
O sismógrafo do Observatório Nacional, localizado na cidade do Rio de Janeiro, registrou o tremor às 21h13, com uma duração de 80 segundos. A população carioca também sentiu o abalo.
O abalo foi sentido em outras cidades: Caraguatatuba, Ubatuba, Aparecida, Guaratinguetá, Lorena, Lagoinha, Paraibuna, São Luiz do Paraitinga, Paraty, São Sebastião, Ilhabela, Angra dos Reis, Barra Mansa e até na cidade do Rio de Janeiro (de forma menos intensa), como mencionado acima. A população das cidades atingidas pelo abalo ficou apavorada e saiu pelas ruas, principalmente em São Luiz do Paraitinga, Ubatuba e Caraguatatuba, a ponto da polícia precisar intervir para acalmar os ânimos. Coube ao professor de Geologia da USP Viktor Leinz explicar o fenômeno e afastar o temor e o possível nexo entre a chuvarada e o tremor. Explicou que esses fenômenos são raros no Brasil e, quando ocorrem, são de baixa intensidade, causando estragos pequenos. E que são frutos da ação de agentes internos, de forças que agem no interior da Terra, sem relação com a atmosfera e a precipitação elevada do verão de 1967. Em seu livro “Geologia Geral”, ele explica que o estrondo ouvido antes do terremoto se deve a uma refração da onda sísmica, que acontece em terra, no ar, propagando assim uma onda na atmosfera em um comprimento perceptível à audição humana.
Causa
Perfil Geológico da Rodovia Paulo Virgínio – SP -171, mostrando as zonas de cisalhamento entre Guaratinguetá e Cunha. Fonte: Dissertação “O complexo embu no leste do estado de São Paulo: contribuição ao conhecimento da litoestratigrafia e da evolução estrutural e metamórfica”, de Amélia João Fernandes, USP, 1991.
O geólogo e professor do Departamento de Geologia, Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE), da Unesp em Rio Claro, José Alexandre Perinotto, explica que os terremotos, também conhecidos como abalos sísmicos, podem ser ocasionados por atividade vulcânica, falhas geológicas ou pelo encontro de placas tectônicas. No caso do tremor de terra que teve seu epicentro em Cunha, a causa foi falha geológica (fratura na crosta terrestre). Onde há falha, é possível ocorrer novas quebras, dependendo de fatores como o peso, distensão e compressão exercido sobre ela.
O município de Cunha, segundo a geofísica Amélia João Fernandes, é atravessado por três zonas de cisalhamento de falhas geológicas: “Alto da Fartura”, “Santa Rita” e a megafalha “Cubatão”. Perinotto explica que “zonas de cisalhamento são regiões da crosta terrestre nas quais existem um acúmulo de falhas geológicas. São zonas que podem sofrer esse movimento de cisalhar, ou seja, um bloco se deslocar em relação ao outro. Então, essas zonas de cisalhamento têm tudo a ver com os terremotos. Isso porque é ao longo do deslocamento dos planos de falhas que há o dispêndio da energia e, consequentemente, causa-se a vibração, que é o abalo sísmico. Nós chamamos de zona de rifts cenozóicos do sudeste brasileiro. Essa zona é bastante propícia para causar esse abalo e vai continuar causando outros em diferentes magnitudes e intensidades.”
Parte do Mapa Geológico esquemático da Rodovia Paulo Virgínio – SP -171, com destaque (acrescentado) para as zonas de cisalhamento entre Guaratinguetá e e para a cidade de Cunha. Fonte: Dissertação “O complexo embu no leste do estado de São Paulo: contribuição ao conhecimento da litoestratigrafia e da evolução estrutural e metamórfica”, de Amélia João Fernandes, USP, 1991.
Consequências Além do pânico generalizado na cidade, o abalo sísmico causou muitos estragos, porém, nenhuma vítima fatal ou ferido.
Tanto na zona rural quanto na zona urbana rachaduras apareceram nas paredes das casas e quadros foram derrubados. A região mais atingida pelo terremoto foi o eixo Cunha-Guaratinguetá. No local denominado “Descanso do Machado”, uma árvore de 15 metros foi arrancada do solo. Uma fenda de cerca de 40 centímetros abriu-se no chão. Portão, cercas e varais foram arrancados.
Pela intensidade incomum, lembra Jesus Berrocal, geofísico do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo (USP), o sismo de Cunha serviu de referência para a construção da usina nuclear Angra I, em Angra dos Reis (RJ). Em operação desde 1982, a usina é resistente a um tremor da magnitude daquele que teve seu epicentro Cunha, em 1967, e desliga-se automaticamente, caso o sismo ultrapasse a margem de segurança do projeto (4,1 na escala Richter).
Conclusão “Não existem locais estáveis. Tudo está se movendo”, diz pesquisador Alloua Saadi, responsável pelo primeiro mapa neotectônico do Brasil, identificando as 48 falhas mestras (principais) que cortam o solo do país. Quem pensa que o Brasil está livre dos terremotos está enganado. Ainda mais o município de Cunha, que é cortado por 3 falhas geológicas. Entretanto, não há razão para alarme. Se acontecer de novo um abalo sísmico em Cunha, vamos levar mais susto do que prejuízo.
Referências: Geologia Geral, Viktor Leinz e Sérgio E. do Amaral (2003) O Complexo Embu no leste do estado de São Paulo, Dissertação de Mestrado (USP), Amélia J. O. Fernandes (1991) O Estado de S. Paulo (1967) Folha de São Paulo (1967) Correio da Manhã (1967) Serviço Geológico do Brasil – CPRM (2014) Jornal da UNESP (2023)
O professor Victor Amato dos Santos é figura conhecida e querida no cenário cultural cunhense. Uns o conhecem por ser o maestro da União Musical Cunhense, a banda de Cunha, que sempre se faz presente nas nossas festas cívicas e religiosas. Outros recordam dele na Banda Furiosa, com as marchinhas que alegravam os foliões nas tardes de Carnaval. E tem aqueles que acompanham as suas postagens no grupo “Memória Cunhense”, no Facebook. Ele está sempre publicando um texto ou nota sobre algum cunhense inolvidável, sobre alguma tradição da nossa gente ou algum dobrado ou samba de sua autoria. O Victor é professor de Língua Portuguesa na Escola Estadual Paulo Virgínio. Trabalha diariamente com a escrita. E foi assim, escrevendo, que ele nos presenteou com dois livros: “A História do Carnaval de Cunha”, em 2012, e a “A História da Música em Cunha”, em 2014. São obras que vêm do seu interesse por história e são frutos do seu amor por Cunha. Por isso, estamos no aguardo da terceira. Será que sai? Para responder essa e outras perguntas, pedi que nos concedesse uma entrevista. Ele é incentivador antigo do Jacuhy, quando ainda estávamos no ninho. E ele, prontamente e gentilmente, nos atendeu.
Jacuhy: Primeiramente, Victor, eu agradeço a sua boa vontade em conceder esta entrevista, tirando um tempinho das suas merecidas férias. É sempre uma honra contar com o seu apoio e parceria, pois você é uma referência para todos nós que amamos, lutamos e defendemos a História e as Tradições de Cunha. E é sobre isso que gostaria de começar a nossa conversa. Em 1971, o antropólogo estadunidense Robert W. Shirley lançou o livro “O fim de uma tradição” (depois, em 1977, traduzido para o português pelo professor João Veloso), fruto das pesquisas de campo realizadas por ele em Cunha, na década de 1960. A conclusão a que ele chegou foi de que o fim das tradições de Cunha era iminente, em virtude do êxodo rural, do avanço da industrialização e do fim do isolamento de Cunha, rompido pela popularização da mídia eletrônica, pelas ligações rodoviárias e pelos projetos estatais de integração. Você, como agente cultural e estudioso do assunto, olhando em 2023 para a conclusão do antropólogo Shirley, como a enxerga? Acertou? Equivocou-se? E ainda sobre o assunto, qual é a situação dos grupos tradicionais e folclóricos de Cunha atualmente?
Victor:Primeiramente, agradeço as suas considerações a meu respeito. Seu empenho no sentido de aprofundamento sobre as pesquisas já realizadas sobre Cunha é admirável!
Sobre a questão levantada, graças a Deus Shirley se equivocou em relação às previsões de desaparecimento da cultura cunhense, apresentadas em “O Fim de uma Tradição”.
Cunha, como poucos lugares, soube receber as novidades do mundo atual, mas sem deixar para trás as suas raízes mais profundas dos antigos costumes, muitos ainda dos tempos da formação da Povoação oficial e da Fundação da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Facão. Estão aí as festas de São José da Boa Vista, de São Benedito, do Divino e da Padroeira; o carnaval de rua; a tradicional Semana Santa; o boneco do Judas; as folias de Reis (da cidade e da zona rural) e do Divino Espírito Santo; as congadas (moçambiques); os violeiros; o jongo; a banda de música – que já tem quase dois séculos de existência –; os benzedores; os artesãos e ceramistas; dentre outras manifestações de cultura e de religiosidade popular de não menor importância que as citadas. Vivíssimas no presente, comprovam em plenitude o que afirmo aqui. Esses elementos são aquilo que verdadeiramente atrai o turista para o nosso Município, aliados à paisagem natural exuberante de que dispomos e da qual, responsavelmente, temos o prazer de desfrutar.
Aliás, como um dos que trabalham dentro desse círculo das tradições cunhenses, ainda não vi acontecer qualquer trabalho de resgate de manifestações culturais do nosso município, mas sim um grande empenho de todos os líderes e membros de cada respectivo agrupamento cultural em mantê-los em pleno vigor – só deve ser resgatado aquilo que foi perdido; e, graças a Deus novamente, não tivemos perdas nesse sentido por aqui!
A banda União Musical Cunhense no topo da Pedra Marcela, em 2013, na gravação da música “Aqui é o meu lugar”, tema da TV Vanguarda. Foto: Bethânia Fochi.
Jacuhy: Em novembro de 2021, você surpreendeu a todos anunciando o fim da participação da Banda Furiosa, que alegrava os foliões com suas marchinhas, no carnaval de Cunha. Sua decisão, segundo o que escreveu, foi motivada pelo cumprimento do papel educativo que Banda Furiosa buscava exercer nos 15 anos que participou do carnaval, formando, nas suas palavras, uma “geração que soubesse brincar o carnaval sem os excessos que o caracterizam (…) dar espaço para o encontro saudável entre gerações (crianças, pais, avós e bisavós), que só demonstraram Educação, alegria inocente, satisfação e afins para compartilhar.”. Acrescentou, ainda, que seus problemas de saúde dificultavam muito o seu serviço à frente da Banda. Esse foi um adeus definitivo ou temporário do carnaval? A Banda Furiosa vai continuar abrilhantando as festividades cívicas e religiosas do município? Quais são os desafios que a Banda Furiosa enfrenta para manter-se viva e atuante, como tem sido desde sua formação?
Victor:Há de se diferenciar, primeiro, a banda de música da cidade – que já é quase bicentenária – do conjunto Banda Furiosa, criado por mim em 2005 para realizar as matinês no carnaval cunhense.
Se o conjunto carnavalesco encerrou suas atividades por ter, como expliquei, atingido o propósito para o qual foi criado, a banda de música tradicional – hoje União Musical Cunhense — encontra-se em pleno funcionamento, e espero que assim continue por muitos e muitos anos.
Não posso deixar de mencionar que todos os que nos dedicamos aos trabalhos à frente de cada grupo da tradição e da cultura de Cunha nos vemos, frequentemente, diante e nas mãos de pessoas que têm tudo para nos dar o devido apoio; mas, em incontáveis vezes, elas se deixam levar pelo orgulho, pela vaidade, pela inveja e pela ganância, o que nos traz desmotivação pelos desgastes desnecessários pelos quais nos vemos obrigados a passar. Com a Banda Furiosa não foi diferente. Foi também por isso que decidi encerrar suas atividades no carnaval de Cunha.
Na União Musical Cunhense, que atualmente tem participado mais e de forma gratuita das festividades da Igreja Católica local, enquanto eu fizer parte da mesma e tiver condições para tanto, estarei a ensinar os princípios da Arte Musical para crianças e jovens, com a intenção de realizar a necessária reposição de elementos, para a preservação deste que é o grupo musical mais antigo de Cunha. Sou o nono maestro nesses quase duzentos anos de existência da nossa banda de música, e já formei inúmeros músicos, com a colaboração do meu amigo Tonico Capítulo, nesses meus já 35 anos de atuação como multi-instrumentista, professor de Música e maestro. Deus continue a me conceder a saúde e a orientação necessárias para continuar esses trabalhos.
Marchinha da Banda Furiosa, de autoria de Victor Amato dos Santos. Vídeo cedido pelo entrevistado.
Jacuhy: Depois de muitos anos trabalhando nas secretarias das escolas por onde passou, você retornou para sala de aula, atuando com professor de Língua Portuguesa. Essa volta quase que coincidiu com um momento importante para a rede estadual aqui em Cunha, que foi a adesão de todas as escolas ao programa de tempo integral. Como você vê esse programa? Quais são suas expectativas em relação a ele?
Victor:Sabe, nunca trabalhei especificamente em secretaria de escola nesse período em que tive de, contrariado, me afastar, por questões de saúde, das atividades em sala de aula: organizei ricos acervos de multimídia; pintei faixas divisórias de vagas em estacionamento interno de escola; tendo a devida formação para tanto, fiz diversos trabalhos de encanador e de eletricista; desentupi redes sanitárias; montei salas de leitura; ajudei em secretaria e em cozinha (manutenção de equipamentos e de instalações, com o devido conhecimento técnico); e, principalmente, atendi ao professor João Veloso em suas atividades histórico-culturais e às Redes Pública (Municipal e Estadual) e Particular de Educação em nosso Município. Isso sem deixar a nossa banda de música para trás, e também atendendo a muitos pedidos das Secretarias Municipais de Educação e de Turismo e Cultura.
Por isso é que tenho me sentido bastante cansado, física e mentalmente.
Quanto ao PEI (Programa de Ensino Integral), este continua a ser observado por mim. Não tenho ainda opinião formada sobre os resultados que ele poderá trazer à população cunhense. É preciso que eu trabalhe, como professor de Língua Portuguesa, mais este ano de 2023 nesse projeto do Estado de São Paulo, para que as devidas observações sejam feitas e, desse modo especificamente, eu possa continuar o meu aprimoramento como profissional da Educação.
Capas dos livros de história de Cunha lançados pelo professor Victor Amato dos Santos.
Jacuhy: Em 2017, você esteve coordenou o movimento que buscava retificar a data de aniversário de Cunha, estabelecendo o dia 19 de março de 1724 como data de fundação do município. Tanto o Legislativo quanto o Executivo Municipal acolheram a mudança proposta, visto que foi amplamente embasada em fontes históricas e corroborada pelo livro “A História de Cunha: 1600 – 2010” e pelo próprio autor, o professor João Veloso. Algumas pessoas na época não gostaram e protestaram pelas redes sociais, dizendo que era uma questão irrelevante. Por que você insistiu para que ocorresse essa retificação? O que Cunha ganhou com essa mudança?
Victor:Foi um esforço sobre-humano o que fiz para que fosse aprovada, pelo Legislativo e pelo Executivo Municipais, a necessária retificação da data histórica da Fundação de Cunha e as consequentes adaptações, com base na tese mais que coerente do Professor João Veloso, publicada em 2010 sob o título “A História de Cunha – 1600-2010 – A Rota de Exploração das Minas e Abastecimento das Tropas”.
A saúde frágil do nosso historiador João Veloso já dava sinais de que ele não estaria mais por muito tempo entre nós; daí ser necessária, para que ele fosse reconhecido oficialmente em vida pelo seu trabalho, uma ação urgente, que foi respaldada pelo então prefeito Rolien Garcia e pela maioria dos vereadores daquele período – como você sabe, houve quem votasse contra a retificação… –; além do auxílio de colaboradores da causa, como você mesmo, o Joás Ferreira de Oliveira, a maioria dos colegas de trabalho das escolas públicas e particulares do nosso Município e, principalmente, da maioria da população cunhense.
Isso agregou maior valor histórico, cultural, social e antropológico a Cunha, o que se reflete nitidamente nos aspectos que dão embasamento ao movimento em torno do turismo, ao qual Cunha tem se dedicado com afinco nessas últimas três décadas.
Enfim, tudo foi posto no devido lugar, para que, com o respaldo das pesquisas do Professor João Veloso, pudesse ser devidamente preservado.
Em família: Victor e os integrantes da Banda Furiosa, sempre alegrando as tardes do Carnaval de Cunha.
Jacuhy: Com a retificação e o estabelecimento do ano de 1724 como data de fundação, aproximou-se de todos nós a comemoração dos 300 anos de fundação de Cunha, afinal, 2024 é ano que vem. O que você espera, em termos de eventos, em relação a essa comemoração? Qual seria o maior presente para Cunha nesse tricentenário?
Victor:O movimento em torno das comemorações do Tricentenário de Fundação de Cunha já deveria estar acontecendo intensamente, com o envolvimento de todos os setores da sociedade local.
Para tanto, a Paróquia Nossa Senhora da Conceição, sob o comando do Padre Fábio Nogueira de Sá e com bastante auxílio de minha parte, já promoveu a restauração da imagem de Nossa Senhora da Conceição do Facão, e também das imagens da Sagrada Família da Boa Vista; isso sem contar as restaurações de templos históricos como a Capela da Boa Vista (o “Berço” de Cunha), a matriz e a igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito.
Ainda em forma de lei municipal, há uma “receita” para serem desenvolvidos todos os atos necessários a uma comemoração à altura da data tão importante a todos nós. Espero que a legislação municipal correspondente seja cumprida plenamente, para que tudo saia como tão importante momento exige.
A banda União Musical Cunhense presente na Procissão das Bandeiras, na Festa do Divino Espírito Santo de Cunha, em 2018. Foto: Chayeni Fiorelli.
Jacuhy: Em seu livro “A História da Música em Cunha”, escrito junto com o professor João Veloso, lançado em 2014, você demonstra que existe uma tradição musical muito antiga – e rica – em Cunha. No início do século XXI, você participou e ajudou a implementar um projeto de educação musical na Escola Estadual Paulo Virgínio, que foi um sucesso e rendeu frutos. Alguns integrantes da Banda, por exemplo, foram formados no projeto. Sabendo da importância da formação musical para crianças e jovens para dar continuidade a essa tradição cunhense, existe a viabilidade de um projeto similar aquele que foi implantado há 20 anos ser implantado em alguma escola de Cunha? Quais contribuições o ensino de música pode trazer para aprendizagem dos alunos?
Victor: Depois do período a que você se refere – ano 2001 –, já houve formação de outros vários integrantes, mas na garagem da minha casa – que por certo tempo, foi usada como sala de ensaios e de aulas de Música –; e, a partir de 2011, na atual sede da banda (atrás do cinema).
A formação de novos músicos é um processo contínuo, que tem de ocorrer pelo menos a cada quinquênio; ou então a banda entra em decadência por falta de componentes e se encaminha para a extinção. Nunca cobrei um centavo sequer de quem aprendeu Música comigo nessas últimas três décadas em que me dedico à manutenção plena da nossa banda de música. E já está chegando a hora de eu formar uma nova turma de músicos, com o auxílio, na parte prática, dos membros mais antigos da banda. Talvez essa parte teórica inicial seja ministrada ainda este ano por mim na disciplina Eletivas, do PEI, mas ainda não estou certo disso.
Dobrado João Veloso, de autoria de Victor Amato dos Santos, tocado pela banda União Musical Cunhense. Homenagem feita ao professor João Veloso em 2017.
Jacuhy: Foi uma grande perda para Cunha o falecimento do professor e historiador João José de Oliveira Veloso, ocorrido em 30 de novembro de 2020. Ele foi um mestre para todos nós. Você, como amigo e admirador do professor João Veloso, foi a pessoa que mais lutou para que ele tivesse o merecido reconhecimento em vida, fazendo tudo o que estava em seu alcance. Qual é o principal legado deixado pelo professor João Veloso? O que o Centro de Cultura e Tradição de Cunha, o Museu Municipal Francisco Veloso e o COMPHACC (Conselho Municipal do Patrimônio Histórico Artístico e Cultural de Cunha), entidades criadas por ele, podem fazer para tentar preencher a lacuna que a ausência do professor provocou, dando continuidade ao trabalho do João Veloso?
Victor:Acima dos resultados que o Professor João Veloso conseguiu atingir através das pesquisas que realizou durante aproximadamente 5 décadas, creio que o maior legado deixado por ele é o amor incondicional por Cunha.
Sua ausência física deixou incontestavelmente uma lacuna muito difícil de ser preenchida, uma vez que esse preenchimento exige não só habilidades intelectuais, mas também uma paixão sadia por esse nosso “Mar de Morros”, tal qual a que ele sempre soube cultivar e preservar intacta dentro de si.
Vê-lo reconhecido em vida e tão emocionado com tal atitude, esse foi um dos maiores presentes que os meus olhos já puderam contemplar. Sou muito feliz e grato a Deus por isso.
Quanto aos trabalhos do Museu Francisco Veloso e do Centro de Tradição e Cultura de Cunha, tive de me afastar temporariamente dos mesmos, por conta das minhas atividades profissionais, que se intensificaram com a chegada do PEI à EE Paulo Virgínio, onde trabalho. Mas creio que tudo esteja correndo bem por lá. Estão em boas mãos, principalmente nas das funcionárias, sempre tão dedicadas e muito bem formadas pela convivência de décadas com o Professor João Veloso.
João Veloso, Victor e integrantes da banda União Musical Cunhense no lançamento do livro “A História da Música em Cunha”. Data: 2014. Foto: Geraldo Magela Tannus.
Jacuhy: Victor, você já publicou dois livros sobre a História de Cunha (“A História do Carnaval de Cunha”, 2012; “A História da Música em Cunha”, 2014) e contribuiu com um de poemas (“Poetas de Cunha”, 2007, organizado pelo saudoso professor Ernesto Veloso dos Santos). Tem sido um colaborador assíduo do grupo “Memória Cunhense”, no Facebook, sempre trazendo biografias de cunhenses inesquecíveis. Nós, seus leitores e admiradores, podemos esperar mais um trabalho seu? Se sim, pretende escrever um trabalho de cunho memorialista/biográfico ou publicar os seus poemas?
Victor:Tenho mais materiais que, com o tempo, eu gostaria de transformar em livros para publicá-los. Mas meu tempo tem sido muito restrito a outras obrigações que me prendem de certa forma. E ainda existe a questão do alto valor monetário exigido para se fazer essas edições. Ou seja: é preciso tempo e dinheiro suficientes, para que sejam produzidos trabalhos de qualidade. Nesse sentido, nunca fiz nada que fosse descartável em minha vida. Tudo o que produzi é permanente, visando ao bem-estar de gerações e gerações. Então, se tudo der certo nesse sentido de novas publicações, é desse modo que deverá acontecer.
Jacuhy: Muito obrigado por sua entrevista e colaboração com a nossa página e blog.
Contrariando as projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) dos últimos anos, a população de Cunha voltou a crescer. Foram recenseados 22.110 habitantes em todo o município em 2022, durante a realização do Censo. Esse dado foi divulgado pelo IBGE no dia 28 de dezembro de 2022. Em Cunha já está 100% concluído, com os 74 setores censitários apurados. Portanto, o resultado apresentado já é definitivo.
Observando as projeções populacionais do IBGE de 2019, 2020 e 2021 para Cunha, nota-se que indicavam sucessivas quedas na população municipal. Como essas projeções se baseiam em tendências, é provável que consideraram a redução da população que ocorreu entre os censos de 2000 e 2010. Naquele Censo foram contados 23.062 habitantes; neste, 21.866 habitantes. Assim, ano após ano, o IBGE foi apontando um tênue recuo da população cunhense.
Todavia, em 2022 apurou-se o contrário: houve a interrupção dos sucessivos recuos, registrando um ínfimo crescimento (1,1%). Se isso será uma tendência para as próximas décadas, tendo em vista que a atividade turística vem se fortalecendo nos últimos anos, só o tempo dirá. A estabilidade ou crescimento de uma população depende, entre outros fatores, de uma resposta econômica. Não tem como a população de Cunha crescer sem a economia local oferecer, por exemplo, emprego aos jovens.
Após essa divulgação protocolar, veio a divulgação completa do Censo 2022. Houve um decréscimo da população em relação ao resultado preliminar, razão pela qual este artigo foi editado. Outros aspectos da realidade local vão sendo divulgados, mediante cronograma do IBGE. Aguardamos os dados referentes às taxas de população rural e urbana, à pirâmide e composição etária, à renda média, à escolarização, à religião etc. Com esses dados, é possível comparar com os recenseamentos anteriores e indicar mudanças e permanências no tecido social local.
Vista aérea da cidade de Cunha. Imagem: Guará Vídeo Drone (YouTube). Data: junho de 2022.
Resultados Preliminares A população da Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte (RMVPLN) chegou a 2,5 milhões de habitantes. Em relação ao Censo de 2010, a RMVPLN teve um acréscimo de 295.134 habitantes, o que corresponde a um aumento de 13% de sua população. A RMVPLN é composta por 39 municípios. Cunha foi o segundo município da região que menos cresceu, não acompanhando o patamar de crescimento regional. Ainda assim situação melhor do que nos 11 municípios da região (Cruzeiro, Campos do Jordão, Aparecida, Santa Branca, Piquete, São Luiz do Paraitinga, Bananal, Queluz, Redenção da Serra, Areias e Arapeí) que viram a sua população reduzir na última década.
O Jacuhy retornará à análise da população regional, quando o IBGE apresentar os resultados definitivos. Em alguns municípios da RMVPLN, o Censo 2022 ainda está inconcluso.
Rodovia Vice-prefeito Salvador Pacetti (SP-171), quando atravessa o bairro do Taboão. Foto: site Viagens e Caminhos. Data: 2010.
Antes mesmo de Cunha ser Cunha, os caminhos já faziam parte da história deste lugar. A antiga trilha dos Guaianases, o “caminho do Facão”, foi um dos primeiros pontos de entrada para o sertão. Um peabiru que foi amplamente utilizado pelos colonizadores. Aliás, é bem provável que o nosso antigo topônimo “Facan/Facão” seja em razão da condição desse antigo caminho, que vencia a Serra do Mar, mas era dos mais perigosos e precários.
Dizem os antigos cronistas e aventureiros que os Guaianases, primeiros a pisar neste chão, estavam sediados na Ilha Grande. Quando chegava o verão, migravam do litoral rumo ao sertão, embrenhando-se na mata, que, de tanto ser varada, acabou virando a trilha desse povo originário.
Em distância absoluta, a cidade mais próxima de Cunha é Lagoinha (vide Mapa Concêntrico de Cunha abaixo). Dista 23,6 Km. No passado, já chegou a ser distrito de Cunha. Mas somente agora estão a asfaltar a ligação entre elas, via bairro do Jaguarão. A segunda cidade mais próxima, Paraty (RJ), a 30 Km, só foi conectada decentemente a Cunha em 2016, depois de mais um século de reivindicação para o seu calçamento.
É muito pouco para uma cidade que surgiu, justamente, em função dos caminhos.
Está sob a ponte aérea Rio – São Paulo, principal fluxo aeroviário brasileiro. Movimento bem perceptível à noite, com pontos luminosos transitando no céu no sentido Leste-Oeste.
Está conectada por menos de 50 Km, via SP-171, à BR-116, principal rodovia do Brasil.
Mapa Concêntrico em Cunha (SP), apresentando algumas cidades selecionadas como referência. A equidistância entre os círculos em destaque é de 50 Km. O objetivo é mostrar a posição de Cunha entre os dois maiores conglomerados urbanos do Brasil. Além da distância entre as cidades, foram respeitadas as angulações azimutais.Data: 2022. Cartografia: Jacuhy.
Portanto, percebe-se que Cunha não está mal localizada – como sugerem certas pessoas ao tentar justificar o subdesenvolvimento municipal –, já que seu sítio urbano fica entre as duas maiores metrópoles do país; mas é mal servida pela rede rodoviária, modal de transporte predominante no Brasil. E o problema nem é a densidade dessa rede, porque só de estradas rurais o seu território é cortado por mais de 2 mil quilômetros, e, sim, a condição dessas vias. Trata-se de estradas vicinais de terra batida, com manutenção esporádica, inapropriadas ao tráfego nos dias chuvosos.
Até 2016, quando a Estrada Parque Comendador Antonio Conti (RJ-165) foi concluída, a única ligação asfaltada que o município possuía com outro lugar era com Guaratinguetá, pela Rodovia Paulo Virgínio (SP-171), inaugurada em 1967 até a cidade de Cunha. O trecho até a divisa com o estado do Rio de Janeiro foi concluído em 1984.
Sem estradas transitáveis, não há turismo nem escoamento da produção agrícola.
Cidade com clima de montanha, porém bem perto do litoral. Localização privilegiada, isso sim. Só que sem estradas, é mais uma das “cidades mortas” do velho Vale, a espera de uma via transitável que possa ressuscitá-la.