
A impressão de todos os pesquisadores e autores que escreveram sobre Cunha, até metade do século XX, era a mesma: uma cidade colonial, um rosário de casas brancas entre as montanhas.
A destruição do casario colonial foi obra recente. Operaram, em consórcio, duas frentes demolidoras: uma exógena, ideológica, gerada pelo capitalismo brasileiro, associando o passado ao atraso econômico, cujo mote foi “São Paulo não pode parar”; e a endógena, psicossocial, gerada pela mistura entre pobreza, analfabetismo e ignorância das elites locais. Essa combinação de forças do atraso pôs abaixo parte de nossa história.
O progresso, esperado, não veio. Entretanto, serviu para desfigurar uma paisagem cultural secular, transformando nosso centro urbano em uma cópia de todos os outros.
Nesta foto, pode-se perceber que, ainda em meados dos anos de 1960, Cunha conservava seu aspecto colonial. A margem sul da Rua Major Santana, por exemplo, era formada por quintais do casario central, com hortas e árvores e tudo o mais. Roças de milho, esse cereal civilizador, margeavam a cidade, mostrando que a vida urbana era mais telúrica que o “morar na roça” nos tempos atuais.
Foto de capa: Autoria: Robert W. Shirley. Data: 1965/1966. Local: centro de Cunha, em tomada da Praça do Rosário. Detalhes: Nota-se o predomínio de casarões em estilo colonial, de taipa ou pau-a-pique, com quintal nos fundos. As casas da praça Cônego Siqueira tinham quintal para a rua Major Santana. Observação: colorização feita por inteligência artificial.