O capitão-general Lobo de Saldanha e sua passagem pela Freguesia do Facão, em 1775

Representação ilustrativa do Governador Lobo de Saldanha, gerada por IA.

O relato vem da época que Cunha era Facão. Século XVIII, portanto. Feito pelo Capitão General Martim Lopes Lobo de Saldanha, que foi o 10º Governador da Capitania de São Paulo, de 14 de maio de 1775 a 15 de março de 1782.

Partiu de Lisboa e chegou ao Rio de Janeiro, centro da administração colonial. Do Rio navegou até Paraty. Daí até aqui, o Facão. E daqui em direção à capital, São Paulo. Viagem difícil. Uma aventura, deveras.

Tanto que, para sorte nossa, resolveu anotar. A carta narrando a viagem foi destinada a D. Luís de Almeida Portugal Soares de Alarcão de Eça Melo e Silva Mascarenhas (1729–1790), 2º. Marquês do Lavradio, Vice-rei do Brasil entre 1769 e 1778.

De sua passagem pela Freguesia do Facão, entre 3 e 5 de junho de 1775, consta o seguinte:

“No dia 2 de Junho dormi ao pé da serra, em caza do Souza, e no dia 3 subi a serra, o mais do tempo a pé pelo impraticável caminho, e vim dormir á Apparição; no dia 4 fomos ouvir Missa ao Facão e dormir na caza de José Alz’. No dia 5 ouvi Missa na Parahytinga e dormir á Rocinha, ao pé do morro; nessa noute e na manhã do dia 6 que vim dormir a Guaratinguetá, me acompanhou uma trovoada grande, com m.ta chuva.”

Deste curto relato, podemos extrair as seguintes informações históricas:

  • O porto de Paraty era a principal rota de entrada para S. Paulo e para o Sertão, ainda no último quartel do século XVIII.
  • A péssima condição da Estrada Cunha-Paraty (Estrada Real – Caminho Velho), cuja intransitabilidade era notória e temida por todos os viajantes. Basta observar que a comitiva do futuro governador gastou um dia inteiro, de cedo até a noite, dos Penha até a Aparição, tendo que escalar a serra mais a pé do que montado.
  • O bairro da Aparição, também muito recorrente na memória dos viajantes, era um pouso de tropas, lugar de descanso para os caminhantes que superavam a Serra do Facão.
  • O Facão já era uma freguesia (da Vila de S. A. de Guaratinguetá). Orago à Nossa Senhora da Conceição, com vigário próprio e missas regulares. Numa dessas, que o futuro governador assistiu, foi celebrada pelo padre Floriano da Silva Toledo (segundo lista dos párocos de Cunha elaborada por Carlos da Silveira, em 1906). Floriano era filho de Luiz da Silva Porto, fundador da capela da Boa Vista.
  • José Alz’., citado na descrição, morador do Facão, com casa no largo da Matriz, era José Alves (ou Álvarez) de Oliveira, português de Aveiro. Veio a falecer em Cunha em 1792. Foi casado com Margarida da Silva do Amaral, natural de Paraty. Mudou-se para Cunha, com sua família, por volta de 1742. Foi um dos assinantes do termo de ereção da Vila de Cunha, em 1785. Seus descendentes estão, hoje, assinando Querido e Alves de Oliveira como sobrenome.
  • A ocorrência de missa na capela de Nossa Senhora Sant’Anna do Paraitinga (conhecida como “Capela da Santaninha” ou “Santana Velha”). Ficava no bairro do Campo Belo. Foi construída entre 1736 e 1740. Dos registros mais antigos sobre ela, consta um batizado realizado em 1752. Ligada intimamente ao tropeirismo e ao fluxo que dele vem, conhece também a decadência após a abertura da estrada de ferro que ligou São Paulo à Corte, em 1877. No século XX, fica em ruínas, sendo demolida no ano de 1947. A atual capela de Santana do Paraitinga foi inaugurada em 1964; já a Capela de Santaninha, no Campo Belo, foi reconstruída no ano 2000. O Paraitinga, como se nota, também foi pouso de tropeiro.
  • A existência da Rocinha, hoje área urbana isolada de Guaratinguetá, originada de um antigo rancho de tropeiros.

O governo de Lobo de Saldanha, cuja memória a historiografia paulista tratou de execrar, foi marcado pelas tensões geopolíticas no sul da colônia, os litígios e os conflitos com os espanhóis pela região do Rio da Prata. Por ser militar, administrou bem essa questão, arregimentando tropas, formando batalhões, guarnecendo as fronteiras, defendendo as terras do Império Lusitano. Entretanto, inapto politicamente, arrumou muitas encrencas com o clero e com Câmara de São Paulo. Muitas vezes agindo passionalmente, arregimentou ainda muitos inimigos entre a elite e os historiadores locais, razão pela qual sua memória póstuma foi anatematizada.

Antes de encerrar a missiva, depois de experenciar a travessia pelos caminhos da Capitania, Lobo de Saldanha promete:

“Estou da esperança de povoar o sertão desta Capitania e da de V. Exª., para que nos seja mais fácil a comunicação pelo Paraty de terra.”

Preocupado com questões geopolíticas e picuinhas políticas, ficou na promessa a melhoria das vias terrestres de comunicação da Capitania de S. Paulo. Relatos posteriores, tanto do século XVIII quanto do XIX, reforçam a saga que era transitar entre Cunha e Paraty.

Ou ainda é?

Referências:
ARCHIVO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Publicação official de documentos interessantes para a história e costumes de S. Paulo: correspondencia de Martim Lopes Lobo de Saldanha (1775-1777). Vol. XLII. São Paulo: Escola Typographica Salesiana, 1903.
BARBIO, Marcelo. Uma teia de famílias. Disponível em: <https://marcelobarbio.net.br/pafg538.htm#12544>. Acesso em 23 jul. 2024.
BORSOI, Diogo Fonseca. A paisagem das trocas: a Vila de Cunha e a formação de uma economia de abastecimento interno na transição do século XVIII para o XIX. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, São Paulo, v. 28, p. 1–56, 2020.
LEITE, Lorena. Déspota, tirano e arbitrário: o governo de Martim Lopes Lobo de Saldanha na capitania de São Paulo (1775-1782). 2013. Dissertação (Mestrado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. Disponível em: http://www.teses.usp.br/…/8/8137/tde-31102013-105747/. Acesso em: 23 jul. 2024.
VELOSO, João J. de O. A História de Cunha (1600-2010): Freguesia do Facão – A rota da exploração das minas e abastecimento de tropas. Cunha (SP): Centro de Cultura e Tradição de Cunha / JAC gráfica e editora, 2010.